Correndo pelo passado

No começo do século XVII, uma corrida pelo planalto que se elevava sobre o Anhangabaú revelaria uma São Paulo bastante diferente. Claro: alguém correndo só pelo mato há mais de 300 anos provavelmente geraria uma estranheza tamanha que, eventualmente, acabaria na forca. Mas ignoremos isso por alguns instantes ao imaginar a cidade de São Paulo pouco tempo depois do Anchieta ter fundado o seu colégio jesuita. 

O próprio conceito de cidade, aliás, era outro: ao invés de uma imensa metrópole, era uma vila composta por uma punhado de loucos desbravadores e delimitada por três igrejas. 

Em uma das pontas ficava a Igreja de São Francisco. Apesar de feita de taipa, como todas as construções da época, era tão suntuosa quanto a própria ironia dado o santo que homenageava. Ficava no alto de uma colina, praticamente de frente para o Anhangabaú. Bote-se que, à época, o vale era puro mato pantanoso, provavelmente de um verde gritante, marcado apenas por alguns poucos aldeamentos indígenas e por eventuais colunas de bandeirantes que buscavam rasgar os interiores à procura de escravos e riquezas. 

  
Na outra extremidade, quase em uma linha reta e ignorando a Praça da Matriz (que eventualmente se transformaria no coração do centro com a construção da Sé), chegaríamos ao Carmo. De todas, era a igreja mais suntuosa e muito bem localizada.

   
 Ficava a poucos passos do Pátio do Colégio, primeira construção do homem branco na região, e provavelmente ainda tinha alguns aldeamentos indígenas nas proximidades. 

  
O Carmo ficava em outra quina do planalto, de frente para o atual terminal D. Pedro e dando acesso a uma várzea imensa. Percebe-se por aí o quanto a região era perfeita para se erigir uma vila, contando com a natureza como principal arma de defesa. Aliás, era dali de uma da torre do Carmo que melhor se conseguia avistar qualquer “visitante” vindo do litoral, seja Santos, São Vicente ou Rio. Bastava que alguém visse o estranho perambular organizado de raros transeuntes e os sinos tocavam, sendo seguidos pelos da Matriz, de São Francisco e São Bento. 

São Bento seria a próxima igreja delimitando São Paulo, fechando o triângulo original do planalto. Mas, antes de chegar lá, o visitante se depararia com uma curiosodade: justamente na região de maior concentração de templos – Carmo, Pátio do Colégio e Matriz – ficava a famosa Rua das Casinhas. O motivo da fama: alinhada de pequenas casas que serviam de quitandas durante o dia, ela se transformava às noites em um dos maiores aglomerados de prostitutas de todo o mundo dito civilizado. 

  
Ignoremos o detalhe profano e sigamos rumo a São Bento, cujas origens tem também muito pouco do sagrado. Quem bancou a construção foi um dos principais bandeirantes paulistas, Fernão Dias, responsável por um genocídio quase sem precedentes junto às populações indígenas. Outros tempos: ao invés de condenado, claro, seus “esforços civilizatórios” foram recompensados por um túmulo de destaque no altar. 

  
Olhando o parapeito do mosteiro beneditino, aliás, um corredor perdido no tempo teria testemunhado uma cena incrível. Inconformados com a confusão causada pelo fim da União Ibérica, os paulistas se revoltaram e decidiram declarar um estado próprio, aclamando um de seus cidadãos (de origem espanhola, diga-se de passagem), Amador Bueno, como Rei. Este, calculando o perigo e a morte certa que o esperaria, recusou veementemente a oferta jurando fidelidade à Coroa Portuguesa. A pequena multidão mudou os ânimos de aclamação para indignação e ele acabou se refugiando no Mosteiro, de onde falou à população pedindo calma e conseguindo se esquivar do que seria um destino fadado à forca. 

Entre igrejas, cenas tragicômicas, colunas de bandeirantes genocidas, muito mato e agrupamentos indígenas em todo canto, São Paulo estava longe de ser o que é hoje. E por que falar de tudo isso em um blog de corrida? 

Porque correr, claro, permite também se ignorar o tempo e aliar a vista seletiva a uma viagem por outras épocas. Permite se ignorar ônibus, mendigos e fuligem, pixações e fiações, depredações e vandalismos, e se focar no que seria o percurso corrido há 300, 400 anos. 

E, claro: qualquer cidade que corramos nos permite isso. Mas quanto mais diferente for o passado e o presente, mais impactante, mais “chocante” será a percepção. 

Uma corrida de domingo pode revelar muito mais do que tempos e paces. 

  

Checkpoint: Back2backs e a busca pela seriedade na fase final do treino para o Cruce

Logo depois que postei a desistência de correr ontem, mudei de ideia e fui para a rua.

Saí no final da tarde embalado pela planilha que, claro, mostrava que o Cruce estava logo ali na esquina. 

Para ser bem sincero, meu treinamento para o Cruce está bem desleixado: tenho mantido um volume médio razoável de rodagem e buscado inserir o máximo possível de subidas, claro… Mas parei por aí.

Nem tenho ideia de quando deveria chegar no pico; tapering é algo que verei em cima da hora; e uma mescla de treinos de qualidade com volumetria é ficção científica. Estou apenas saindo para correr, mantendo um pace quase homogêneo mesmo sabendo que isso está longe de ser ideal e mal olhando para a programação que tracei há meses.

Isso sem contar com o inesperado apoio que darei à Zilma na BR como pacer, que acabarei usando como longão máximo daqui a menos de duas semanas. Quanto planejo correr? Algo como 50 a 60k, mais ou menos. “Mais ou menos”, aliás, sendo o conceito que melhor descreve todo o meu planejamento atual.

Já não há mais muito tempo para mudar isso e acrescentar estrutura no treinamento: o Cruce será em menos de dois meses. Mas dá para tentar, que foi o que acabei fazendo nesse final de semana.

Para mim, a principal diferença do Cruce para outras provas às quais estou habituado é que ela se dará em estágios. Serão 40km no primeiro dia, 30 no segundo e 30 no terceiro, todos somando altimetrias pra lá de tensas. 

Com o medo de parecer arrogante, não é o volume que me assusta: já tenho experiência o suficiente – ou pelo menos espero ter – para saber fazer a mente empurrar o corpo. O que preciso trabalhar é o inesperado de largar por dois dos três dias com as pernas mastigadas, castigadas, esmigalhadas. 

Não serei também injusto comigo mesmo: tenho feito back2backs com mais frequência, educando o corpo a correr cansado. Todo o final de ano em Niterói, afinal, foi recheado de corridas morro acima e morro abaixo, emendadas umas nas outras e com o bônus de um calor sobrehumano. 

Ainda assim, não seria agora a hora de parar: esse final de semana acabou repetindo a fórmula de pouco tempo de descanso entre os treinos. Saí para 25K no final da tarde do sábado, emendando com mais 17 na manhã do domingo. Era o mínimo que precisava fazer para fugir do fantasma da preguiça.

Estou agora como deveria estar: com as pernas mastigadas, doloridas, exaustas – mas “satisfeito”. Essa seriedade a mais no treino para o Cruce já estava se fazendo gritantemente necessária.

Só espero que dê tempo para que ela surta o efeito necessário e me garanta o que estou buscando: uma experiência esperacular.

   
 

Zzzzzz…

Fui dormir ontem com mochila de hidratação preparada, roupa separada e percurso planejado. Iria daqui até a USP, com direito a uma passadinha pela Casa dos Bandeirantes, lá no Butantã, para aplacar um pouco uma certa curiosidade turística sobre a cidade. Seriam 30km hoje que, somados aos 20 de amanhã, fechariam pouco menos de 80 na semana.

O que fiz?

Dormi.

Motivado por uma dor muscular nas pernas que persiste desde meados da semana, desisti. O longão de hoje? Talvez faça uns 15K daqui a pouco…

Mas agora, neste instante, está meio difícil de me forçar a sair de casa. A culpa, por assim dizer, está perdendo para a sensação de que tenho mais a ganhar se descansar o corpo e dar a ele mais tempo para se preparar tanto para a BR quanto para o Cruce, que já se alinham no horizonte próximo.

Tomara que esteja certo. Hoje, na prática, será bem difícil me fazer correr um longão.

  

Garmin, estou pedindo demais?

Adivinha o que ainda não chegou? Pois é… O Garmin Fenix 2 que comprei e que desenvolveu o hábito de desligar durante longões e que mandei para a garantia da Garmin em 19 de novembro.

Prazo oficial de retorno: 30 dias.

Data em que estamos: 8 de janeiro. Já batemos os 50 dias e o relógio ainda não foi sequer postado de volta por eles.

Pior: o atendimento via Portal de Reparos agora passou a ser vago e a evitar respostas mais práticas (e úteis). Tenho cobrado uma data ao longo desta semana inteira deles. Os retornos? Veja abaixo:

  
   

   
 O que fazer senão aguardar e reclamar do desrespeito? Enfim… esse é um post mais de desabafo.

