Vídeo para matar saudades das trilhas do Cruce

Mesmo com parcos anos correndo em trilhas, posso dizer que poucos são os percursos tao deliciosos quanto os do Cruce. Claro: todo ano os percursos mudam – mas a região é sempre a mesma. 

E isso inclui trilhas lisas e absolutamente corríveis, montanhas belíssimas emoldurando lagos sensacionais ao fundo em três dias de pura endorfina. Quem não foi ainda, recomendo seriamente. 

Para quem foi, eis um vídeo que achei agora na Web com um programa gravado na edição deste ano para a TV espanhola:

E assim se foi o primeiro dia antes dos primeiros dias

E assim se foi o primeiro dia antes dos primeiros dias: da mesma forma que começou, em compasso de espera. 

Cheguei em San Martin de Los Andes por volta das 13:30 absolutamente sonado. Era segunda, feriado de Carnaval, e teria ainda dois dias inteiros para descansar – desconsiderando apenas umas pequenas pausas para o onipresente trabalho, claro. 

A primeira coisa que fiz – depois de um bem vindo banho, claro – foi rodar pelo povoado. Em um par de minutos, acrescento: San Martin cabe na palma de uma mão, não tendo mais que meia dúzia de quarteirões. Ainda assim, respira ares mais forasteiros do que interioranos: embora poucas, suas avenidas são tomadas por lojas de esporte de aventura; pequenas agências pontilham a paisagem; corredores e ciclistas dividem espaço com crianças brincando soltas; e um clima de adrenalina extrema parece ter subjugado um local que certamente nascera com propósitos muito mais bucólicos. 

A vista também era única: dos dois lados, paredões de montanha afunilavam a vila para o Lago Lácar, formando uam espécie de praia tornada ainda mais gelada por ventos cortantes que espalhavam poeira e pinçavam os nervos. O céu, inquieto, já dedurava a geografia ao se pintar com as cores exatas da bandeira da Argentina. 

E, como não poderia deixar de ser, o cheiro de parrilla acentua a fome de qualquer um que pensar em atravessar a frente dos restaurantes. 

Tudo em San Martin era convidativo, do clima às paisagens e aos sons. Mas o cansaço, ao menos neste primeiro dia, estava extremo demais para eu aproveitá-la. Feito o reconhecimento, almocei logo antes da hora do jantar, invadi uma ou outra loja, tentei – sem sucesso – agendar alguma aventura turística de última hora para o dia seguinte, e voltei para o hotel. 

Nada mais poderia me fazer sair da cama, nem mesmo a claridade insistente do outro lado da janela.

Hoje havia terminado. 

E amanhã, ainda bem, será dia de fazer o reconhecimento como ele realmente deve ser feito: a passos rápidos, trotando povoado afora. Ainda não tenho ideia de que lado irei ou de quanto cobrirei – embora obviamente deva pegar leve por conta do Cruce. Mas uma coisa é certa: a Patagonia e os Andes parecem estar tão ansiosos quanto eu para se metamorfosear de paisagem em aventura.

  
 
 

Planejamento de ultras

Depois de algumas semanas me organizando, caçando calendários e fazendo todo tipo de conta, é hora de efetivamente estabelecer as minhas próximas metas. E já digo uma coisa: estou absolutamente empolgado com elas!

Daqui até fevereiro tenho pelo menos três provas nas quais já me inscrevi e que, claro, pretendo dominar para riscar itens da minha lista de desejos.

A primeira será logo agora, no final do mês: 50K em Atibaia, parte do circuito da Copa Paulista de Corridas de Montanha. A prova em si não deve ser nada de apavorante, mas quero tirar da mente aquela impressão negativa de passar por percursos “excessivamente selvagens”. Não sei se é ou não o caso de Atibaia – o site não dá nem sequer uma pista sobre nada – mas será excelente para returbinar o corpo.

A segunda já será mais “tensa”: meus primeiros 100K, com direito às trilhas técnicas da Indomit Costa Esmeralda e a uma largada à meia noite. Uma prova de fogo: passando bem por ela, encaro qualquer coisa! E, para falar a verdade, essa é a prova que mais está me deixando de cabelo em pé, meio inseguro. Mas, enfim, só sabemos mesmo quais são os nossos limites depois de nos testarmos.

Finalmente, a terceira e última também está nos meus sonhos faz tempo: o El Cruce, lá nos Andes, paisagem exuberante que tive o prazer de percorrer por conta própria no final do ano passado. E, nesse caso, será a minha primeira corrida em estágios.

Agora é treinar.

Empolgado.

