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longão
Recuperação
Todo ano há aquele período em que o cansaço se acumula e se apresenta de maneira quase intolerável. São dias em que acordar se torna tarefa hercúlea, longões soam como ultras por si só e tudo o que a musculatura mais deseja é uma trégua.
É como se fosse uma depressão do corpo.
Contra ela, há horas que pedem combate, que exigem que se force as pernas até as trilhas. Há outras, no entanto, que sopram a necessidade de cautela para que o cansaço não gere lesões.
É onde entra o overtraining, aquela palavra que volta e meia aparece na porta de casa.
Essas semanas tem sido exaustivas além do normal. A pressão no trabalho tem moído as forças célula a célula e, de fato, cada soar do despertador tem sido uma tortura.
Hoje, para o bem do próprio treinamento, preciso de um descanso.
Desliguei o despertador.
Virei de lado.
Cancelei o longão da manhã.
Preciso me recuperar um pouco mais antes de seguir em frente.
Brigando contra os demônios da manhã
O problema com as longas quilometragens em dias úteis – qualquer coisa a partir de 15km – não são as distâncias: são os horários.
Não discuto que, quando se está atravessando a trilha do Ibirapuera junto com os primeiros raios de sol que parecem pintar de ouro os troncos e a terra ocre, a endorfina parece explodir pelo corpo. Poucas são as sensações tão gratificantes quanto se ver quase que inteiramente só em meio ao cheiro de orvalho, com tempo e silêncio para mergulhar na própria cabeça e sem se preocupar muito com a pressa. A cidade dorme a essa hora.
A sensação de ser o único acordado é revigorante.
Não é aí que mora o problema. Este vem antes – poucos minutos antes, quando o despertador começa a gritar no meio do quinto sono. Aí os demônios aparecem: “durma mais”; “deixe para o final do dia”; “talvez as pernas queiram descanso”.
Os demônios começam a discutir: “no final do dia não dá: tem aquela reunião que deve entrar pela noite”; “a previsão é de tempestade torrencial a partir do meio dia”; “hoje você precisa chegar cedo para liberar a babá”.
A essa altura o sono em si já se foi. A discussão interna, no entanto, está a pleno vapor, movida à preguiça de se levantar e encarar os dias. Às vezes são poucos minutos até um veredito; às vezes, quase meia hora inteira. Até que, em um determinado momento, alguém vence.
Normalmente, este alguém é a corrida em si: resignado, me levanto, troco de roupa e parto para abrir o primeiro sorriso apenas depois que o GPS é encontrado pelo relógio e que os primeiros metros são digeridos. Nesses momentos eu chego a me questionar o que me levou a pensar em ficar na cama: “que ideia mais sem pé nem cabeça”!
Esses dias, com sequências de mini-longões no meio da semana, tem sido inteiramente dominados por essas batalhas. Todas sendo vencidas pelas trilhas, ainda bem – mas seria muito, muito bom que alguém inventasse algum remédio contra esses demônios internos intrusivos.
Sábado endorfinado
Dia de longão esperado. Depois de uma semana tensa, com gerenciamento simultâneo de 2 crises e algumas noites sem dormir, tudo se resolveu perfeitamente na sexta.
E correr no sábado de manhã nessas condições, com endorfina pre-liberada pelo alívio, é perfeito.
Fui até o Morumbi, via Parque Alfredo Volpi e com destino às trilhas escondidas atrás do Parque Burle Marx.
Não lembrava que havia tanta ladeira pelo trajeto, mas elas fizeram bem. Acordaram músculos que estavam adormecidos, posicionaram obstáculos mais interessantes e fizeram suor ser liberado de maneira mais solta.
Nem escutei podcasts ou audiobooks: fui direto em playlists de Rock no Spotify e saí acelerando e sorrindo sozinho.
