Checkpoint: A calmaria que antecede a tempestade

Leve de verdade. É a primeira vez que reduzo tão drasticamente o volume de treino durante o ciclo de preparação de uma ultra. 

O objetivo: dar um pouco de tempo ao corpo para que ele se “cure” entre um micro-ciclo e outro, claro. Se está funcionando? Só o tempo dirá. 

No total, rodei pouco mais de 50K essa semana – bem menos que os 90 da anterior. Destes 50, metade foram entre ontem e hoje, uma concentração que talvez mereça ser repensada uma vez que as pernas acusam um cansaço incompatível com o que eu esperava para o final de domingo. 

Ainda assim, inegavelmente, estou fechando a semana bem mais light do que o fiz na semana anterior. Espero, também, que melhor preparado: os próximos 21 dias serão pesados, com uma média de 90-95K por semana. 

Faz parte, claro. Estranho seria rodar pouquinho e esperar completar os 140K do Caminhos de Rosa, sob o sol do sertão e com a aridez poeirenta como paisagem, inteiro. 


 

15km improváveis

Um casamento me levou para uma praia improvável: Itapoá, no litoral de Santa Catarina. 

O improvável foi sensacional. 

Com temperatura acima dos 30 graus, céu sem uma única núvem para manchar o azul, saí para 15km pela areia firme, quebrada apenas por um ou outro riacho adoçando o mar a partir do verde do outro lado. 

Tinha tudo que eu mais gosto: calor, sol, visual e um vazio daqueles que força a mente a viajar e o peito a se encher. 

Tinha também um mergulho bem vindo acompanhado de uma ultra bem vinda nadada salgada, um vai-e-vem que chegou a dar tontura por conta das marolas que balançavam o corpo. 

Nem parecia real, aliás: no dia anterior eu estava em São Paulo; na mesma noite de hoje, já escrevo este post da minha casa em meio à selva cinza da metrópole. 

Tanto melhor: o improvável ganha tons de sonho quando ocorre em um intervalo tão curto de tempo. 

Para contrastar – mesmo porque contrastes são perfeitos para marcar bem os acontecimentos – pretendo rodar mais 15km amanhã por um cenário oposto: algo como Barra Funda ou região da Luz, no centro velho. 

Algo que troque o ar cristalino soprado pelo mar pelas ondas cinzas da história paulistana.

Algo que troque a ingenuidade da praia pela malandragem da cidade grande. 

Algo que me permita digerir melhor no corpo essa viagem mental que foi correr, em um dia como outro qualquer, na mais improvável das praias para um baiano radicado em São Paulo. 

Improvável e, acrescente-se, absolutamente perfeita. 

  

Green Number na Comrades?

Eu participo de um grupo no Whats com os corredores que vão para Comrades. Participo desde o começo, aliás, em grande parte por conta do www.rumoacomrades.com, que inaugurou toda a minha jornada tanto pelo mundo das ultras quanto pela blogosfera como um todo.

Quando cruzei a linha de chegada em Pietermaritzburg no ano passado, recebendo a medalha back-to-back, fiz um último post lá no blog dizendo que aquela seria a minha última Comrades. Fazia sentido: já havia percorrido os dois sentidos, vivenciado a experiência da prova e estava pronto para novos desafios. Fazer mais 8 edições até conquistar o Green Number era algo que não fazia sentido para mim.

Até que o calendário correu e comecei a ver tantos amigos animados e cozinhando as suas ansiedades para ir à África.

Aí bateu saudade do Shosholoza, do clima de Durban, daquele país inacreditável que é a África do Sul, da profusão de idiomas que cortam os ares, das tradições, do oceano Índico.

Aí entendi a mágica por trás do Green Number.

Já não sei mais se deixei a minha última Comrades em 2015.

Talvez já esteja tarde para 2016 mas, a essa altura, confesso que o prospecto de eu me organizar para correr atrás do Green Number é grande. Muito grande.

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Checkpoint: Cruzando a linha dos 90

Não foi uma semana exatamente fácil: a semana da Indomit São Paulo foi, do ponto de vista de planilha de treino, o oposto do tradicional: ela abriu caminho não para um descanso, mas sim para uma escalada no volume. Ou seja: ao invés de tirar o pé na semana seguinte, acabei somando mais 10km no volume total, que recebeu outros 10km nessa última semana. 

Faz parte do modelo de treino que estou utilizando para os 140K e que falo mais amanhã. Ainda assim, não preciso dizer que terminei o domingo muito, mas muito cansado por tanto acúmulo. 

Pelo menos o dia ontem foi fechada com uma versão política de uma final de campeonato e que acabou eliminando qualquer tipo de dor que ocupava a mente por conta das expectativas e comemorações – mas isso é papo para outro blog :-) 

   
 

Ainda bem.

Amanhã é dia de longão.

Dia para trocar o cansaço de lugar, da cabeça para as pernas.

Dia de suar uma semana inteira de adrenalina corporativa.

Dia de ficar horas a fio imerso no mais absoluto silêncio, interrompido apenas pelos sons dos passos contra a terra.

Dia de gastar todo o restante de bateria que resta no corpo pelo paradoxal propósito de recarregá-lo.

Dia de trocar prédios, correrias e elevadores pela imagem abaixo.

Ainda bem.

  

Business as usual

Indomit SP já está no passado. Apesar dos aprendizados, com uma boa notícia colhida ontem: no final das contas, mesmo tendo estourado o tempo em 11 minutos, a organização me considerou concluinte e acabei ganhando os três pontos para Mont Blanc – ufa! 

Agora é seguir viagem – ou melhor, seguir no treino rumo aos sertões em agosto. 

E não dei muito sossego para o corpo essa semana. Sim, as dores no corpo que permaneciam me geraram a prudência de evitar os 10K previstos para a terça – mas, como acabei me sentindo zerado no dia seguinte, encaixei 10 a mais ao longo da semana. E hoje, pressionado por um compromisso às 10, levantei às 5 para rodar 30K.

Não tenho problema de acordar às 5 – até gosto, por incrível que pareça. A cidade fica vazia, o silêncio impera e todos os caminhos parecem mais abertos. O problema é a escuridão – demais para ir correndo atravessar a Marginal ou perambular pelo centro que, sem a luz do sol, fica tomado por zumbis. 

Conclusão? Fui pro Ibirapuera! 4 voltas grandes pela trilha somada à ida e volta faziam o tempo perfeito. Só que faziam, também, uma espécie de tédio perfeito. 

Como conseguirei rodar provas de 6 ou 12 horas em pista, uma de minhas metas futuras, não tenho ideia: mas a última volta foi percorrida com direito a xingamentos e a uma quase – quaaaaaaase – desistência. 

Treinamento para a alma, talvez? Se for, que bom que acabou concluído. 

Amanhã tem mais. 

Ou, como se diz no jargão corporativo, “business as usual”. 

(Que bom que, nesse caso, isso significa testemunhar cenas como essas abaixo):