Quem quiser ler a minha “jornada completa” na busca pelo suporte da Garmin pode clicar aqui: https://rumoastrilhas.com/2016/01/04/sofrendo-com-a-incompetencia-da-garmin/

E quem quiser comprar um GPS de pulso, insisto: ache outra marca.

Organizando a BR 135+: Informações práticas sobre a prova

Que comecem então os trabalhos de pacer da Zilma Rodrigues nos 217km da BR135! 

Nosso plano: fazer a versão “curtinha”, de apenas 135 milhas (ou 217km), em 40 horas. Emocionante, não? 

Que bom que será a Zilma que correrá o percurso todo – eu decididamente ainda não estou preparado para isso. Mas farei algo como uns 50km, estimo eu. 

Quem será pacer? Eu (Ricardo Almeida), Charlston Benassi e Luana Bianchi. 

A altimetria total da prova é essa, abaixo (sendo que faremos apenas o trecho azul):

  

Há um mapa de cidades e distâncias, que coloco abaixo. Há apenas um erro no mapa: o primeiro trecho, nele, está marcado como 19km – mas na verdade são 24. Isso, claro, acaba somando 5km em todos os pontos daí em diante. Fora essa consideração, eis os trechos e distâncias: 

  

O blog do Dionísio Silvestre tem um mapa mais bem feito:

 
OK… E que trechos faremos?

Por hora, a única decisão é que eu farei a primeira parte com ela, do Pico do Gavião – algo como 10km, durante o dia, mais ou menos a partir do km 35. Mas o intuito é fazermos mais ou menos 50km cada. 

Divisões, a princípio, ficarão para o próprio dia. 

Mais informações, posto aqui mesmo no blog depois. Mas uma coisa já posso garantir: será uma jornada e tanto!
 

Sendo pacer na BR135

Um certo dia, no ano passado, fiz uma corrida treino acompanhando a Zilma Rodrigues, amiga e ídolo de ultras, quando ela se preparava para o Spartathlon.

Curti a experiência – e acho que ela também, pois me convidou para ser pacer agora, no final deste mês, na BR135.

Será a minha primeira vez como pacer oficial de alguém – e ainda mais em uma prova tão icônica quanto a BR. Sendo prático, minha tarefa incluirá:

  • Correr cerca de 50km com a Zilma, dividindo com outro pacer a tarefa
  • Deixá-la o mais bem nutrida, hidratada e motivada possível, principalmente considerando que ela estará correndo 217km (distância muito, mas MUITO além das minhas atuais capacidades humanas)
  • Curtir o percurso e entender como funciona uma prova tão longa

Agora… bom… agora tenho que estudar. Tenho que entender o que correrei, quanto, quando e assim por diante. Mas uma coisa é certa: a minha motivação em si está absolutamente elevada!

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Sofrendo com a (incompetência da) Garmin

Logo depois que postei aqui no blog que comprei o Fenix 2, da Garmin, um mundo de amigos me deu os pêsames e desejou, do fundo do coração, que eu não precisasse do suporte deles.

Pois é: precisei.

E pela segunda vez, já que o Forerunner 620 que havia comprado um ano antes também havia dado problema. Curiosamente, a memória curta me fez esquecer a dificuldade que era lidar com o suporte da Garmin.

Bom… agora não esqueço mais.

O problema técnico

Tudo começou quando o Fenix 2 decidiu travar no meio de corridas longas. O mesmo já tinha ocorrido com dois amigos e ambos disseram que esse era um caminho sem volta. Ainda assim insisti: atualizei o relógio, apaguei o histórico, fiz um hard reset etc.

Nada adiantou.

Em corridas curtas, nenhum problema. Mas imagina que delícia é você estar 5 horas adentro de uma ultra, conferir o relógio e, de repente, ver que ele simplesmente não está mais funcionando? Fantástico, não?

Largando na interminável ultramaratona em busca de suporte

Como ele ainda estava na garantia, contatei a Garmin para saber como deveria proceder. Verdade seja dita, a primeira fase do atendimento deles nem demorou tanto: em poucos dias me retornaram com instruções para que eu postasse o equipamento para eles, o que fiz no dia 19 de novembro.

Atentem para a data: 19 de novembro.

Informei isso no portal de suporte da Garmin: a partir da data de envio, eles teriam 30 dias para me devolver o equipamento consertado ou trocado por um novo. Nem comento que esperar 30 dias para ter de volta um equipamento de R$ 2 mil é um absurdo por si só.

Mas vamos lá:

Pelo rastreamento dos Correios, o Fenix 2 foi entregue com sucesso no dia 20 de novembro:

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No portal de reparos da Garmin, no entanto, o status ainda estava marcado como “em envio pelo cliente”.

