Ultra é mais espírito do que esporte

Na semana passada, vi uma foto de um amigo meu no Facebook comemorando uma travessia aquática.

Dei os meus entusiasmados parabéns e ele comentou comigo que estava treinando para a travessia Mar Grande-Salvador. Me entusiasmei.

Explico melhor: a travessia marítima Salvador-Mar Grande é o que há de mais antigo em minha memória sobre endurance. Trata-se de atravessar 13km da Baía de Todos os Santos, saindo de um ponto da Ilha de Itaparica e chegando em outro na capital baiana.

Quando criança, considerava todos os nadadores como heróis e loucos – ou loucos e heróis, para colocar na ordem correta.

O tempo, no entanto, foi me afastando da prova. Me mudei para São Paulo.

Comecei a correr.

Me apaixonei pelas ruas e trilhas e me entreguei por completo a esse esporte.

Até essa bendita foto no Facebook.

Em um intervalo de segundos, anos de infância apareceram como um susto entusiasmado que, somados à experiência em provas longas, desenharam um gosto de viabilidade que nunca tive antes.

Ainda estou cozinhando esse sonho – mas já o considero como uma das minhas metas futuras, embora tenha mais a ver com ultra do que com maratona.

Mas, do ponto de vista espiritual, há mesmo tanta diferença entre atravessar uma montanha ou uma baía? Em todos os casos, são horas revirando a própria alma e puxando energia do peito para se encontrar, se abraçar, se entender. Muda-se apenas o elemento, a solidez do solo, a escolha dos membros.

Mas, fora isso, é a mesma coisa: uma meta de autosuperação.

Ultra é mais espírito do que esporte.

margrande

 

 

Maratona em uma segunda à noite

Mudei os planos. Ao invés de espalhar a quilometragem pela semana por conta da impossibilidade de rodar o longão no sábado, dia em que me mudo, decidi fazer isso ontem.

Assim, saí imediatamente depois do trabalho para a rua, girando pela cidade. Claro: o frio intenso e a escuridão da noite mais longa do ano certamente não ajudaram – mas tudo sempre pode ser encarado como uma aventura a mais.

Saí de casa. Desci a Sumaré. Dei a volta no Allianz Parque. Cruzei os trilhos da Estação de Trem Água Branca. Subi até o Jardim das Perdizes, onde dei outra volta. Saí, cruzei o viaduto e margeei o Memorial da América Latina. Fui até o Parque da Água Branca, onde dei duas voltas. Saí. Voltei até a Sumaré. Subi até a Brasil e, de lá, peguei a Groenlândia. Margeei o Ibirapuera por fora uma vez. Entrei. Dei duas voltas por dentro. Saí. Subi a 9 de Julho até a Paulista. Fui até a Augusta e a desci até a Tietê.

Cruzei. Cheguei.

Melhor: apesar do cansaço que sempre bate com uma maratona, devo dizer que a quantidade que tenho feito está começando a me fazer encará-las como cotidiano. Não só terminei inteiro como rodei em um pace melhor do que tenho feito meus treinos de 15 ou 20K: 5’49″/km.

Quando cheguei em casa, claro, já estava alta noite. Foi o tempo de respirar, tomar um banho e desmaiar, embora a adrenalina tivesse empurrado o sono para depois da meia noite. 

Nesse intervalo de tempo, já deitado e sentindo o tilintar dos músculos rearranjando-se nas pernas, me peguei quase maravilhado com essa quebra de rotina: “Uma maratona rodada em uma noite qualquer de segunda. Deveria fazer coisas assim mais vezes…”

Sequência de meias?

Como comprimir uma semana de mais de 100km excluindo o dia do longão? 

Quebra-cabeças difícil, esse. Ainda não consegui uma fórmula, mas o que acabei fazendo foi espalhar toda uma sequência de meias entre terça e quinta (o que, na prática, aumenta em apenas 1h30 os planos originais). OK: deixei 1h30 a mais para o sábado à noite, pós-mudança, e mantive as 2h do domingo. Ainda assim algo como 15km ficará faltando. 

Meu medo maior é que acabe fazendo menos e me cansando mais justamente na primeira semana do ciclo. 

Bom… Apesar de nada ainda estar fechado, é o que temos para o momento. Certamente não será isso que prejudicará o tanto de esforço que está sendo acumulado até o Caminhos de Rosa. 

Semana de mudança, mudança de planos

Caiu uma ficha: semana que vem eu me mudo. 

Ficha importante essa: a mudança, afinal, acontece no sábado. 

Naturalment,e se eu tirar 5 horas do sábado para correr, provavelmente serei recebido em casa com uma metralhadora. 

Hora de mudar de planos. Como? 

Nem ideia. Mas, possivelmente, o volume intenso da semana precise ser diminuído de leve e espalhado pelos outros dias. 

Amanhã volto com novidades. 

Usando a água como remédio

Uma das coisas que acabamos procurando em períodos mais intensos de treino, quase que de forma involuntária, é receita para diminuir as dores musculares. 

