Checkpoint: Quebrado

Pequeno revés no plano: aparentemente, a carga da semana passada foi alta demais para a sua “repentinidade”. 

A semana até começou razoavelmente bem mas, quando pulei para os 20K na quarta com aumento na intensidade, as rodas simplesmente saíram.

Quinta e sexta foram dias de descanso difíceis; o sábado me estourou por completo. 

Bom… antes que seja tarde, desisti do dia de hoje. Semana que vem tentarei uma carga mais alta – mas sem exageros e dando mais tempo à evolução.

Às vezes, o mais difícil de um processo de treinamento é entender que se trata de um processo – e que, como tal, leva tempo. 

Cedamos, pois, ao tempo.

Anúncios

O outro lado do treinamento

Dizem que uma ultra se corre mais com a alma do que com o corpo.

Concordo, embora o corpo seja essencial para uma travessia com tantos quilômetros, vilas e cenários no caminho. Ainda assim, por melhor preparado que se esteja fisicamente, o nos permite engolir quilômetros decididamente não são as pernas.

Estas já estão em pleno treinamento para o Caminhos de Rosa com planilhas montadas, metas estabelecidas e controles rígidos pelo caminho. 

Agora, no entanto, é hora de preparar o coração e a mente.

É hora de mergulhar no sertão de Guimarães Rosa. 

É hora de deixá-lo entrar pelos olhos e fixar-se na alma, de onde sairá a meu socorro – assim espero – quando tudo mais falhar entre o Morro da Garça e Cordisburgo.

Hoje começa o treinamento dos olhos, do coração, da mente, da alma.

E não há planilha melhor para isso, claro, do que esse guia mestre.

Considerações sobre o modelo de treino para correr os 140km do Caminhos de Rosa

Essa será, provavelmente, a semana mais light que já tive em muito tempo.

Faz parte de um modelo novo de treinamento que estou testando para o Caminhos de Rosa. Verdade seja dita, estou adaptando esse modelo tanto de um outro post que li há algum tempo quanto de dicas da Zilma Rodrigues, uma das mais experientes ultramaratonistas que conheço.

A diferença do que vinha fazendo antes – de certa forma, afinal, esse modelo já fazia parte do meu ritmo cotidiano – é que agora estou realmente levando a sério.

Ele prega 3 semanas com volumes altos, praticamente estáveis e “no talo”, seguidas por uma semana de descanso. Não exagero quando falo da radicalidade da volumetria, diga-se de passagem. Por exemplo:

Essa próxima semana é de descanso. No total, terei 4 corridas a fazer: duas de 1h10 (terça e quarta) e 2 de 1h30 (sábado e domingo). É quase que metade do que fiz nesta última semana.

As próximas 3, no entanto, serão diferentes: todas terão 3 corridas de 1h10 em dias úteis mais uma de 4h no sábado e outra de 2h no domingo. Total: 9h30, provavelmente encostando na casa dos 90km rodados por 3 semanas seguidas. A semana depois disso? Uma redução para 6h40 divididas em 5 sessões leves.

E, assim, vou recuperando as energias nas semanas leves e forçando o volume nas altas.

Não há muita preocupação aqui com alta intensidade, embora eu esteja acrescentando mais velocidade nas corridas feitas em dias úteis. A ideia não é essa: uma prova de 140km sob o sol do sertão será percorrida muito mais com resistência do que com explosão. É também por isso que essas 3 semanas pesadas e seguidas servem: para acostumar o corpo a correr mais cansado, forçando um pouco mais os próprios limites.

Uma coisa digo: chegar na semana leve é também uma espécie de meta muito bem vinda. Chegar no portão de casa depois dos últimos passos do domingo foi quase como cruzar uma linha de chegada de uma prova real! Isso também entra na conta: achar motivação ao longo do caminho é sempre fundamental em uma jornada dessas.

Agora é seguir adiante. Por enquanto, estou bem contente com esse modelo, embora ainda seja cedo para falar de resultados práticos.

Screen Shot 2016-04-18 at 11.09.32 AM

Checkpoint: Business as usual

Às vezes, a sensação de realização vem de onde menos se espera. 

Voltei de São Bento do Sapucaí feliz pelos 50Kms na majestosa Serra da Mantiqueira, mas com o corpo mastigado pelas pouco mais de 10 horas de trajeto. Se a ideia era encarar a prova como um treino, então a semana posterior – esta – deveria ser uma espécie de volta ao normal, com um tempo de recuperação muscular mínimo. 

E foi exatamente isso que aconteceu. 