Ajudou também o fato do percurso – ignorado por muitos paulistanos – ser belíssimo. Em um sábado ensolarado pela manhã, as ruas arborizadas e desertas do Morumbi são incríveis. Os parques, tanto o Volpi quanto o Burle Marx, são muito bem cuidados e com trilhas que mais parecem ter saído de um conto de fadas, com bosques, lagos e retões convidativos.
Até levei mais tempo que havia planejado – mas quase sem sentir.
No final das contas, rodei 29km cheio de subidas, com trilhas e ruas, sob um céu impressionantemente azul e carregado de endorfina do primeiro ao último minuto.
Difícil imaginar uma maneira melhor de começar um sábado.
Replanejando (de novo)
Desta vez, no entanto, não é por nenhum problema mais dramático. Ao contrário: neste sábado farei uma espécie de “mudança temporária de CEP”. Me mudarei, ainda que por uma semana, para o litoral cearense.
Poucos termos parecem mais apropriados, aliás, do que “mudança de CEP”: afinal, continuarei trabalhando normalmente, fazendo reuniões via Skype e tocando a vida como se a geografia fosse irrelevante. Do ponto de vista dos treinos, no entanto, haverá impactos.
A minha ida será no sábado pela manhã, me fazendo chegar ao destino apenas a noite. O Ceará é mais longe de São Paulo do que costumamos supor. Minha volta será no sábado seguinte, também matando todo o dia.
Resultado: perdi dois dias de longões.
Há o lado positivo, claro: não se pode falar em “perda” quando se vai passar uma semana sob o sol nordestino. Pode-se falar em rearranjo.
O primeiro já está em curso: esta semana teve treinamento na segunda, descanso na terça (até porque tive que fazer um bate-volta até Brasília, a trabalho) e ritmo puxado de hoje a sexta. Por puxado, entenda-se de corridas de 1h30 a tiros e intervalados.
Meu próximo longão será no domingo, com 3 horas pelo litoral – embora esteja pensando em fazer um pequeno teste que possivelmente mude isso.
E se, ao invés de deixar o longão para o final de semana, o fizer na sexta a noite? Alguns amigos meus o fazem como maneira de poupar o sábado para a família e nao nego que isso já passou pela minha cabeça algumas vezes. Claro: esse é um tipo de mudança que altera todo o estilo da corrida: mesmo que consiga sair do trabalho às 18, algo difícil, ficaria rodando por parques até as 21:00, já tarde.
Ainda assim, talvez valha um teste – uma espécie de rereplanejamento. Veremos nos próximos dias.
Mais mudanças, claro, virão na semana que vem. Estarei no Pontal do Maceió, com possibilidade de correr na areia da praia e sob o sol escaldante, perfeito para sessões diferentes de treino.
Espremerei 4 dias de treino no período, incluindo um longão na sexta de 3 horas. Nesse aspecto, aliás, estou na mais pura empolgação: mudanças de cenário, principalmente as mais drásticas, são sempre bem vindas.
E, no final das contas, tudo isso servirá também de teste, de experiência para ver como corpo e mente se adaptam a rotinas diferentes.
Sábado sem longão :-(
Receita básica: como domingo tem ultra, sábado é dia de descanso. Descanso, afinal, também é treino.
Poucos bordões são tão repetidos quanto este no mundo das corridas.
Só que passar as primeiras horas do sábado desbravando a cidade sobre os pés é um hábito já tão arraigado em mim que dormir até tarde, descansar, trocar o tênis por uma manhã preguiçosa, parece simplesmente errado.
Esquisito? Totalmente.
Eu, pelo menos, não conheço ninguém mais que prefira evitar um sábado de manhã como este ilustrado na foto.
Ultra longão para testar os sistemas
Hoje já acordei com o “mode ultra” ligado: por volta das 7:00, sairia para o longão mais importante do ciclo de treino antes da largada em Santa Bárbara.
No total, o percurso incluía 8km de casa até a USP por um caminho mais longo, 4 voltas na USP e o retorno até minha casa por uma rota de, aproximadamente, 5km. Somando tudo, chegaria a 45km.
