Inteiro de novo?

Foi uma espécie de “hora da verdade”. Com um pouco de medo, saí na noite de ontem para testar se meu joelho estava intacto ou não. Mas não saí como em um dia qualquer. 

O que mais me chamou a atenção ontem foi que, quando acelerei, a dor diminuiu. Tentei entender melhor algo que não fazia tanto sentido. Concluí o óbvio: não era mesmo a velocidade mas sim as mudanças na biomecânica naturalmente gerados pela aceleração. 

Tentei um pace mais rápido para ver como eu corria. Na prática, acabava alongando mais a passada. Não para a frente, mas para trás. Sempre que estava mais rápido, o pêndulo feito com a perna ia mais alto, fazendo o joelho dobrar mais e, assim, de alguma maneira, relaxar. 

Fiz 10km em um pace médio de 5’13”, com velocidade maior principalmente na metade final. 

No começo, confesso que senti um levíssimo incômodo. Depois d primeira meia hora, no entanto, nada. Estava perfeito. 

Bom… não dá para dizer que esteja “curado”, claro. Mas já é um bom sinal. 

Hoje é dia de descanso. Vamos ver como será o longão do sábado. 

  

A dor que veio de penetra

De repente, no meio do Ibirapuera, uma dor difusa começou a se espalhar pelo joelho direito.

Ignorei. 

Segui em frente, confiante de que não haveria de ser nada. Por via das dúvidas, conferi e endireitei a postura. 

A dor passou. 

Maravilha: continuei. Fechei a volta no Parque, cruzei a República do Líbano, adentrei a Groenlândia. 

Até que ela voltou – só que mais forte. Diminuí o pace. Melhorou.

Depois piorou. 

Caminhei.

Passou.

Trotei.

Voltou.

Àquela altura, a angústia já estava mais forte do que a dor em si – o que não significa que ela fosse de se ignorar. Em ritmo mais lento que o de um cágado, segui caminhando por quase 1km. Metas passaram pela cabeça, lembranças posturais pelo corpo, paces lerdos pelo Garmin. 

Em um determinado momento, percebi que não havia mais dor. Queria tentar de novo, trotar, correr, perguntar ao corpo se ele havia melhorado daquele esquisitíssimo “mal súbito”. Dessa vez fiz diferente: decidi voar tal qual o Usain Bolt na expectativa de que velocidade e biomecânica encontrassem algum tipo de equilíbrio. Acelerei, voando pela Estados Unidos e cortando as ruelas do Jardim Europa como raras vezes fiz no passado. A cada segundo fazia uma auto-análise: estava bem. A difusão da dor estava quase imperceptível de tão leve e, se muito, diminuía a cada passada.

Quando cheguei em casa estava quase intacto. Quase: alguma coisa esquisita, afinal, havia acontecido.

Ainda é cedo para saber o que foi – mas talvez valha uma corrida hoje à noite, em algum ambiente mais controlado, para que eu consiga entender se foi apenas um susto de mau gosto ou um sinal de algum mal maior.

Torçamos para que tenha sido só um susto.

  

Ressaca high carb e readaptação

Na medida em que o tempo vai passando, meu corpo se acostuma mais e mais com o estilo low-carb. Comecei, afinal, lá em março – tempo o suficiente para que eu nem me lembre mais de como era viver de outra maneira. Até que o corpo seja forçado a se lembrar, claro.

Esse “imposição”, por assim dizer, aconteceu em uma festa de aniversário. Há duas semanas, minha filha comemorou 4 anos e eu acabei mergulhando em quilos de brigadeiro com a mesma gana de um alcoólatra depois de dar o primeiro gole de whisky. 

A partir daí, confesso que acabei inserindo ao menos uma barrinha de chocolate e ampliando o consumo de carboidratos no cotidiano diário. O resultado? 

Na semana passada, estava lerdo. Lento. Desmotivado. Cansado. 

Isso passou, ainda bem. 

Mas, nos últimos dias, cada pequena “bomba” de carboidrato que como gera uma dor de cabeça quase instantânea. Nada como uma enchaqueca daquelas aterrorizantes que, graças aos céus, nunca tive na vida: apenas um leve (porém irritantemente consistente) incômodo.

