A volta

A primeira corrida depois de uma prova intensa é sempre um conjunto de interrogações. O corpo responderá bem? Como reagirão os joelhos? E a fisiologia como um todo?

Normalmente, procuro já encaixar um ritmo próximo do normal no terceiro dia depois da prova. Há algo na linha de “lavar” o corpo, de expurgar logo os demônios, que funciona bem. Como, desta vez, tenho a Indomit em poucas semanas, fui mais conservador.

Depois da Bertioga-Maresias no sábado, esperei até as dores musculares evaporarem por completo e apenas ontem, quarta, saí para a rua. Ainda assim, fiz apenas 6K em um ritmo bom, de 5’40”. 

Já saí também com o tênis que usarei na Indomit, um Salomon SenseLab com um grip excelente, mas que tem como defeito um drop desnecessário e um cabedal que briga bastante com os dedos e unhas. Mas, se é o que temos, é o que devemos nos acostumar. Daqui até novembro, o plano é ficar amigo íntimo dele.

Ainda haverá mais corridas na semana – incluindo hoje e o final de semana. A estratégia é simples: transformar essa semana de recuperação em uma espécie de tapering invertido, somando volume de rodagem de maneira gradativa até o pico na semana de prova. 

Fiz essa estratégia no ano passado, na Douro Ultra Trail, e ela fucionou perfeitamente bem. Que a mágica se repita!

  

Bertioga-Maresias 2015

Não fazia ideia do que esperar. Era a primeira vez que estava na largada da Bertioga-Maresias e sequer havia calculado o montante do percurso que seria na areia versus em asfalto. 

A meu lado, um velho e grande amigo que havia aceitado o convite para ser meio apoio de bike tampouco conhecia algo da prova. Do outro lado, os amigos Cordeiro e Leandro – este último que acabou chegando em terceiro lugar geral – davam uma aula de organização e disciplina. 

Tudo bem: não estava ali para buscar podium, então que viesse o que estivesse por vir. 

Saímos da casa do Leandro, na Riviera, às 4:40 da manhã, e chegamos na largada, ao lado do Forte de Bertioga, faltando 5 minutos. Tempo o suficiente para um começo correto, embora atribulado. Começamos. 

No começo, o areião sem fim da praia de Bertioga assustava. Não pela areia em si, dura e perfeita para correr, mas pela sua extensão. Sem paisagens muito exuberantes – aquele pedaço não é exatamente uma pérola do litoral – e com uma reta a perder de vista, o desafio já começava como sendo mais mental do que físico. Me lembrei do motivo pelo qual curto corridas em montanha. Não é pelas trilhas em si, mas pela quantidade de surpresas que se escondem em cada curva, em cada cume, em cada vale. Nas montanhas, é impossível passar mais de 2 ou 3km sem se surpreender com alguma paisagem diferente. Surpresas empolgam, recarregam a adrenalina e a endorfina. 

Não há surpresas em uma praia de quilômetros e mais quilômetros de extensão reta. Ali havia apenas o mar da mesma cor da areia sujado de vez em quando por uma série de canais, casas pontilhando o lado esquerdo, urubus comendo carcaças abandonadas e uma garoa insistente que nos acompanharia até o final da prova. 

Bom… se não há surpresas, há espaço para correr. E corri. Ao poucos, no entanto, a paisagem foi cansando e sentia o meu pace diminuir gradativamente, com direito inclusive a uma pausa para caminhada não planejada em um ponto em que cruzei um pequeno rio. Ainda assim, fechei os 42km regados a chuva, conversas jogadas ao vento com o Zé, meu apoio, e alguns novos conhecidos pelo caminho. 

Depois, quando começamos a sair dos areiões para desbravar a parte mais bonita do litoral, uma quebra: a monotonia havia operado seus danos no corpo e a coxa esquerda começava a doer. Dai até o final fiquei alternando entre correr e caminhar, parando apenas para comprar alguma Cocas, para visitar alguns banheiros e agradecendo sempre que alguma trilha se colocava no caminho entre uma praia e outra. 

Em tese, os 25km finais deveriam ser os mais difíceis. E, a julgar pela altimetria, certamente o foram: mas paisagem faz toda a diferença. As serras cansaram, claro: mas os trechos passando pela Barra do Una, Juquehy, Praia Preta, Barra do Sahy, Baleia, Camburi, Boiçucanga e, claro, Maresias, foram absolutamente sensacionais. Mesmo com tempo fechado e chuva, as vistas dos altos das serras eram inesquecíveis. 