No final das contas, o domingo acabou fechado com 80km rodados, incluindo três longões de 20, 31 e 17, respectivamente, e praticamente emendados. Cansaço? Claro: mas dentro dos limites do esperado.

O pace, ainda mais lento que pretendo que fique em mais algumas semanas, já se acelerou um pouco; a motivação veio a toda. 

Ainda falta muito tempo para o Caminhos de Rosa, é fato. Mas o treino parece estar já muito bem engatado. E foi daí que a sensação de realização apareceu: nenhuma relação com prova, medalha o tempo de conclusão de nada, mas sim com uma transição absolutamente fluida, perfeita, para o estado normal de treino pesado. 

   
 

Business as usual

Indomit SP já está no passado. Apesar dos aprendizados, com uma boa notícia colhida ontem: no final das contas, mesmo tendo estourado o tempo em 11 minutos, a organização me considerou concluinte e acabei ganhando os três pontos para Mont Blanc – ufa! 

Agora é seguir viagem – ou melhor, seguir no treino rumo aos sertões em agosto. 

E não dei muito sossego para o corpo essa semana. Sim, as dores no corpo que permaneciam me geraram a prudência de evitar os 10K previstos para a terça – mas, como acabei me sentindo zerado no dia seguinte, encaixei 10 a mais ao longo da semana. E hoje, pressionado por um compromisso às 10, levantei às 5 para rodar 30K.

Não tenho problema de acordar às 5 – até gosto, por incrível que pareça. A cidade fica vazia, o silêncio impera e todos os caminhos parecem mais abertos. O problema é a escuridão – demais para ir correndo atravessar a Marginal ou perambular pelo centro que, sem a luz do sol, fica tomado por zumbis. 

Conclusão? Fui pro Ibirapuera! 4 voltas grandes pela trilha somada à ida e volta faziam o tempo perfeito. Só que faziam, também, uma espécie de tédio perfeito. 

Como conseguirei rodar provas de 6 ou 12 horas em pista, uma de minhas metas futuras, não tenho ideia: mas a última volta foi percorrida com direito a xingamentos e a uma quase – quaaaaaaase – desistência. 

Treinamento para a alma, talvez? Se for, que bom que acabou concluído. 

Amanhã tem mais. 

Ou, como se diz no jargão corporativo, “business as usual”. 

(Que bom que, nesse caso, isso significa testemunhar cenas como essas abaixo):

   
 

A lição do menosprezo

Eis uma lição que aprendi na Indomit São Bento do Sapucaí: menosprezar provas faz mal. 

Quando me inscrevi, a ideia era apenas ter uma espécie de treino de luxo, uma etapa relativamente simples no caminho até os 140km dos sertões mineiros em agosto. 

A semana que me levou até os 50K não teve nenhum milímetro de diminuição de ritmo ou volume – foi uma semana normal, por assim dizer. 

Ignorei a altimetria acumulada de 3,450m: o máximo de subida que treinei ficou no Cruce, lá no distante mês de fevereiro. 

Quando cheguei em São Bento não sabia direito sequer o horário da largada de tão despreparado que estava. O resultado foi óbvio: penei muito mais do que deveria ter penado. 

Cheguei até o final, é verdade: mas certamente poderia ter feito o mesmo em um estado menos cadavérico. 

Prova é prova – mesmo que seja parte de um treinamento. E uma prova da Indomit carrega no sobrenome a certeza de desafios que estão longe de serem meras brincadeiras. 

O que dizer agora? Lição aprendida!

  

Começando a montar o plano

140km não são exatamente 100 milhas, eu sei. Mas o fato de serem sob o causticante calor do sertão já o deixa próximo o suficiente para que eu baseie meu treinamente como se estivesse fazendo esta que é a mais clássica das distâncias de ultras.

Ainda estou relativamente longe da meta, lá na segunda quinzena de agosto – mas estruturar uma base assim por conta própria requer, no mínimo, bastante pesquisa. E ela começou pela lembrança do Paulo Penna sobre um post que fiz aqui no blog lááááááá em julho de 2014, com uma planilha de treinos para provas de 100 milhas. 

A planilha inteira tem 25 semanas (incluindo a da prova) – ou 6 meses. Perfeito: é exatamente o tempo que tenho. 

Como o primeiro mês inteiro é menos que o que já faço – de 30 a 44 milhas, ou 50 a 73km – dá para tomar o meu tempo, por assim dizer, e planejar melhor um cronograma mais personalizado. 

Por hora, deixemos aqui a planilha base, ainda em milhas. 

A partir dela começo a traduzir quilometragem, destrinchar os diferentes tipos de treino e assim por diante. 

