Uma seita

Reunidas em um ginásio, algumas centenas de pessoas devidamente trajadas de ultramaratonistas – com barbas meticulosamente longas ou propositalmente mal feitas, camisas exibindo logos e palavras de ordem, tatuagens espalhadas pelo corpo e olhares de fundo infinito – começavam a tarefa de reconhecimento. 

Saudações de quem não se via há algum tempo rapidamente se metamorfoseavam em pequenas histórias, lendas de trilhas e asfalto que corriam de boca em boca, gerando uma mescla de risos com exclamações. Alguns caminhavam até o mapa gigante do percurso que, dividido em duas distâncias – 217 e 260km – praticamente gritava dificuldade. Olhavam, pensavam, faziam contas mentais e, com alguma respeitosa soberba, voltavam aos seus lugares. 

Hora do anúncio. Alguém teve a ideia de pedir para que todos os veteranos da BR135+ subissem ao palco e se apresentassem. Não digo que foi uma boa ideia: o congresso técnico acabou se estendendo por valiosas horas. Por outro lado, deixou uma coisa clara a novatos ou observadores: por estranho que pareça, a BR é uma corrida de veteranos. 

Mesmo os que estreiam no percurso o fazem, em sua maioria, depois de ter apoiado algum outro atleta como pacer. Todos parecem conhecer bem o desafio. Todos parecem se conhecer, se reconhecer, e entender. Os olhares já transmitem algum tipo de cumplicidade que quase inexiste em outras provas. 

É uma seita. 

Uma seita que tem como Deus supremo algo amorfo, inexplicável, intangível: a energia da endorfina coletiva gerada ao longo da travessia da Serra da Mantiqueira. É a essa energia que todos parecem saudar, de alguma forma meio zen; é ela que une e reune corredores, que salta da boca de veteranos ou do comandante que dirige a prova, que transforma os olhares de expectativa em orgulho. 

Aparentemente, é esse Deus que será saudado amanhã, às 8, na linha de largada, em São João da Boa Vista. 

E foi ele que já se mostrou enfaticamente presente nessa primeira reunião de súditos. 

  

A caminho da BR

Malas prontas. 

2 headlamps, mochila de hidratação, meias extras, camisa do time de apoio, colete refletor, um carro abarrotado de malas, time completo com um total de 3 pacers (além da corredora, claro) e muita, muita gana.

Neste instante rumamos para São João da Boa Vista, ponto de largada da BR. 

De lá, toda uma nova experiência – ao menos para mim – me aguarda.

  

Vídeo: Sobre paleo/ low-carb

Daqui a pouco, em março, completarei um ano fazendo a dieta low-carb. Devo fazer novas levas de exame nos próximos dias – mas, ao que tudo indica, não há motivo para preocupações.

Na verdade, até há: confesso que, às noites, assalto a cozinha em busca de chocolate em qualquer formato, seja biscoito ou sorvete, tirando deles a minha única fonte real de carboidrato. Sim: sei que isso está “errado” e que talvez esteja atrapalhando os resultados…

Mas, mesmo considerando esses doces assaltos, tenho mantido a ingestão de carboidrato abaixo dos 150g/ dia e ainda sinto, na plenitude, todas as vantagens que estava buscando: combustível quase interminável, mente mais afiada, maior resistência física etc.

Bom… os resultados aparecerão já já. Enquanto isso, vale MUITO conferir esse vídeo abaixo, com uma palestra-aula do Dr. Souto que esclarece todo um mundo de benefícios práticos (e que reforço que sinto cotidianamente na pele) relacionado ao low-carb/ paleo.

 

 

Descobrindo novas cidades em trilhas urbanas

Quem corre em trilhas gosta – obviamente – de um contato mais intenso com a natureza. Não quero dizer nada exatamente “zen-zóide”, claro – mas cortar montanhas, subir pedras que desembocam em vistas quase lisérgicas, traçar caminhos em areias de praias ou em dunas… Tudo isso tem um encanto bem maior do que qualquer prova de rua. 

Só que eu moro em São Paulo.

Há trilhas por aqui? Há, claro. Consegue-se descobrir trechos de “mini-florestas” em pequenos parques como o Burle Marx ou o Alfredo Volpi, na lateral do Ibirapuera, no sensacional Parque do Carmo ou até mesmo dentro da USP. Mas, ainda assim, são circunferências protegidas, muralhadas, fechadas. 

