El Cruce: Altimetria dos 3 dias de prova

Ainda estamos em novembro mas, a esta altura, já estou contando os dias para o Cruce. Para quem curte montanhas, afinal, o prospecto de uma prova longa atravessando os Andes com direito a acampar sob as estrelas na fronteira do Chile com a Argentina é, no mínimo, delicioso. 

Vamos, então, ao percurso. O mapa ainda não está disponibilizado no site, mas a altimetria está. Ótimo: já é uma chance de eu me familiarizar e cozinhar a ansiedade que já corre solta nas veias. 

Os dados estão abaixo. Agora é olhar para eles e imaginar aquela vista incrível de uma das regiões mais maravilhosas do planeta. 

Etapa 1: 

  • DISTANCIA: 38 KM
  • ALTURA MAXIMA: 1123m
  • ALTURA MINIMAL: 647m
  • DESNIVEL ASCENDENTE: 1599m
  • DESNIVEL DESCENDENTE: 1738m
  • DESNIVEL ACUMULADO: 3378m  


Etapa 2:

  • DISTANCIA: 30 KM
  • ALTURA MAXIMA: 1104m 
  • ALTURA MINIMA: 644m 
  • DESNIVEL ASCENDENTE: 1145m 
  • DESNIVEL DESCENDENTE: 756m
  • DESNIVEL ACUMULADO: 1901m


Etapa 3:

  • DISTANCIA: 26 KM 
  • ALTURA MAXIMA: 1843m 
  • ALTURA MINIMA: 644m 
  • DESNIVEL ASCENDENTE: 1935 
  • DESNIVEL DESCENDENTE: 2351m
  • DESNIVEL ACUMULADO: 4286m

   

Oi escadas

Preciso treinar mais subidas. Pegar mais fôlego, desenvolver mais capacidade aeróbica, me preparar melhor para os três dias do Cruce e, claro, para as sempre montanhosas trilhas.

Os percursos que faço no cotidiano não bastam: há pouca altimetria na região do Ibira e um eventual Pico do Jaraguá ou rodagem pelo Pacaembu é pouco demais.

A solução? 

Adeus elevadores, oi escadas. Todos os três lances até minha casa e sete até o trabalho.

Improviso é tudo.

  

A pressa e o pace

Quer treinar em uma intensidade maior? Você não precisa de relógio ou qualquer app de live coaching: basta estar atrasado.

Exemplo prático: encaixe 11km no horário de almoço entre reuniões. Você não conseguirá sair com tempo de sobra: reuniões tem um ritmo próprio que, sadicamente, tende a se arrastar quanto mais cedo você quiser ou precisar sair.

Também não poderá voltar tão cedo para a próxima: 11km, afinal, são 11km. Dá menos que uma hora se for rápido (ao menos sob meus parâmetros), mas ainda assim sob pressão considerando que será necessário ainda tomar um banho para voltar “bem” ao trabalho.

Resultado: o pace será instintivamente acelerado pela pressa. Não será a corrida mais zen do mundo: a pressão do tempo o fará querer engolir – e não saborear – os quilômetros. Mas, ao mesmo tempo, será um belo treino, com toda a intensidade que uma manhã com tempo de sobra não consegue entregar.

A pressa pode não ter aquele sabor deliciosamente endorfinado que buscamos nas trilhas – mas ela certamente é muito amiga do pace.

  

El Cruce: Hora de comprar uma nova mochila de hidratação

Me dei bem, muito bem, com a mochila de hidratação Quechua Raid Trail 10L. Para trilhas mais rápidas, onde não se precisa levar tanta coisa e sem a necessidade de trekking poles, eu arriscaria dizer que ela é perfeita: leve, prática, durável e acessível. 

Curiosamente, ela substituiu uma mochila mega cara da Salomon que comprei em um arroubo de ansiedade e que em nada me serviu: as alças eram tão espessas que, depois de 1 horinha na rua, meus peitos estavam já em carne viva e escorrendo aquele agonizante fio de sangue pela camisa. Nas trilhas, nem sempre o barato sai caro: às vezes o caro é que saí caríssimo. 

Só que havia dois probemas com a Raid Trail (tanto nas versões de 10 quanto de 12L): a falta de compartimentos mais práticos e de suportes melhores para prender os poles. E isso, dependendo do percurso, é bem importante.

Assim, movido por um review do Jósa lá no EndorfineSe, fui na Decathlon comprar a MT10. 

Confesso que, de primeira, fiquei mais seduzido pela MT5: menor, super compacta e mega, mega prática. Só que, lá no Cruce, a quantidade de “coisas” que terei que levar na mochila é tamanha que preferi pecar pela segurança. 