Nunca fui muito de tomar remédios ou mesmo suplementos alimentares: meus hábitos são, em geral extremamente naturais. Mas as circunstâncias acabaram adicionando ao rol de viabilidades uma piscina aquecida de 25m. 

E, assim, meio sem querer, acabei dando um mergulho em um dia qualquer. Dei umas braçadas aqui, outras ali – todas relembrando os tempos em que eu passava meus finais de tarde nadando no Porto da Barra, em Salvador, e me jogando na cara que estava absolutamente fora de forma enquanto peixe. 

Tudo bem: natação não é meu esporte. Aquilo era só uma bem vinda brincadeira. 

Era? 

De repente, sair da piscina foi como ter tomado um analgésico ultra poderoso. 

Aí, como que querendo repetir o efeito, comecei a acrescentar a piscina como rotina pós treino. 

Como da primeira vez, funcionou. Assim como da segunda, da terceira, da quarta. 

Em paralelo, tenho melhorado também a resistência dentro da água, ainda como que por força crescente de um hábito que está sendo desenhado apenas para amenizar as dores. Belo efeito colateral. 

Além disso, fazer umas braçadas depois de um dia intenso relaxa corpo, mente e alma como poucas coisas na vida! 

Dores acumuladas ao fim do ciclo

Confesso que, quando iniciei esse modelo de treino com 3 semanas intensas e uma de descanso, não sabia que havia tanta lógica por trás da sua concepção. Imaginei que fosse um estilo de treinamento como outros quaisquer. Errei. 

No ciclo anterior, tive dificuldades em preencher as 3 semanas intensas: na do meio, acabei cedendo e deixando o volume cair um pouco para voltar a crescê-lo apenas na terceira. 

Descansei na quarta e comecei tudo de novo. Neste último ciclo fiz tudo quase à perfeição, batendo 107, 100 e 105km. Como da última vez, a mais difícil foi a segunda semana – mas ela foi superada. 

Uma descoberta curiosa: correr 15 ou 20km depois do longão do sábado passou a ser não apenas possível, como uma espécie de remédio muscular. Sim: por mais insano que pareça, os domingos pós-maratona tem sido os treinos mais rápidos, leves e analgésicos que tenho feito. 

Mas o mais curioso é o conjunto de dor que tomou conta do meu corpo ontem à noite, depois que esfriei o corpo. A ciática emanou uma dor tão lascinante que imaginei que alguém estivesse sadicamente pinçando o nervo. Depois que me recompus, caí em mim que o corpo todo doía mais do que imaginava. Nada de assimétrico ou indicativo de lesão: apenas um tipo de dor acumulada que não havia sentido há muito tempo. 

Foi quando caí em mim que todo o acúmulo veio justamente na semana de descanso. Perfeito: dará para que o corpo se recomponha bem antes que o terceiro ciclo comece. 

Enquanto isso, já estou sentindo claros os efeitos do treino: minha resistência está cada vez maior e a musculatura muito mais forte do que quando comecei. Até agora, só os pontos positivos se somam na avaliação geral que faço desse modelo. 

Checkpoint: Ciclo cumprido

3 semanas com três maratonas aos sábados e batendo os 100km/ semanais. 

3 semanas com corridas antes das 5 da manhã em dias úteis, incluindo chuvas torrenciais enxurrando madrugadas e frios fora do normal embalando os percursos. 

Mas há dois ingredientes importantes: a escolha do percurso em si e, claro, o comprometimento da alma com o ato de correr. 

O primeiro ponto pode não ser tão fundamental quando se está fazendo 10 ou 15 km. Quando se encaixa uma maratona ou uma ultra na rotina, no entanto, ter um local para se entusiasmar por horas a fio passa a ser questão de sobrevivência. Neste quesito, o ciclo em si foi marcado pelo Parque da Cantareira – principalmente no treino de ontem. Céu azul, frio e trilhas fora de série sobrevoando a cidade de São Paulo. Inspirador. 

No segundo… Bom… O segundo já aprendi a carregar comigo desde que comecei nas ultras, há 3 anos. E, nesse aspecto, longões de 4, 5 horas acabam ajudando a alma a se encontrar melhor, a se encaixar, a se ver e a se resolver. Fazem com que esse tempo gasto nas trilhas e asfaltos retorne em forma de um tipo de paz endorfinada difícil de se conseguir em qualquer outra atividade. 

Bom… Semana que vem é mais leve, perfeita para aliviar as dores acumuladas dessas três semanas que já incomodam bastante. 

Bem vindo troféu, acrescento. 

Ode ao Cantareira

Terceira maratona do mês concluída.

O corpo está moído de cansaço acumulado e agradecido pela planilha indicar uma semana de descanso no horizonte. Mas uma coisa é fato: dificilmente eu poderia ter escolhido local melhor para correr do que esse conjunto de Horto com Cantareira.

E mais: no Cantareira, deu ainda para partir do Núcleo Pedra Grande e chegar ao Núcleo Águas Claras aproveitando trilhas daquelas perfeitas se abrindo no caminho!

Há como falar mais? Não sei. Mas há como mostrar: