Vídeo: hora de se inspirar com um mini-documentário sobre Hardrock 100

Uma das ultras de trilha mais famosas é a Hardrock – uma prova de 100 milhas que inclui 10.300 metros de subida e mais 10.300 metros de descida. Em um percurso extremamente técnico, há pessoas que desmaiam, aproximam-se perigosamente de hipotermia e enfrentam todo tipo de problema físico e mental.

Não dá para dizer que sou apaixonado por trilhas técnicas – mas não dá também para negar que elas são as mais belas. Recentemente a Hoka publicou em seu canal um vídeo com a cobertura da prova incluindo pílulas de todas as dificuldades e maravilhas pelas quais os corredores passam.

Vale a pena ver – nem que seja para se inspirar com o mundo:

 

Hora de correr

Correr é uma forma de escape.

Não escape no sentido de fuga, de esquecimento temporário da realidade que se impõe sobre nós com todos os seus problemas e asperezas. Escape no sentido oposto: o de mergulho tão intenso nesta mesma realidade que ela se torna mais palpável, nítida, mensurável.

A cada passada, a cada intervalo, uma conclusão sobre algo se desenha. Nos entendemos melhor, nos enxergamos, nos perdoamos, nos perdemos. Em nós mesmos, por mais reto e repetido que seja o percurso.

Correndo, os problemas não são esquecidos ou varridos para debaixo de um tapete. Eles são resolvidos como equações matemáticas, um a um, mesmo quando nos esforçamos arduamente para não enxergar nada além das próprias passadas.

Irônico: é justamente nesse escape do cotidiano que conseguimos resolver melhor os problemas que mais o assolam.

Pensando bem, há, sim, uma fuga: a do cansativo esforço consciente para achar as soluções que o inconsciente parece conhecer incrivelmente bem. Nessa fuga, a barreira que os separa, que se prostra entre o que sabemos e o que acreditamos ainda não saber, se atenua, se acinzenta, fica porosa ao ponto de permitir um tipo de intercâmbio semi-onírico de conclusões. Decisões simplesmente parecem brotar, óbvias, inteiras.

No intervalo entre uma música e outra no iPhone, ao cruzar o portão do Ibirapuera, ao diminuir o ritmo para que um ciclista desatento passe sem perigo. A vida inteira parece se autoresolver no instante entre passadas. Entre pingos de suor.

Às vezes tudo o que precisamos é justamente deste escape para achar soluções sem esforço – mesmo porque esforço demais destroça qualquer tentativa de sanidade mental.

Essas semanas estão recheadas de problemas.

Ainda bem que está na hora de correr.

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Checkpoint 4: Lidando com a exaustão

Dentre todas as semanas – provavelmente desde que comecei a me preparar para a Comrades, ainda no ano passado – essa foi a que a exaustão mais apareceu. Não pelo esforço físico em si: este realmente ficou em um distante segundo plano. Mas o trabalho foi tão intenso, tão além do humanamente plausível, que seus efeitos se alastraram pelas outras esferas do cotidiano.

Por conta disso, perdi um treino – que, embora leve, foi tempo na rua desperdiçado. Por conta disso, enfrentar o longão ontem foi cansativo ao ponto de fazê-lo um pouco chato, “desempolgante”. Por conta disso, todos os meus indicadores pessoais, que podem ser vistos nos gráficos abaixo, caíram.

Mas, enfim, faz parte. Não somos máquinas, afinal.

Hoje, no entanto, decidi fazer algo diferente para recuperar a energia: ser acordado pelo fim do sono (e não pelo despertador). Nada de madrugar: se não conseguisse me recompor, em poucos dias certamente desabaria com alguma lesão, gripe ou qualquer coisa que costuma vir com excesso de estresse. E não é que deu (muito) certo?

Descansado, saí mais leve para o trote do domingo. Apenas com a rua, o céu azul que iluminou Sampa, a temperatura amena e música: tem coisa melhor?

Tem: o resultado de se ouvir o corpo. Curiosamente, a energia que estava escondida, tímida, pareceu dar as caras. Desisti do trote programado e fiz uma tempo só para animar um pouco, para deixar as pernas acompanharem a vontade. E assim foram mais ou menos 40 minutos a um ritmo de 4’40″/km que pareceram tão leves que cheguei a questionar se o relógio estava correto!

Estava sentindo falta – muita falta – de ter uma corrida assim. Descompromissada mas intensa, solta mas absolutamente satisfatória.

