Vibram FiveFingers e postura

Postura. Biomecânica. Atenção.

Repeti essas palavras como um mantra ontem cedo quando saí para correr, ainda com uma preocupação leve quanto ao joelho direito.

Tinha um aliado: o Vibram FiveFingers. 

Não sou muito partidário dos que crêem em poderes mágicos de tênis ou qualquer outro acessório. Esse negócio de estrutura, pronagem, drops altos… nada disso nunca fez muito sentido para mim. Quer correr bem, fluindo pelas trilhas e asfaltos sem perigo de lesões sérias? Concentre-se na forma de correr, na biomecânica, na postura. Em tocar o chão com o peito do pé, bem abaixo do seu centro de gravidade, em usar os braços como equilíbrio e aceleradores naturais, em dar passadas pequenas em uma cadência em torno dos 180/ minuto. 

E tudo isso é muito, muito mais fácil do que queimar dinheiro e preocupação apostando em salvações que venham da indústria ao invés do corpo.

Ok… mas por que, então, o Vibram é um bom aliado? Justamente pela falta total de estrutura. O tênis é tão leve, tão sem amortecimento ou nada que mais parece uma meia endurecida apenas na sola. Resultado: ou se corre corretamente com ele ou a dor de cada pisada se torna insustentável. É um tênis que te força a correr como se estivesse descalço, por assim dizer.

Foi um excelente “remédio”. Fechei a hora em um tempo leve, dentro dos planos, e sem sinal algum de dor. 

Cautela ainda se faz necessária pela recência dessa “mini-lesão” – mas o caminho parece estar liberadíssimo para a volta à rotina.

  

Deslesionando-me

Saí para correr ontem à noite. Sem tiros, sem tempo runs, sem intervalados: apenas uma horinha leve, de acordo com o plano da semana, para sentir o corpo.

Já havia acordado melhor, sem dores e me sentindo inteiro. Ainda assim, dei algumas horas a mais para o joelho e me programei para ir ao parque à noite. A adrenalina acumulada de um dia de agência, afinal, serve para turbinar qualquer recuperação.

Quando dei os primeiros passos veio aquele medo: e se estivesse forçando? E se ainda não esivesse pronto e aquela hora fosse toda a diferença entre ficar inteiro e quebrar de vez? O pior de uma lesão, por menor que seja, nunca é a musculatura ou a articulação em si: é o medo de não estarmos bem no momento dos primeiros passos.

Mas segui.

Não digo que não senti absolutamente nada: em uma ou outra ocasião, quando o escuro excessivo ou um desnível exagerado impôs uma quebra na postura, o joelho deu uma reclamada básica. Só isso.

Foi o tempo de me cobrar um acerto na biomecânica e a mesma pontada evaporou como se nunca tivesse existido. No final das contas, concluí que tudo o que aconteceu foi pura biomecânica estragada por desleixos temporários – e que espero já ter corrigido.

Agora, pelo menos, estou como novo. E assim espero continuar!

  

Correr não é sofrer

Para quê?” costuma ser a primeira frase que qualquer corredor – principalmente quem curte ultras – ouve de não corredores. O raciocínio que a embasa é simples: “correr é sofrer”. Ou seja: se para manter um estilo de vida saudável a la comercial de margarina basta fazer uns 5km de vez em quando, para quê sair por horas a fio, cruzando a cidade e atravessando montanhas? 

Uma coisa posso afirmar: certamente não é por saúde. Correr ultras pode ser tudo, afinal – menos saudável. Claro: continua sendo melhor do que viver em um regime de engorda a base de feijoada e pão – mas isso não significa que seja um estilo de vida “cientificamente eficaz”, por assim dizer. 

Em ultras se maltrata as articulações, se exagera no uso dos rins, se testa a capacidade do estômago, se abusa do poder de concentração da mente. E quer saber? Basta ir a uma prova qualquer que rapidamente se verifica um excesso de corredores acima do peso, fruto daquela indulgência turbinada pós longões que praticamente elimina o auto-controle corporal na mesma velocidade em que pizzas e bolos são deglutidos garganta adentro.

