Comer e correr

Nunca considerei meus hábitos alimentares como dentro do padrão ou de qualquer suposta normalidade.

Vivo com duas refeições diárias – café da manhã e jantar -, sou absolutamente carnívoro, psicoticamente tarado por chocolate e praticamente sem o hábito de comer qualquer coisa verde. Um pesadelo para qualquer nutricionista – motivo pelo qual a tentativa de consulta que fiz, há bastante tempo, onde me foi “imposta” uma dieta radicalmente oposta ao que estava habituado, foi tão breve quanto única.

Em minha defesa, eu não bebo. Confesso que não por opção: uma cirurgia que fiz no fígado há 8 anos, quando pesava mais de 100kg e era tão sedentário quando uma mesa, me presenteou com essa impossibilidade.

Também em minha defesa: esse esquisito hábito alimentar mais ajuda do que atrapalha quando se curte correr ultras. Cheguei a comentar isso no post de ontem: habituar o organismo a comer de 3 em 3 horas é uma receita de desastre para qualquer um que deseje passar 8, 15, 24 horas nas trilhas. Treinamento e especificidade, afinal, são tudo.

E quer saber? Os exames que faço rotineiramente, uma vez a cada semestre, mostram que tudo está perfeito aqui dentro.

Sei, no entanto, que preciso fazer alguns ajustes. Chocolate demais atrapalha, obviamente. Cortar esse tipo de açúcar mais industrializado tem sido uma das minhas metas para este ano – mesmo porque, tenho plena consciência, poucos se lambujam de chocolate com tanto frenesi quanto eu.

Balancear melhor as refeições também precisa ser feito. Não estou falando de comer mais vezes – sou absolutamente contra isso. Mas estou falando de comer um pouco melhor, principalmente à noite. Quando chego em casa, especialmente depois de treinos noturnos, me entrego ao(s) prato(s) quase irracionalmente. Exercício dá fome, afinal. E exercício em jejum, quando termina, mexe com a cabeça mais do que o normal.

E isso, de fato, tem me trazido alguns problemas. Essa súbita fartura concentrada em 20 ou 30 minutos tem me feito dormir várias noites com a sensação de estômago dilatado – gerando também uma manhã esquisita, uma sensação prolongada de mal estar e problemas nos treinos. São sinais do corpo: é hora de mudar.

E, de duas semanas para cá, tenho feito ajustes. Se não dá para controlar o impulso de comer, então dá para começar com uma salada e trocar a sobremesa de chocolate por uma maçã. Coisas simples, práticas e de efeito imediato.

Resultados? As dores na região da barriga sumiram de vez e mesmo os quilos que começava a ganhar já ficaram para trás.

Estou longe de praticar qualquer tipo de radicalismo nutricional – mas esses últimos dias me ensinaram claramente que ouvir o corpo vai além de saber diminuir o ritmo dos treinos quando os músculos começam a ficar esquisitos. Ouvir o corpo significa também usar o velho bom senso para regrar o que se come com base em uma intuição quase óbvia, analisando continuamente coisas como histórico, sensações gerais de bem estar e evoluções de performance. Tudo, afinal, sempre tende a ser mais simples do que costumamos julgar.

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Sobre nutrição, corridas e o post do Balu

No dia 10 de fevereiro, o Danilo Balu fez um post pra lá de polêmico no seu blog Recorrido sobre nutrição. O título, para ser mais exato, foi “Dica de corrida do dia: jamais vá a um nutricionista!“. Os argumentos do Balu, que não cabe aqui replicar (una vez que basta clicar no link para ver na íntegra), eram agressivos – mas absolutamente coerentes.

O resultado foi um boom de críticas e ataques pessoas, incluindo até mesmo ameaça de processo por conselhos de nutrição. Curiosamente, apenas um ou dois dos quase 800 comentários realmente contestaram, com base em argumentos técnicos, o ponto do Balu. E os que se deram ao trabalho de contestar, ao menos sob os meus leigos olhos, foram mal sucedidos.

