Checkpoint: Areia movediça

Fiz outra tentativa hoje. Estava sol, um calor senegalês, o percurso à frente tinha estradas de terra, morros e vistas, e podia rodar o suficiente para, quem sabe, soltar mais o corpo.

Essas últimas duas semanas foram como correr na areia movediça. Se exagerasse na dose, acabaria afundando em dores generalizadas pelo corpo; se cedesse e descansasse todos os dias, a sensação de estar enferrujado apenas pioraria. Precisava achar algum tipo de equilíbrio, se situação limítrofe entre me manter ativo mas não atropelado, respirando rápido mas não esbaforido, suado mas não encharcado.

Hoje foi mais ou menos isso. Não digo que estou perfeito – mágicas são mais raras do que deveriam. Mas rodei os 10K sorvendo vistas, sol e calor, com AC/ DC puxando a endorfina e aquele cheiro de mato que sempre, sempre ajuda.

Terminei inteiro – muito melhor do que ontem e do que nos últimos dias. Terminei também fechando mais de 50K na semana, apenas levemente a mais que na semana passada e, portanto, somando volume como maneira de me salvar da areia movediça.

Ainda estou nela, aparentemente: seria ingenuidade partir pra um treino completo, como se nada tivesse acontecido. Mas estou – também aparentemente – muito mais a solto do que estava, já enxergando dias melhores no horizonte.

   
 

El Cruce: Dia 3

Escrito já do conforto do hotel em San Martin de Los Andes, depois de um bom banho, na tarde de 14/02/2016

Difícil saber por onde começar a descrever este que, com absoluta certeza, foi o dia mais incrível de toda essa jornada pelos Andes. 

Primeiro, houve o frio. Acordar às 5:30 da manhã tremendo dentro da barraca certamente não foi uma sensação agradável, algo compartilhado por todos. O frio e o vento, aliás, foram tão intensos que o horário de largada chegou a ser adiado por alguns minutos. Poucos, ainda bem. 

Quando largamos, devidamente paramentados, já encaramos 5km de uma subida muito, muito intensa. Não que ela fosse técnica: o grau de dificuldade das trilhas por essas bandas é muito mais leve do que as do Brasil. Mas foi longa, nos fazendo cortar florestas e testemunhar, quase que a cada passo, mudanças na vegetação. 

Em 5 quilômetros, no entanto, estávamos já de frente para a primeira meta: o cume do Milito, ponto mais alto de todo o Cruce com quase 2 mil metros. Lá cima estava frio, com uma ventania típica da montanha e uma vista panorâmica absolutamente inesquecível. Cansaço? Sim, claro – mas ele ficou esquecido, relegado a algum canto escuro da mente enquanto os olhos teimavam em acreditar no que estavam testemunhando. Estava ali, depois de 2 dias correndo e acampando pelos Andes, efetivamente de pé sobre um cume belíssimo! 

Pausa para foto – rápida, já que o frio mal deixava os dedos obedecerem – e era hora de descer. Não muito: um segundo cume se aproximava, menor que Milito mas, ainda assim, incrível. Diferente, aliás: todos os cumes que subimos foram diferentes em tudo, dos arredores à própria vegetação. Esse segundo, por exemplo, era praticamente formado de pedregulhos soltos e esparramados por uma vegetação queimada, quase inexistente. Mais vento, mais frio. 

Descemos. 

Cortamos uma floresta densa, sob uma neblina espessa e praticamente rodeados por flores amarelas em um cenário que mais parecia um conto de fadas. As trilhas, suaves, permitiam que se voasse montanha abaixo – ao menos por algum tempo. 

Curva aqui, curva ali e, de repente, outra subida. Cerro Colorado, nome perfeito para uma montanha praticamente toda avermelhada. A ventania lá era a mais intensa de todas mas, ao fundo, um fio de música me fez acreditar estar alucinando. Não estava: no caminho para este último cume do El Cruce, um violinista solitário tocava Bach, deixando a música encher toda aquela paisagem árida, fria e seca com a mais pura poesia. Aquela foi, provavelmente, uma das cenas mais incríveis que presenciei em toda a minha vida. 

Mas era hora de seguir: subi o Colorado adrenalinado pela música e pelo visual andino, enfrentando vento e frio, e comecei a descida. Dali para a frente, aliás, era tudo uma imensa descida. 