E como juntar a necessidade de desbravar novas matas com estar em uma paisagem tão urbana? 

Aproveitando-a – claro. Há vantagens em se estar em uma cidade como Sampa: cada esquina tem sua história, tem seu motivo, tem seu contexto. Cada bairro esconde seu segredo, sua origem de nobreza ou pobreza, seu futuro incerto traçado nos rostos de seus moradores. 

E, mais, há uma infinidade de possíveis trilhas, embora todas essencialmente urbanas, que se pode fazer em São Paulo. A de ontem, por exemplo, foi diferente. Larguei da represa de Guarapiranga, em um dos extremos da capital paulista, saindo de uma avenida batizada, por ironia ou inveja, de Atlântica. Margeei a represa enquanto jet-skis, wind-surfs e veleiros a coloriam de calma. 

E, por lá, cruzei o bairro do Socorro, entrando pela Santo Amaro. Parei na estátua do bandeirante Borba Gato, imensa, meio esquisita, com um olhar meio que distante buscando novos horizontes a desbravar. Poucas cidades no mundo homenageiam genocidas tanto quanto São Paulo: ignora-se as vidas que eles ceifaram, exalta-se o espírito aventureiro com que adentraram as matas e clamaram terras. Eis a vantagens dessas trilhas urbanas: elas nos ajudam a entender melhor os tantos detalhes que fazem as grandes cidades grandes. 

  
Deixei o bandeirante para trás e segui. Aos poucos, o cenário foi mudando: casinhas com cheiro de tristeza e praças abandonadas foram ficando mais verdes; igrejas reformadas apareceram, carros se renovaram nas vias, verdes ficaram mais vibrantes. Pequenos botecos sumiram de vista e, ao pé de prédios luxuosos, bares charmosos exibiam letreiros bem desenhados e dentes bem tratados. Entrei na Hélio Pellegrino e subi até o Ibirapuera. 

Meu velho amigo, o parque de todo dia, estava lá recebendo os costumeiros visitantes de domingos ensolarados. Ao invés de cortar caminho, alonguei-o para poder pegar um pouco do solo do Ibirapuera no tênis. Fiz meio parque até sair na República do Líbano e traçar meu caminho de volta. 

Da represa até a porta da minha casa, com apenas um ou outro desvio, foram 20km. 20km, diga-se de passagem, em que toda uma série de São Paulos diferentes desfilou para mim. 20km de um mar inexistente, de bairros empobrecidos, de arranha-céus, de parque, de cidade grande. 

Quer maneira melhor de aproveitar uma metrópole assim do que fazendo uma trilha urbana por ela? 

   

Checkpoint: Pico 1

Em tese, essa era a minha semana de pico do treinamento para o Cruce. E, em tese, não fiz feio. 

Transformei os 5 treinos em 4, comprimindo dois deles em um, e gerando duas sessões de back to back perfeitas. 

Na terça e na quarta, fiz um treino de 15 e outro de 20; no sábado e domingo, um de 30 e outro de 20. Alternei percursos, cheguei na boca dos mil metros de ganho altimétrico e, melhor, fechei inteiro, intacto, bem. 

O total acabou sendo de 85km cravados, número que costuma ser abaixo do que faço no preparo para ultras. Mas…. bom… Considerando que beirei os 100 no Rio há poucas semanas e que o formato dessa fase de treino foi bem mais “adequado” ao desafio, tudo está bem. 

E por que “pico 1”? 

Por conta da BR135, claro. Ela já será na semana que vem: viajo na quarta cedo e largo com a equipe na quinta. Nossa meta: fechar os 217km em até 40 horas. Do total, pretendo rodar algo entre 50 e 60km – o que caracterizará um outro longão back to back, claro. 

Só que, para a equipe, não será exatamente um treino – claro. Será uma prova real, concreta, onde meu papel de pacer acaba trazendo toda uma gama de responsabilidades diferentes. Daqui até lá, então, descanso puro. Nada de treino amanhã ou terça. Quarta? Talvez um trotinho leve para aquecer. 

E carga total na quinta e sexta. Que venha essa nova experiência.

  

 
  

O melhor percurso para longões de São Paulo

Esse é, ao menos para longões, o melhor percurso para fazer em São Paulo. 

Começa pela descida via Rebouças, um trecho não exatamente arborizado ou verde, mas que logo muda quando se cruza a ponte e se entra à esquerda no Butantã. A partir daí, a urbe dá lugar a um verde mais esparramado e quase mesclado a casarões meticulosamente plantados no terreno. 