Nos postos de controle, o apoio do público era absolutamente estimulante, fazendo com que a endorfina surgisse em ondas poderosíssimas. Nas areias das praias, banhistas olhavam meio incrédulos para os grupos de corredores que vinham da já distante Bertioga e até o calor decidiu aparecer para mudar o visual. 

Mas, de todo o percurso, o mais empolgante foi justamente a subida da Serra de Maresias, com 3km de subida íngreme pela Rio-Santos. Não era um trecho de praia mas a soma de chuva, neblina e Mata Atlântica dava uma sensação de desafio intensa, reforçada ainda sempre que se via algum ciclista parado, recuperando o fôlego, à frente. 

Alternei caminhada com um trote leve, usando a empolgação para matar o cansaço. 

Cansaço. 

Não havia antecipado o quão dura essa prova seria. Se a altimetria fosse mais espalhada, se houvesse menos retões infinitos, se as praias do começo fossem mais bonitas, talvez a prova em si fosse diferente. “Se’s”, no entanto, tem pouco lugar em ultras. Enquando chegava no topo da Serra me dava conta de que o desafio era justamente esse: uma prova que, diferentemente da maioria, inverte o desafio: começa testando a mente, depois força o corpo e, ao final, exige sacrifício de ambos. 

Nunca havia feito uma prova com essas características – uma experiência bem vinda por ser diferente, inusitada. Experiências assim só somam. 

Estava pensando nisso quando, depois de ter descido a Serra em uma alternância de pace por conta de dores no estômago, entrei na praia de Maresias. 

Faltavam menos de 15 minutos para que eu fechasse 9 horas de prova e os últimos 2km eram de areia sadicamente fofa. 

Olhei para o relógio. 

Olhei para a frente. 

Respirei. E corri. 

Usei cada gota de energia restante para atravessar o areial, ora preferindo o trecho inclinado rente ao mar (com direito a ondas que chegavam aos joelhos), ora subindo pelo trecho mais fofo porém reto. Vi o relógio da linha de chegada bater cada segundo com força sonora. 

Pensei nas pausas que fiz. Tivesse meu estômago se comportasse melhor, tivesse parado menos para comprar Coca, tivesse treinado mais para o trecho monótono do começo… Hipóteses se acumulavam, pesavam. 

As pernas, no entanto, ignoravam cada uma delas. Dei tudo de mim nos quilômetros finais e cruzei a linha de chegada com o Garmin apontando 8:59:55. 

Ultra Bertioga-Maresias terminada. 

Ao final, abraços nos companheiros de prova e, claro, um agradecimento todo especial ao Rogério “Zé” Augusto, que seguiu de bike como meu apoio, e aos amigos que me deram abrigo: Leandro, Cordeiro, Daniel e Carol. 
Que venha agora uma semana com merecido descanso!

   

  

  

   

Ultras e apps

Tá: a Comrades é transmitida na íntegra, por 12 horas, na TV sul-africana. Mas convenhamos: a não ser que você seja um sul-africano fanático pela tradição, é difícil imaginar que fique tanto tempo assim colado na frente da TV (ou do computador).

Eu já acho a cobertura de maratonas algo chato – em grande parte por conta de narradores despreparados que cismam em falar de km/h (em vez de min/km) e por se focar apenas na elite. Mas imagina a cobertura de uma prova de 100 milhas? Assistir deve cansar mais do que correr!

E é aí que entram as apps. Afinal, quem acompanha uma prova costuma fazê-lo para testemunhar o desempenho de ídolos, familiares ou amigos. Para que ficar com os olhos grudados em uma tela se dá para receber updates periódicos no celular?

Comrades já tem uma app bem razoável, assim como muitas outras provas grandes. No Brasil isso ainda é raridade – mas parece que está começando a mudar. 

A Bertioga-Maresias lançou uma app própria para acompanharmos os corredores. Tudo bem que ela está se esforçando para não divulgar – por exemplo, sem citar no site e sem colocar link para as páginas de download da Apple ou Android. Nada é perfeito.

Ainda assim, são bons ventos soprando mais tecnologia para as ultras. Que venham mais.

Quem quiser baixar essa, basta buscar “bertioga-maresias” e encontrar o aplicativo. Quem quiser me acompanhar, meu número de peito será 154 :-)

  

Checkpoint: Joelho melhor, velocidade subindo e ultra à vista

Poucas palavras definem melhor esta semana.

Depois de idas e vindas das dores, descobri que um tênis velho havia, aparentemente, perdido o seu “mo-jo” e estava quebrando a minha biomecânica.

Como parte da “recuperação”, optei por trechos com menos inclinação e turbinei a velocidade. Funcionou: fechei bem a semana e ainda pude contemplar gráficos de pace nos seus melhores dias. 