Começava relativamente técnica, com muitas pedras soltas derramadas pela montanha e que, aos poucos, se transformaram na areia marrom característica da região. Aí foi acelerar o passo e voar pelas trilhas sinuosas, sentindo o calor crescer a cada metro de descida. Em pouco tempo, estávamos já no Oasis, único posto de apoio do dia que ficava mais ou menos no km 23. Era hora de tirar parte das camadas de roupa que vestia, tomar uma Coca, guardar os poles e seguir. 

Exceto por uma ou outra subidinha, o caminho estava aberto e apontando para baixo, fechando a descida da montanha até San Martin de Los Andes. 

Aos poucos, aliás, a cidade foi aparecendo no canto do lago, que já dominava o lado direito da paisagem. Pequenas casas começaram a surgir, quebrando a sensação de isolamento na qual vivemos por 3 dias; grupos de locais fazendo trekking cruzavam conosco; a música da linha de chegada foi ampliando o volume; e os últimos incentivos de parabéns começaram a ser gritados pelo staff do Cruce. 

Estava ali, entrando em San Martin, com o pórtico de chegada pintado à minha frente. Acelerei. Corri como se minha vida dependesse disso – mas sem deixar nada para trás. Ao contrário: 3 dias nos Andes, sem nenhum contato real com a civilização e vivendo à mercê das vontades da natureza mudam a gente. É diferente de uma prova de um dia, em que se larga e chega sem intervalos prolongados: o El Cruce, como acabei entendendo, não é chamado assim por cruzar os Andes, mas sim por fazer quem quer que o corra mudar de percepção de vida. 

Se tem uma prova que recomendo a todos, é essa. Absolutamente inesquecível. 

   
    
    
    
    
    
    
   
   
 

El Cruce: Dia 2

Escrito nas montanhas argentinas em 13/02/2016

Há largadas em ondas – e há largadas em ondas e marolas. Foi assim que saímos para o dia 2: com ordem de largada de acordo com nossos tempos de chegada e, pra cruzar o pórtico, em grupos de 3 liberados a cada 15 segundos.

Para uma corrida de montanha essencialmente feita de single tracks, difícil pensar em uma maneira melhor de evitar engarrafamentos. E funcionou.

Diferentemente do dia de ontem, o percurso inteiro foi relativamente livre. Destaque para a perfeição das trilhas: longas, sinuosas tanto nos trechos de subida quanto nos de descida, secas e desimpedidas. 

Secas, na verdade, pelo menos a partir do km 10: até lá a corrida incluía atravessar trechos do Lago Lácar com água que chegou até a cintura. Pelo lado bom, isso trouxe um tempero diferente e, claro, um visual fenomenal.

Visual, por sua vez, que melhorava a cada metro de subida depois que as águas ficaram para trás. Havia trechos, já entre montanhas, que planaltos se abriam inteiros, gerando horizontes tipicamente andinos: montanhas por todos os lados e vegetação seca.

A partir do km 20, quando as florestas ficaram para trás, foi uma sucessão interminável de planaltos cortados apenas por rajadas de vento que forçavam os olhos a fecharem por alguns instantes.

Mas foi só vento, ainda bem: a chuva de ontem à noite ficou no passado e nos concedeu um dia com algumas nuvens, mas sol e claridade o suficiente para babarmos no visual andino.

A chegada do dia ficava na metade de uma montanha: a outra metade ficará para amanhã, quando chegaremos ao ponto mais alto do Cruce antes de descermos de volta para San Martin.

Por hora, é só relaxar um pouco, deixar as pernas se recuperarem e esperar por amanhã!

   
    
   

El Cruce: Dia 1

Escrito na beira no Lago Lácar, ao lado de Hua Hum, fronteira da argentina com o Chile, em 12/02/2016

Terminada a primeira maratona, era hora de rememorá-la.

Tarefa fácil, já que o percurso era incrivelmente lindo, com trilhas deliciosamente suaves e vistas embasbacantes – tudo ainda somado àquele clima de ultras que se vê desde a largada:

  

Não digo que tenha sido fácil: em qualquer circunstância, uma maratona de montanha é sempre uma maratona de montanha. Essa, que chegou a 44km com mais uns 1.200m de subida, não seria diferente.