E, de fato, cheguei – mas a avaliação deste longo foi bem pior do que eu imaginava.
Já na saída, o corpo ainda cansado do esforço acumulado das últimas semanas avisou que nada seria tão simples. Segui com o plano: 30 minutos de corrida a um pace conservador para 1 minuto de caminhada, economizando energias e simulando uma estratégia semelhante à que devo usar em Comrades.
Lá pelo km 30, no entanto, o cansaço bateu forte. Cedo demais, o que já me deixou tenso.
As pausas para caminhada se tornaram mais frequentes, as subidas da Rua do Matão mais lentas e os paces, de forma geral, ainda mais conservadores. Somando as dores ao tédio de um percurso feito de 4 voltas idênticas sob um calor que já batia os 31 graus, o sofrimento da musculatura como um todo foi grande.
Ainda assim, claro, cumpri o plano: fechei as voltas e tomei o rumo de casa, parando apenas para tomar uma Coca e recarregar a dose de açúcar.
Curiosamente, o tempo fechou e uma tempestade começou a desabar sobre a cidade, aliviando a temperatura. Ponto importante: aqui, o percurso parecia magicamente outro: mais frio, chuvoso e sem repetir trechos uma vez que estava a uma reta de casa. Resultado? Aquele lugar escuro em que estava, difícil, dolorido e tenso, par dizer o mínimo, lentamente foi desaparecendo. Foi como se tivesse atravessado o “muro” e, na altura do km 40, me transformado em outra pessoa.
Fechei os 5K restantes em um estado muito melhor, quase sem pausa para caminhada, chegando em um estado muito melhor do que estava a apenas poucos quilômetros antes.
Ainda assim, o tempo foi alarmantemente ruim, mesmo para um treino programado para ser conservador: 5h30, aproximadamente.
Mas longos de teste servem para isso: fazer um assessment geral e detectar pontos de ajuste no treino antes da largada. E é nisso que devo me dedicar agora, nos próximos dias.
Ritmo errado
Depois de dois dias de descanso total para me recuperar de algumas estranhas dores pelo corpo, chegou o sábado.
4 horas de treino previstas em um local mais “fácil”, com menos ladeiras e trânsito praticamente inexistente: a USP, meca dos corredores de rua aqui em Sampa.
Saí às 8 em ponto – talvez um pouco tarde dado o calor senegalês que se abateu sobre a cidade neste final de verão.
Talvez, não: com certeza.
Os primeiros quilômetros em direção à Marginal, ainda em um pace relativamente firme no sub-6′, já alertaram para as dificuldades. Clima desérticamente seco, termômetros subindo sem parar e um céu com pouquíssimas núvens guiaram o meu caminho de pouco mais de 8km até a Cidade Universitária.
Lá dentro, acompanhado pelas hordas de corredores e ciclistas que vivem nas ruas da USP, a ideia era dar 3 voltas (também com cerca de 8km cada) e retornar. Ou seja: faria, assim, algo como 40km no longão.
Faria.
Lá pelo quilômetro 15, o abdômen voltou a incomodar mais do que deveria e a cabeça, a pesar com o sol.
Diminuí o ritmo, comecei a intercalar com um pouco de caminhada e, por um tempo, tudo melhorou um pouco.
Foi só encarar o retão próximo à Raia Olímpica, no entanto, que todas as dores voltaram. Correr passou a ser algo menos natural, mais difícil. Desacelerei.
Entrei na trilha, já consciente de que cortaria a terceira volta, para mudar de ares. Trilhas são sempre um bom remédio.
Sob a sombra das suas árvores, melhorei um pouco e encarei a segunda subida do Matão.
Não deu: andei por parte dela. Voltei a correr.
Na descida até o portão voltei a acelerar, fazendo pouco mais de 1km em ritmo de Usain Bolt. Fui bem, estranhamente confortável.