Pois bem: depois de apanhar por muito tempo, o Balu escreveu uma série de dez artigos absolutamente embasados, citando pesquisas que iam do século XIX até os dias de hoje. Quem quiser ler – e eu recomendo bastante – acesse os links abaixo:

Sobre nutrição e falácias – parte 1

Sobre nutrição e falácias – parte 2

Sobre nutrição e falácias – parte 3

Sobre nutrição e falácias – parte 4

Sobre nutrição e falácias – parte 5

Sobre nutrição e falácias – parte 6

Sobre nutrição e falácias – parte 7

Sobre nutrição e falácias – parte 8

Sobre nutrição e falácias – parte 9

Sobre nutrição e falácias – parte 10

Para coroar a discussão, o Corrida no Ar fez um episódio dedicado ao assunto, que posto aqui no blog, logo ao final do post.

Não sou especialista no assunto, mas devo concordar que a nutrição esportiva tradicional dificilmente se aplica a ultramaratonistas. Meus pontos, muito mais empíricos (mas, ainda assim, concretos), são:

  • Comer de 3 em 3 horas, como a imensa maioria prega, dificilmente conseguirá preparar o organismo para enfrentar 10, 15, 24 horas nas trilhas. Tudo na vida é treinamento – e isso inclui fazer o corpo aprender a otimizar as suas próprias reservas antes de entrar em colapso.
  • Exercício físico realmente não é sinônimo de emagrecimento. Sim, maratonistas profissionais são esqueléticos – mas isso é também fruto de uma genética diferenciada e de uma nutrição absolutamente regrada e personalizada. Em ultras, é extremamente comum encontrar corredores muito, muito acima do peso. Gordos mesmo. O motivo? Possivelmente o hábito de saciar a fome bíblica comendo tudo o que encontrar pela frente, sem culpa, depois de passar horas nas ruas.
  • Dietas sempre balanceadas são ideais? Não sei. Confesso que como de tudo: carnes, legumes, frutas etc. – e que tenho preferido refeições mais leves. Evito suplementos alimentares a todo custo: há algo sobre tomar colheradas de pó que vem em embalagens com fotos de pessoas deformadamente musculosas que definitivamente não soa bem. Mas o que dizer sobre as dietas paleo, sobre low-carb/ high-fat do Tim Noakes, sobre a dieta 100% de frutas do Michael Arnstein ou sobre os tantos veganos, como o lendário Scott Jurek? Todos tem receitas absolutamente exóticas sob a ótica da nutrição tradicional – e todos, sem exceção, creditam os seus ganhos em performance primariamente às escolhas alimentares. Se tanta coisa oposta funciona bem para tanta gente, então possivelmente a nutrição esportiva é mesmo algo muito, muito distante da receita de bolo comumente utilizada e pregada nos consultórios.

De toda forma, é uma discussão que deveria ser incentivada pelos conselhos e órgãos que reúnem nutricionistas: só o debate leva a melhorias. O que se viu (e o que ainda se pode ver) nos comentários do primeiro post do Balu foi justamente o oposto: uma caça às bruxas ridícula, baixa e muito mais compatível com fanáticos religiosos condenando à fogueira qualquer um que conteste a fé do que a cientistas que, por definição, deveriam ter ceticismo impregnado no DNA.

Que pena. Quem perde com essa postura é a comunidade de corredores.

A Teoria das Crises e Platôs

Depois de duas meias consecutivas no escaldante sol baiano, hoje foi dia de uma meia horinha regenerativa no Parque do Ibirapuera, já de volta ao ameno clima do fim de tarde paulistano. Resultado: ao invés de lento, cruzei o Parque na casa dos 4’50″/km praticamente sem esforço.

E foi aí que veio uma teoria totalmente empírica, sem nenhum embasamento científico ou estatístico que acabei cunhando na volta para a casa: a de que evoluímos em momentos de crise até alcançarmos novos platôs de performance.

Explico:

Quando terminei a Two Oceans, lá em 2013, fiz a Meia da Corpore ainda com dores nas pernas. Bati meu recorde pessoal para a distância.

Depois da Comrades, consegui subir mais a velocidade média e, quando cheguei na próxima ultra, a DUT, estava tinindo.

