Sábado endorfinado

Dia de longão esperado. Depois de uma semana tensa, com gerenciamento simultâneo de 2 crises e algumas noites sem dormir, tudo se resolveu perfeitamente na sexta. 

E correr no sábado de manhã nessas condições, com endorfina pre-liberada pelo alívio, é perfeito. 

Fui até o Morumbi, via Parque Alfredo Volpi e com destino às trilhas escondidas atrás do Parque Burle Marx. 

Não lembrava que havia tanta ladeira pelo trajeto, mas elas fizeram bem. Acordaram músculos que estavam adormecidos, posicionaram obstáculos mais interessantes e fizeram suor ser liberado de maneira mais solta.

Nem escutei podcasts ou audiobooks: fui direto em playlists de Rock no Spotify e saí acelerando e sorrindo sozinho. 

Ajudou também o fato do percurso – ignorado por muitos paulistanos – ser belíssimo. Em um sábado ensolarado pela manhã, as ruas arborizadas e desertas do Morumbi são incríveis. Os parques, tanto o Volpi quanto o Burle Marx, são muito bem cuidados e com trilhas que mais parecem ter saído de um conto de fadas, com bosques, lagos e retões convidativos.

Até levei mais tempo que havia planejado – mas quase sem sentir.

No final das contas, rodei 29km cheio de subidas, com trilhas e ruas, sob um céu impressionantemente azul e carregado de endorfina do primeiro ao último minuto.

Difícil imaginar uma maneira melhor de começar um sábado.

  

Tudo, tudo é biomecânica

Estava, já há alguns dias, com uma pequena dor no joelho direito e na região do soleus, na panturrilha esquerda. 

Não mudei praticamente nada da rotina de treinos: não descansei a mais na semana, mantive tiros, tempos e longuinhos do meio da semana. 

A única coisa que fiz foi cortar o audio dos fones e me concentrar totalmente na biomecânica. 

Passos certos, curtos e rápidos. 

Tênis: foco no Vibram FiveFingers, minimalista suficiente para praticamente impor uma pisada certa. 

Ritmo: mais ágil, diminuindo tempo porque, por algum motivo qualquer que ainda não entendi, velocidade também força postura correta (ao menos em mim). 

Resultado: todas as dores evaporaram. 

Estou novo.

Hora de virar a página e limpar a perspectiva das trilhas que estão por vir.

  

Vida de soldado

A adrenalina de um dia de pico na selva publicitária de São Paulo, onde vivo, fica um tempo percorrendo artérias e veias. Impede que se relaxe, impõe ao instinto de sobrevivência uma capacidade de concentração multitarefa, exige onipresença e, aos poucos, mói os sentidos.

Não vou dizer que não goste desse estilo de vida: trilhar os meandros de um mercado tenso e ultracompetitivo é um desafio cotidiano perfeito para qualquer um que sinta prazer, por exemplo, correndo ultras.

Mas, assim como em ultras, há momentos em que picos se alternam com vales, em que a adrenalina de se ter conseguido vencer algum obstáculo inesperado com um golpe de pensamento e uma supersincronizada agilidade tática cede ao cansaço.

Depois de nem sei quantas horas coordenando uma verdadeira guerra em fronts paralelos, cheguei em casa depois de todos terem dormido.

Comi em silêncio, acalmando a memória recente. Não me preparei para o dia de hoje – era tempo de encerrar o ontem. Apenas.

Troquei de roupa.

Deitei cuidadosamente, mais silencioso que o tédio.

De imediato, fiquei imóvel esperando o sono que não queria vir. 

Acabou vindo.

Aos poucos.

Mas de forma decisiva.

Pelo menos até o próximo soar do despertador, às 5:15 da manhã – apenas poucas horas depois das pálpebras terem fechado.

Sem problemas: era hora da corrida. 

E há melhor maneira de se preparar para qualquer coisa do que acordar antes mesmo do sol, quando toda a cidade ainda dorme, e testemunhar, sob suor e passadas, uma cena dessas?

  
Decididamente não.

Poucas coisas nos preparam melhor para uma batalha do que uma boa dose de suor e endorfina antes dos primeiros tiros. 

Que venha o dia.

Maratona Bertioga-Maresias no caminho!

Enquanto a luz amarela continuava acesa, acabei pesquisando mais sobre meu treinamento até os 100K da Indomit Costa Esmeralda, no dia 7 de novembro. E olha o que encontrei: a Bertioga-Maresias, prova que sempre quis fazer e que, este ano, acontecerá em 17/10.

Em outras palavras: acontecerá no dia perfeito para o último longão pre-Indomit. E contará ainda com sol, trechos em areia e aquele clima de prova que sempre bate qualquer treinamento.

Serão 75km que pretendo fazer na categoria solo, pegando leve com o pace e buscando apenas um último treino. Depois, descanso e recuperação.

Com a inscrição já devidamente feita, é hora de passear pelo Youtube e curtir alguns dos vídeos de edições passadas para adrenalinar corpo e alma!

