USP deliciosamente vazia

Havia algo de estranho quando entrei na USP no sábado passado para fazer os meus 50K.

Normalmente, toda aquela região é tão coalhada de corredores e ciclistas que se tem a sensação de se estar em uma espécie de versão esportiva das ruas de Mumbai: o trânsito é caótico ao ponto de não se entender como ele chega a funcionar.

E – apesar de notícias de um ou outro atropelamento de vez em quando – ele funciona.

No sábado, tudo estava diferente. Não sei se por alguma regra nova que desconhecia ou por fechamento de ruas devido à Volta Ciclística 9 de Julho, a USP estava fechada para carros.

Sem carros, sem assessorias.

Sem assessorias, sem pessoas.

Como eu corro solo, levando minha própria água e sem depender de nenhuma estrutura, confesso que amei. Foi como se a USP estivesse inteiramente fechada para mim (e talvez para outros 2 ou 3 perdidos que dividiam os seus mais de 10K de percursos livres a arborizados comigo).

Some a isso um dia de sol perfeito com uma temperatura apenas levemente fria e foi como se os Deuses tivessem desenhado aquele dia com o máximo de esmero.

Como comentei, não sei se a USP permanecerá assim, fechada para carros e aberta para pedestres – mas, apesar de gostar do clima de esporte que costuma (ou costumava) dominar a região, confesso que não reclamarei tanto se essa mudança se perenizar.

  


 

 

 

50K perfeito por São Paulo

A maior dificuldade, a meu ver, para treinos focados em ultras, é a inserção dos longões de pico na rotina.

Como nem sempre dá para encaixar provas de montanha na planilha, às vezes é necessário improvisar e gastar o tênis no asfalto da cidade. A questão é: por onde? Ficar dando voltas e mais voltas no mesmo circuito é, na melhor das hipóteses, tão eficiente quanto entediante.

Atravessar os extremos da cidade também é complicado uma vez que a distância entre alguns dos pontos praticamente puxa a preguiça.

O percurso ideal, portanto, tem que ser circular (evitando ao máximo se repetir trechos por muito tempo) e com metas praticamente equidistantes, deixando uma sensação constante de proximidade de linhas de chegada imaginárias.

No último sábado acabei forjando um percurso circular de 50K que considerei perfeito para isso – tanto que, embora tenha chegado obviamente cansado, ainda tinha gás para rodar mais.

O percurso está aí, abaixo, bastando que se clique neste link ou na imagem para acessar mais detalhes.

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Pontos importantes:

  • Saí, claro, de casa. Todo percurso de treino tem que largar de onde moramos, pois isso facilita (e muito) todo o processo.
  • O Google Maps é essencial: basta dizer onde quer ir, colocar o fone e ouvir as suas instruções enquanto se corre. Perfeito para pessoas perdidas como eu.
  • Um percurso desses tem ainda pontos em que se pode ampliar o trajeto, caso necessário. Dá para se somar mais uns 10K, por exemplo, passando a Ponte do Morumbi e esticando até o Parque Burle Marx, fazendo algumas voltas nas trilhas de lá e voltando; da mesma maneira, voltas maiores pelo Ibirapuera podem garantir mais alguns quilômetros e uma outra esticada até o Parque da Água Branca pode somar uns 5K.
  • Para o trajeto, marquei os seguintes pontos: Jardim das Perdizes – Parque Villa Lobos – USP – Parque Burle Marx via Av. Morumbi (sendo que cortei antes, na Ponte do Morumbi) – Parque Ibirapuera – Jardim das Perdizes.

Será provavelmente este o trecho que repetirei ao menos para os próximos dois longões que tenho.

 

Checkpoint: Primeira ultra no treino feita

Foi uma semana complicada. Depois de duas com alto volume, depois de duas maratonas e com o bônus de eu ter me mudado de apartamento e viajado por 3 dias a trabalho na sequência, o corpo pedia descanso. 

Recebeu o oposto: na planilha, a semana passada, última do ciclo de 3 pesadas, seria fechada com 50K. 

De todos os dias, consegui levantar disposto apenas na terça, para os 20K na escuridão das primeiras horas da manhã paulistana. Depois disso, a força de vontade necessária para me erguer da cama foi tamanha que tive que inserir mudanças de planos. 

Na quarta acordei decidido a desistir. Desdesisti, como diria Guimarães Rosa, e corri à noite. 

Na quinta me senti seguro o bastante para ignorar o dia. Mudei de ideia e voltei correndo do trabalho para casa, fechando os 15K. 

Mesmo no sábado, que tende a ser um dia sagrado, foi necessária uma hora inteira para convencer o meu corpo de completar as 6 horas planejadas. 

A prova vai se aproximando na medida em que o corpo já começa a se desesperar por descanso. 

Tudo bem: esta semana, pelo menos, é mais leve. Bem mais leve. 

Ela precede um outro ciclo de alto volume – o último antes da prova – que me trará mais 3 pequenas ultras e será fechado na São Paulo City Marathon, se minha memória não me falha. 

Falta pouco.

Vídeo para matar saudades das trilhas do Cruce

Mesmo com parcos anos correndo em trilhas, posso dizer que poucos são os percursos tao deliciosos quanto os do Cruce. Claro: todo ano os percursos mudam – mas a região é sempre a mesma. 

E isso inclui trilhas lisas e absolutamente corríveis, montanhas belíssimas emoldurando lagos sensacionais ao fundo em três dias de pura endorfina. Quem não foi ainda, recomendo seriamente. 

Para quem foi, eis um vídeo que achei agora na Web com um programa gravado na edição deste ano para a TV espanhola:

Checkpoint: Foram-se as duas semanas mais chatas

Sob a ótica do treinamento, semanas chatas são aquelas tão carregadas de contratempos que o próprio ato de treinar se torna um desafio.

Pois bem: ontem, a última das duas semanas assim foi-se embora. Relembrando: na semana retrasada, além de viajar a trabalho, eu me mudei de apartamento; e, na passada, fiquei da quinta ao domingo em um evento, também a trabalho. 

Em ambos os casos os longões foram corridos em dias alternativos – segunda e quinta. Em ambos os casos fechei o domingo com aquela sensação de que ter conseguido treinar foi quase um ato milagroso. 

Pela minha planilha, essa é a terceira semana da série de 3 fortes e 1 leve. Nesta, no entanto, o longão não será mais uma maratona e sim uma pequena ultra de 50K no sábado. É sinal de que estamos chegando perto da data da prova.

Corrida de reconhecimento

No último domingo saí para uma corrida de reconhecimento no entorno da minha nova casa, bem no meio dos bairros de Perdizes, Pompeia e Barra Funda. O dia não poderia ter sido melhor: final de tarde de outono, céu cintilantemente azul, frio suave soprando o suor para fora do corpo com a gentileza de um primeiro amor.

Não era a primeira vez que corria por lá, claro – já rodei essa cidade de cima a baixo incontáveis vezes. Mas a sensação de pertencimento muda tudo: pela primeira vez eu estava me integrando, e não apenas visitando, o bairro. E, assim, com um qualquer coisa de soberba e orgulho, saí cruzando trilhos de trens, contrastes entre o novo e o velho, espaços boêmios, corporativos, residenciais. 

Rodei no parque do Jardim das Perdizes, beirei a ex-barra do Rio Tietê, peguei o Memorial da América Latina de Surpresa. No meu caminho, muitos fantasmas – desde os meus, pessoais, que me trouxeram até aqui, até os locais como os imigrantes italianos que ergueram a metrópole industrial. 

Passei pelas Indústrias Matarazzo, cruzei com operários cansados, vi o Prefeito Antônio Prado passar em revista à primeira linha de trem da cidade, ouvi sinos, apitos, burburinhos e barulhos de uma cidade cujo passado foi inteiramente feito de caça ao futuro. Neste futuro de então vi indústrias morrendo e sendo tomadas por prédios altos, vi os trens conhecerem os metrôs e os macacões sujos serem substituídos por ternos de auditores da Price. Tudo misturado. 

No meio dos fantasmas paulistanos, nascidos ou não na cidade, subi até o centro pelo Minhocão. Tomei a São João e cruzei a Ipiranga, deixando a boemia de um passado que não conheci para trás. Subi até o imponderável Edifício Martinelli, então marco do luxo e hoje lar de mendigos e odores indescritíveis. Saí seguindo até a Praça Roosevelt, depois Augusta, depois Paulista. 

Depois voltei. Cortei o Pacaembu, passando perto do estádio que urrava gritos de gol e fazia o chão tremer até chegar à Sumaré. Já com o sol nas suas últimas luzes, fiz a avenida inteira pela ciclovia, curcundei o Allianz Parque e entre novamente no meu novo bairro – novo tanto para mim quanto para a própria cidade, que só passou a reconhecê-lo oficialmemente há poucos meses. 

A volta de reconhecimento durou 22km quase exatos. 
Quando entrei no prédio era outro: estava diferente, mudado, como ficamos quando testemunhamos aqueles exatos momentos em que percebemos o início de um novo capítulo. 

De domingo em diante, a vida seria outra. 

 

Treinamento tridimensional

É impressionante como a preparação para uma ultra é tridimensional.

Há a dimensão óbvia: o corpo. Planilhas, atenção à forma, cuidado com as pequenas dores que, vez por outra, teimam em querer crescer, volume, intensidade.

Há também a dimensão nutricional: dificilmente se consegue sequer sobreviver a um treinamento mais pesado sem saber comer. No meu caso, isso incluiu até abandonar os carboidratos e adotar, de peito, alma e estômago, uma alimentação low-carb. Funcionou. Virou um estilo de vida do qual não consigo mais me afastar.

Mas essas duas dimensões, embora importantíssimas, nem de longe garantem o mais importante: a paixão em si pelo esporte.

É aí que entra a terceira dimensão: a espiritual.

O que ela considera? A criação peculiar de um universo paralelo, isento de responsabilidades com tempo ou espaço, para que se consiga mergulhar de cabeça em um determinado percurso.

Quando primeiro pensei em fazer o Caminhos de Rosa, fui alertado por muitos de que as duas maiores dificuldades seriam o calor e o tédio, principalmente considerando que o percurso inclui maratonas inteiras corridas sem contato com cidades ou povoados. A solução? Ora… se o caminho inteiro é inspirado nas obras do Guimarães Rosa, bastava mergulhar no universo já criado pelo mestre.

Estou lendo tudo, absolutamente tudo o que ele escreveu. Tédio? O percurso já está tomando ares absolutamente inspiradores, apaixonantes, até enigmáticos. Já dá para correr imaginando o bando de Riobaldo guerreando com os hermógenes, Manuelzão tocando uma boiada, Miguilim chorando a morte do Dito.

Já dá para amar o sertão mineiro antes mesmo de pisar nele.

Tem sido um treinamento com os olhos – e um dos mais gostosos de todos os que já fiz.

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Maratona em uma segunda à noite

Mudei os planos. Ao invés de espalhar a quilometragem pela semana por conta da impossibilidade de rodar o longão no sábado, dia em que me mudo, decidi fazer isso ontem.

Assim, saí imediatamente depois do trabalho para a rua, girando pela cidade. Claro: o frio intenso e a escuridão da noite mais longa do ano certamente não ajudaram – mas tudo sempre pode ser encarado como uma aventura a mais.

Saí de casa. Desci a Sumaré. Dei a volta no Allianz Parque. Cruzei os trilhos da Estação de Trem Água Branca. Subi até o Jardim das Perdizes, onde dei outra volta. Saí, cruzei o viaduto e margeei o Memorial da América Latina. Fui até o Parque da Água Branca, onde dei duas voltas. Saí. Voltei até a Sumaré. Subi até a Brasil e, de lá, peguei a Groenlândia. Margeei o Ibirapuera por fora uma vez. Entrei. Dei duas voltas por dentro. Saí. Subi a 9 de Julho até a Paulista. Fui até a Augusta e a desci até a Tietê.

Cruzei. Cheguei.

Melhor: apesar do cansaço que sempre bate com uma maratona, devo dizer que a quantidade que tenho feito está começando a me fazer encará-las como cotidiano. Não só terminei inteiro como rodei em um pace melhor do que tenho feito meus treinos de 15 ou 20K: 5’49″/km.

Quando cheguei em casa, claro, já estava alta noite. Foi o tempo de respirar, tomar um banho e desmaiar, embora a adrenalina tivesse empurrado o sono para depois da meia noite. 

Nesse intervalo de tempo, já deitado e sentindo o tilintar dos músculos rearranjando-se nas pernas, me peguei quase maravilhado com essa quebra de rotina: “Uma maratona rodada em uma noite qualquer de segunda. Deveria fazer coisas assim mais vezes…”