Blackout

Ontem cheguei de viagem relativamente inteiro e já traçando a rota do longão de hoje. Atravessaria a Marginal, cortaria o Butantã e faria as trilhinhas do Parque Alfredo Volpi e do Burle Marx. 

Voltaria depois de umas 3 horas com quilômetros muito bem gastos sob as solas dos tênis.

Não deu: acordei com aquele cansaço sobrehumano, com sono e praticamente sem conseguir me mexer. Cheguei até a trocar de roupa e a fazer um check-up – fisicamente, afinal, estava perfeito e sem uma única dor pelo corpo.

Mas fui sugado pela cama.

Capotei.

Acordei às 11 da manhã pela primeira vez em 4 anos.

2015 está acabando comigo.

  

Preciso de uma trégua do ano

Ontem eu escrevi aqui que o ano estava diminuindo o ritmo. Deveria ter sido mais esperto: há coisas que não se fala por aí, coisas que parecem convidar maus agouros para dentro de casa.

No instante em que pisei na agência, bombas sequenciais decidiram explodir. Apareceu concorrência nova, campanha de ano novo, relatório para fazer com prazo insano, mudanças abruptas em verbas forçando replanejamentos inteiros e assim por diante. Traduzindo em uma única palavrinha: caos.

Cheguei em casa me arrastando, praticamente lambendo o chão e pedindo clemência ao celular que não parava de tremer. Sentei no estado vegetativo pleno e fiquei ali, tão imóvel quanto um vaso, enquanto personagens corriam na tv em minha frente, família passava pelos lados e os ponteiros do relógio na parede de trás seguiam o rumo próprio.

Dormi.

No dia seguinte, hoje, o despertador já soou para a rotina: acordar a filha, dividir tarefas de arrumá-la para a escola e preparar seu café, brigar por alguma malcriação matinal menor, achar os sapatos que sempre parecem fugir dos pés que pretendem calçá-los, atender o interfone e avisar a van que estamos atrasados, correr pelo hall, dar tchau.

7:30 da manhã. 

Hora de dar uma corridinha no parque. Pela primeira vez em semanas consegui encaixar treinos em três dias seguidos, algo que sempre me foi habitual.

Mas sabe o resultado? Apesar do treino ter sido proveitoso tanto em ritmo quanto em volume, estava cansado. Dolorido. Sonado. Tenso.

Há momentos em que nem uma boa corrida ajuda a descansar. 

Agora, enquanto sigo de taxi até a segunda reunião do dia, só torço para que a semana passe logo e que, nesses próximos dias, menos bombas insistam em explodir.

Preciso de uma trégua emergencial desse ano.

  

O Gambá-Rei do Ibirapuera

Tenho o hábito de correr cedo – bem cedo. Chego no Ibirapuera ainda antes do sol nascer e, dependendo da época do ano, saio também antes das primeiras luzes acenderem o dia. 

Nesse tempo todo, me acostumei a ver pequenos vultos cruzando o parque, principalmente quando vou pela trilha na companhia daquele cheiro de mato tão incompatível com São Paulo. São tatus, gatos e mesmo ratos que fazem daquela zona – inteligentemente – as suas casas. 

Hoje, no entanto, aproveitei que o ritmo do trabalho estava diminuindo com o final de ano e saí com o sol já pintando o céu de azul e vermelho: dei meus primeiros passos às 6 em ponto. Pareceu que estava em outra cidade: havia mais gente dividindo a pista, os carros seguiam em linhas retas (afinal, não estavam mais sendo conduzidos por bêbados varando a madrugada) e o tipo de calmaria era diferente, mais leve e menos assustadora. 

Não esperava, portanto, cruzar com nenhum dos pequenos vultos que me fazem companhia de madrugada: imaginei que todos já estivessem devidamente entocados e escondidos da confusão. E a maioria provavelmente estava mesmo – exceto por um.

Em um brado de coragem, no meio de pessoas e bikes, um gigantesco gambá decidiu, de repente, atravessar a pista. Lentamente. Soberanamente. Arrogantemente.

Ignorava tudo e todos, como que deixando claro que era ele o dono de tudo aquilo. E quer saber? Parecia ser mesmo. Bikes desviaram, corredores pararam para tirar fotos e até os trabalhadores do parque, que começavam a assumir os seus postos, murmuravam qualquer coisa entre si. Ninguém ousou chegar perto demais ou atrapalhar a vagarosa caminhada do Gambá, aparentemente o rei do parque. 

Decidi segui-lo de perto para fora da pista, até o gramado. 

Ele parou e se virou para mim, como que me reconhecendo das outras madrugadas. 

Me olhou, reprovando esse atentado ao seu direito de solidão, e ficou imóvel por alguns instantes. 

Depois, voltou a me ignorar, ciente de que ninguém ali seria capaz de fazer qualquer coisa contra ele, e seguiu no mesmo ritmo lento. 