Bom… se não é por saúde, então, por que correr tanto? 

O difícil de dar esta resposta é porque ela não cabe, ao menos não com perfeição, em palavras. Mas é só olhar uma foto como essa, abaixo, e entender que ela vai além do cenário e inclui estado de espírito, de “completude”, de oxigênio, de vida. Corre-se tanto para poder testemunhar e sentir esse tipo de coisa. 

5 vezes por semana. 

   


(O joelho dói)

Espero, do fundo do coração, que não seja nada. Não estou habituado a lesões – nunca tive nenhuma que me afastasse das ruas por mais que um ou dois dias, sendo isso algo que me traz um orgulho até um pouco excessivo.

Mas desde o regenerativo de ontem – que funcionou mais como um “degenerativo” – a parte da frente do joelho direito, logo atrás da patela, começou a doer. Pelo sintoma, parece algo bem clássico mesmo, chamado de “joelho de corredor”.

Bom… hoje é dia de descanso e essa semana será mais light. 

Hora de colocar o Arnica Ice que comprei lá na Africa, colocar uma joelheira pra comprimir a região e prestar uma ultra atenção em qualquer sinal do corpo.

Espero que passe logo!

  

Checkpoint: Voltando às raízes

Talvez o título do post não esteja exatamente correto: quando comecei a correr, o fiz para perder peso, ganhar saúde e permanecer vivo. Simples assim. 

Mas, em um determinado ponto, provavelmente como todo corredor, comecei a perceber que correr nos dá a bênção de testemunhar todo um mundo à nossa volta, de desbravar os lugares mais afastados e descobrir os mais próximos. Essa descoberta pode não ter sido o que me fez levantar cedo nos primeiros dias, mais de 12 mil quilômetros e 3 anos atrás – mas certamente foi o que me fe começar a me divertir. 

Essa semana foi sobre isso. 

Refazendo planilhas para ajustar corpo a teoria, com a próxima prova ainda distante no calendário, mergulhei em audiobooks e em cenários diferentes com um poder de concentração que há tempos não me visitava. 

Na terça e quarta corri ao som de V. S. Naipaul, ouvindo história atrás de história passada na África colonial e decisivamente quebrando qualquer forma de barreira de tempo e espaço.

No feriado de 9 de julho corri pelo centro velho – sempre um prazer inenarrável pelo mundo de contrastes que oferece – e terminei quase no meio de um desfile militar para comemorar uma revolução que, verdade seja dita, nunca aconteceu de fato. 

Ontem voltei ao centro e o fiz de cabo a rabo, passando pela região da bolsa, pelos prédios de um passado glorioso que não mais existe, pelo marco zero nos tempos dos jesuítas, pela Pinacoteca, pelo pedaço do Japão no Parque da Luz. Foi uma das melhores corridas que já tive na vida tamanhas as possibilidades de me perder pelos pensamentos escondidos nos olhares e tijolos com os quais me defrontava. 

E hoje… bom…. hoje, um dia de sol e céu azul descendo com um manto de manhã sobre uma rua molhada, posso dizer que cheguei ao limite do que meu corpo estava preparado. Nem cheguei a completar a volta ao Ibirapuera: voltei antes, temendo as dores que pareciam insistir e castigar as pernas e ameaçar algo mais sério. E, apesar de ter acumulado uma quilometragem baixa perto do que estou habituado – pouco a mais de 70km – voltei bem. 

Voltei com aquela sensação de redescoberta, de saudade da rua e das trilhas, de ímpeto de traçar novos planos para os próximos longões. E me reconfortando também com o fato de que, afinal, estava ainda voltando à forma depois de duas ultras fortes em menos de 30 dias. 

Até por tudo isso, foi uma surpresa me deparar com o gráfico abaixo, mostrando que fiz minha melhor meta de pace semanal desde o começo do ano. Se divertir faz milagres.