E, assim, por R$ 299,00, trouxe comigo para casa a Quéchua MT10L. 

Ainda não a testei mas, apesar dela parecer meio grande demais e desengonçada, os reviews na Internet foram suficiente para me convencer. Há um mundo de compartimentos, zípers práticos, teias externas para se prender os poles e bolsa de hidratação de 2L, volume que considero ideal para trilhas maiores. 

Agora é testar e torcer para que ela realmente seja o modelo ideal!

  

Checkpoint: Ouvindo o corpo

Foram só 3 corridas: terça, sexta e sábado. 

Mas as três, no entanto, foram relativamente longas: a menor teve 14km, talvez um exagero dado que ainda estou naquela fase lenta de recuperação depois do cumprimento de uma meta importante. 

Isso ficou claro ontem, quando olhei os nomes das minhas corridas no Strava: estava apenas piorando o estado geral da musculatura ao insistir em sair para o parque. E, assim, apesar do deliciosamente convidativo sol que brilhou neste domingo, apesar dos planos que tinha de sair em uma trilha urbana pelo centro, deixei roupas de lado e me prendi na cama. 

As pernas agradeceram. Ainda agradecem, verdade seja dita: dá para sentir a musculatura se refazendo, se recompondo, reconstruindo. Dá para sentir uma espécie de alívio no corpo inversamente proporcional ao que sente a cabeça, inconformada em perder um dia tão perfeito assim. 

Um dos dois – corpo ou mente – teria que perder no dia de hoje. Optei pela mente. 

Se tem uma coisa que ficou clara para mim ontem foi que insistir um pouco mais poderia ser uma receita para fazer lesão. 

   
 

Traduzido pelos títulos no Strava

Sempre que termino um treino, a primeira coisa que faço é salvá-lo no Strava e batizá-lo com algum nome prático. Isso pode parecer ridículo – e talvez até seja mesmo – mas o título dado a uma corrida costuma resumir perfeitamente tudo o que aconteceu no conjunto de horas que passei imerso nas trilhas e ruas. 

Há títulos de todos os tipos – da mesma forma que as corridas, claro. 

Quando estou simplesmente encantado com o calor e o céu azul, o treino se chama ‘Não há nada melhor que o sol’. No final, foi o sentimento que restou depois de ter cumprido o percurso – e, portanto, o que merecia ser registrado. 

No mesmo espírito, uma corrida de fim da tarde em hora de rush vira ‘Atirando na noite por entre barreiras de pessoas’. 

Pelas dunas desertas e desérticas do Ceará? ‘Abundantemente só’. 

Cortando bairros exoticamente diferentes em São Paulo? ‘É sempre possível atravessar o tempo nas grandes cidades’. 

E assim por diante. 

E sabe onde isso pode ser importante? Ler o conjunto de títulos dados a treinos sequenciais acaba sempre traduzindo um estado maior do corpo que tendemos a esquecer poucos minutos depois de voltarmos para casa. 

Olhei os meus últimos treinos: o Strava não mente. 

14/11 (1 semana depois dos 100K da Indomit): ‘Voltando’.

15/11: ‘Fluidez.’

17/11: ‘Normal’

20/11: ‘Ainda um pouco enferrujado’

21/11: ‘Aargh!’

A leitura é óbvia. Sim, retornar de uma grande ultra, qualquer que seja, sempre gera aquela sensação de orgulho, de superação. Dá outro sentido ao esporte e gera um tipo de autoconhecimento mais denso e bem, bem diferente do tradicional. Só que, da mesma forma que durante uma corrida, mente e corpo nem sempre ficam em sintonia.

Nos últimos 3 dias saí do ‘normal’ para a sensação de ‘ferrugem no corpo’ para a pura dor (‘Aargh!’) durante um treino. Ladeira abaixo, em outras palavras. 

Talvez seja o momento de dar mais tempo ao tempo, forçar menos o corpo para recuperar o mo-jo e ficar mais inteiro do que estou. 

Obrigado, Strava.  

  

Corrida real

Nada de corrida imaginária hoje. Aproveitando o feriado, foi o tempo de acordar, brincar de Barbie (algo mais cotidiano que jamais imaginei por conta, obviamente, da minha filha) e sair. 

A meta: 15km no Ibira. 

A realidade, diferente do imaginário, foi sentir que o corpo ainda não está 100% recuperado. Não que esteja quebrado, claro – mas a sensação de ferrugem persiste firme, fazendo-se notar nas articulações e músculos da perna. 