E por que era importante essa mudança de status? Porque, até que eles demarcassem como recebido, o prazo dos 30 dias não corria. Ou seja: era uma forma da Garmin dar aquela “enganada básica” no consumidor, ganhando tempo ao alegar não ter recebido o produto e, portanto, não ter podido iniciar os reparos.

A troca de mensagens

Reclamei com a Garmin pelo portal de suporte no dia 25, quando o status continuava errado. A resposta que tive do atendente Elton:

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Depois disso, entrei em contato com a Garmin pelo Facebook. Por lá eles foram mais ágeis e me disseram estar com o produto desde o dia 21/11 (o que batia com o rastreamento dos Correios que, diga-se de passagem, não estava em greve). Também disseram que tinham até 21/12 para postar o produto de volta:

Screen Shot 2016-01-04 at 12.31.21 PM

Minha resposta ao atendente Elton, já devidamente dotada de um grau de raiva que deixaria Satanás com inveja:

Screen Shot 2016-01-04 at 12.22.43 PM

Nada de retorno prático. Esperei mais e, no dia 30, o status finalmente mudou para “em reparo”.

A proposta indecente

Dezembro começou e os dias foram se somando. De vez em quando eu entrava no portal para averiguar o status: nada.

Cheguei a perguntar se eu poderia deixar o relógio com eles e pagar a diferença para comprar o Fenix 3, um pouco mais caro e, ao menos de acordo com os reviews na Web, com qualidade maior. Tive uma resposta meio indecente: eles ficariam com o relógio e me dariam um cupom de 20% de desconto na compra de um novo. Fantástico, não?

Obviamente desconsiderei. E esperei.

Eis que, no dia da postagem de volta…

No dia 21/12, data que o atendimento da Garmin no Facebook me garantiu que o relógio seria postado de volta para mim, entrei em contato novamente. Adivinha?

Segundo eles, o reparo só se iniciou em 30/11 e eles tinham até 30/12 para me mandar de volta! Fantástico, não? Ou seja: a minha hipótese deles postergarem a mudança de status para ganhar um tempo a mais, enganando o consumidor, estava devidamente comprovada.

Screen Shot 2016-01-04 at 12.34.22 PM

Novamente, contei até 10 e fui ao Facebook. De início, eles reforçaram a mentira de que haviam recebido o produto no dia 30. Quando mandei os anexos deles mesmos dizendo que estavam com o relógio no dia 21, a coisa mudou de figura. Pelo menos em teoria.

Resposta que tive do Facebook da Garmin:

Screen Shot 2016-01-04 at 12.37.14 PM

Entre um e outro passo, postei também reclamação no ReclameAqui e só não fui ao PROCON porque, depois da ameaça, eles me responderam que estariam trocando por um novo naquele dia.

Mas… adivinha só?

Apesar do status ter mudado para “preparando para envio” em 22/12, o portal de reparos estava assim hoje (04/01):

Screen Shot 2016-01-04 at 12.39.04 PM

Em outras palavras: o relógio AINDA NÃO FOI SEQUER POSTADO!

E a resposta deles hoje, segunda-feira, 04/01?

Screen Shot 2016-01-04 at 1.30.14 PM

Isso significa que se eles cumprirem o novo prazo, terão postado o relógio de volta para mim com 20 dias de atraso, somando 50 dias contados a partir do momento em que eles receberam o produto!

Dá para acreditar nessa bagunça toda?

Não.

Como também não dá para pensar em comprar mais nada da Garmin. De que adianta lançar produtos se a empresa não tem um mínimo de infra para prestar suportes básicos ao consumidor.

Isso sem contar o óbvio: os dois produtos que comprei (Forerunner 620 e Fenix 2) estavam “quebrados”, demandando suporte/ garantia. Isso também ajuda a comprovar que qualidade de produto em si não é o forte deles.

Deveria ter ido de Suunto desde o início. Taí uma economia que me saiu muito, muito cara.

 

Achando a corrida catártica

Para mim, não há como começar um ano sem antes fechar o anterior. E não estou falando aqui apenas de comemorar o Reveillon, obviamente.

Mas há sempre aquela corrida perfeita que divide dezembro de janeiro, que vira a página do passado e coloca em nossa frente todo um conjunto de páginas em branco prontas para serem recheadas com novas histórias.

De 2014 para 2015, essa corrida catártica aconteceu lá no pé dos Andes, na Patagônia Argentina.