Não desisti e fui atrás do meu “amigo  por mais algum tempo, desta vez contando com o seu total desprezo pela minha presença. Ele nem sequer tentou se fazer invisível: em um par de segundos, sem quebrar o pace, ele virou para uma árvore – uma das grandes que pontilham o parque e que fazem parte da sua paisagem – e entrou em uma toca que eu jamais havia percebido. Estava em casa. 

O Gambá não saiu mais de lá: provavelmente estava na hora de descansar de uma noite de caça intensa pela selva do Ibirapuera. Eu, por outro lado, não tinha mais o que fazer. 

Nós dois, afinal, tínhamos as nossas vidas para tocar.

E, no fundo, nós dois sabíamos que nos veríamos de novo em breve, seja em alguma outra madrugada ou em outra manhã corajosa como aquela.

Dei dois passos para trás e segui meu rumo. 

   

Finalmente, o ano começa a ter cara de fim

Tem um momento do fim do ano em que tudo fica turbulento: concorrências surgem do nada, clientes pedem jobs de última hora, prazos magicamente se encurtam. De repente, é como se o racional por trás dos planos de comunicação de empresas desse lugar a uma afobação desmesurado. E todo ano é assim, com ou sem crise.

Para mim, isso significa que ele está chegando ao fim. Essa afobação toda durará, pelos meus cálculos, até a sexta da semana que vem, quando será gradualmente substituída por festas de fim de ano, planos de viagens e árvores de Natal.

Para quem curte trilhas e ruas, isso também significa que um ar mais brando está prestes a chegar, com menos pendências e mais paz. O calor, que está demorando para chegar com a força que costuma ter, já já deve começar a fritar as árvores do Ibirapuera; os convites de amigos para longões em trilhas mais distantes começarão a surgir; a possibilidade de encaixar longuinhos leves em dias úteis se materializará.

Perfeito.

Final de ano é sempre, sempre perfeito.

Parque do Carmo? Cantareira? Pico do Jaraguá? Talvez alguma prova menor em algum lugar montanhoso?

Hora de começar a planejar umas corridas diferentes.

IMG_6160

Checkpoint: Escalando de volta

Nem cansaço, nem gripe, nem más notícias ou viagens de meio de semana. Há horas em que simplesmente precisamos dar um basta em desculpas internas, virar a página e começar um novo capítulo.

Missão cumprida. 70km rodados na semana, com o bônus de incontáveis subidas por escadas no trabalho e na escada. 

Não nego o cansaço, claro – mas ele não é nada perto dessa sensação de uma semana finalmente bem fechada, trazendo esperadíssimos bons prospectos para o restante deste mês de dezembro.

   
 

Deixando a raiva no asfalto

Sabe aquele último post, de quinta, que eu estava doente e desisti de correr?

Pois é: nada como uma boa dose de chateação para bombar a adrenalina. Cheguei em casa com tanto mau humor por conta de um projeto no trabalho que, embora com alguma febre, troquei de roupa e voei para o Ibirapuera. 

Deixei toda a minha raiva lá no parque e trouxe de volta uns 15km. Ontem, sexta, antecipei meu longão e rodei mais uns 20. 

Novamente, cheguei suando mau humor e voltei quase que flutuando. 

Bom remédio, esse. Melhor que qualquer Advil ou coisa do gênero.

Febre, gripe, dor de cabeça e no corpo? Deve ter ficado no parque também!

  

  

   

Baqueado

Como se não bastasse, logo agora que estava voltando ao normal, uma gripe do tamanho do medo me tomou de assalto. 

Correr? Só se fosse louco. Febre, dores no corpo, moleza. Tudo.

Talvez seja tudo parte da mesma reação ao cansaço mental e físico, que soma um possível excesso de provas a um ano realmente caótico. Talvez. 

A única certeza que tenho é que estou bem cansado desse cansaço. 

  

Porque correr no centro de São Paulo é sensacional

Basta olhar esta foto abaixo, que tirei ontem de manhã.

Poucos são os lugares que casam de maneira tão desconcertantemente perfeita a imortalidade dos arranha-céus da primeira metade do século XX à podridão fedorenta que se arrasta pelos chãos.

Poucos são os lugares que conseguem transformar promessas de um futuro glorioso em excrementos de um passado e presente tão decadentes.

Aliás, poucos são os lugares que mesclam tão abstratamente o Tempo, ignorando sua cronologia e misturando tudo em um caldo com doses do indígena, do colonizador, dos barões de café, dos magnatas da indústria, dos ambulantes, dos mendigos, das putas, dos padres, dos podres, do incenso, das fezes e urinas marcando o território mais animalesco dos homens.

Testemunhar isso em uma corrida é como receber as boas vindas de todos os anjos e demônios que perambulam, em alma ou em corpo, por lá.

De uma maneira esquisita, talvez até meio torpe, há que se amar o centro de São Paulo.