Das trilhas para o cinema

Taí um prato cheio para as telas: um festival de cinema inspirado em corrida de trilhas. Afinal, há lugar melhor para buscar fotografias incríveis?

Aliás, se tem uma coisa que tem me deixado boquiaberto é a quantidade de vídeos sensacionais sobre esse esporte que, verdade seja dita, tem muito pouco a ver com corrida de rua.

De vez em quando procurarei postar mais alguns por aqui (como já fiz há alguns dias), pois entendo que a inspiração que vem deles é tamanha que acaba interferindo no próprio processo de treinamento.

Enquanto isso, vale babar um pouco com essas cenas e torcer para que a próxima corrida venha a passos galopantes!

Checkpoint 1: Muita gripe, mas com muita coisa feita

Não dá para dizer que este tenha sido o melhor dos começos: na sexta, uma gripe como há anos não tinha praticamente tomou conta de mim, com direito a febre e muito mal estar.

Para piorar, tentei ignorar os sintomas e fazer um longão ontem, no que fui reduzido a pó pelas condições do corpo. Pois bem: com algum descanso a mais, saí hoje para um treino por esforço: estabeleci um limite máximo de 2 horas mas, dependendo de como estivesse me sentindo na prática, esse tempo poderia se transformar em uma volta no quarteirão.

Por sorte, o corpo realmente estava em melhor estado e fiz 21k nas 2 horas, incluindo aí duas voltas pela trilha do Ibirapuera e uma subida da Ministro.

Acabei fechando a semana abaixo do que esperava, mas com 62k rodados e alguns ganhos muito importantes:

1) Resolvi o problema da mochila de hidratação: a Quechua RaidTrail de 12L está perfeita.

2) Ficou claro também que rodar com 3 ou 4 quilos a mais nas costas muda a biomecânica e exige mais. Me peguei, pela primeira vez em anos, pisando primeiro com o calcanhar – provavelmente porque a mochila alterou o meu centro de gravidade. Em paralelo, terminei o dia com algumas dores nas costas certamente herdadas da falta de hábito. Para os treinos futuros, portanto, devo redobrar a atenção na biomecânica para evitar lesões, fazendo o meu corpo aprender a correr com esse “algo a mais”. Com relação às dores… bem… só mais treino as resolverá.

3) Alinhei expectativas e modelo de treino com meu treinador, o Ian – o que já estava incomodando bastante.

4) Organizei as provas que devo participar até o DUT, incluindo a Pé na Estrada em Campinas e a Indomit K42, em Bombinhas.

Olhando agora, realmente parece que a semana foi produtiva! Tabelas com os dados dessas primeiras duas semanas abaixo:

Screen Shot 2014-06-22 at 1.09.16 PM

Para a semana que vem tem mais intensidade e mais distância – e tentarei ainda fazer o longão lá no Pico do Jaraguá, aproveitando o ganho altimétrico.

E vamos que vamos!

Mochila de hidratação, parte 2: Kalenji e Quéchua

Achei uma Kalenji velha, pequena, jogada em um armário de casa. Há algum tempo, quando comecei a frequentar a USP, comprei essa mochila para não depender de paradas em bares interrompendo treinos.

Meses depois, parei de usar: o peso extra era simplesmente desnecessário para quem estava treinando para provas de rua.

Agora parece que a utilidade voltou.

Ainda com as costas doloridas pelo uso da mochila da Salomon, vesti a Kalenji e saí para o Ibira no domingo passado. Faria a trilha que, apesar de mais lisa e plana do que o calçamento das redondezas, pelo menos tinha o aspecto mais rústico que estou buscando nessa nova fase de desafios.

A Kalenji parecia grudada às costas. Nada de peso extra se esfregando incessantemente nos ombros, me lembrando do puro desconforto do sábado anterior.

Passei um pouco de vaselina nos peitos: lembro que, em um longão que fiz com ela no passado, as alças de telinha se esfregaram tanto na parte da frente que os mamilos quase saíram sangrando.

Apertei mais, fiz ajustes, procurei quase transformar corpo e mochila em um único ser.

Não vou dizer que ela estava tão perfeita que cheguei a me esquecer de sua existência: isso seria mentira. As alças ainda incomodaram um pouco o peito e a mudança na biomecânica foi notória.

Mas o alívio em relação à Salomon foi tamanho que quase posso dizer que gostei da experiência como um todo. Tudo – do barulho da água chacoalhando à sensação de estar encontrando alguma paz com o equipamento necessário para a DUT – parecia se encaixar bem na mente e no corpo.

