Desobediência gerando endorfina

O dia passou. 

À noite, entrando no hotel, nenhuma dor muscular falava mais alto do que a vontade de cruzar a cidade a pé.

Gosto de correr em cidades pequenas: há um vazio nas ruas, uma rápida familiarização com as esquinas, uma sensação singular de calmaria que não se conhece em São Paulo.

Atravessei Joinville no breu, iluminada apenas por meia dúzia de postes que teimavam em funcionar, seguindo até o Batalhão, lugar que vira pista de corrida às manhãs e noites.

Acho curioso que um dos locais que a cidade elegeu como point de corrida seja um quarteirão de pouco mais de 1km. Mas fui, ora desviando de idosos, ora cortando troteiros mais calmos, ora me emparelhando com outros corredores. De ponto a ponto foram 10km cravados, incluindo neles algumas subidas que encontrei no caminho e ruelas com casinhas bucolicamente cuidadas, do tipo que se encontra apenas aqui pelo sul.

O frio leve ajudou a fazer o pace deslizar mais leve, bem como a absoluta falta de movimento por todos os cantos em que aportava. Estava, de fato, uma noite perfeita para correr.

Em pouco mais de 50 minutos estava de volta, ofegante, na porta do hotel. Ainda era cedo, antes das 21, e essa estranha sensação de tempo livre foi bem vinda. Cheguei até a pensar em dar uma outra volta – mas seria demais. 

Subi para o quarto e fiquei lá olhando o teto, imóvel, apenas respirando. 

Sem absolutamente nenhuma dor do tipo que estava pregando minhas pernas.

Correr foi mais analgésico que eu imaginava. Acho que, às vezes, uma boa dose de desobediência pode gerar uma medida exata de endorfina.

  

O que eu deveria fazer vs. O que eu com certeza farei

Minhas pernas estão moídas. Coxas parecem ter sido mastigadas e cuspidas pelo asfalto, panturrilhas reclamam incessantemente e até algumas articulações já mostram sinais de insatisfação. O que eu deveria fazer?

É óbvio: aproveitar hoje e amanhã, dias que estarei em viagem de trabalho, para dar ao corpo o tempo que ele precisa antes de retomar a semana de treino que, por coincidência, está programada pra ser leve. 

Dormi com esse plano.

Acordei com esse plano.

Mas, quando o taxi para o aeroporto chegou, voei até o armário e enfiei tênis e roupa de correr na mochila antes que pudesse pronunciar a palavra “não”.

Sei o que devo fazer: nada.

Mas também sei o que provavelmente farei: um trote leve cortando a cidade.

  

Descansar (realmente) também é treino

Não durmo muito. Quando se tem uma filha de 3 anos, uma empresa própria e se escolhe correr ultras como esporte, o sono é a primeira coisa que acaba sacrificada. 

Com o tempo, me acostumei com isso ao ponto de ficar com culpa sempre que durmo algo na casa das 7 horas – uma eternidade. 

E, claro, isso tem lá os seus problemas. A recuperação muscular é um deles: esperar que as pernas não demonstrem qualquer sinal de dor quando o máximo de descanso concedido a elas é ficar um punhado de horas trabalhando sentado é irreal. 

Irreal mas, ainda assim, algo com o qual me acostumei. Veja: não reclamo da minha capacidade de regeneração. 2 ou 3 dias depois de uma ultra estou novo, pronto para tomar as ruas de novo, motivado até o limite por conta de algum próximo desafio. 

É que tudo nesta vida é relativo. 

Estar novo, para mim, é acordar com uma dor nas pernas leve mas constante ao ponto de ter se transformado em paisagem. Algo que não atrapalha em nada – embora obviamente fosse melhor passar pelo menos algum tempinho realmente sem sentir nada. 

Pois bem: no domingo à noite vim para Joinville, onde tive uma reunião na segunda. Cheguei às 18:30, mas a reunião seria apenas às 10:00 do dia seguinte. 

Sabe o que fiz? 

Dormi. Muito. Algo como 9 horas inteiras, uma espécie de anormalidade principalmente considerando que acordei sem despertador, por conta própria e sem precisar correr para nada. Tinha tempo para tomar um banho calmo, mastigar o café da manhã e ainda escrever um post para o blog antes do dia se atribular. 

E foi sentado na recepção do hotel que, subitamente, me dei conta que não sentia nada – absolutamente nada – nas pernas. 

Me concentrei nelas. Contraí a musculatura. Andei de um lado para outro. 

Nada. 

Era como se eu sempre tivesse sido sedentário, tamanho o relaxamento muscular!

Foi aí que caiu a ficha: todas aquelas pessoas que pregam o poder de cura do sono, que bradam que descanso também é treino, estão realmente sendo verdadeiras. Curti a sensação. 

Honestamente, não sei quando terei novamente o tempo para dormir de maneira tão densa, fazendo a noite cuidar das pernas. Mas já está claro que é um remédio muito melhor que qualquer anti-inflamatório. 