Uma coisa já dá para garantir: meses intensos aparecerão pela frente!
  
 

A fuga da areia movediça: quando o descanso vira uma armadilha

A areia movediça, finalmente, ficou no passado.

Hoje acordei cedo como costumava fazer e saí para o parque. 

Leve. Rápido. Quase voando.

Não fossem dois malditos semáforos travados, teria feito uma média abaixo dos 5’/km – coisa forte para meus parâmetros. E mais: foi o segundo treino da semana, mantendo um volume e uma frequência perfeitos, e sem nenhum mínimo sinal de incômodo.

Curioso é analisar essa recuperação.

O Cruce não foi a prova mais dura que já fiz – apesar das montanhas dos últimos dias e da falta de camas macias nos acampamentos, os três dias conseguiram quebrar o desafio da quilometragem em pedaços mais digeríveis. Ainda assim, foi uma das provas mais marcantes: envolvia montanha de verdade, envolvia os míticos andes, envolvia uma experiência totalmente diferente de todas as que havia colecionado até então.

Quando voltei, voltei realizado. Tinha cumprido uma meta importante e, em nome dela, baixei a guarda e me dei o luxo de não ter nada mais planejado para o futuro próximo, de não ter planilha e de me dar férias. Isso deveria ser algo bom… Mas não foi.

Relaxado, o corpo meio que se desmontou. Dores começaram a subir por todos os cantos, articulações pararam de responder como deveriam e até a capacidade aeróbica titubeou. Foi como se tivesse regredido ou como se a linha de chegada em San Martin se equivalesse a uma lesão mental da qual estaria iniciando uma recuperação.

Foi uma areia movediça: se permanecesse parado, continuaria sendo engolido pelo cansaço crescente; se exagerasse e forçasse a barra em treinos teimosamente intensos, apenas pioraria.

E aí comecei a escalada para fora do poço. A primeira arma: regularidade. Fiz de tudo para sair nos dias determinados, ainda que pra fazer metade do que planejava. Aproveitei finais de semana abrindo mão das primeiras e mais difíceis horas do dia. Penei no calor e persisti na chuva.

Planejei novas provas: ter uma meta é sempre fundamental. 50K da Indomit São Paulo em abril, 140K do Caminhos de Rosa em agosto.

Depois, aos poucos, fui somando altimetria. Busquei morros mais altos até o limite do confortável. Quando estava perto da sensação de quebra, cedia.

Sempre mantendo a regularidade.

Troquei altimetria por velocidade, aumentando o pace.

Regularidade.

Fiz um ou outro regenerativo.

Leve, mas conforme o planejado.

E, assim, em uma bela quarta, acordei para o fato de que havia deixado a areia movediça para trás. 

O corpo havia desistido de seu protesto intruso, as dores haviam se transformado naqueles incômodos leves e normais a treinos de ultras, a sensação de medo ao pensar nas dificuldades dos dias anteriores trocada por ansiedade referente aos planos futuros.

Ufa!

A lição aprendida aqui? Descanso pode ser bom de vez em quando – mas quando o exagero o metamorfoseia em descaso, a volta à ativa pode ser muito mais dolorosa do que se imagina.

  

Ainda não

O despertador tocou às 5:15. 

Levantei, ainda que com algum repúdio por parte das pálpebras, me arrumei e desci. 

Ajustei o relógio.

Ignorei a garoa.

Apertei os olhos em um esforço de deixar para trás o sono.

Dei os primeiros passos.

Era pra ser algo simples, cotidiano: uma volta pela pista do Ibirapuera no piloto automático. Não funcionou: joelho direito protestou, tornozelo mostrou-se insatisfeito e toda a musculatura empacou, deixando claro que não pretendia se soltar por nada no mundo.

Não tive alternativa: desisti, dando meia volta ao chegar na 9 de Julho e transformando 11K em 5.

Placar final: motivação em 75%, disposição em 50%. 

Conclusão: ainda não estou pronto como gostaria. 

  

Checkpoint: Rumo aos Andes

Última corridinha feita: 11K pelo Ibirapuera. 

Fora as desconfortáveis dores fantasma fruto do período de tapering, tudo normal.

Hoje de madrugada embarco para a Argentina, devendo chegar em San Martin de Los Andes por volta das 13:00 de amanhã. De então até a sexta, dia da largada, serão apenas trotes leves pelas montanhas, mergulhos no geladíssimo lago Lacar e ajustes finíssimos no preparo final – principalmente por conta da ansiedade, que já se acumula por todo o corpo.

E vambora para mais uma experiência de vida memorável!