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Correndo na patagônia

Embora geograficamente correto, não sei se, na prática, Villa La Angostura (logo ao lado de Bariloche) pode mesmo ser considerado Patagônia. Ao menos não a Patagônia que costuma perambular pelo nosso imaginário, repleta de fiordes e icebergs.

Ainda assim, corri lá no final do ano passado e devo dizer que foi o local mais incrível, com algumas das trilhas mais embasbacantes, que meus olhos e pés já passaram.

Vi esse vídeo da K42 recentemente no Youtube e deu muita vontade de fazê-lo. Poderia ser maior, claro: uma maratona é curta demais para tanta beleza. Mas que deve valer cada segundo, isso deve.

Despedida dos Andes

Os índios Mapuche acreditam que toda relação com a natureza é pautada pela reciprocidade. Quer algo dos Deuses, das montanhas ou das águas? Dê algo em troca, demonstrando respeito e gratidão.

Quando cheguei aqui na Patagônia estava um caco: exausto por um ano dificílimo e repleto de altos e baixos, sem paciência para nada e em níveis de estresse que não lembro ter estado antes. Buscava apenas uma coisa: virar a página, encerrando o ano e começando um novo capítulo de forma inteira, bem mais energizado.

A corrida em trilhas, claro, teve papel fundamental. Na somatória, passei horas e mais horas sozinho, totalizando mais de 100km por montanhas, lagos e florestas.

Fugi de cachorros revoltados já no primeiro dia; subi a mais famosa montanha da região para dar de cara com um portão fechado na primeira base – muito embora tivesse sido recompensado com vistas magníficas no caminho; fiz a rota dos sete lagos, subi o Ístmo de Quetrihue até os mirantes do bosque dos Arrayanes, onde cruzei suas trilhas; atravessei o território Mapuche para subir até o mirante no Cerro Belvedere, de onde atravessei para a montanha vizinha, Inacayal, para testemunhar o espetáculo de uma cachoeira nascendo de suas pedras e dando vida a todo esse ecossistema de lagos.

Em todo esse tempo, a paz interior que tanto buscava aqui nos Andes esteve sempre ao alcance das mãos – mas nunca efetivamente agarrada por elas.

Minha última corrida seria a minha última chance.

Escolhi uma das poucas trilhas que ainda não tinha feito, seguindo em boa parte pela estrada e desembocando na Playa del Espejo – uma espécie de praia na beira de um lago isolado e de incrível beleza.

A manhã clara, de céu azul forte e ar ameno, ajudou. Passo a passo, fui correndo a maior parte do percurso, imerso no silêncio das montanhas e respirando o seu ar por subidas e descidas.

O caminho todo foi como uma espécie de revisita a toda a viagem, ao ano que se foi e ao que virá.

Foi catártico, para dizer o mínimo.

E de repente, como que a passe de mágica, na medida em que a Playa se aproximava, as preocupações e o estresse foram dando margem a uma espécie de energia que estava fazendo falta. Muita falta.

Ao chegar lá, desci até o lago. Lindo, incrível. Uma fina camada de neblina parecia acariciar suas águas calmas que, por sua vez, refletiam os Andes como uma espécie de mensagem. Alta, diga-se de passagem.

Tudo aquilo parecia tão eterno, tão constante e inabalável, que qualquer preocupação a mais parecia futilidade. Era exatamente o que eu precisava entender.

Respirei.

Voltei.

No caminho parei no Lago Correntoso para me despedir. Havia enfrentado suas águas geladas no dia anterior, mergulhando fundo e nadando algumas centenas de metros para ajudar no processo de “limpeza de alma”, por assim dizer. Funcionou.

Complementado com os 21K que havia acabado de fazer, precisava mostrar o meu agradecimento ao estilo Mapuche.

Desci até as suas margens, onde 3 ou 4 pescadores miravam peixes invisíveis em silêncio, sentei em um tronco e simplesmente agradeci com todo o meu espírito.

Abri minha mochila de hidratação e, na terra, despejei toda a água que ainda restava. Não era tanto – mas era tudo o que tinha naquele momento.

Fiquei mais alguns minutos por lá olhando o lago e enchendo o pulmão com o ar andino. Estava, pela primeira vez em muito tempo, inteiramente em paz.

E, com esse último pensamento em mente, coloquei a mochila nas costas, me voltei para a trilha e, lenta mas decididamente, comecei a correr. Até 2015.

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Pela rota dos 7 Lagos

Ontem era para ser um dia light – ao menos em tese.