Para a semana que vem, o ritmo deve apertar e a volumetria subir – mas o trabalho deve ser, senão light, pelo menos bem mais leve do que essa última semana. Pelo menos é o que espero!

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Quando a mente corre sem as pernas

Há qualquer coisa com o clima que traz à tona uma vontade incrível de sair para as ruas.

Estive ontem em Brasília a trabalho. Bate-volta: peguei o vôo das 6:30 saindo de Congonhas e às 18:30 já estava no avião de volta para casa.

Mas nessas 12 horas que passei na Capital, entre uma e outra reunião, me peguei invejando alguns corredores que passaram por mim em direção ao Parque da Cidade.

Tudo estava perfeito para eles: o céu azul brilhante do cerrado, a temperatura amena, o ar gostoso, o verde amarronzado da vizinhança convidativo.

Passaram leves, quase flutuando pela outra dimensão que toma conta dos corredores quando os corpos se sintonizam no vai-e-vem das pernas. Pareciam extraterrestres, de certa forma, alheios a todas as pessoas que, como eu, estavam com agendas e pendências nas mentes brigando entre si.

Mas, naquele punhado de segundos em que parei para invejar os corredores brasilienses, acabei entrando no mesmo clima. Na mesma zenitude, na mesma atmosfera. Foi como se a minha mente tivesse conseguido correr enquanto o corpo se sedentarizava.

Chega um ponto em que a corrida se torna um hábito que independe das pernas.

Estas, no entanto, ficaram ansiosas. Queriam largar tudo, se levantar e seguir as camisetas coloridas até o Parque; queriam produzir ácido láctico, colocar o restante do corpo em movimento, cansar.

Bom sinal. No começo da semana – que, diga-se de passagem, foi absolutamente turbulenta – estava preocupado com overtraining e estafa mental. Minha receita foi desistir do regenerativo da segunda e empurrar a a planilha para hoje, quinta.

Funcionou. Graças aos céus do cerrado, aos corredores anônimos, ao Parque da Cidade e à agenda turbulenta fiquei prontinho para recomeçar.

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Intervalados, tiros, fartleks e estrutura: quando cada treino conta

Ontem foi dia de 10 tiros de 1′ (buscando praticamente a velocidade da luz) com 4′ (longos demais) de trote.

Hoje tem 4 fartleks.

Amanhã ou sexta (dia ainda a ser definido), tempo runs.

Regenerativo só no sábado, para me preparar para a prova do domingo.

Os treinamentos nem sempre tem esse cronograma exato, mas tem carregado um traço em comum: cada dia na rua conta. Nada de passar uma horinha correndo à toa em um pace que não agregue algo – seja velocidade, resistência (em caso de ladeiras) ou mesmo descanso ativo. No total, muito embora um aumento no volume esteja previsto para breve, tenho rodado menos que o que estava habituado. Mas tudo está tão estruturado que, ao que parece, o ganho está maior do que qualquer eventual perda de endurance.

O primeiro teste mesmo não será nem neste domingo – tenho certeza de que, independentemente do terreno, 27K serão relativamente fáceis. O primeiro teste será no Indomit, em agosto.

Até lá – como qualquer treinamento, diga-se de passagem – tudo é especulação. Especulação e expectativa.

Uma coisa, no entanto, não dá para desconsiderar: há uma sensação de melhora na forma geral, tanto do ponto de vista de velocidade quanto de endurance, que parece estar ficando bem clara.

Veremos como ela se concretiza nas trilhas reais!

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A expectativa primeira prova

Domingo tem a minha primeira prova de trilha. Fora o processo de treinamento como um todo – incluindo todas as decisões que me trouxeram até aqui – será o primeiro teste concreto do meu preparo para encarar, em setembro, o DUT.

O lado negativo é que as informações sobre a prova realmente são parcas: o site da Ultrarunner é esquisito demais e, mesmo em redes sociais, o volume de conversa de outros corredores sobre ela beira o nada. Mas tudo bem: não dá para comparar uma corrida de trilha local com a organização da Maratona de Chicago. E nem era esse o propósito.

Vamos então com as informações que existem – e que basicamente se resumem à imagem abaixo:

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Pelo mapa, pode-se entender que o percurso inteiro, de 27km, será em montanhas. O ganho de elevação será relativamente pequeno, com três subidas (sendo que apenas a primeira e a última são “complicadas”). No total, o ganho altimétrico será de cerca de 500m – bem menos, por exemplo, do que eu fiz no Pico do Jaraguá (830m em 15km). Sob esse aspecto, não me parece que seja nada assustador.