   
 

Correndo pelo tempo, pelo mundo e pelo centro

7 da manhã, hora de sair desbravando um mundo que parece exótico de tão diferente – embora esteja há apenas metros de distância. 

Bastou cruzar a Paulista e seguir mais alguns passos e pronto: estava no centro velho de São Paulo. 

De início, passando pelas zonas mais degradadas da Augusta e Consolação, áreas que parecem ter nascido com um tipo de decadência típica de grandes cidades. São vias que funcionam como túneis do tempo, ligando o moderno ao antigo, o presente ao passado. 

E o passado, afinal, era o destino. 

Com algum zigue-zague proposital, subitamente me deparei com a Boa Vista. Região da Bolsa de Valores, onde ruas não existem e tudo é calçamento. 

Fiquei rodando pelos chãos de cimento ladeados com pedras portuguesas, uma espécie de tentativa de mesclar a solidez de uma cidade moderna à sua velha herança colonial. Prédios incríveis se enfileiravam: Edifício Martinelli, Centro Cultura Banco do Brasil, Banespa e outros. Muitos outros se erguendo do chão como monstros de dinheiro olhando, com algum desprezo, o que acontece aos seus pés. 

Mendigos, ambulantes, imigrantes vestindo cartazes, sacoleiros. O chão, ainda molhado pela ingênua tentativa da prefeitura de tirar o odor fétido do centro, era puro contraste. Todo o centro era contraste. 

De um lado para outro, fui ao grandioso Vale do Anhangabaú, ao Municipal, à Sé, ao Mosteiro de São Bento, ao Páteo do Colégio. De ponta a ponta, o passado colonial de São Paulo ia se transformando em uma Paris dos trópicos e, depois, em uma vila Africana abandonada pelos colonizadores europeus. 

Saí. Fui até o Mercado Municipal, tendo ao lado mais decadência que lembrava de um passado melhor por meio de casarios coloridos e agitados. Dei a volta nele, me esforçando para ignorar o cheiro de frutas podres, e voltei. Estava indo à Luz. 

Na velha estação, dei uma volta pulando drogados que queimavam cachimbos de craque fazendo de conta que eram postes. A única forma de ignorar os perigos do centro de São Paulo, aprendi, é fazendo de conta que eles são apenas parte imóvel da paisagem. E forçando a vista para que ela se concentre na beleza. 

Há beleza. Há a Luz, a Pinacoteca, a Sala São Paulo. Há o Museu da Língua Portuguesa, há as primeiras igrejas plantadas no então sólo indígena. 

Há o oásis que é o Parque da Luz. 

Entrei nele e, de repente, foi como se tivesse atravessado uma dimensão inteira. Tudo era silêncio, exceto por alguns pássaros cantando. A pequena trilha em seu entorno, adornada com alguns lagos e esculturas, ouviam apenas passos de outros poucos corredores e seu interior era tomado por japoneses jogando peteca e rindo em outro idioma. 

Dei mais que uma volta: o contraste fez um bem incrível. 

E depois saí. 

Hora de voltar pela cracolândia, de passar pelos prédios incríveis e de subir a Brigadeiro. Subi tudo. 

Atravessei a Paulista. 

Desci. 

Dali em diante, foi só seguir a rota convencional margeando o Parque do Ibirapuera. 

Aquela parte do dia, no entanto, já havia terminado – e com uma viagem à parte. Em pouco menos de 3 horas e 28km, rodei pela história da cidade, por imigrantes e migrantes, por neo-yuppies bêbados e mendigos esquálidos, por Brasil, Paris, África e Japão. 

Poucas trilhas são mais intensas do que essas que cortam uma malha urbana tão densa quanto a desta incrível cidade. 

   
    
    
   

Ajustando o rumo

De nada adianta uma planilha se ela não for seguida, certo?

Certo.

Independentemente do motivo, o fato é que cheguei apenas na casa dos 40km na semana passada e, nesta semana, já fui derrotado ontem por uma esquina, que me levou outros 5km. Hora de replanejar.