Mas o problema de estar em um paraíso como os Lagos Andinos é que a tentação de ignorar dores musculares e lógica e simplesmente continuar correndo é maior do que qualquer coisa.

E, assim, já nos primeiros passos da Ruta 40, em um trecho da Rota dos 7 Lagos, me esqueci completamente do tempo e dos planos. De um lado, paredões rochosos revezavam com florestas de pinheiros; de outro, lagos espelhados se estendiam para além da vista.

Uma pequena batalha acontecia no céu, com o sol querendo sair e sendo impedido por nuvens que enviavam uma garoa fina, fria e cortante. Estava frio, aliás – mas nada que atrapalhasse a paisagem.

Onde dava, eu ignorava a estrada e seguia pelas trilhas paralelas; em outros, eu apenas me focava nas laterais. Me estendi 7km além do planejado, fazendo ainda uma entrada pela margem que ainda não conhecia do Rio Correntoso. Excelente ideia: uma água cristalina abria caminho para uma paisagem tão dramática que cheguei a imaginar que estivesse sonhando ou preso dentro de uma tela impressionista.

Não estava – e a realidade fazia tudo ficar ainda mais incrível.

Depois de pouco mais de 2 horas, acabei tomando coragem e voltando ao hotel. O dia já reinava pleno, e todo um roteiro turístico me aguardava.

Tudo bem: rodar pela região dos 7 lagos apenas fez crescer a ansiedade pela corrida do dia seguinte, em novos e inexplorados terrenos.

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Checkpoint semanal: Nos Andes!

OK, a semana se encerrou ontem, quando deveria ter marcado o checkpoint. Mas quem pode me culpar? Afinal, estou em uma espécie de Meca para quem curte correr nas montanhas, em plena região andina, cercado por montanhas imponentes, lagos cristalinos e trilhas exuberantes!

Planilha? Essa semana ela foi tão ignorada que nem sei o que estava programado. Minha rotina desde o sábado tem sido acordar às 5, antes do sol nascer, me arrumar com mochila de hidratação, headlamp e poles e sair descobrindo trilhas. Não dá para dizer que estou ganhando velocidade: no domingo, por exemplo, meu pace médio foi de (ridículos) 7’50″/km! Mas, claro, isso incluiu subir por 6km e parar em diversos locais para tirar fotos. Convenhamos: por mais que ganhar velocidade seja importante para qualquer corredor, não sou nenhuma elite e corro para aproveitar o tempo, as paisagens e a solidão como um todo. Quer maneira melhor do que bebendo cada centímetro dessas paisagens?

Dificilmente.

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Subindo até o Cerro Bayo

Segundo dia, segunda rota.

Desta vez preferi uma trilha marcada e “oficial”, subindo o Cerro Bayo (montanha mais conhecida de Angostura).

Pelo que o sujeito do hotel comentou seriam 6km até a montanha, 3 até a primeira base e mais 2 ou 3 até o cume.

Bom… se tem uma coisa que aprendi é que locais, independentemente do local, sempre erram feio nas indicações de distância – geralmente por um excesso de otimismo. Aqui não foi diferente.

De fato, foram 6km até a montanha em si – mas a sua base ficava mais 6km para frente. Tudo bem: a trilha em si era de estrada de terra, bem ampla e totalmente deserta nas primeiras horas da manhã.

Foram 6km de subida ininterrupta passando por alguns mirantes incríveis, desacortinando uma vista cinematográfica para o lago com dezenas de montanhas gigantes ao fundo.

A cada metro subido, uma nova vista se somava à queda de temperatura.

Em um dado momento, percebi uma saída para uma trilha menor, marcada por fitas vermelhas com as que encontramos em provas. Decidi entrar e rodei quase 1km cortando uma mata densa, feita de pinheiros gigantes e tão colados uns nos outros que mal dava para perceber que havia um paredão vertical na encosta.

Como a trilha começou a descer de volta, desisti e voltei para a estrada de terra. Pelo menos valeu a sensação de perambular solto por uma floresta andina.

Foram mais alguns km pela trilha principal até chegar na primeira base. Problema: ela estava fechada, assim como o acesso em si para o Cerro Bayo!

Nada de cume hoje. Mas quer saber?

Considerando que o percurso foi maior que o originalmente planejado, que a vista foi inesquecível e que a minha janela de tempo nas trilhas estava se esgotando, valeu muito a pena.

Tirei uma foto do Cerro Bayo, dei meia volta e tomei o rumo do hotel, fechando 26km de uma corrida muito, muito bem aproveitada.

