Checkpoint: Ir até o céu cansa

Gráficos, às vezes, são a melhor maneira de se entender os motivos por trás das dificuldades que sentimos em alguns momentos. Esses abaixo, por exemplo: o ganho altimétrico nos 50K da Indomit foram quase iguais aos 100 do Cruce – sendo que estes foram distribuídos em três dias. 

Sim: a Serra da Mantiqueira não é a Cordilheira dos Andes. Mas a quantidade de montanhas esverdeadas pelo seu caminho, quando se somam, chegam a um desafio como poucos. 

   
 Ainda estou me recuperando, com dores musculares que já já devem deixar as pernas. Mas a grande vantagem de provas belas é que, enquanto mastigam o corpo, deixam o coração impregnado com as cenas de indescritível beleza coletadas pelo caminho. Esse residual é, talvez, a melhor coisa de se correr em montanhas. 

Acaba, semana!

Faltam mais 2 dias. 

Ou 1, considerando que amanhã à tarde zarpo para São Bento do Sapucaí. 

Não é a ansiedade da prova que está me comendo hoje – é o cansaço do trabalho. É esse exaustivo ritmo de Brasil em crise, com ânimos exaltados e ações em permanente estado de alerta, de expectativa e de surpresa. Trilhar a selva paulista tem sido uma tarefa muita mais técnica do que qualquer trilha da Indomit. 

Ainda assim, hoje é quinta. 

É dia em que o horizonte do descanso está mais próximo, mais visível. 

Preciso recarregar as baterias trocando cabeça por pernas lá na Serra da Mantiqueira. 

  

Tapering? Testemos uma prova sem isso

Quem acompanha o blog sabe que nunca me dei muito bem com o tapering – aquela fase final de preparo para uma prova em que se diminui drasticamente o volume de treino para recuperar a musculatura. 

Em todas as vezes que tentei seguir o “livro de receitas” o resultado foi o mesmo: dores fantasma começaram a brotar pelo corpo com uma intensidade insana, atrapalhando as largadas mais do que qualquer cansaço. Isso sem contar com gripes, ansiedade e tudo mais. Histeria pura? Pode ser – mas que diferença faz ter um diagnóstico se o resultado não mudará? 

Em todos esses ajustes finais, o melhor modelo para mim foi fazer o inverso do que costuma ser pregado: diminuir o volume cerca de um mês antes e depois voltar a subir gradativamente, como se a prova fosse o pico do treino. 

Bom… Para a Indomit, talvez por não ser a prova alfa do meu calendário, o modelo será diferente. Na semana passada cheguei num pico de 81K, o máximo desde que voltei do Cruce, e nessa semana estou mantendo um ritmo fixo, firme, para não dar sinais ao corpo de qualquer tipo de diminuição. 

A ideia é largar nos 50K como se fosse um sábado qualquer – incluindo alguma fadiga muscular que espero que passe nos próximos dias com uma diminuição leve na carga e uma folguinha quase imperceptível estrategicamente inserida na planilha. 

Vamos ver que resultado isso trará. 

   

Checkpoint: Fechando 80

Tá: o ideal para a véspera de uma prova não é, decididamente, se esguelar até chegar a um pico de volume maior do que os últimos dois meses de treino. 

Paciência. 

Correr, às vezes, é uma meta por si só. Há a Indomit na semana que vem? Sim, há. Mas essa semana foi complicada demais, turbulenta demais, para que eu deixasse de tomar esse incrível remédio que é passar horas simplesmente me movendo entre o chão e o céu. 

Foram pouco mais de 80K rodados nas primeiras horas da manhã, nas últimas luzes da tarde, sob o sol do meio dia e variando entre a selva cinzenta do centro, os trilhos de trens do passado, as várzeas inexistentes dos rios paulistas e as trilhas ex-trincheiras do Ibirapuera. 

Missão cumprida. 

Endorfinas internalizadas. 

Tudo pronto agora para a próxima semana. 

   
 

Hora de ficar sério

Pois é. Treinar para 140K no sertão certamente não é algo que se consiga resolver com meia dúzia de trotinhos no parque.

Hora de ficar sério: montei um cronograma intenso, tomando como base este post aqui com uma planilha focada em 100 milhas.

Apliquei apenas algumas diferenças:

O pico, para mim, será de 115km – por algumas semanas seguidas, diga-se de passagem. Na planilha original, esse mesmo pico é de 124km.

Apesar de uma concentração grande de longões aos sábados – só de 50Ks serão 4 sessões de hoje a agosto, além de 7 maratonas – os dias úteis estão relativamente leves. Relativamente, reforço: por muito tempo, terei pelo menos uma meia por terça.