Finalmente, foi o fechamento da última semana pre-prova. Foi-se o pico, somaram-se 78km nos últimos 7 dias e, embora com a musculatura meio cansada, me sinto em uma das melhores formas que já estive. 

Agora é descansar nos próximos dias, diminuindo volume (e compensando de leve com mais intensidade) e largar para as areias do litoral norte paulista.

   
 

Último longão pré Bertioga-Maresias

31km depois… 

Joelhos, pés, pernas e outros membros permaneciam perfeitos. É curioso como tecnologia nem sempre é a salvação que costuma preconizar. 

O tênis que estava usando era perfeito: mesclava aspectos minimalistas com algum amortecimento, ideal para ultras em asfalto. Cheguei a usá-lo tanto na Ultra Estrada Real quanto na Comrades, ambas com pouco menos de 90km, sem nenhuma queixa. 

Até que, aparentemente, ele “travou”. Usá-lo agora, mesmo que por dois míseros quilômetros, faz meu joelho protestar veementemente. Mesmo ajustando postura e biomecânica, bastava calçá-lo para sentir os efeitos. Não sei dizer o que aconteceu: talvez algum vício de pisada tenha detonado o estilo do amortecimento, talvez tenha perdido o hábito, talvez ele simplesmente tenha chegado em seu prazo de validade. 

Mas o curioso mesmo é que a solução foi trocá-lo por outro Merrell, este sem absolutamente nenhum amortecimento e velho ao ponto de estar quase se desfazendo. Nem lembro a quantidade de provas que já corri com ele – certamente há quase 2 mil quilômetros abaixo de suas solas. 

O fato inegável é que funcionou. Sem nenhuma tecnologia exceto por um solado grosso, da Vibram, o Merrell TrailGloves me levou até a USP, fez duas voltas e me trouxe até em casa. 31km sem nada que sequer lembrasse a dor.

Esquisito. 

Continuo encafifado com essa repentina ineficiência do Merrell Ultra, tênis que rodou por tantas estradas comigo mas que, do nada, se mostrou perigoso. Ainda assim, encafifado ou não, pelo menos já deu para identificar o problema, solucioná-lo e seguir adiante. 

Próxima parada: Bertioga-Maresias!

  

Checkpoint: Semana de pico com susto

Tudo começou bem: planilha calibrada, motivação alta, pernas ansiosas. Seria a minha semana de pico, período em que superaria os 90km para depois diminuir gradativamente até chegar mais descansado, inteiro, na largada da Bertioga-Maresias. 

Aí veio a quarta. Do nada, uma fisgada esquisitíssima no joelho me fez voltar andando boa parte do caminho de volta para casa, mancando com o corpo e com a mente. Todas aquelas dúvidas que corredores mais temem às vésperas de uma prova apareceram como um tufão. As certezas metronômicas da segunda, em dois dias, viraram uma mescla de medo com insegurança juvenil. 

Acho que é nesses pontos que entra a experiência. Tenho para mim como verdade absoluta que dores articulares só aparecem quando estamos cometendo alguma falha biomecânica qualquer. Passei o resto da quarta me examinando meticulosamente, refazendo meus passos, minha postura, meu centro de gravidade. 

Guardei o Merrell Ultra, tênis que, apesar de minimalista, tem algum amortecimento. No lugar dele, tirei o Vibram FiveFingers, ideal para forçar uma postura adequada. 

Com ele, saí na quinta à noite pelas (ou melhor, pela) rua de Maresias. Rodei 10km voando baixo e, apesar de um desconforto inicial, termine bem. 

No sábado, troquei o longão de 4h por um menor, de 2h30. Fechei 25km bem, inteiríssimo. Repeti a dose hoje, adicionando mais algumas ladeirinhas em um percurso improvisado pelos becos da Vila Madalena e Parque Villa Lobos. Um adendo: fazer sequências de longos é algo que tinha ficado meio de lado, mas que sempre ajuda bastante no preparo. 

Terminei em perfeitas condições. 

Verdade seja dita, os temores de que a dor evoluísse para uma lesão me impediu de fechar os 90 ou mais km: fiquei em pouco mais de 88, levemente abaixo da semana passada. Mas tudo bem: foram duas semanas fortes, batendo praticamente na mesma quilometragem e ainda com correções posturais perfeitas. 

Agora é manter o ritmo mais uma semana, entrar em um brevíssimo tapering de alguns dias e encarar as praias do litoral norte! 

   
 

Abrindo a semana de pico

Semana de pico começando. Com ela, vem as dores musculares acumuladas, a expectativa de um descanço leve precedendo uma prova longa, uma preparação mental que começa a se intensificar. 