Minha maior dúvida é com relação ao tipo de terreno: não sei até que ponto haverá rios a serem cruzados, ambientes mais lamacentos, subidas ou descidas mais técnicas etc. Mas isso realmente eu não descobrirei antes da prova.

Verei ainda se consigo algumas fotos ou vídeos (o que está no site da Ultrarunner não abre). Até lá, é só expectativa para esses primeiros 27km nas montanhas!

 

Checkpoint 2: Olá, trilhas e altimetria!

Sério.

Se há uma palavra que possa definir essa etapa do treinamento, é esta. A sensação que tenho é que cada saída para a rua vale algo, representa algum tipo de ganho em alguma parte do corpo ou mente.

Na terça, por exemplo, eu fiz intervalado; na quarta, um regenerativo que acabou saindo do controle e sendo longo demais; na quinta, uma série de tempos; no sábado, longos no Pico do Jaraguá com direito a uma trilha sensacional; e hoje, domingo, uma corrida leve, de 1h20, para soltar um pouco o corpo. Quando o desafio não foi gerado pelo pace, foi pelo terreno.

O resultado fica claro quando se analisa planilha versus estado do corpo: no total, fiz apenas 65km essa semana – bem menos que os 90 que fazia em uma semana médio de Comrades. No entanto, estou com dores musculares bem mais fortes nas coxas e panturrilhas, provavelmente por conta da subida da Trilha do Pai Zé, lá no Jaraguá, e com as costas mais pesados por carregar a mochila de hidratação comigo a cada corrida.

Ou seja: estou fazendo menos quilômetros, mas com a sensação de que eles estão valendo mais. Sei, no entanto, que isso não é o suficiente: preciso estar em uma forma bem melhor para enfrentar o DUT em setembro e isso já começa a me preocupar um pouco.

Ainda não peguei com o Ian as planilhas dessa semana, mas imagino que siga o mesmo ritmo. No domingo terei ainda o bônus da minha primeira corrida de trilha, em Campinas, de 27km – e estou bem ansioso para ela! Vamos ver como me saio nesse novo mundo.

Vontade, motivação e treino, pelo menos, não faltam.

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Checkpoint 0: A largada

Depois de uma semana praticamente parado, esta serviu para reaquecer os músculos e fixar na mente novos objetivos. E, de uma coisa ficou clara, foi que o caminho será no mínimo diferente do que o que trilhei rumo à Comrades.

Primeiro, pela existência de um treinador experiente.

Segundo, pelo estilo mais puxado aplicado aos treinos, incluindo tiros, repetições em morros e muitos tempo runs.

E, terceiro, pelo óbvio: trilha é diferente de asfalto.

Nessa semana já fiz as minhas adaptações às planilhas que recebi do Ian, buscando me focar em uma espécie de ponto comum entre o que ele manda e o meu bom senso. Está certo seguir assim? Não sei – mas descobrirei com o tempo. Na sexta, por exemplo, cancelei um treino em morros por estar com algumas dores fruto da semana pesada.

Ontem e hoje, por outro lado, aumentei BASTANTE o que ele tinha prescrito por simples sentimento de falta de quilômetros no corpo.

No total. terminei a primeira semana de treinamento assim:

  • Km rodados: 61,69km
  • Tempo de rodagem: 06:09:13
  • Pace médio: 05’59”
  • Ganho altimétrico acumulado: 650m

Terei, nesta terça, um Skype com o Ian para negociar algumas adaptações na planilha que ele me manda, incluindo principalmente duas: a redução da carga de 6 para 5 dias por semana (mesmo aumentando o volume por dia) e a inserção dos treinos em morro nos dias de longão por uma questão de praticidade (uma vez que poderei fazê-los melhor na USP ou no Pico do Jaraguá).

Ainda não sei o que ele falará sobre isso mas, no meio tempo, segue o planejado do semana. Detalhes podem ser vistos clicando no calendário do Garmin, aqui.

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Eis o Ian Corless, meu Sherpa nessa nova jornada

Quem me conhece ou acompanhou o blog anterior, Rumo a Comrades, sabe que nunca me dei tão bem com treinadores. Por algum motivo qualquer, quando passava a seguir as suas planilhas, ignorava todo e qualquer sinal do meu corpo. Sim: tinha plena ciência do tamanho da estupidez que fazia – mas simplesmente não conseguia agir de outra forma.

E, assim, com MUITA pesquisa, leitura e estudo, acabei me guiando sozinho por uma série de maratonas e duas ultras, sempre saindo inteiro delas, com resultados que me orgulho e sem nunca ter me lesionado. OK, tudo ótimo… mas trilha é outro bicho.

A mera noção de fazer, sozinho, um treinamento para uma ultra em montanha – terreno que desconheço completamente e sobre o qual há muito menos referência – seria algo ingênuo, infantil. Assim sendo, mergulhei na Web.

Acompanhado da força da globalização, fui atrás dos meus ídolos: Kilian Jornet, Ian Sharman, Sage Canaday, Emelie Forsberg, Anna Frost, Fernanda Maciel etc. Dificilmente conseguiria que um desses heróis das trilhas sequer prestasse atenção em mim – e então busquei algo ou alguém que todos tinham em comum. A resposta veio na hora: Ian Corless, um dos maiores blogueiros de ultra do mundo e responsável pelo podcast TalkUltra, que ouço nos meus longões já faz tempo.

Sem medo, entrei em contato com ele. E a resposta foi absolutamente positiva.

Ian é corredor, podcaster, blogueiro e fotógrafo de ultras. Sua vida gira em torno das trilhas, o que o permite conhecer a fundo estratégias, táticas e pequenos segredos dos maiores atletas desse esporte. E, claro, também treina corredores mundo afora.

Meu briefing para ele foi direto: transicionar do asfalto para a trilha em 3 meses, a tempo de pegar a Réccua Douro Ultra Trail com a confiança de poder terminar inteiro.

Desafio topado, primeiras planilhas mandadas, primeiras corridas já feitas.

De antemão, o que posso dizer é que ele não pega nada leve: nessa primeira semana já há sessões com tiros de 10 minutos, repetições em morro e tempo runs de 50 (!) minutos!

Do lado de cá, vou procurar seguir tudo – mas sem repetir erros do passado. Sinais esquisitos do corpo gerarão alertas que procurarei documentar logo depois do treinamento (antes da minha mente me forçar a ignorar problemas para seguir planilhas).

Como será esse novo processo, com treinador a distância por uma jornada absolutamente desconhecida? Nem ideia.

Mas em breve descobrirei.

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O “relax organizacional” das corridas de trilha

Uma das dificuldades para quem está mudando das ruas para as trilhas é a falta de informações – sob todos os aspectos.

Pudera: todos os finais de semana, circuitos de rua levam milhares de corredores para linhas de largada – o que também significa milhares de reais em faturamento. Com mais dinheiro, vem mais investimento, incluindo sites bem elaborados, mapas claros de percurso e mais repercussão em sites e veículos especializados, seduzidos tanto pela demanda quanto por acordos publicitários. Não há mal em nada disso: afinal, organização de corridas é um negócio que, como todo negócio, existe para dar lucro. E a busca pelo lucro, por sua vez, é o melhor combustível que motiva organizadores a tratar bem e mimar corredores/ clientes (exceto no caso da Yescom, que faz tudo errado o tempo todo e, contrariando as leis do marketing, sobrevive).

Quando se muda para as trilhas, no entanto, os números são todos menores. Há poucas centenas – e não muitos milhares – de atletas interessados; os percursos são mais escondidos (e, portanto, menos chamativos); e mesmo os esforços de divulgação são parcos. Achar um evento depende muito mais do esforço incessante do atleta do que da capacidade de marketing do organizador.

Bom… no caminho até a Réccua Douto Ultra Trail, coloquei como meta fazer pelo menos uma corrida de trilha de distância razoável. Procurei, procurei, procurei.

Até que achei uma próxima e, com muito esforço, me inscrevi. No dia 6 de julho, em algum lugar perto de Campinas (no Bar do Vicentão, para ser mais “exato”), largarei na etapa Ponte Queimada do Circuito Mundo Terra Pé na Estrada.

Serão 27km em um percurso sobre o qual não consegui nenhuma informação e, portanto, não faço a menor ideia. Chega a ser divertido, assim como o esquisitíssimo site da Ultrarunner Eventos (imagem abaixo), que organiza a prova.

Bom… acho que devo encarar isso como as boas vindas ao mundo mais “organizacionalmente relaxado” das corridas de trilha :-)

E agora… agora é esperar para sentir como será esse primeiro teste!

Circuito Pé na Estrada