LCHF: Resultados depois de 5 meses

A última vez que fiz exames foi no final de maio, já faz bastante tempo. Junho se foi, depois julho e, agora, boa parte de agosto. De lá para cá apliquei duas mudanças simples:

  1. Cortei quase que de maneira total a carne vermelha da dieta com o objetivo de diminuir a absorção de ferro. De todos os indicadores, a Ferritina era o mais preocupante por ter crescido de maneira singular desde que iniciei o low-carb e, se não caísse, precisaria voltar à dieta anterior.
  2. Diminui levemente o controle, aumentando o volume de carboidratos diários para algo na casa dos 100g-120g (ao invés de me fixar nos 20-30g). O objetivo era parar de perder tanto peso – estava já quase caindo para a casa dos 66kg e, embora o corpo estivesse respondendo bem sob todos os aspectos, começava a me sentir esquisito demais ao olhar no espelho.

Os resultados depois deste período foram um alívio.

Estado físico geral

Bom… antes de entrar nos indicadores médicos em si, cabe uma avaliação geral do estado físico. Continuo com uma disposição incrível, muito maior do que a que estava habituado pre-LCHF. A capacidade de concentração permanece maior, a energia está sempre em alta e os níveis de endurance estão melhores que sempre estiveram. Para mim, o melhor parâmetro nisso é o tempo que consigo correr confortavelmente sem comer nada (e sem sentir fome também, claro). Esse indicador por si só está incrível: consigo fazer tranquilamente uma ultra de até 60K sem nada e levo até os 90K com uma barrinha de amendoim. Em linhas gerais, isso indica que o corpo está conseguindo utilizar bem a gordura como fonte de energia, uma das principais metas que eu tinha.

Indicadores hepáticos:

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Os indicadores hepáticos, com peso dobrado para mim (uma vez que tive já problemas sérios no fígado) estão estáveis. Na prática, eles já estavam sob controle desde antes da adoção do LCHF, então bastaria mesmo que permanecessem assim.

Colesterol:

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Houve um aumento no colesterol, possivelmente por eu ter ampliado levemente o consumo de carboidratos nas últimas semanas. Ainda assim, o total está dentro dos parâmetros e os outros dois tipos apresentaram melhora.

O HDL, considerado “colesterol bom”, passou pela primeira vez o nível mínimo desejado (60) e foi para 64. O LDL, por sua vez, caiu de 120 para 116, também mostrando melhora.

Aqui vai uma curiosidade: de acordo com a literatura, níveis de LDL costumam aumentar logo que se inicia uma dieta LCHF (principalmente entre os meses 3 e 4). Depois, entre o sexto e o oitavo mês, esses níveis tendem a cair – que é o que já está ocorrendo comigo.

Outro ponto importante: o LDL pode ser dividido em dois padrões de partículas: o padrão A, maior e menos denso, e o padrão B, menor e mais denso. A partícula perigosa mesmo é a de padrão B.

Um exame laboratorial normal não dá essa divisão mas, também de acordo com a literatura médica, pessoas que fazem o low-carb tendem a ter mais partículas do padrão A. Isso significa que um LDL alto não seria necessariamente preocupante, demandando antes um exame mais minucioso para entender a sua composição. Ainda assim, é um alívio também o meu estar caindo.

Ferritina:

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Para mim, era o mais preocupante. Em linhas gerais: a ferritina é uma proteína produzida pelo fígado que regula a quantidade de ferro no organismo e media o processo de inflamação. O motivo da preocupação: níveis excessivamente elevados podem indicar uma sobrecarga de ferro, com efeito tóxico. Ou, em resumo, altos níveis de ferritina podem gerar câncer.

Há alguma literatura sobre níveis elevados de ferritina em ultramaratonistas, relacionado a sobrecarga de ferro a inflamações causadas pelo esporte. Vale conferir aqui. No entanto, o estudo mostra que os níveis voltam ao normal depois de 6 dias, o que significa que tem impacto de curtíssimo prazo.

Ocorre que, por coincidência, os últimos dois exames que fiz foram cerca de 1 semana depois de provas que demandaram bastante (Ultra Estrada Real e Maratona de SP), o que pode ter prejudicado os resultados. Se prejudicaram mesmo, nunca saberei: mas o fato é que – ainda bem – os níveis da proteína caíram bastante.

IMC:

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Há pouco a se falar aqui, exceto pelo fato de que estava perdendo peso demais. O “demais”, no entanto, era uma constatação muito mais estética do que clínica uma vez que tinha um “espaço” razoável ainda de peso a queimar.

Cheguei a ficar com menos de 67kg por um bom tempo e, aos poucos, estou recuperando mais peso pelo menos para me sentir melhor. Mas reforço: isso é puramente estético uma vez que não há nada de errado com nenhuma das medições.

Glicose e Insulina:

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Por fim, há a glicose e a insulina. Ambos estão estáveis, reflexo total da LCHF – mesmo considerando o leve aumento recente de carboidratos na dieta.

Conclusões finais:

Como disse no começo: alívio. Queria muito poder continuar na LCHF por conta dos benefícios físicos que estava já sentindo, mas a Ferritina alta era uma ameaça grande. Esse último exame, aliás, foi um veredito – e me “autorizou” a continuar.