2015 em si foi fechado em clima oposto, sob os mais de 40 graus do verão carioca, mas em trilhas que, apesar de opostas, compartilhavam graus semelhantes de beleza. Mas a corrida catártica de 2016 aconteceu mesmo aqui, de volta a São Paulo, no Ibiraquera.

No sábado passado, ainda com as pernas cansadas de subir os morros de Niterói, saí para 15km mais que “comuns” pela trilha do Ibira. De comuns, no entanto, eles tiveram pouco.

Apesar de ter feito a mesma rota de sempre, o gosto era outro: havia tempo de sobra para que eu aproveitasse o clima, havia lama suficiente na trilha para que ela ficasse deserta e umidade suficiente no ar para que a mata exalasse aquele delicioso aroma tão anômalo às grandes metrópoles.

Cheguei a parar no meio do parque e simplesmente respirar o entorno, me sentindo parte do Parque como nunca antes. E, entre um pensamento e outro, o ano anterior acabou sendo devidamente deixado para trás enquanto toda uma nova energia tomava as minhas veias de assalto.

Estava pronto.

Que bom: o ano, afinal, promete ser bastante intenso.

  

Checkpoint: Resetando os sistemas

Depois de correr pela superfície do sol, de fechar o ano com mais de 3.700km rodados, de ter completado 6 ultras – incluindo uma Comrades, uma idealizada por mim mesmo na Estrada Real e meus primeiros 100K, nada mais natural do que resetar o organismo para prepará-lo para 2016. 

Ou, colocando em outros termos: abri o ano com uma gripe daquelas que impede qualquer alma viva de sequer pensar em sair de casa. Verdade seja dita, fiz as minhas duas corridas inaugurais de 2016 – uma no Rio e outra em São Paulo – nos dias 1 e 2. Mas sair de 40 graus para pouco mais de 20 com direito a garoa teve seu preço. 

Não reclamo: foram tantos os desafios em 2015 e tantas as conquistas que fará bem iniciar o ano com pernas frescas, ainda que motivadas por um descanso forçado e não planejado. 

2016, portanto, começou com uma despedida de fim de ano e uma inspiração mais que bem vinda ao redor da minha segunda casa, o Ibira. 

Já no primeiro trimestre serei pacer na BR 135 e farei o sonhadíssimo El Cruce entre Argentina e Chile. Não digo que é tempo de começar os treinos – estes nunca efetivamente pararam: apenas mudaram de foco no instante em que cruzei a chegada da Indomit. Mas digo que é tempo, sem dúvidas, de deixar o organismo se reorganizar. 

Pela frente, certamente não faltarão novas trilhas a serem percorridas. 

   
 

Pelas trilhas molhadas do Ibirapuera

A ideia nem era sair pra correr hoje, 2 de janeiro, primeiro dia em São Paulo depois dos inenarráveis visuais cariocas que presenciei.

A ideia era descansar pelo menos um dia, dando tempo para o corpo se recuperar melhor das trilhas e montanhas, das subidas, do calor de mais de 40 graus.

Mas como resistir? São Paulo amanheceu bem paulistana: nublada, com temperatura amena e uma finíssima garoa deixando o cenário mais úmido. Foi o suficiente: precisava inaugurar o ano na minha cidade.

Cansado ou não, troquei de roupa, calcei os tênis e saí para o Ibirapuera. Claro: não havia lugar melhor para começar o ano do que lá, que considero uma extensão de casa.

Cruzei as ruas absolutamente desertas de uma cidade que ainda não voltou de férias, entrei pelo portão da República do Líbano e virei à direita. Fui, claro, pela trilha enlameada, encharcada, deliciosa.

Aliás, ela estava tão molhada e carregada de poças que parecia ter havido um dilúvia nos dias em que eu estava fora. Nada melhor: um pouco de lama colore o tênis e a umidade fortalece o aroma das árvores e folhas do caminho. 

Cheiros, aliás, estavam mais que marcantes na trilha. Terra molhada, flores, plantas cultivadas na zona das estufas e mesmo a grama pareciam insandecidas na tarefa de perfumar os primeiros ares do ano.

“Que seja uma metáfora para os próximos 12 meses”, torci.

Voltei com esse pensamento em mente. Terminei o loop com o tênis deliciosamente imundo, cruzei a Groenlândia esquisitamente deserta, subi o trecho rápido da 9 de Julho, virei na Brasil, subi toda a Ministro até a Paulista.

Revi a avenida símbolo da metrópole, passei pelo pequeno e bem cuidado Parque Mário Covas, desci a Bela Cintra voando em ritmo queniano.

Estava de volta. 

16km de volta a casa, de loop em trilha enlameada, de inauguração de ano.

E ainda tem amanhã.