Pelo bairro deserto, com árvores para todos os lados, vamos atravessando uma zona que parece outra cidade. Há ladeiras: o sobe e desce não pára, um dos pontos altos desse trecho. Em uma das descidas, acabamos na Oscar Americano quase de frente para o Parque Alfredo Volpi. Nova mudança de cenário. 

O parque é pequeno, mas com uma natureza quase intacta. Não há asfalto e nem visão de prédios: tudo é trilha pela mata atlântica, incluindo um ou outro single track e aquela umidade típica das florestas. Dá para se passar um bom tempo lá, mas demos uma volta. Às vezes, é o suficiente para respirar o ar mais denso do verde. 

De lá, saímos e subimos a avenida que passa pelo São Luis. Subida grande, mas voltando a ter os ares de outra cidade. Ainda assim, o cenário vai se transformando e, de repente, entramos no Morumbi. Não o Morumbi que se ouve falar, do trânsito e da violência: um outro, vazio, super arborizado e delicioso se estende pela frente. 

Entre subidas e descidas, passamos pelo Palácio do Governo, pela casa que parece ter sido construída a 4 séculos (embora seja relativamente nova), pelo pórtico de entrada da antiga fazenda que ocupava o terreno, pela Capela do Morumbi. Seguimos por entre praças, casas e prédios que se contrastavam mantendo a beleza. Descemos. Subimos. Subimos mais. 

De lá de cima, a cidade parecia se estender pelos nossos pés tendo apenas uma faixa densa de mata no caminho. Essa faixa abria caminho para o próximo destino: o Parque Burle Marx. 

Nele, é possível passar horas percorrendo as trilhas que se ziquezagueiam e se cruzam. Tudo parece diferente, mas mantendo o estilo. Tudo é verde, é mata, é trilha. Tudo é tão sintonizado que, de novo, parece que estamos em outra cidade. Nos mantivemos correndo naquele naco de natureza por alguns poucos quilômetros até sair. 

Era hora de voltar, só que por outro caminho. No começo, subimos a ladeira até o alto do Morumbi e tomamos a avenida. Nela, no entanto, nos mantivemos até cruzar a ponte e chegar no Brooklin, onde outra cidade nos aguardava.

Essa não era particularmente bonita. Era cinza, mais poluída, mais movimentada pela pressa dos carros, mais paulistana. Cruzamos um dos epicentros da metrópole, a Berrini, cruzamos o Parque do Povo, subimos a Tabapuã e entramos na Faria Lima. 

Hora de entrar pela Cidade Jardim. Subimos testemunhando os novos prédios cedendo o terreno para casas amplas, confortáveis. Estávamos já no final. 

Dali era só cruzar a Brasil, subir a Bela Cintra e pronto: fechar os 30km de percurso. Foi onde meu companheiro de corrida de hoje, Geovane, se separou de mim e seguiu seu rumo até o outro lado da Paulista, somando ainda a cena da grande avenida ao seu percurso. 

No total, foram dois parques com trilhas sempre bem vindas, cenários absolutamente diferentes, contrastes, árvores, vistas, subidas, descidas.

Longões são bons assim, quando quebram a monotonia e agregam cenas diferentes para divertir a cabeça. E, por mais que não faltem opções de percursos e trilhas urbanas em Sampa, esse certamente está no topo da lista. 

(A propósito, deixei o link do trajeto via Strava abaixo – é só clicar na imagem ou aqui).

  

100 milhas em setembro?

No ano passado, acompanhei os posts do Paulo Penna pelas 100 milhas que percorreu no caminho de Sabarabuçu, na Estrada Real. Confesso que achei sensacional, tanto o local da prova – a mágica Estrada Real – quanto as experiências que ele relatou. 

Ontem à noite vi um outro post dele com um relato diferente. Comentei elogiando o texto do Paulo – e recebi dele a notícia de que a edição deste ano aconteceria no dia 3 de setembro. 

Pois é. 100 milhas. 100 milhas? 

Essa distância, última das clássicas distâncias de ultras, está sem dúvidas nos meus planos. Mas estava ainda tão distante que, nem em sonho, imaginei corrê-las ainda este ano. 

E ainda não me decidi: além do desafio há uma questão importante de logística, pois precisaria estar de volta no dia 6, aniversário da minha filha e que jamais perderia. 