A DUT, no entanto, era pura trilha e a velocidade acabou sendo bem menos relevante. Quando a terminei, tinha o corpo praticamente perfeito para resistir por horas e horas – mas a velocidade caiu.

A Maratona de SP, no final de 2014, me colocou sob circunstâncias péssimas, com o calor e o percurso monótono destacando a lentidão que herdara das montanhas. Isso mexeu comigo e me fez ajustar o ritmo – sem perceber. Comecei a performar mais.

Em todos os momentos da minha vida de corredor, passar por provações (ou crises) acabou sendo fundamental para me fazer melhorar instintivamente na área que mais estivesse objetivando, fosse resistência ou velocidade.

Minha última meia em Salvador, ontem, foi dura, terminando quase ao meio dia e em um percurso repleto de ladeiras. Quando saí para correr hoje, estava cansado ao ponto de quase abrir mão da rua.

Não abri.

E bati meu recorde pessoal para o percurso sem, repito, precisar me matar. Foi até fácil, eu acrescentaria.

Conclusão? Sair da zona de conforto por alguns treinos chacoalha o corpo e a mente e os eleva a novos patamares de performance geral. Quer crescer? Primeiro, se estaboque em um treino ou uma prova além do que estiver preparado e deixe o próprio corpo se resolver sozinho depois disso.

Essa, pelo menos, virou a minha teoria.

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Correndo pela história de Salvador

Quando se corre em uma cidade velha, com séculos de história e sangue derramado pelas suas ruas e avenidas, é difícil não se imaginar cruzando o Tempo em si. Em plena quarta-feira de cinzas na capital baiana, imagens do passado remoto se fundiram com as do presente formando um mosaico surrealista de paisagens e cenas.

Começando pelo meu ponto de partida, no atual bairro do Caminho das Árvores, que ganhou vida mesmo no século XX. Por toda a minha infância, era apenas um punhado de casas bem arrumadas, com ares de interior e situadas entre pontos de referência como a sede da Odebrecht, o jornal A Tarde e a academia de tênis Frugoni.

Cortei a avenida ACM, homenageando o último dos donatários da capitania hereditária, até chegar ao Rio Vermelho. Por lá, já dava para imaginar índios confusos se deparando com Caramuru que, subitamente, apareceu em suas praias depois de um naufrágio. Magro, provavelmente sofrendo de escorbuto e com um aspecto de cadáver, poucos diriam que aquele corpo em breve se tornaria uma das figuras mais importantes do recém descoberto Brasil.

Logo à frente, ainda no mesmo bairro, um córrego que servia de matadouro para os primeiros colonos deságua no mar. O sangue do gado era tamanho que logo logo as águas ficaram quase que permanentemente avermelhadas, batizando toda a região.

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Seguindo adiante, uma pequena praia faz os zumbis do Carnaval dividirem espaço com mães de santo, pescadores e baianas de acarajé. O cheiro de dendê atravessa os mares e chega até o Morro da Paciência, último antes de se avistar o bairro de Ondina.

Foi o bairro onde nasci e me criei aqui na cidade. Calmo, com praias mais vazias indicadas por balaustradas brancas e uma fileira de hotéis com vista para o mar baiano – certamente o mais belo do mundo.

De Ondina à Barra, circuito tradicional do Carnaval, começa-se logo a avistar o Farol. Farol, aliás, que foi solução remendada para um forte inútil, que nascera para defender a Baía de Todos os Santos de invasores mas que, com canhões fracos, não conseguiu sequer assustar a esquadra holandesa que, no século XVII, dominou a região. Ali, dividindo espaço com corredores e foliões, muito sangue já foi varrido das colinas para o mar.

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Depois do Farol, os fortinhos de Santa Maria e São Diogo protegem o local exato onde os Portugueses efetivamente desembarcaram para fundar Salvador, hoje lembrado por uma cruz no atual Porto da Barra. Igualmente ineficazes contra os holandeses, eles formam um conjunto típico da cidade ao unir construções do século XVI a prédios da década de 70, mar e – claro – aquele permanente e delicioso cheiro de dendê.