20140616-225345-82425964.jpg

Só que a Kalenji ainda não era a solução: ela era pequena demais para uma ultra, incapaz de comportar os equipamentos necessários para os 80km de trilha pelas montanhas portuguesas.

Mas já serviu para eu começar a me acostumar com o peso extra preso às costas, forçando uma adaptação.

Na segunda seguinte comprei a Quéchua RaidTrail 12L para já cruzar essa ponte e resolver o problema em definitivo. Enchi o reservatório de água, coloquei mais alguns pesos extras e saí para a rua em um treino de intervalados somando pouco mais de 10k.

Tudo bem que não se acostuma a peso extra assim, da noite para o dia – mas o nível de conforto foi outro.

Ela ficou colada ao corpo o tempo todo, sem telas se esfregando nos peitos ou alças nos ombros. Em outras palavras: os dois pontos negativos dos dois modelos anteriores foram sumariamente eliminados.

Agora é questão de sair mais às ruas, praticando mais e agilizando a curva de adaptação.

20140616-225237-82357678.jpg

O plano: dos 27 aos 80K em 2 meses

Screen Shot 2014-06-12 at 11.00.13 AM

OK, o plano tem algo de arrojado demais. Ou talvez arrogante. Ou ingênuo, insano ou qualquer outra palavra com conotação mais negativa do que positiva.

Mas, ainda assim, é um plano. E não entro exatamente de mãos vazias: afinal, não dá para esquecer que saí bem de uma Comrades há duas semanas, o que no mínimo me dá algum tipo de experiência com endurance.

Agora, no entanto, o bicho é outro: de zero de experiência em trilhas, munido apenas de um treinador experiente (a distância) e muita, muita força de vontade, pretendo chegar à Douro Ultra Trail em setembro. No caminho, elegi duas provas: a Pé na Estrada, de 27K nos arredores de Campinas, e a Indomit Bombinhas, de 42K, esta última com características (no mínimo) premium dados fatores como percurso, história, região etc.

Agora é ver como as coisas caminham e seguir firme nos treinos, que já começaram bem pesados desde a segunda passada!

Merrell Barefoot: o tênis perfeito?

Há anos que fiz a transição para tênis de estilo barefoot – os ultra minimalistas com drop zero. No início, corria com Vibram FiveFingers, que até hoje considero um dos melhores do ponto de vista educativo.

Sem praticamente nenhuma estrutura, funcionando mais como uma luva do que como um tênis, o Vibram meio que força o corredor a adotar uma postura mais correta, pisando com o peito do pé. E isso fez maravilhas para mim, eliminando, por exemplo, as (então) sempre presentes dores no joelho após períodos mais longos na rua.

Que fique claro: o milagre não é feito por nenhum tênis, mas sim pela adoção de uma postura biomecanicamente correta. O tênis, no entanto, ajuda com um empurrãozinho importante.

Mas o Vibram tinha dois problemas: a falta total de estrutura começa a incomodar em distâncias mais longas e, claro, a sua aparência exótica rende comentários e olhares desnecessários e “desconcentradores”.

O que havia de alternativa? Fuçando na rede, acabei descobrindo a marca Merrell, que uso faz bastante tempo.

O solado é duro e resistente como o do Vibram, sendo inclusive fabricado pela mesma empresa; há alguma estrutura, embora pouca; o cabedal (parte da frente) é bem grande, dando espaço aos dedos e evitando de bolhas a unhas pretas; e o drop continua sendo zero.

Em outras palavras: é o Vibram sem nenhum dos seus problemas.

Já usei o Merrell Barefoot em maratonas e nas duas ultras que fiz, Two Oceans e Comrades: ele foi perfeito. Mesmo as dores no pé (por conta da falta de amortecimento) nos 90K em asfalto da Comrades não foram nada considerando que joelhos e articulações como um todo saíram praticamente ilesos.

A dúvida agora seria usar ou não os Merrells nas trilhas. E, pensando no caso, acabei lendo o nome inteiro do modelo que tenho, o que trouxe uma resposta óbvia: Merrell Barefoot Trail Glove.

O grip e a resistência do solado Vibram realmente são indiscutíveis – e creio que isso seja 90% do que um tênis de trilha precise. Certo?

Para falar a verdade, minha total falta de experiência fora do asfalo me impede de dar uma resposta mais segura. Mas uma coisa é certa: estou prestes a descobrir!

20140610-082624-30384440.jpg

Eis o Ian Corless, meu Sherpa nessa nova jornada

Quem me conhece ou acompanhou o blog anterior, Rumo a Comrades, sabe que nunca me dei tão bem com treinadores. Por algum motivo qualquer, quando passava a seguir as suas planilhas, ignorava todo e qualquer sinal do meu corpo. Sim: tinha plena ciência do tamanho da estupidez que fazia – mas simplesmente não conseguia agir de outra forma.