Pelo que pesquisei, isso não é exatamente incomum: há centenas de relatos de pessoas que passam por essa sensação de ressaca high carb. E há uma série de “remédios”, muitos deles bem parecidos com a maneira de se tratar ressacas alcóolicas: tomar água, comer (mais proteína e gordura, naturalmente), se exercitar para queimar os carbs extras. 

Mas se esse tipo de incômodo não aparecia antes, quando minha restrição a carboidratos era ainda maior, por que agora? Minha dedução, embora ainda sujeita a testes, é que os benditos brigadeiros relembraram o corpo de como carboidratos são deliciosos. Feito isso, tive que começar tudo de novo – e, como a adaptação ao low-carb inclui mesmo essa fase mais chata com dores de cabeça, tontura etc…. Bom… uma coisa leva à outra.

Tá… mas a readaptação não deveria já ter ocorrido? Pode até ser que sim – só que esse consumo diário de chocolates e coisas do gênero devem estar postergando ou diminuindo o processo como um todo. 

Seja como for, há apenas uma forma de saber: testando. Hora de re-restringir o consumo de carbs da mesma maneira que fazia no começo da dieta, mesmo que por alguns dias apenas. E, claro, hora também de fazer novos exames para ver se o corpo continua bem e com os indicadores positivos que estavam no mês passado. 

  

Abrindo a semana de pico

Semana de pico começando. Com ela, vem as dores musculares acumuladas, a expectativa de um descanço leve precedendo uma prova longa, uma preparação mental que começa a se intensificar. 

Hoje já foi 1h30 cedo, somando 16km. Até o final da semana, entre 90 e 95km devem ser rodados, incluindo aí 4h que devo rodar no sábado. 

Em períodos assim, costumo ligar um “mode” de foco total: penso apenas na prova-meta, deixo tiros de lado e troco por rodagens em ritmo equilibrado (porém forte) e me forço a levantar regradamente como se fosse um robô. Até hoje, tem funcionado – e não há porque ser diferente agora. 

Dia 17 tem os 75km entre Bertioga-Maresias. Já vi vídeos, rotas, altimetria e me emp0lguei com o sempre delicioso prospecto de rodar por horas pelo litoral norte paulista. 

Agora é fechar essa fase do treinamento. 

  

Checkpoint: Sistemas reiniciados e novos em folha

Nada como uma semana depois da outra.

Estafa, desmotivação, sonolência: esses foram apenas três dos adjetivos que marcaram a semana passada. Mas, às vezes, basta identificar um problema pra resolvê-lo.

No domingo passado, respirei fundo. Revi metas, mergulhei em sites e vídeos sobre os próximos desafios para dar uma carga extra à motivação – base de tudo – e recomecei. Simples assim.

Aliás, simples como nas ultras. Nelas, sempre há aquele momento esquisito, escuro, em que tudo parece estar errado e desconectado. O cansaço se acumula, a linha de chegada parece mais distante, o corpo faz de tudo para desistir.

Mas aí basta afastar a negatividade da mente e prosseguir com um passo depois do outro, sem parar. Com o tempo, as nuvens negras cedem, o ar melhora e tudo fica impressionantemente bem. 

Bem até demais, se poderia dizer.

Nesta semana fechei 90km, mais que o planejado originalmente. Uma surpresa, diga-se de passagem, dado que na semana passada mal estava conseguindo caminhar de tanto cansaço.

Adicionei mais subidas, redescobri rotas que estavam esquecidas e aproveitei cada segundo ao ar livre – tanto no sol escaldante quanto na garoa insistente desse clima híbrido e esquisito que tem caracterizado nossos tempos.

Semana que vem a pegada será mais forte: estou, afinal, no pico do treino para a Bertioga-Maresias. Mas quer saber? É sempre inusitadamente perfeito quando picos de treino vem acompanhados mais de sorrisos do que de suspiros.

   
 

Fazendo as pazes com a USP

Não era o plano original: hoje deveria ter ido ao Pico do Jaraguá. Mas acordei tarde e, por algum motivo, decidi ir até a USP. 