  

Checkpoint: fim de ano à vista

O ano está acabando.

Isso começa a ficar nítido na medida em que semanas são encurtadas e confraternizações começam a aparecer no calendário.

Sim: estamos em novembro ainda. Mas as próprias decorações de Natal alinhadas por qualquer percurso que se escolha deixam claro que 2015 está querendo – e muito – chegar.

Essa semana foi diferente.

Com viagens na segunda, sexta e sábado, consegui apenas espremer 4 corridas. Compensei aumentando a distância – mas os caminhos que escolhi, incluindo uma trilha súbita lá em Joinville e outra urbana, hoje cedo, aqui em Sampa, não privilegiaram pace. Meu treinador provavelmente brigará comigo, mas não me arrependo.

Ironicamente, a semana curta me fez saboreá-la mais e sentir melhor cada passo dado na rua.

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Uma trilha súbita

Dizem que, quando começamos a nos interessar por algo, os olhos ganham uma espécie de agudeza quase sobrenatural para localizar o que a mente mais deseja.

Faz sentido: os olhos, afinal, são grudados à imaginação e tem por objetivo nos guiar pelas manifestações físicas do que ela concebe em seu estado quase onírico de liberdade constante.

Correr em trilhas é um exemplo perfeito disso.

Quando sequer se sabe da existência desse esporte, trilhas parecem coisas distantes e exóticas, encontradas apenas em filmes de aventura ou fotos de revistas. A vida, afinal, acontece na cidade.

No entanto, basta despertar o interesse que descobrimos que mesmo os centros mais urbanos tem um pouco de selvageria escondida. É só saber procurar.

Foi o que fiz hoje cedo, quando acordei antes dos primeiros raios do sol aqui em Joinville, Santa Catarina.

Vim a trabalho ontem e acabei dormindo na cidade, o que sempre é uma boa oportunidade para explorar um pouco o desconhecido. Das últimas vezes que estive aqui acabei percorrendo circuitos tradicionais: a Beira Rio, a volta do Batalhão etc. Tudo tediosamente pacato, organizado e tão simples quanto uma esteira.

Hoje teria quase 2 horas para mim – tempo de sobra para sair do lugar comum.

A primeira coisa que fiz foi olhar o Google Maps: lá, no final da XV de Novembro, parecia haver um morro; havia um ponto no meio dele – possivelmente um mirante ou uma torre de TV; e o caminho certamente não era asfaltado, ao menos não no todo. Perfeito.

Ainda antes do sol nascer, em uma manhã sufocada por núvens e uma permanente ameaça de garoa, parti quebrando o silêncio com as passadas.

Levei o tempo necessário para aquecer: estava cedo e não adiantaria muito entrar na montanha com tudo escuro. Fui leve, passeando pela cidade adormecida e cruzando ruas vazias como se o tempo estivesse pausado.

Até me deparar com o morro.

De início, havia uma rua íngreme, com paralelepípedos se perdendo em meio a um matagal fechado e úmido.

Subi alternando trotes com caminhada. Faz algum tempo que caminhar deixou de ser palavrão para mim: normalmente, o ato em si significa que estou em alguma trilha, ladeira ou ambiente que precisa ser degustado sem pressa. Pace perde relevância nesse esporte.

De repente, a rua se fundiu com uma estradinha de terra. Continuei.

A estradinha cedeu lugar a uma trilha pequena, meio sinuosa e em subida constante. Segui.

Não dava para dizer que a vista estava incrível: quanto mais eu subia, mais espessa ficava a neblina. Em um ponto, a visibilidade não passava de 2 ou 3 metros.

Ao redor de mim só sons de pássaros, folhas se batendo contra o vento e cheiros do verde molhado. Estava já claro e a umidade abafada formava um clima absolutamente tropical.

A cidade já começava a despertar a apenas 20 ou 30 minutos de mim – mas parecia que eu estava no meio de uma floresta perdida no mapa.

Era um outro mundo, exatamente o tipo de escape que eu buscava para exercer a solidão.

Em um dado momento cheguei ao cume: um fim de linha sem vista ou beleza excepcional, marcado pelo que de fato era uma torre de TV.

Tudo bem: a missão do dia estava cumprida e o tênis, enlameado e quase irreconhecível, parecia feliz.

Voltei voando morro abaixo, parando apenas para tirar algumas fotos e tomando o rumo do hotel.

Entrei novamente na civilização, que agora já continha alguns carros e pessoas dando movimento ao cenário, e cruzei por ruas e avenidas.

A vida havia retornado à sua normalidade urbana. Estava de volta à realidade, exalando um intenso agradecimento tanto à mente, por ter demandado esse escape, quanto aos olhos, por ter achado o caminho.

Ter conseguido fugir do asfalto e me ver em meio a uma “súbita floresta”, mesmo que por um punhado de minutos, foi como ter um instante surrealista traçado com as pálpebras abertas.

O que mais se pode esperar das trilhas?

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