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Dali, subi a ladeira da Barra. No meio do caminho, duas paradas rápidas: uma na Igreja de Santo Antônio, que abriga o primeiro (e possivelmente único) santo de todo o mundo que foi responsabilizado por evitar uma invasão inimiga (desta vez, dos franceses) e, portanto, passou a integrar o exército colonial e chegou a ser promovido até o posto de major.

Mais à frente o Cemitério dos Ingleses, onde eram enterrados os “europeus melhores”, como eram conhecidos, à época da abertura dos portos.

No topo da ladeira da Barra, uma visão. No passado, onde atualmente fica a clínica de ortopedia da Cato, Caramuru construiu ali a sua morada com Catarina Paraguaçú.  Foi de lá que ele praticamente viabilizou a construção da cidade no Pelourinho e de onde comandou uma das maiores operações de tráfico do mundo, vendendo pau-Brasil para os franceses. Dava para imaginar, a cada passo, negociatas e brigas antigas pelas ruas.

Tomei a reta e segui pelo Corredor da Vitória, destinada desde a sua fundação a ser a morada dos mais abastados. Ponto de saída de trios, era lá que moravam os ingleses, curtindo a vista deslumbrante da Baía de Todos os Santos e passeando em suas liteiras carregadas por escravos.

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Escravos às dezenas, centenas, milhares. Na região do Campo Grande e Avenida Sete, já a caminho da Castro Alves, dava para sentir os tiros de tantos policiais que, volta e meia, eram convocados para destroçar revoltas. A mais emblemática, a dos Malês, visava construir um califato muçulmano na Bahia – e tinha tudo para dar certo. Não deu porque, afinal, estamos na Bahia: às vésperas da rebelião estourar, a mulher traída de um dos líderes decidiu se vingar contando todos os planos à polícia e gerando uma relação de execuções em praça pública como jamais se havia visto. A praça, aliás, era logo ali do lado.

Descendo mais, liteiras com senhoras suadas no interior cruzavam a rua em frente ao Mosteiro de São Bento – local que até hoje guarda, a sete chaves, todos os documentos secretos da inquisição na América portuguesa.

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Desci mais, chegando à Praça Castro Alves. Ha um prédio em ruínas, pertencente ao Ministério dos Esportes, logo em frente à estátua. Ali ficava o Teatro São João, um dos mais belos da época e que se incendiou no começo do século XX. Em seus arredores, Castro Alves declamava junto a outros poetas inspirados pela Bahia. em um café próximo, aliás, dava para imaginar Maximiliano de Habsburgo sentado, calmamente escrevendo um livro sobre botânica nas Américas, encantado com a natureza. Mal sabia ele que, tempos depois, o destino o conduziria ao trono de imperador do México apenas para executá-lo em uma revolução poucos anos depois.

Praça Castro Alves

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Hoje, a praça é do povo. E, hoje, ela tinha cheiro de Carnaval: urina e cerveja quente misturada a asfalto fervendo davam o tom de toda a região. Por pouco tempo, pelo menos, já que a prefeitura estava ensaboando cada canto de cada rua no caminho da folia.

Subi a Carlos Gomes honrando o percurso dos trios. Por ali, em plena ditadura militar, levas e mais levas de estudantes foram perseguidos, presos, torturados e “desaparecidos”. Uns chamam esse período de “o mais negro da história do Brasil”. Não é: é apenas um tempo muito ruim ainda fresco na memória.

De guerras contra invasores e revoltas escravas, as ruas do centro baiano já viram muitos dias difíceis. Subi até chegar, novamente, ao Corredor da Vitória, cruzando-o então à ladeira da Barra. Passei de novo o Cemitério dos Ingleses, descendo a caminho do presente. Já na praia do Porto, entrei à direita na esquina do Forte São Diogo, subindo até o atual Yatch Clube. Tudo ali era silêncio: não se ouvia mais trios e nem se via mais almas dos que um dia perambularam pela cidade.

Só pequenos pássaros interrompiam, com alguma cautela, a única coisa que permaneceu intacta em quase 500 anos de Salvador: o barulho das ondas da Baía de Todos os Santos sobre as rochas de suas colinas.