Ainda assim, parece que foi. Há, afinal, uma diferença entre esforço e percepção de esforço. Quando se está em terreno “virgem”, com vistas alucinantes, em uma prova icônica cruzando a cordeilheira dos Andes até pisar no Chile, a percepção é menor.

E fica ainda melhor quando temos uma primeira experiência de vida de camping em plena prova, com direito a churrasco de chão na chegada, tenda de relaxamento e um rio cristalino (embora ridiculamente gelado) para tomar “banho” (ou algo próximo disso).

Pontos memoráveis:

Percurso, claro. Não haveria de ser diferente.

As descidas em trilha, principalmente da primeira montanha. Foi tão intensa quanto descer uma ribanceira no ponto morto – e, por isso mesmo, deliciosa. Não me lembro de ter voado tanto em algum trecho antes como nesse.

As filas. Fica como o único ponto baixo: pedir licença para passar nos single tracks que empacavam sem nenhum motivo concreto era o mesmo que solicitar passagem a uma parede. No final, só consegui correr solto mesmo quando pedia licença e seguia antes da resposta.

O camping. Sensacional. Nunca imaginei que fosse algo assim tão perfeitamente organizado.

O rio. Tomar banho em um rio andino que desce das montanhas é revigorante como poucas coisas!

Bom… por enquanto, é só. Apesar deste post ir ao ar apenas no domingo, ele está sendo escrito de dentro da minha barraca ao término do dia 1. Hora, portanto, de deixar os pés para cima e descansar: amanhã tem mais prova – incluindo o começo real das subidas às montanhas “de verdade”!

   

  

  

  

  

  

  

    
    
    
    
 

Vídeo: Dia 2 do Cruce

Faltam minutos para eu largar – mas pelo menos deu para conferir o vídeo do que será meu segundo dia, gravado nos calcanhares dos que começaram a ultra anteontem.

O terceiro, ao que parece – e que também é considerado o mais bonito por ser rodado na alta montanha – ficará como um mistério muito bem vindo para mim.

E vambora que os Andes aguardam!

Primeiro giro

Mesmo completamente só aqui em San Martin – ainda não encontrei nenhum corredor brasileiro por estas bandas – e sem nada para fazer durante o dia, coloquei o despertador para as 6 da manhã.

Não foi masoquismo: queria sentir o clima nas primeiras horas e ver o sol nascer nos Andes. Excelente ideia, acrescento.

Saí para um trote leve, de 10K, nos arredores da vila. Não busquei trilhas ou nada do gênero: apenas segui a estrada morro acima, evitando que criatividades excessivas no mapa acabassem me cansando além da conta.

Sem nenhum compromisso com tempo ou agenda, quem ganhou o presente mesmo foram os meus olhos. Já havia corrido por aqui no passado, quando passei o ano novo na “vizinha” Villa la Angustura – mas paisagens assim são sempre, sempre bem vindas de volta.

Aos poucos, acabei vendo o céu sair do azul escuro para o colorido, do colorido para o claríssimo, do claríssimo para o azul turquesa. Ao fundo, as montanhas (infelizmente sem neve) se erguiam em uma demonstração de poder inquestionável. Na base, pequenas chácaras se estendiam por quilômetros, sendo cortadas apenas por eventuais casinhas de madeira que pareciam ter sido retiradas de um desenho animado.

O clima não estava quente – nem de longe. Aliás, eu arriscaria dizer que peguei uns 12 ou 13 graus ao sair do hotel, mesmo com o sol brilhando.

Há maneira melhor de começar um dia?

Não.

Ao todo, essa uma hora foi absolutamente revigorante, animadora, inspiradora. O problema é que ela só durou uma hora: ainda tinha o dia inteiro pela frente.

Pois bem: logo que cheguei de volta, me vesti de ingenuidade e fui ao centro pegar o meu kit. Eu e todos os outros 2,5 mil corredores, aparentemente.

Fila? Acho que nem o INSS tinha tanta gente esperando parada! Mudança de planos: deixei o kit para a tarde. Era hora de descobrir o que fazer amanhã, no que resolvi me inscrevendo em um passeio de 4 horas de caiaque pelos lagos amanhã cedo. Sim, deve ser cansativo – mas pelo menos será para os braços, não para as pernas.