E, assim, com MUITA pesquisa, leitura e estudo, acabei me guiando sozinho por uma série de maratonas e duas ultras, sempre saindo inteiro delas, com resultados que me orgulho e sem nunca ter me lesionado. OK, tudo ótimo… mas trilha é outro bicho.

A mera noção de fazer, sozinho, um treinamento para uma ultra em montanha – terreno que desconheço completamente e sobre o qual há muito menos referência – seria algo ingênuo, infantil. Assim sendo, mergulhei na Web.

Acompanhado da força da globalização, fui atrás dos meus ídolos: Kilian Jornet, Ian Sharman, Sage Canaday, Emelie Forsberg, Anna Frost, Fernanda Maciel etc. Dificilmente conseguiria que um desses heróis das trilhas sequer prestasse atenção em mim – e então busquei algo ou alguém que todos tinham em comum. A resposta veio na hora: Ian Corless, um dos maiores blogueiros de ultra do mundo e responsável pelo podcast TalkUltra, que ouço nos meus longões já faz tempo.

Sem medo, entrei em contato com ele. E a resposta foi absolutamente positiva.

Ian é corredor, podcaster, blogueiro e fotógrafo de ultras. Sua vida gira em torno das trilhas, o que o permite conhecer a fundo estratégias, táticas e pequenos segredos dos maiores atletas desse esporte. E, claro, também treina corredores mundo afora.

Meu briefing para ele foi direto: transicionar do asfalto para a trilha em 3 meses, a tempo de pegar a Réccua Douro Ultra Trail com a confiança de poder terminar inteiro.

Desafio topado, primeiras planilhas mandadas, primeiras corridas já feitas.

De antemão, o que posso dizer é que ele não pega nada leve: nessa primeira semana já há sessões com tiros de 10 minutos, repetições em morro e tempo runs de 50 (!) minutos!

Do lado de cá, vou procurar seguir tudo – mas sem repetir erros do passado. Sinais esquisitos do corpo gerarão alertas que procurarei documentar logo depois do treinamento (antes da minha mente me forçar a ignorar problemas para seguir planilhas).

Como será esse novo processo, com treinador a distância por uma jornada absolutamente desconhecida? Nem ideia.

Mas em breve descobrirei.

Screen Shot 2014-06-09 at 8.51.10 PM

O “relax organizacional” das corridas de trilha

Uma das dificuldades para quem está mudando das ruas para as trilhas é a falta de informações – sob todos os aspectos.

Pudera: todos os finais de semana, circuitos de rua levam milhares de corredores para linhas de largada – o que também significa milhares de reais em faturamento. Com mais dinheiro, vem mais investimento, incluindo sites bem elaborados, mapas claros de percurso e mais repercussão em sites e veículos especializados, seduzidos tanto pela demanda quanto por acordos publicitários. Não há mal em nada disso: afinal, organização de corridas é um negócio que, como todo negócio, existe para dar lucro. E a busca pelo lucro, por sua vez, é o melhor combustível que motiva organizadores a tratar bem e mimar corredores/ clientes (exceto no caso da Yescom, que faz tudo errado o tempo todo e, contrariando as leis do marketing, sobrevive).

Quando se muda para as trilhas, no entanto, os números são todos menores. Há poucas centenas – e não muitos milhares – de atletas interessados; os percursos são mais escondidos (e, portanto, menos chamativos); e mesmo os esforços de divulgação são parcos. Achar um evento depende muito mais do esforço incessante do atleta do que da capacidade de marketing do organizador.

Bom… no caminho até a Réccua Douto Ultra Trail, coloquei como meta fazer pelo menos uma corrida de trilha de distância razoável. Procurei, procurei, procurei.

Até que achei uma próxima e, com muito esforço, me inscrevi. No dia 6 de julho, em algum lugar perto de Campinas (no Bar do Vicentão, para ser mais “exato”), largarei na etapa Ponte Queimada do Circuito Mundo Terra Pé na Estrada.

Serão 27km em um percurso sobre o qual não consegui nenhuma informação e, portanto, não faço a menor ideia. Chega a ser divertido, assim como o esquisitíssimo site da Ultrarunner Eventos (imagem abaixo), que organiza a prova.

Bom… acho que devo encarar isso como as boas vindas ao mundo mais “organizacionalmente relaxado” das corridas de trilha :-)

E agora… agora é esperar para sentir como será esse primeiro teste!