Quando cheguei no plano novamente, troquei de marcha e decidi me encaixar em um pace mais leve e compatível com o estado do corpo.
Quer saber? Funcionou maravilhosamente bem.
Como saí de casa em jejum (algo que sempre faço, aliás), parei em um boteco a uns 5km de casa e tomei uma Coca. Açúcar cairia bem naquele ponto.
De lá em diante, não posso dizer que tive uma corrida perfeita: o estrago, afinal, já havia sido feito.
Mas consegui correr relativamente bem, fechando quase 32km em 3h30.
O longão de hoje não foi exatamente algo incrível – mas me ensinou uma lição importante: ritmo bom é aquele que nos permite chegar no melhor estado possível à nossa meta.
Parece óbvio, claro: mas, no calor dos treinos e na ansiedade de se superar marcos pessoais, isso acaba se perdendo no esquecimento.
Se tivesse sido mais conservador já no início eu certamente não teria quebrado como quebrei no longão. Tudo bem: que a memória do erro sirva de combustível para o próximo.
Mas há, ainda, algo a mais que também não posso ignorar: há algo de errado com o meu estômago, que tem estado em uma espécie de constante estado de dilatação e doendo mais do que deveria. Nutrição, talvez?
Não sei a causa exata – mas certamente é algo que merece ser observado mais de perto nos próximos dias.
O sábado que fecha um capítulo (e abre outro)
Faz tempo que não descanso em um sábado. Normalmente não curto isso: é um dia inteiro que considero perdido não apenas sob o aspecto do treino, mas (talvez principalmente) pelo bem que ele me faz ao proporcionar horas perdido nos próprios pensamentos e por caminhos diferentes da cidade.
Mas hoje, verdade seja dita, a realidade é outra.
Hoje estou encarando esse descanso mais como uma espécie de marco de diferentes fases de treino. Quando se coloca uma quebra mais brusca, mais radical, na rotina, se informa também ao corpo que algo está prestes a mudar – e essa informação acaba sendo vital para que ele se prepare melhor.
Hoje é como aquele momento de plena calma antes de alguma tempestade, com aqueles instantes mais elétricos em que tudo está prestes a acontecer – mas nada efetivamente acontece.
Hoje é o dia que marca o fim de um capítulo e o início de um outro, mais voltado para ganho de velocidade sem perda de endurance. Há duas ultras pela frente, afinal, e ambas ainda no primeiro semestre.
Hoje é hora de dizer ao corpo e à mente que está na hora dos dois ficarem mais sérios.
Começando por amanhã.
Checkpoint semanal: Olá, longão!
Estava com saudades de um longão realmente descente.
Nos últimos tempos, tenho feito corridas mais curtas e buscado mais velocidade nelas – pelo menos até a Maratona de Sampa. Depois disso, acabei entrando em uma espécie de vácuo de overtraining, me recuperando mais lentamente do que desejava. Mas o fato é que me recuperei – e, ontem, depois de muitas semanas, fui para a rua sem muita hora para voltar.
Foram, na prática, 3h23 somando pouco mais de 30,6km. Um ritmo lento, admito – mas velocidade não estava exatamente nos planos. A ideia era apenas sair de casa, entrar na USP e aproveitar o máximo de duas voltas por lá, sorvendo cada raio de sol, cada visual e cada gota do clima de corrida que domina todo aquele ambiente.
Não vou mentir que cheguei bem cansado de volta – 30km são 30km em qualquer que seja a fase do treino. Mas cheguei bem e pronto para fechar a semana com uma corrida mais acelerada hoje, onde usei pela primeira vez o Salomon S-Lab Ultra na trilha em volta do Ibirapuera. Mas isso fica para outro dia.
Por hora, vão apenas os meus gráficos acumulados e a satisfação de ter quebrado, novamente, a marca dos 30km em um sábado como outro qualquer.