Estava ‘embirrado’ com a USP. Por algum motivo, provavelmente pelo excesso de longões rodados lá no passado, enjoei das voltas, das paisagens, do trânsito de bikes e corredores. De repente, tudo pareceu lotado demais para um sábado de manhã. 

E comecei a variar. Rodei parques novos, trilhas escondidas, bairros distantes. Amei cada parte dessas descobertas e provavelmente continuarei as tendo como meta todos os sábados. 

Mas, por algum motivo, decidi voltar à USP hoje. Fui guiado pelos pés: quando cruzei a ponte da Rebouças, ao invés de seguir pela esquerda até o Morumbi, virei à direita até o Butantã. E fui. 

Sob um garoa insistente, entrei nos portões da Cidade Universitária e percebi que, na verdade, o lugar continuava sendo uma espécie de oásis da corrida. Calmo, silencioso, arborizado. Fiz a rota normal uma vez, subindo a belíssima Rua do Matão. Aquele sempre foi o ponto mais bonito de toda a USP. 

Desci voando, completei o circuito e dei outra volta. Nesta, no entanto, peguei uma outra curva e aumentei a circunferência, passando por áreas mais desertas. Na descida, desviei de novo e, desta vez, desci a Rua do Matão pela primeira vez na vida. 

Entrei na trilha, úmida e escorregadia por conta do tempo. Dei uma volta. Saí. 

Peguei uma diagonal até a praça do monumento. Voei até a raia olímpica e fui margeando-a até a saída. 

Com e memória de uma espécie de redescoberta de um local tão importante na minha vida de corredor, segui até em casa fechando exatos 35km de longão. 

No final de uma corrida daquelas perfeitas, onde tudo parece se encaixar e com endorfina durando do primeiro ao último passo, uma sensação ficou: fiz as pazes com a USP. 

Que bom. 

  

Por que não criamos ultras mais relevantes no Brasil?

Todas as ultras mais desejadas do mundo tem uma característica essencial: um apelo emocionalmente poderosíssimo para os corredores. E esse apelo pode ir por três lados: relevância histórica, dificuldade colossal ou beleza estonteante. Frequentemente, aliás, esses três elementos estão juntos.

Exemplos?

O percurso da Comrades não é exatamente incrível – mas seus mais de 90 anos de história, a força que exerce sobre toda uma nação e as lendas que giram em torno dela a fazem ímpar.

Spartathlon, na Grécia? Junta a dificuldade homérica de se completar 246km em menos de 36 horas – com pontos de corte no mínimo sádicos – com o peso histórico de se estar refazendo o percurso de Filípides.

El Cruce? Precisa falar alguma coisa da sua beleza estonteante? A experiência de cruzar os Andes e beber uma paisagem daquelas por dias está longe – muito longe – de ser considerada corriqueira.

A Marathon de Sables, com quase uma semana para se cruzar 254km no Saara, não é considerada tão difícil quanto outras do gênero por ter postos de corte mais generosos – mas, da mesma forma que o Cruce, permite se testemunhar cenas absolutamente inesquecíveis.

E por aí se vai. TransVulcania, Barkley, Mont Blanc (UTMB)… todas tem um ou mais destes três ingredientes.

Agora olhemos o Brasil.

Das poucas ultras que temos em nosso solo, a única que realmente se destaca é a Jungle Marathon – e que é mais famosa no exterior do que aqui. Mas há tantos locais incríveis no Brasil que, honestamente, não fazer uma ultra neles é jogar fora oportunidades. Exemplos práticos?

Começo com o que nós mesmos fizemos no começo do ano, por conta própria: a Ultra Estrada Real. Refazer o caminho dos mineiros no auge do ciclo do ouro e terminar aos pés da estátua de Tiradentes em Ouro Preto em plena Páscoa, época que toda a região fica deslumbrante, certamente é uma candidata. Dezenas de corredores participaram dessa iniciativa que começou por aqui e que, aparentemente, terá alguma continuidade.

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E outros locais?