Hoje já foi 1h30 cedo, somando 16km. Até o final da semana, entre 90 e 95km devem ser rodados, incluindo aí 4h que devo rodar no sábado. 

Em períodos assim, costumo ligar um “mode” de foco total: penso apenas na prova-meta, deixo tiros de lado e troco por rodagens em ritmo equilibrado (porém forte) e me forço a levantar regradamente como se fosse um robô. Até hoje, tem funcionado – e não há porque ser diferente agora. 

Dia 17 tem os 75km entre Bertioga-Maresias. Já vi vídeos, rotas, altimetria e me emp0lguei com o sempre delicioso prospecto de rodar por horas pelo litoral norte paulista. 

Agora é fechar essa fase do treinamento. 

  

Checkpoint: Sistemas reiniciados e novos em folha

Nada como uma semana depois da outra.

Estafa, desmotivação, sonolência: esses foram apenas três dos adjetivos que marcaram a semana passada. Mas, às vezes, basta identificar um problema pra resolvê-lo.

No domingo passado, respirei fundo. Revi metas, mergulhei em sites e vídeos sobre os próximos desafios para dar uma carga extra à motivação – base de tudo – e recomecei. Simples assim.

Aliás, simples como nas ultras. Nelas, sempre há aquele momento esquisito, escuro, em que tudo parece estar errado e desconectado. O cansaço se acumula, a linha de chegada parece mais distante, o corpo faz de tudo para desistir.

Mas aí basta afastar a negatividade da mente e prosseguir com um passo depois do outro, sem parar. Com o tempo, as nuvens negras cedem, o ar melhora e tudo fica impressionantemente bem. 

Bem até demais, se poderia dizer.

Nesta semana fechei 90km, mais que o planejado originalmente. Uma surpresa, diga-se de passagem, dado que na semana passada mal estava conseguindo caminhar de tanto cansaço.

Adicionei mais subidas, redescobri rotas que estavam esquecidas e aproveitei cada segundo ao ar livre – tanto no sol escaldante quanto na garoa insistente desse clima híbrido e esquisito que tem caracterizado nossos tempos.

Semana que vem a pegada será mais forte: estou, afinal, no pico do treino para a Bertioga-Maresias. Mas quer saber? É sempre inusitadamente perfeito quando picos de treino vem acompanhados mais de sorrisos do que de suspiros.

   
 

Bertioga-Maresias: o que imagino encontrar

Antes de qualquer coisa: não tenho nenhuma dúvida de que qualquer ultra aqui no Brasil teria um peso fortíssimo se fosse tratada pelos organizadores de maneira mais profissional – ao menos na comunicação. Digo isso sem jamais ter corrida a Bertioga-Maresias e já fazendo a ressalva de que só ouvi elogios quanto à prova.

Mas puxa… qual o problema em usar o site para colocar altimetria detalhada, mapa e um acervo de vídeos minimamente bem produzidos? Outras provas na Europa, África ou EUA esbanjam qualidade nesse sentido e não tenho dúvidas de que isso faz toda a diferença para elas.

Mas enfim: chega de reclamações. Vamos à parte prática.

De acordo com os zilhões de relatos que cacei Web afora, devo encontrar um percurso relativamente plano – ao menos no começo. Essa imagem ilustra bem (apesar de ser desatualizada por conta de uma mudança no percurso desde 2012). Mas, contando com a possibilidade da mudança ter sido pequena, ei-la:

Percurso Altimetria Bertioga-Maresias 75K

Uma outra imagem, mais recente, dá alguns dados a mais:

percurso_percorrido

A parte mais tensa é no final, principalmente na subida da serra de Maresias. Será uma subida de 300 a 400 metros em algo como 2 ou 3 km depois de ter passado por bastante areia fofa. O fato disso ter ficado para o final é até bom: não seria uma ultra de respeito sem alguma pitada de sadismo :-)

Achei uma outra imagem, de outro corredor, que destaca justamente esta subida:

bertioga-maresias-altimetria

O site tem também uma relação de pontos de controle:

percursoInterno

Pois bem: hora de começar a aquecer os motores. Até lá, meu foco será misto entre uma manutenção de volumetria e alguns tiros para forçar velocidade.

Como meu foco principal é a Indomit 100K – esta prova é mais um longão de luxo – não devo fazer nenhum processo mais agressivo de “tapering” ou forçar muito a barra para bater o recorde galáctico. A ideia será apenas correr como se fosse um dia como outro qualquer – só que aroveitando a maravilhosa paisagem do litoral norte paulista.