Ainda tinha outra tarefa pendurada: o trabalho. Uma viagem como essas consome alguns dias úteis e, ao menos para mim, é impossível deixar o trabalho de lado e considerar tudo como férias (por mais bem vindas e merecidas que sejam, acrescento).

Entre trabalho, trote e posts, portanto, acabei comendo toda a manhã e parte da tarde. E é neste ponto que estou: sentado em um café, martelando o teclado no blog enquanto o projeto que acabei de montar é uploadado para o dropbox e passado adiante. A boa notícia é que, como a produtividade sempre voa com a absoluta falta de interrupções, acabei adiantando tanta coisa que o resto do dia de hoje e todo o amanhã está vazio.

Nova tarefa pela frente, portanto: preencher o tempo. Só espero que não seja com a fila da entrega do kit que, a esta altura, já deve estar menor! :-)

   
    
   
 

 

 

E assim se foi o primeiro dia antes dos primeiros dias

E assim se foi o primeiro dia antes dos primeiros dias: da mesma forma que começou, em compasso de espera. 

Cheguei em San Martin de Los Andes por volta das 13:30 absolutamente sonado. Era segunda, feriado de Carnaval, e teria ainda dois dias inteiros para descansar – desconsiderando apenas umas pequenas pausas para o onipresente trabalho, claro. 

A primeira coisa que fiz – depois de um bem vindo banho, claro – foi rodar pelo povoado. Em um par de minutos, acrescento: San Martin cabe na palma de uma mão, não tendo mais que meia dúzia de quarteirões. Ainda assim, respira ares mais forasteiros do que interioranos: embora poucas, suas avenidas são tomadas por lojas de esporte de aventura; pequenas agências pontilham a paisagem; corredores e ciclistas dividem espaço com crianças brincando soltas; e um clima de adrenalina extrema parece ter subjugado um local que certamente nascera com propósitos muito mais bucólicos. 

A vista também era única: dos dois lados, paredões de montanha afunilavam a vila para o Lago Lácar, formando uam espécie de praia tornada ainda mais gelada por ventos cortantes que espalhavam poeira e pinçavam os nervos. O céu, inquieto, já dedurava a geografia ao se pintar com as cores exatas da bandeira da Argentina. 

E, como não poderia deixar de ser, o cheiro de parrilla acentua a fome de qualquer um que pensar em atravessar a frente dos restaurantes. 

Tudo em San Martin era convidativo, do clima às paisagens e aos sons. Mas o cansaço, ao menos neste primeiro dia, estava extremo demais para eu aproveitá-la. Feito o reconhecimento, almocei logo antes da hora do jantar, invadi uma ou outra loja, tentei – sem sucesso – agendar alguma aventura turística de última hora para o dia seguinte, e voltei para o hotel. 

Nada mais poderia me fazer sair da cama, nem mesmo a claridade insistente do outro lado da janela.

Hoje havia terminado. 

E amanhã, ainda bem, será dia de fazer o reconhecimento como ele realmente deve ser feito: a passos rápidos, trotando povoado afora. Ainda não tenho ideia de que lado irei ou de quanto cobrirei – embora obviamente deva pegar leve por conta do Cruce. Mas uma coisa é certa: a Patagonia e os Andes parecem estar tão ansiosos quanto eu para se metamorfosear de paisagem em aventura.

  
 
 

Niterói, dia 5: Orla de Itacoatiara

Na verdade, esse dia foi o 6. Ontem, dia 31, não me contive e saí para uma corrida de 10K às 2 da tarde sob um sol de mais de 40 graus. Cansei, suei até me desidratar e não cheguei a nenhum lugar bonito – mas valeu pelo simples fato de aproveitar o sol e gastar os últimos quilômetros de 2015. 

Hoje, dia 1, foi diferente. 

Acordei com aquele ar de ano novo, aquela vontade de iniciar um novo ciclo com toda a inspiração que certamente se fará necessária ao longo dos próximos 12 meses. Infelizmente não pude ir ao Parque da Cidade: rodar 26km sob esse calor e depois de tanta rodagem acumulada não seria “saudável”, para dizer o mínimo. Tudo bem: fica para a próxima. 