No geral, a minha meta para essa fase do treinamento é subir de volta aos 90km dentro de cerca de um mês, o que deve me dar o volume e a força necessárias para encarar de maneira mais tranquila a Ultratrail Costa Esmeralda.

Hoje, portanto, foi dia de replanejar. De combinar um crescimento mais suave, mais estruturado.

Nada de 80km essa semana – a meta foi reduzida para 70. Assim como na semana que vem, que terá apenas uma diminuição na intensidade.

Depois é que começa uma leve escalada, levando duas semanas para chegar a 90km.

Mas o principal, o mais importante, nem é essa distribuição de volumetria ou intensidade – é a volta da planilha à realidade. É ter um “papel”, por assim dizer, que reflita o dia-a-dia.

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Derrotado por uma esquina

Verdade seja dita, já acordei questionando se sairia ou não naquelas ainda escuras 6 horas da manhã. Estava cansado de um dia cheio, com algumas leves mas persistentes dores na musculatura pelo treino puxado de ontem e, sobretudo, com preguiça. Muita preguiça.

Mas aí vieram os planos de corridas futuras, a visão da necessidade de treinamento e até os últimos capítulos do audiobook que ouço durante o percurso. Finalmente, com meia dúzia de palavrões, levantei, me vesti e saí.

O céu ainda estava seco, a rua convidativa e a voz do narrador já ecoava pelos ouvidos, levando a mente para terras distantes. Saí.

Fui seguindo meu caminho tradicional, que deveria ser mais leve hoje, sem muita mudança no humor e me autoelogiando por ter conseguido trocar a cama pela rua. Estava bem, fluindo calmo, quase flutuando pelo asfalto sendo levado pelos dramáticos momentos-chave da história cuspida pelos fones quando, de repente, um semáforo teimoso cismou em ficar vermelho na esquina da 9 de julho. Parei.

Ao parar, a musculatura que estava levemente dolorida reclamou mais.

A preguiça escalou todo o corpo, do tornozelo aos ombros, como se fosse um lodo grudento me prendendo no lugar.

Os olhos pediram para descansar.

O clímax da história se foi, perdendo-se em alguma monotonia desavisada.

O céu começou a lançar raios de chuva fortes, espessos, raivosos.

Olhei para a minha frente: ainda tinha metade do caminho. Voltei.

Fiz o percurso de volta quase que fugindo da chuva, me prendendo ao caminho mais curto, desviando poças e torcendo para que quilômetros virassem metros. Não sei bem o que aconteceu mas, de repente, foi como se um sonho tivesse se transformado em pesadelo, como se fugir para a segurança da minha casa fosse mais importante do que qualquer coisa, racional ou não. A cada passo, as dores pareciam ganhar mais terreno e a chuva ficava mais espessa. A cada passo, temia que a distância me pregasse uma peça e crescesse sem aviso. A cada passo, a preguiça parecia dominar mais o meu corpo e os meus movimentos.

Até que cheguei.

Quase assustado, atravessei o portão da garagem e subi de volta ao apartamento. Estava exausto.

O apartamento, no entanto, estava idêntico: todos ainda dormiam, as luzes ainda estavam apagadas e o único som era o do relógio de ponteiro da cozinha marcando o ritmo como que para deixar claro que o universo estava em sua mais perfeita ordem. Até a chuva lá fora parecia ter dado uma trégua, se transformando em uma levíssima, quase imperceptível, garoa.

Na verdade, a única coisa diferente no cenário inteiro era eu, que ali estava quando deveria estar dando voltas no parque. Desencaixado, me deixei levar pelo restante de dor e cansaço, pelas pálpebras pesadas, pelos suspiros daquela tristeza leve trazida pela desistência, e desabei de volta na rotina que começaria nas próximas horas.

Manhã estranha essa em que uma esquina me derrotou de maneira tão avassaladora, decisiva.

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