Era hora de entrar no mar e agradecer à Rainha Yemanjá pela honra de ter testemunhado tanta coisa incrível ao longo de apenas 20km de corrida.

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Meia do sol

Nosso corpo esquece fácil.

Saí de Salvador para morar em São Paulo há quase 20 anos. À época, o calor intenso da cidade era apenas cotidiano, alvo de pequenas reclamações frugais e base para muitos programas que tinham o sol e o mar como protagonistas máximos.

Com o tempo, as lembranças foram ficando no passado mais remoto, naquele canto do cérebro que desconhece termômetros e sensações mais fisiológicas.

E muita coisa aconteceu – incluindo a minha descoberta da corrida como esporte que, hoje, é parte tão integrante do meu estilo de vida.

Todo ano volto a Salvador, nem que seja por um punhado de dias, para me abençoar nas águas de Yemanjá, revisitar o passado e, claro, correr a cidade. E todo ano me esqueço de como aqui é quente.

Hoje saí para fazer 2 horas de treino às 7 da manhã. Só que 7, no nordeste, está longe de ser cedo.

O termômetro que encontrei já no km 3 apontava 28 graus. De tempos em tempos, quando cruzava por outros termômetros, via aumentos contínuos que rimavam bem com os rios de suor que jorravam do corpo.

Umidade alta, sol escaldante e nenhuma única núvem no céu.

Para não esquecer que era Carnaval, alguns trechos eram pontilhados por ambulantes dormindo ao lado de seus isopores e caminhões ensaboando todo o asfalto para limpar um pouco o pecado que faz da capital baiana seu lar durante os festejos.

Em um ou outro canto, casais continuavam firmes na safadeza, certamente remanescente da noite anterior e embalada por um mar deslumbrantemente azul.

Eu amo esta cidade.

Com esses pensamentos ecoando entre os ouvidos, cheguei ao bairro de Ondina, logo antes da Barra, e dei meia volta.

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Decidir o ponto de retorno em um percurso tão quente e úmido tem o lado bom e o ruim. O bom, claro, é saber que dali em diante, a próxima parada é em casa; e o ruim é a certeza de que ainda há o dobro de chão a percorrer enquanto o dia apenas esquenta.

Tudo bem: fechar duas horas com qualidade no calor do auge do verão baiano serve, no mínimo, como treino mental.

Aprende-se, por exemplo, a encontrar pontos no percurso que tirem o foco do esforço. Como essa vista abaixo, por exemplo, que praticamente me acompanhou por todo o caminho:

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Perfeito.

Pelo menos o suficiente para que eu ignorasse os efeitos do inclemente (mas belíssimo) sol soteropolitano e fechasse uma meia maratona inesquecível.

Checkpoint: Fechando a semana no Carnaval baiano

Independentemente de qualquer gosto musical, há qualquer coisa de muito diferente em se testemunhar o Carnaval em Salvador. Na prática, a sua essência tem muito pouco a ver com Cláudia Leite, Ivete Sangalo ou quem quer que esteja em cima de um trio: tem a ver mesmo com o que se passa abaixo dele.

Explico: o Carnaval baiano só se tornou o que é por conta de uma força popular essencialmente local e que mescla malandragem, energia, sol, mar, suor e muita, muita vontade de ser feliz. A música em si é apenas uma coadjuvante que ganhou proporções muito maiores do que deveria.

Cheguei em Salvador ontem à noite para aproveitar o feriado unindo a família formada por mim à que me gerou, casando as minhas raízes às raízes que estou formando hoje, na outro ponta do país em que vivo.

E a primeira coisa que fiz – claro – foi sair para uma corrida de cerca 1h30 pela orla. Saí do bairro do Caminho das Árvores, onde meu pai vive, e desci até a Pituba, cruzando Amaralina, Rio Vermelho, Ondina e Barra. Fiz boa parte da orla baiana correndo por entre as minhas lembranças e encontrando pérolas como um ritual de Candomblé em plena praia. Não resisti e tirei uma foto:

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De lá em diante fui embalado pelos batuques dos Orixás, testemunhando sorrisos de todos os lados, cruzando com trios se preparando para um dia de guerra e sendo abençoado pelo sol e pelo onipresente mar soteropolitano.