Resolvi, então, juntar a inspiração para o ano novo e me despedir da belíssima Niterói em uma das mais incríveis praias que já vi: Itacoatiara. 

E, assim, saí trotando leve até lá, cortando o calor que já se fazia imponente às 10 da manhã e chegando ao canto da praia carregado de energia. De lá, parei e fique alguns instantes olhando as pedras. Todas: a do Elefante, que subi nos meus primeiros dias, a do Costão, que subi há pouco, a Serra da Tiririca ao fundo e um outro morro que permaneceria um mistério. 

Esse contraste de pedra, mar e verde exuberante é simplesmente fantástico. Inesquecível. 

Fui de uma ponta a outra curtindo o litoral. Uma música leve embalou o pace e a mente, mudando o pensamento de retorspectiva a perspectiva a passe de mágica. 

No final do dia estarei voltando para São Paulo, onde todo um novo ano me aguarda. Ainda terei um final de semana para completar esse bem vindo recesso – mas nada se comparará a esse mergulho na mata atlântica que foi essa descoberta de Niterói. 

Nem imagino os desafios que 2016 colocará no caminho – mas é difícil não entrar no ano com a certeza de que todos serão devidamente vencidos depois de dias tão inspiradores, em paisagens tão exuberantes e com trilhas tão fantásticas como estas daqui.

Que venha o novo ano. De preferência com tantas belezas quanto as que encerraram os meus dias de 2015.

   

     

Niterói, dia 4: Costão e Bananal

Já acordei aceso: era dia de desbravar duas novas trilhas e paisagens por esta abençoada costa de Nikiti City.

Desta vez saí um pouco mais tarde: o acesso às trilhas do Costão e do Bananal abria apenas às 8 da manhã. Sem problemas: mais tarde, mais sol, mais vista.

Cheguei em Itacoatiara às 8 em ponto e já havia uma pequena fila para subir a trilha. Aos poucos fui desviando de um e de outro, acelerando o ritmo quando dava e respirando forte aquele ar de mata atlântica. Em alguns minutos, uma clareira dava acesso a percursos diferentes.

Peguei o do Costão: queria subir logo a pedra e entender a vista panorâmica da Guanabara. A subida foi curta mas intensa e, em pouco tempo, se transformou em pedra pura. 

Perfeita.

Foi uma subida semelhante à da Pedra de Atibaia, daquelas íngremes e com grip forte. Subi rapidamente, fazendo o percurso pelos trechos menos íngremes e serpenteando cactus atrás de cactus que pontilhavam a paisagem. 

Olhei para trás: a Pedra do Elefante, imponente, se estendia pela paisagem disfarçando o céu de tons verdes e cinzas.

Segui subindo, subindo, subindo…

Até que me encontrei no topo. De lá, um giro panorâmico forçava a boca a abrir: dava para ver até o Pão de Açúcar, do outro lado da baía. A cena inteira era incrível, fundindo as cidades de Niterói e Rio de Janeiro em um único ecossistema feito de mar, pedra e mata. Cores, muitas cores davam vida à costa dramática daquelas partes certamente abençoada por todos os Deuses.

Fiquei um tempo ali, sentado, apenas bebendo a beleza.

   
    
    
   
  

Quando estava já satisfeito, levantei e desci. Foi difícil, confesso, descer de uma vez só ignorando o ímpeto de parar para fotografar as tantas cenas que se abriam. Mas fui.

Quando cheguei de volta à clareira, desci pela segunda trilha, a do Bananal. Deserto, o caminho era fechado e abafado, com um barulho de milhões de mosquitos que protestavam contra o intruso. Mas tudo: as árvores, as pedras, os zunidos e as ondas do mar, transformavam aquilo em uma espécie de paraíso. 

O final da trilha dava em uma pequena enseada de pedras. À frente e no mesmo nível, o mar rugia com aquela calma feroz característica de Yemanjá; por trás, mato puro; dos lados, as montanhas. 

Há momentos em que apenas devemos agradecer a honra de testemunharmos.

Mais uma vez sentei e respirei.

Aspirei.

Me inspirei.

E saí.

A volta foi percorrida naquele estado de transe pós-trilha, sentindo o sol arder as costas e a deixando a mente repassar e memorizar cada uma das paisagens.

Difícil imaginar um começo de dia melhor.