A corrida imaginária

Cheguei cedo – mais do que o que pode ser considerado saudável – ao aeroporto. Meu vôo estava marcado para sair às 6:20 de Congonhas rumo a Navegantes, de onde eu tomaria um carro até Blumenau. Viagem cansativa: às 20:20 do mesmo dia, afinal, eu estaria de volta em um avião destinado a Sampa. 

E estava justamente reclamando de ter acordado às 4 da manhã quando me aproximei de Blumenau. Ao me deparar com aquela pequena cidade encravada em um vale e cercada por morros absolutamente convidativos, por pouco não ignorei a bateria de reuniões, comprei roupas de correr e saí para me perder nas trilhas. 

Não me entreguei: responsabilidade, às vezes, é um saco. Estava lá a trabalho. 

Comecei a reunião. 

Apresentações para um lado, discussões por outro, conclusões para um terceiro… tudo seguia como o cotidiano de um dia útil normal. Pelo menos até que uma janela sugou meu olhar até um morro imenso que, aparentemente, se colocou ali, do outro lado da rua, apenas para me seduzir.

Desconectei do presente e me deixei levar por ele. Não tinha escolha: seu verde era tão intenso no contraste com o céu azul que virar o rosto era simplesmente impossível. E assim, na minha cabeça, comecei a me aventurar pelas veias abertas que abriam caminho na mata. 

Sem quebrar o ritmo, subi um morro até um mirante de onde se podia observar todo o vale. Dei um giro pelo cume: um mar de morros se enfileirava por quase todas as direções ajudando a delinear o rio. Na base, dava para ver uma ponte antiga, do tempo das estradas de ferro, que se emendava a uma ruela de pedras. Desci até lá em velocidade queniana, forçando passadas curtas para garantir o equilíbrio. Cruzei a ponte e não aguentei: encarei um outro morro que se prostrava à frente.

Neste, enfrentei algumas subidas mais técnicas, escorreguei sem perder o equilíbrio e me vi em uma espécie de clareira inusitada, uma mistura de bosque europeu com mata atlântica. Parei, respirei, procurei uma saída e segui em frente. Estava na cidade, cortando pequenas casas ao estilo alemão e imerso naquele estado zen que só a corrida nos deixa. 
Quando há natureza cercando o asfalto, no entanto, logo se enjoa dele e se busca zonas menos urbanizadas. Desta vez, uma subida íngreme me levou para uma espécie de bairro mais afastado, com casas vistosas cercadas por verde e por sons de todos os bichos que vivem apenas para exclamar as suas existências. Aproveitei: o lugar era bonito, gostoso e fácil, sem nenhum grande desafio além da inclinação em si que me fizesse cortar o pace. 

E assim passei cerca de 2 horas na mata imaginária, rodando 17 deliciosos quilômetros pelo que me parecia ser a capital brasileira dos morros verdes. 

Até que ouvi meu nome na sala de reunião. 

Em um passe de mágica, tudo evaporou: os morros, o suor, as casas, os sons, o calor, o céu azul. Não estava mais correndo: estava no meio de 5 senhores de roupa social discutindo marcas, campanhas, comunicação. 

Era hora de voltar à realidade.

Nunca uma corrida terminou de maneira tão abrupta. 

  

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