A cidade parecia de uma felicidade sem paralelos, mesmo considerando o cansaço estampado nos olhares dos ambulantes que fazem da folia o seu ganha-pão. Em Salvador, a sensação que dá é que trabalhar é apenas algo necessário para se viver – e que deve ser feito com a mesma alegria que se tem ao tomar um chopp com os amigos em algum boteco qualquer.

E o que tudo isso tem a ver com corrida e com o treino? Mais do que se imagina.

Sob o sol da cidade, as dores nas costas evaporaram por completo; o estômago melhorou; o ritmo voltou ao normal e tanto mente quanto corpo pareciam curados no instante em que encerrei a corrida para um mergulho nas águas transparentes da Baía de Todos os Santos.

Não poderia ter esperado nada melhor que isso para finalizar uma semana tão difícil e dolorosa quanto esta.

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Ritmo errado

Depois de dois dias de descanso total para me recuperar de algumas estranhas dores pelo corpo, chegou o sábado.

4 horas de treino previstas em um local mais “fácil”, com menos ladeiras e trânsito praticamente inexistente: a USP, meca dos corredores de rua aqui em Sampa.

Saí às 8 em ponto – talvez um pouco tarde dado o calor senegalês que se abateu sobre a cidade neste final de verão.

Talvez, não: com certeza.

Os primeiros quilômetros em direção à Marginal, ainda em um pace relativamente firme no sub-6′, já alertaram para as dificuldades. Clima desérticamente seco, termômetros subindo sem parar e um céu com pouquíssimas núvens guiaram o meu caminho de pouco mais de 8km até a Cidade Universitária.

Lá dentro, acompanhado pelas hordas de corredores e ciclistas que vivem nas ruas da USP, a ideia era dar 3 voltas (também com cerca de 8km cada) e retornar. Ou seja: faria, assim, algo como 40km no longão.

Faria.

Lá pelo quilômetro 15, o abdômen voltou a incomodar mais do que deveria e a cabeça, a pesar com o sol.

Diminuí o ritmo, comecei a intercalar com um pouco de caminhada e, por um tempo, tudo melhorou um pouco.

Foi só encarar o retão próximo à Raia Olímpica, no entanto, que todas as dores voltaram. Correr passou a ser algo menos natural, mais difícil. Desacelerei.

Entrei na trilha, já consciente de que cortaria a terceira volta, para mudar de ares. Trilhas são sempre um bom remédio.

Sob a sombra das suas árvores, melhorei um pouco e encarei a segunda subida do Matão.

Não deu: andei por parte dela. Voltei a correr.

Na descida até o portão voltei a acelerar, fazendo pouco mais de 1km em ritmo de Usain Bolt. Fui bem, estranhamente confortável.

Quando cheguei no plano novamente, troquei de marcha e decidi me encaixar em um pace mais leve e compatível com o estado do corpo.

Quer saber? Funcionou maravilhosamente bem.

Como saí de casa em jejum (algo que sempre faço, aliás), parei em um boteco a uns 5km de casa e tomei uma Coca. Açúcar cairia bem naquele ponto.

De lá em diante, não posso dizer que tive uma corrida perfeita: o estrago, afinal, já havia sido feito.

Mas consegui correr relativamente bem, fechando quase 32km em 3h30.

O longão de hoje não foi exatamente algo incrível – mas me ensinou uma lição importante: ritmo bom é aquele que nos permite chegar no melhor estado possível à nossa meta.

Parece óbvio, claro: mas, no calor dos treinos e na ansiedade de se superar marcos pessoais, isso acaba se perdendo no esquecimento.

Se tivesse sido mais conservador já no início eu certamente não teria quebrado como quebrei no longão. Tudo bem: que a memória do erro sirva de combustível para o próximo.

Mas há, ainda, algo a mais que também não posso ignorar: há algo de errado com o meu estômago, que tem estado em uma espécie de constante estado de dilatação e doendo mais do que deveria. Nutrição, talvez?