Agora é seguir a vida :-)

Dores supercompensadas

Na tentativa inconsciente de preservar o joelho direito que, do nada, decidiu dar umas pontadinhas nas corridas da semana passada, acabei supercompensando com a perna esquerda.

Resultado: uma dor muscular ali na região do soleus, provavelmente resultado da supercompensação cruzada com uma biomecânica correta porém exagerada.

O que fazer agora? Dar tempo ao tempo (e engolir um Flanax que, certamente, de alguma ajuda será). Como a dor é leve, espero ter me recuperado até amanhã.

Uma coisa, no entanto, começa a me incomodar mais: seja em forma de pontadinhas ou de pequenas dores esparsas, tenho começado a sentir o corpo com mais frequência que o desejável. Não tive nenhuma lesão séria ao menos desde que comecei a correr – mas certamente esses sinais não são boa coisa.

Uma luz amarela já começa a se acender – de novo.

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Checkpoint: Recuperação e teimosia

Foi, sem dúvida alguma, uma semana de conflitos. 

Semana que já começou com o contraste das deliciosas corridas em dunas cearenses de dias anteriores versus o concreto e o cinza de São Paulo. 

Na semana passada, estava inteiro e voando sobre terrenos difíceis; nesta, dolorido até a alma no mais liso dos asfaltos. Na semana passada, acordava sozinho às 5:30 da manhã sedento pelo sol e os novos percursos; nesta, me senti quase como um viciado em crack, espremendo uma corrida entre as 20 e as 21 horas na mais pura fissura.

Fiz 55km nos últimos sete dias – exatamente metade dos 7 anteriores. E não estou em perfeito estado. 

Verdade seja dita, fui alertado repetidas vezes pelo corpo de cancelar uma ou duas corridas para evitar problemas mais sérios. Ouvi apenas parcialmente: ontem de manhã, por exemplo, cortei o longão ao cabo de 3km; mas, à noite, acabei fazendo mais 12 apenas para sentir a rua.

Por sorte, 55km não é lá tanto assim – e quem sabe não tenha que pagar o preço pela óbvia teimosia.

Pelo menos é o que espero. 

Teimosia, aliás, é exatamente isso: a forma mais desesperada e tola da esperança.

   
 

Longos nem sempre são longos

Havia compromisso hoje cedo: o longão teria que ficar para depois das 10. 

Sem problemas: já saí pronto e equipado para o que deveria ser mais um dos percursos de desbravamento da selva urbana, iniciando pelo centro e cruzando Memorial da América Latina, passando pela casa do Mário de Andrade, subindo e descendo ladeiras de Perdizes. 

Em um dia de sol a pino e com um calor daqueles que amo, poucos prospectos seriam melhores. 

Só que algo estava errado. 

O primeiro sinal veio pelo ouvido: o fone que usava quebrou de vez, me impedindo de ouvir as instruções de rota sussurradas pelo Google Maps. O percurso teria que mudar, saindo do centro e indo para algum lugar com o qual estaria mais familiarizado. 

Sem problemas. Joguei fora o fone e segui. 

Olhei o Garmin como faço instintivamente, já sem perceber. Segundo sinal: ele estava travado, reiniciando. O mundo digital estava sendo claro comigo: eu estava perdido, ao menos “espiritualmente”. 

Respirei fundo e notei que um cansaço extremo subia pelo corpo: pernas doíam, joelho direito simulava uma pontada, pálpebras pareciam ter sono. 

Me lembrei da semana anterior, onde acumulei talvez mais do que deveria de quilômetros sobre dunas. Olhei para cima: o sol, que sempre me inspirou excelentes corridas por mais ardido que estivesse, parecia severo, quase malvado. 

Olhei para trás: havia praticamente acabado de começar. 

Olhei para a frente: o mais sensato seria seguir uma reta até em casa e dar o dia por encerrado. 

Foi o que fiz. 

O menor longão da história acabou com pouco mais de 3km em 18 minutos. 

Hoje, o corpo queria descanso – e ignorá-lo realmente não parecia boa ideia. 

  

Moído

A semana está leve. Levíssima, dado o volume que vem pela frente e os quilômetros que deixei no Ceará. Ao todo, fiz 32km nos últimos 3 dias e terri mais 33, aproximadamente, no final de semana.

O problema é que, aparentemente, os quilômetros cearenses vieram comigo de volta para São Paulo. O exagero de fazer 8 dias sequenciais recheados com dunas e mais dunas de areia fofa parecem ter deixado um legado semelhante ao que apareceu depois de emendar Comrades com os 50K de Atibaia. 

As pernas doem, como se estivessem moídas, e o cansaço geral está além do que deveria. Não há nenhuma dor mais preocupante – ligamentos, joelhos, articulações e ossos estão perfeitos, o que deixa afastado algum risco maior de lesão. Mas, claro, há uma luz amarela acesa.

Veremos como o corpo reagirá ao descanso de amanhã e à conclusão mais leve, com menos volume e menos intensidade, dessa semana. 

E torçamos para que a recuperação venha com um pace mais rápido que o que estou conseguindo manter!