Claro: há tempo daqui até agosto. Até lá, teremos um provável impeachment no governo, uma Olimpíada, um sufoco danado com a crise e talvez uma ou outra prova ainda não programada. Isso sem contar que, entre junho e julho, me mudarei de casa.

E por que digo isso? Porque todas essas coisas influenciam bastante no ritmo do trabalho e, consequentemente, na energia disponível para completar essa planilha. Ainda assim, uma coisa é certa: sem ela eu dificilmente conseguirei funcionar.

Veremos agora com ela – que inclusive pode ser acompanhada, em tempo real, clicando aqui (ou na figura abaixo).

Os sertões do Rosa que me aguardem!

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Checkpoint: Semana de baixa

Desde os treinos para o Cruce acabei montando, por sugestão da Zilma Rodrigues, um modelo de planilha com três semanas de alto volume seguidas por uma de baixo.

Funciona: a semana “leve” acaba aliviando a musculatura do cansaço acumulado e deixando todo o corpo preparado para mais um ciclo de maior intensidade.

Essa foi a semana de baixa. Terminou com um treino leve hoje, com mais caminhada rápida do que corrida ou trote, pela era do modernismo paulistano – incluindo casas e monumentos.

Missão cumprida, corpo regenerado.

Semana que vem começa tudo de novo.

   
 

Cuspindo na história

O treino de hoje foi mais político do que físico.

Essa semana tem uma volumetria menor: as últimas 3 foram crescentes e, no dia 2, logo ali no horizonte, tenho 50Ks que prometem ser duríssimos (por carregarem a marca da Indomit) lá em São Bento do Sapucaí.

Hoje tinha cerca de 20km para rodar. 

Fui pela Paulista, que ainda traz eletricidade pura no ar, manifestantes acampados em frente à FIESP e bandeiras do Brasil penduradas em todos os cantos. 

De lá, subi e desci as ladeiras do Paraíso e do Cambuci. Rodei o belíssimo Parque da Aclimação. Segui adiante. 

Meu destino: o Ipiranga. 

Dois locais, especificamente. O primeiro foi no complexo do Palácio, incluindo o Monumento da Independência, onde o corpo do D. Pedro I descansa atrás de uma porta pichada com cheiro de urina. Uma lástima. 

De lá, na lateral, uma casa de taipa resiste ai tempo. Era uma pequena venda na época de D. Pedro – e foi lá que, minutos antes de dar o grito do Ipiranga, ele teve que parar para se “aliviar” de uma incômoda diarreia e ainda trocar de calça com um camponês por ter… digamos… “manchado-a”. 

De lá fui para outro lugar: o Instituto Lula, ironicamente vizinho do Palácio.

Naquele discreto prédio, guardado por mais seguranças que o Mausoléu da Independência, o símbolo de uma era está se esfacelando em meio a uma podridão muito mais fétida que as calças de D. Pedro ou o odor do seu último local de descanso. 

Parei em frente ao Instituto. 

Cuspi na calçada. 

Poucas vezes um gesto gerou tanta endorfina.

Tirei ainda algumas fotos – mas apenas do complexo do Museu. Se é para registrar parte da nossa história em uma corrida, que seja algo que inspire orgulho, não nojo.

Na volta, percorri a Av. D. Pedro I, me engendrei pelo centro velho e, desviando de drogados e mendigos que denunciam o calamitoso estado do país e dessa cidade que tanto amo, cheguei em casa.

22km libertadores.

   
    

Que as trilhas e asfaltos me recebam bem

Os próximos 3 meses, estimo, serão de plena guerra. Teremos confusões envolvendo o ministério do Lula, as tentativas de barrar a Lava-Jato, delações premiadas, articulações para o impeachment, o impeachment em si. Enquanto isso, o mercado inteiro aperta os cintos e se segura esperando por melhores ventos e temendo os desastres que insistem em se colar a rupturas ideológico-político-sociais como as que estamos vivendo.

Resultado: do lado de cá das trincheiras, estou trabalhando dobrado, pintado e pembado para a guerra. Cada dia é uma batalha. Cada dia seguinte é uma estratégia. 

Cansativos, esses tempos. Mas confesso: estão sendo de uma adrenalina absolutamente empolgante. 

Só preciso mesmo é que as trilhas e asfaltos me recebam bem nos começos e finais de dia. 

Esses momentos de inspiração endorfinada somada a alívio de estresse tem sido fundamentais para a sobrevivência. 

  

Checkpoint: Consistência

Ainda há um loooongo caminho até os 140km do Guimarães Rosa, em agosto… Mas essas últimas semanas foram essenciais para garantir um ingrediente que estava faltando desde a volta do Cruce: consistência.

Ela agora já está de volta. Resta planejar o percurso e seguir dando os passos necessários.