Mas aquela coceira da ansiedade começou. Fiquei extremamente empolgado: não haveria lugar melhor no Brasil para eu inaugurar essa distância. 

Agora é pensar mais. 

Quem sabe? 

  

Back to backs no caminho do Cruce

Agora eu respiro back-to-backs. Daqui até o começo de fevereiro, meus dois objetivos de treinamento são me habituar a correr sobre pernas cansadas e me manter confortável em subidas e descidas. 

O segundo objetivo é relativamente tranquilo: os dias de trilha e morro em Niterói deram um gás perfeito que está sendo mantido tanto pelos percursos que tenho traçado em Sampa quanto pelas escadarias que inseri no meu cotidiano. 

O primeiro não chega a ser exatamente difícil: tudo, afinal, é sempre uma questão de hábito. Mas é um tipo de treinamento diferente, muito diferente do que estou habituado. 

Tomemos essa semana. Em tese, eu teria uma sessão de 15km na terça e duas de 10km na quarta e na quinta. Seria o normal, fechado por um longão no sábado e mais uns 15km no domingo. Mudei isso. 

Mantive os 15km na terça – mas juntei os outros dois dias no mesmo e, ontem, rodei 20. Cansou bem mais, obviamente – mas confesso que estou começando a me sentir mais confortável com esse acúmulo de sessões back-to-back. Dor, afinal, é sempre resultado de percepção que, por sua vez, é sempre algo relativo. 

Ainda assim, não dá para descuidar do fato de que back-to-backs são um risco à parte: treinar em pernas cansadas aumenta riscos de lesões por forçar uma quebra na biomecânica e impor uma sobrecarga anômala. Para evitar cair dessa corda bamba, inseri um dia de descanso a mais: hoje e amanhã serão dedicados à mais pura regeneração. E confesso que acordar com a certeza de que o descanso será bem vindo foi muito, muito positivo. 

Aproveitemos os days-off: sábado tem longão de novo. 

  

Calendário 2016 de ultras no Brasil

Esse ano tenho o Cruce e, provavelmente, a Ultra Estrada Real no meu calendário. Duas provas, fora ser pacer na BR, com um “fim de linha” marcado para o final de março.

E depois? E os últimos três trimestres do ano? Vontade de fazer a Indomit Campos do Jordão não falta, assim como desbravar lugares mais exóticos e icônicos por aí.

Mas, embora não seja ainda hora de escolher, talvez já seja o momento de pelo menos saber o que o calendário reserva para este ano. O blog Jorge Ultramaratonista fez uma compilação de provas bem interessante e que será este meu ponto de partida.

Recomendo para quem quiser: basta clicar aqui ou na imagem abaixo. E, claro, começar o processo de escolha em meio a uma quantidade de opções que, honestamente, é bem maior que eu originalmente imaginava:

  

Pernas mastigadas, mente tranquila

Tá: é verdade que não tenho seguido uma planilha com o afinco que, provavelmente, deveria. Mas também não dá para dizer que estou sendo relapso ao extremo. De certa forma, meio que na sensação, estou moldando as minhas semanas de maneira a concentrar o máximo possível de back-to-backs.

Explico: o principal desafio do Cruce não é a altimetria em si (embora ela também seja tensa). O ponto mais difícil é justamente correr sobre pernas cansadas já que a prova se dá em três etapas. E para isso, sim, eu tenho treinado.

Exemplificando: minha volumetria na semana passada pode não ter sido tão intensa: ela chegou a quase exatos 70km. Mas destes, 42 foram concentrados entre o final da tarde do sábado e as primeiras horas do domingo. E sim: sair no domingo foi muito, muito cansativo.

Essa “receita”, por assim dizer, tem sido aplicada semana após semana, chegando ao curioso ponto de eu estar no período de pico, sem bater na casa dos 100km semanais mas com as pernas absolutamente mastigadas. O próprio treino de hoje, de 15km, foi dolorido.

Está tudo certo? Não sei, sendo bem sincero. Esse estado que mescla disciplina para treinar a falta de disciplina para seguir um plano de treino não é exatamente algo com o qual eu esteja acostumado.

Mas, dado que estou de fato tendo as sensações que previa para este ponto – e dado também que eu não me sinto nada nem remotamente próximo de uma lesão – creio que tudo esteja bem.

A mente, pelo menos, está tão tranquila quanto fortes as dores que sobem pelas pernas.

Heading down the trail together!