Não sei a causa exata – mas certamente é algo que merece ser observado mais de perto nos próximos dias.

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Corpo truncado, treino interrompido, descanso programado

A meta ontem era fazer 1h30 de treino intenso, incluindo uma sessão de 30′ e outra de 20′ de tempo a um ritmo sub-5′. Não deu.

Coloquei apenas 5 minutos de aquecimento antes de engatar na primeira tempo run, insuficientes para preparar o corpo. Quando acelerei, embora tenha conseguido manter um bom ritmo nos primeiros quilômetros, logo senti que o corpo não responderia tão bem.

Antes dos primeiros 15 minutos já estava olhando no relógio, ansioso para que ele corresse mais do que as pernas. Pouco tempo depois, dores na região do abdômen, em uma faixa logo abaixo do umbigo, começaram a aparecer.

Forcei por mais um pouco de tempo mas, depois, parei e caminhei por um minuto.

Acelerei de novo, desta vez apenas procurando me manter em mais confortáveis 5’30″/km, mas novamente fui forçado a interromper.

Uma náusea repentina apareceu.

Corri, andei, corri, andei. As costas não chegaram a doer – mas o abdômen começou a dar pontadas mais fortes, mais intensas, indicando que algo decididamente estava errado.

Nas últimas semanas tive dores fortes na região lombar (muito embora a causa não tenha sido a corrida em si, mas sim um “levantamento de peso” fora de hora), senti um pouco o joelho direito e, agora, o abdômen acompanhado de náuseas. Se isso não é o corpo dando sinais claros de que estou forçando-o além da conta, então não sei o que pode ser!

Hora de ser racional.

Interrompi o treino 15 minutos mais cedo e cancelei o de hoje, que incluía 4 sessões de 8′ de mais tempo runs. Considerando que, nas últimas semanas, elevei consideravelmente o ritmo das corridas – e que na semana passada casei isso com um pico no volume – nada mais natural do que sentir as primeiras reclamações físicas.

Hoje, portanto, será dia de descanso – assim como amanhã.

Sábado tem longão de 4 horas, mas onde posso encaixar um ritmo mais confortável e que cause menos dores. Veremos como será.

Por hora, aproveitarei 2 dias de descanso aparentemente (muito) bem vindos para as pernas e para o core como um todo.

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2015 vs. 2014: Comparando 2 anos de treinos e resultados

Fiquei encafifado com o post de ontem, quando efetivamente analisei meu pace médio e comecei a ver que uma tendência de lentidão que começou a (finalmente) ser interrompida.

Aí me lembrei que registrei cada semana também do meu treinamento para a Comrades 2014, base no mínimo interessante para um comparativo.

Ei-lo nos gráficos abaixo, que consideram a semana 1 (S1) como a primeira de novembro do ano anterior ao de análise:

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O primeiro gráfico é o de volumetria – e já deixa uma informação preciosa: nas últimas 14 semanas, apenas 2 tiveram menos rodagem que em 2014: a que incluiu a ultra de 50K e a da semana imediatamente posterior, que dediquei a recuperação.

O outro gráfico, de pace médio, reforça os efeitos disso: tirando os dois picos de lentidão nas semanas que incluíram a viagem recheada de trilhas por montanhas nos Andes e os 50K da ultra de aventura na Serra do Mar.

Uma olhar mais superficial já enxergaria uma clara relação entre rodar mais e acelerar menos. No entanto, há algo mais aí.

A rodagem realmente aumentou, mas nada que tenha sido exagerado ou mesmo fora de um natural ganho de experiência. O que aconteceu mesmo foi redução de velocidade por conta da transição para trilhas. Ou seja: na medida em que terrenos vão ficando mais técnicos e subidas, mais íngremes, realmente se cria uma espécie de zona de conforto em que se aceita melhor uma menor agilidade. Natural.

Natural, no entanto, não significa correto. Aliás, análises assim são perfeitas para se ajustar o treino.

Meu objetivo agora: voltar a paces médios sub-6′ mantendo (ou pelo menos reduzindo apenas minimamente) a volumetria.