Correr no sertão em pleno verão escaldante certamente seria um belo desafio. Aliás, o amigo André Zumzum organiza o Caminhos de Rosa que é justamente isso – com o bônus de acontecer na trilha das histórias do mestre Guimarães Rosa. Não fosse tão longa – ela tem 263km – eu participaria na mesma hora.

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Há outro sertão perfeito: Canudos. Terra de santos, beatos, guerras e de um dos episódios mais marcantes da nossa história, seria um desafio e tanto.

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E Lençóis Maranhenses? Uma prova por suas dunas seria inesquecível e atrairia gente de todo o mundo.

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Chapada Diamantina? Que me conste, há apenas uma maratona por lá – mas há terreno suficiente para se explorar distâncias maiores com pérolas espalhadas por ela.

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Falando em Chapada, há a dos Veadeiros que tem o pitoresco Vale da Lua.

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O Rio de Janeiro também poderia receber uma ultra. A cidade é inegavelmente uma das mais lindas do Brasil e conta com pontos perfeitos como o Pão de Açúcar, o Cristo, a região da Vista Chinesa. Sua cidade irmã, Cape Town, fez uma ultra pela cidade que rapidamente cresceu (Ultra Trail Cape Town).

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Lá no sul há a região das Missões ou a Serra Gaúcha. Locais PERFEITOS para se correr em trilhas animais e memoráveis.

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Isso sem contar com locais de mais difícil acesso como o Monte Roraima, o Jalapão e tantos outros.

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O fato é que vivemos em um país que, embora não esbanje praias como as do Caribe ou montanhas como as dos Alpes, tem belezas inquestionáveis. Também é fato que, senão todos, a grande maioria dos ultramaratonistas vivem para beber cenas marcantes nas trilhas ou ruas do mundo.

Por que, então, as ultras que acontecem por essas bandas cismam em não aproveitar quase nada das nossas belezas naturais?

Tomara que alguém leia esse post e tome alguma providência organizando algo mais parrudo. Uma coisa eu garanto: a minha participação entusiasmada.

Bertioga-Maresias: o que imagino encontrar

Antes de qualquer coisa: não tenho nenhuma dúvida de que qualquer ultra aqui no Brasil teria um peso fortíssimo se fosse tratada pelos organizadores de maneira mais profissional – ao menos na comunicação. Digo isso sem jamais ter corrida a Bertioga-Maresias e já fazendo a ressalva de que só ouvi elogios quanto à prova.

Mas puxa… qual o problema em usar o site para colocar altimetria detalhada, mapa e um acervo de vídeos minimamente bem produzidos? Outras provas na Europa, África ou EUA esbanjam qualidade nesse sentido e não tenho dúvidas de que isso faz toda a diferença para elas.

Mas enfim: chega de reclamações. Vamos à parte prática.

De acordo com os zilhões de relatos que cacei Web afora, devo encontrar um percurso relativamente plano – ao menos no começo. Essa imagem ilustra bem (apesar de ser desatualizada por conta de uma mudança no percurso desde 2012). Mas, contando com a possibilidade da mudança ter sido pequena, ei-la:

Percurso Altimetria Bertioga-Maresias 75K

Uma outra imagem, mais recente, dá alguns dados a mais:

percurso_percorrido

A parte mais tensa é no final, principalmente na subida da serra de Maresias. Será uma subida de 300 a 400 metros em algo como 2 ou 3 km depois de ter passado por bastante areia fofa. O fato disso ter ficado para o final é até bom: não seria uma ultra de respeito sem alguma pitada de sadismo :-)

Achei uma outra imagem, de outro corredor, que destaca justamente esta subida:

bertioga-maresias-altimetria

O site tem também uma relação de pontos de controle:

percursoInterno

Pois bem: hora de começar a aquecer os motores. Até lá, meu foco será misto entre uma manutenção de volumetria e alguns tiros para forçar velocidade.

Como meu foco principal é a Indomit 100K – esta prova é mais um longão de luxo – não devo fazer nenhum processo mais agressivo de “tapering” ou forçar muito a barra para bater o recorde galáctico. A ideia será apenas correr como se fosse um dia como outro qualquer – só que aroveitando a maravilhosa paisagem do litoral norte paulista.