Mas fui. Na ida, um vento contra delicioso lembrava que a madrugada havia sido de tempestade na capital paulista. 

Tomei a trilha. 

Um pouco de lama e árvores caídas deram o tom da manhã. Um tom fantástico, diga-se de passagem, com direito a trilha praticamente exclusiva para mim e um ar condicionado natural delicioso. É impressionante como o efeito da endorfina é forte: bastou meia volta por lá que eu já estava me sentindo novo, revigorado, e sem nenhuma vontade de terminar em 1h30. 

Sem compromissos no resto da manhã, eu simplesmente segui em frente, deixando o corpo decidir por mais uma volta. Em um determinado ponto, o céu decidiu abrir e dar espaço ao calor úmido, mais intenso, ardente. 

Sem pensar duas vezes, tirei a camisa e segui com um sentimento de liberdade daqueles que só se espera ver em filmes. Perfeito. 

Só no final da segunda volta é que voltei a sentir as articulações e decidi não exagerar. No total, fiz 18km com direito ainda a subir a Ministro até a Paulista, entrar no Parque Mário Covas e voltar para casa. 

E pronto. 

Dia bom é dia que começa com suor escorrendo por quilômetros.

Só espero que a recuperação venha logo – estou cansado desse gerúndio. 

    

A corrida imaginária

Cheguei cedo – mais do que o que pode ser considerado saudável – ao aeroporto. Meu vôo estava marcado para sair às 6:20 de Congonhas rumo a Navegantes, de onde eu tomaria um carro até Blumenau. Viagem cansativa: às 20:20 do mesmo dia, afinal, eu estaria de volta em um avião destinado a Sampa. 

E estava justamente reclamando de ter acordado às 4 da manhã quando me aproximei de Blumenau. Ao me deparar com aquela pequena cidade encravada em um vale e cercada por morros absolutamente convidativos, por pouco não ignorei a bateria de reuniões, comprei roupas de correr e saí para me perder nas trilhas. 

Não me entreguei: responsabilidade, às vezes, é um saco. Estava lá a trabalho. 

Comecei a reunião. 

Apresentações para um lado, discussões por outro, conclusões para um terceiro… tudo seguia como o cotidiano de um dia útil normal. Pelo menos até que uma janela sugou meu olhar até um morro imenso que, aparentemente, se colocou ali, do outro lado da rua, apenas para me seduzir.

Desconectei do presente e me deixei levar por ele. Não tinha escolha: seu verde era tão intenso no contraste com o céu azul que virar o rosto era simplesmente impossível. E assim, na minha cabeça, comecei a me aventurar pelas veias abertas que abriam caminho na mata. 

Sem quebrar o ritmo, subi um morro até um mirante de onde se podia observar todo o vale. Dei um giro pelo cume: um mar de morros se enfileirava por quase todas as direções ajudando a delinear o rio. Na base, dava para ver uma ponte antiga, do tempo das estradas de ferro, que se emendava a uma ruela de pedras. Desci até lá em velocidade queniana, forçando passadas curtas para garantir o equilíbrio. Cruzei a ponte e não aguentei: encarei um outro morro que se prostrava à frente.

Neste, enfrentei algumas subidas mais técnicas, escorreguei sem perder o equilíbrio e me vi em uma espécie de clareira inusitada, uma mistura de bosque europeu com mata atlântica. Parei, respirei, procurei uma saída e segui em frente. Estava na cidade, cortando pequenas casas ao estilo alemão e imerso naquele estado zen que só a corrida nos deixa. 
Quando há natureza cercando o asfalto, no entanto, logo se enjoa dele e se busca zonas menos urbanizadas. Desta vez, uma subida íngreme me levou para uma espécie de bairro mais afastado, com casas vistosas cercadas por verde e por sons de todos os bichos que vivem apenas para exclamar as suas existências. Aproveitei: o lugar era bonito, gostoso e fácil, sem nenhum grande desafio além da inclinação em si que me fizesse cortar o pace. 

E assim passei cerca de 2 horas na mata imaginária, rodando 17 deliciosos quilômetros pelo que me parecia ser a capital brasileira dos morros verdes. 

Até que ouvi meu nome na sala de reunião. 

Em um passe de mágica, tudo evaporou: os morros, o suor, as casas, os sons, o calor, o céu azul. Não estava mais correndo: estava no meio de 5 senhores de roupa social discutindo marcas, campanhas, comunicação. 

Era hora de voltar à realidade.

Nunca uma corrida terminou de maneira tão abrupta.