Circuito Pé na Estrada

Testando o Garmin Forerunner 620

Fiz todo o processo de treinamento para a Comrades com o Adidas SmartRun – e, para falar a verdade, não tenho muito do que reclamar. A usabilidade é perfeita, a tela touch é incrível e o GPS funciona bem. A app MiCoach, por sua vez, é provavelmente das melhores do mercado, com treinamento em tempo real passado pelo relógio ou, para quem preferir, pelo iPhone.

Mas há dois problemas do SmartRun: o tempo de bateria, que é pequeno (pouco mais de 4 horas em uso), e não ser à prova d’água.

Para completar, o sal do suor que ficou no pulso durante as quase 11 horas de Comrades danificaram um pouco o carregador, me forçando a mudar de relógio para essa nova fase.

O que precisava era relativamente claro: algo tão funcional quanto o SmartRun, mas preferencialmente à prova d’água, com mais tempo de bateria e com um formato mais fácil para compartilhar minhas planilhas de treino com meu novo treinador, o Ian, que vive na Inglaterra. E, assim, acabei pegando um Garmin Forerunner 620.

Primeiras impressões? Para quem estava habituado à fantástica usabilidade do SmartRun, ele frustra. O touch é meio esquisito (algo na linha de um Palm antigo comparado a um iPhone), os comandos são muito pouco intuitivos e há a necessidade de se baixar uma app no computador para que ele funcione.

Mas os pros realmente pesam para quem pretende treinar a distância e passar horas nas trilhas: a bateria é incomparável. Enquanto o SmartRun dura cerca de 24 horas (se inserir uma corridinha de 1 ou 2 horas no meio tempo), testei o Garmin hoje e quase não há sinal de mudança no status de sua carga.

Fora o fato de ser também à prova d’água e de não ter os sensores cardíacos no pulso – o que acabou danificando o aparelho – ele tem a função de LiveTracking. Para trilhas, é perfeito: permite que amigos e familiares possam acompanhar o local exato em que eu estiver ao vivo, por meio de um mapa dinâmico. Ainda não testei, mas não há motivos para acreditar que não funcione.

Bom… já enviei meu calendário montado para que o meu treinador acompanhe (o link público é http://connect.garmin.com/proxy/calendar-service/export/a102844501cd42a59d0d3c811bc143ff). Por enquanto, ele tem apenas uma semana de treinos que recebi dele – mas vou complementando na medida que for recebendo mais.

010187071_Ampliada

A porta destrancada pela Comrades

O tornozelo ainda lembrava um pouco que Comrades estava a menos de uma semana de distância – mas estava na hora de virar a página.

Depois de quase uma semana sem correr, calcei o tênis, vesti a roupa e saí para o Ibira.

Era a minha primeira corrida depois da ultra que dominou os meus sonhos por tanto tempo. E o dia estava igual aos tantos outros que, por meses, me viram percorrer o asfalto.

Mas alguma coisa estava diferente.

Enquanto corria em passadas ainda lentas, meio cansadas, dava para ver uma espécie de realidade nova formada por uma maior autoconfiança e certeza de que somos capazes de muito mais do que os nossos próprios corpos imaginam.

A experiência espiritual, para dizer o mínimo, que dominou os últimos quilômetros de Comrades, deixou marcas. Mudou. Abriu um acesso, talvez, para um território mental que eu só conhecia pelos livros.

E fui mergulhando fundo nesse território, explorando-o um pouco mais, a cada passada. Estava conhecendo melhor uma zona mental nova, feita de pura concentração zen e que, até então, estava escondida no cotidiano.

Quilômetros foram se diminuindo. Músculos, se soltando. Dores, sumindo.

Até que a volta se completou e, de repente, estava de volta em casa.

Hora de subir e retomar a rotina que me aguardava – mas ciente de uma espécie de novo poder mágico que, a partir de então, já estava destrancado.

20140607-174619-63979641.jpg

A nova meta: Réccua Douro Ultra Trail

Estarei em Portugal entre os dias 13 e 14 de setembro – e é nesta data que a minha nova prova alvo acontecerá.

Ainda estou inseguro quanto à distância – se 40 ou 80K. O local, no entanto, não poderia ser mais perfeito: a região do Rio Douro, uma das mais maravilhosas do mundo e carregada de vistas deslumbrantes.

Para quem quiser se aprofundar, veja site aqui e vídeo promocional abaixo.

Ao longo dos próximos dias vou começar a focar no treinamento, equipamento e importantes decisões que guiarão desde a escolha do percurso até o processo de preparação como um todo. De toda forma, está já aberta essa nova meta.

Que ela seja alcançada!