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Patagônia, montanha e cachorros

A ideia parecia perfeita: pegar a rota do K15 Villa La Angostura, inserir no Strava e fazer um percurso incluindo o cume de uma montanha incrível.

Perfeita, não fosse o fato de que havia uma propriedade privada no caminho – que eu entrei sem perceber – e cães do tamanho de ursos guardando-a. Estes, eu percebi.

Mas comecemos do começo.

O percurso inteiro teria uns 21km, começando um pouco antes da largada oficial do K15. Para dar tempo de voltar cedo e aproveitar o dia com a família, saí antes do sol nascer: às 5:20, munido de uma headlamp, mochila de hidratação e poles que acabara de ganhar e estava ansioso por estrear nas trilhas.

Os primeiros quilômetros foram tranquilos, parte por uma ciclovia e parte por estradas de terra. A quantidade de bifurcações era grande, me forçando a conferir a rota no Strava a cada 5 minutos – algo compensado pela beleza da paisagem patagônica.

Aos poucos, o sol foi subindo e desvendando picos nevados florestas verdes de pinheiros. Até então, apenas latidos finos de meia dúzia de cachorros domésticos interrompiam o silêncio intenso, forte.

Um pórtico sem marcação abria caminho para o cume, a essa altura com uma trilha bem marcada. Segui.

Mais alguns passos, lá ao fundo, uma casa vermelha se estendia no fim da trilha. Olhei o Strava: precisava entrar à direita em algum lugar. Quando me voltei para buscar o caminho ouvi latidos fortes se aproximando.

Em alerta, parei e vi dois cachorros pretos grandes se aproximando em uma velocidade maior que a desejada. Sem correr para não demonstrar medo, dei alguns passos de costa e achei, como por milagre, a trilha. Subi rapidamente, usando os muito bem vindos poles como apoio.

Ouvi os latidos me seguindo e apressei o passo. Aos poucos, no entanto, eles foram ficando distantes até pararem. Estava a salvo!

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Parei para tomar ar, me localizar no Strava e pronto: segui montanha acima. Tudo calmo, em um silêncio absoluto cortado apenas pelo som de folhas pisadas, por pássaros e pela minha respiração. Devo ter seguido assim por um ou dois quilômetros – até que, em uma pedra no alto, à minha frente, um outro cachorro apareceu correndo e rosnando em minha direção.

Este, no entanto, estava no meio do único caminho possível. Novamente, parei e dei alguns passos para trás. Ele parou, me olhou.

Ficamos imóveis por alguns minutos, de frente um para o outro.

Mais alguns passos para trás.

Me ocorreu que os dois cães fecharam a trilha, um em cada ponta, comigo no meio.

Precisava improvisar.

Saí devagar, com o cuidado de não demonstrar nenhum tipo de medo e nem de atitude de enfrentamento. O cachorro ficou na rocha, parado, até que saísse da minha vista.

Neste momento segui mais rapidamente e em silêncio até metade do caminho.

Olhei no Strava: à minha esquerda havia uma espécie de atalho até a estrada de terra abaixo da montanha. Não era um atalho oficial: era puro mato.

Mas mato é melhor que cachorro.

O primeiro, aliás, já devia ter sentido meu cheiro e começava a latir na ponta inicial da trilha. Não tinha muita alternativa: com os poles, fui abrindo caminho pelo mato denso em um ritmo acelerado pela adrenalina, mas lento pelo relógio.

Tortuosos minutos se passaram até que consegui cortar caminho e chegar na estrada.

A casa ainda estava lá, na quina da visão – e, de longe, o latido do primeiro cachorro começava a se aproximar.

Hora de virar Usain Bolt: coloquei os poles debaixo do ombro e corri pelo resto de montanha com todas as minhas forças por, pelo menos, dois quilômetros. Parei apenas quando me toquei que estava saindo do pórtico e que não havia mais latido algum.

Na saída, percebi uma placa caída com os dizeres “Propriedade privada”. Deu até vontade de rir.

Mas segui adiante, ainda com adrenalina nas veias mas mais calmo. Perdi o cume da montanha, mas pelo menos saí bem, inteiro. De quebra, estiquei o percurso até um rio perto do hotel, o Correntoso, que rendeu um bem vindo descanso e fotos incríveis.

Entre cada suspiro de alívio, quando toda a corrida se repassava pela minha mente, o único pensamento foi de agradecimento por ainda estar inteiro para poder aproveitar esse cenário tão magnífico.

Amanhão tem mais – mas, agora, com uma lição aprendida: é melhor procurar investigar melhor o percurso com os locais do que se basear em rotas de corridas postadas na Web e que aconteceram há anos!

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