Deixando o estresse no caminho

Sabe quando se tem um dia para lá de complicado, com uma somatória insana de problemas e um desfecho digno de filme de terror? É impossível deixar esse acúmulo de problemas no caminho do trabalho para casa. 

Problemas no trabalho normalmente significam noites mal dormidas, estômagos que cismam em ficar tensos, mente que metamorfoseia qualquer mínimo desafio em barreiras intransponíveis. No passado, minha forma de lidar com problemas assim era “simples”: deixar o corpo cozinhar até transbordar. E, no passado, o corpo transbordou: cabei na mesa de cirurgia para retirar metade do meu fígado. 

Hoje, ainda bem, há uma opção mais fácil: a rua. 

Acordei cedo, por volta das 5, e decidi deixar o estresse ao longo do caminho. Claro: como o estresse era grande, o caminho também deveria ser. 16km que não estavam programados e que se iniciaram por volta das 5:15 da manhã, ainda antes de qualquer sinal de claridade de um sol que provavelmente nem pensava em acordar. 

Não fiz tiros, não me apliquei metas e nem controlei o tempo. Nem relógio eu levei. 

Simplesmente corri até a vontade acabar. 

Cortei a noite de casa até o parque, entrei com aquela precaução de quem não enxerga o solo escuro, cruzei o vento e passei por outros corredores tão compenetrados quanto eu. 

No fone, um podcast qualquer cuspia alguma história que eu mal prestava atenção. Mas a mantive ligada: de alguma maneira, ouvir zunidos de vozes ecoando entre os ouvidos estava me fazendo bem. 

Cheguei a pensar em pegar a trilha do lado de fora do parque na segunda volta: trilhas, mesmo as mais levinhas, sempre fazem um bem colossal. Só que ainda estava escuro e, sem lanterna, seria uma receita certa para acidentes indesejados. 

Sem problemas: dei outra volta. E parei. 

Respirei. 

Fundo.

Algumas vezes. 

A mente, então abarrotada de pensamentos espremidos como se estivessem em um trem indiano, de repente se viu vazia. Perfeito. 

Voltei para casa rejuvenescido, inteiro, intacto, novo. 

O estresse do dia anterior ficou lá atrás, no asfalto. O do dia corrente estava ainda por vir já nas próximas horas. 

Mas tudo bem: àquela altura, estava já preparado para matar qualquer novo leão. 

  

Checkpoint: Mente e corpo se desencontrando

É curioso como o corpo tem o seu próprio tempo, por vezes desconectado do que se espera a partir de teorias ou mesmo experiências alheias. 

Voltei bem da África, pronto para ganhar as ruas de volta já na quarta imediatamente após a Comrades. Fiz outro treino na quinta, outro no sábado. 

De repente, depois do longão (que, na verdade, não chegou a ser tão longo assim), a musculatura começou a reclamar. Alto. 

Sem problemas: desisti das ruas na terça – mas segui adiante na quarta, já devidamente motivado. 

Não consegui me segurar: na quinta, ao invés de 1h leve, fiz 1h30 com direito a dois tempo runs de 30 e 20 minutos cada. Mas estava inteiro e segui com alguns amigos para o Pico do Jaraguá, onde fiz duas subidas e descidas somando pouco menos de 900m de ganho altimétrico. Curiosamente, voltei muito, mas muito inteiro. Nada de dores e uma sobra de energia impressionante. 

Até hoje, pelo menos. 

Acordei com os músculos meio colados, tensos e fui para 13k na trilha em torno do Ibira – não aproveitar o céu azul em um domingo cedo me parecia criminoso. 

Resultado: agora à noite, enquanto escrevo este post, o corpo todo parece reclamar. 

O momento que estou agora é esquisito: hiper motivado e com uma ansiedade monumental de passar horas em qualquer que seja a trilha, mas com uma fadiga poderosíssima. Uma espécie de descolamento de mente e corpo, creio. 

Hora de dar tempo ao tempo. 

Amanhã é dia de descanso: vamos ver se o corpo alcança a mente para uma sessão com 15 minutos de tempo run na terça. Se não alcançar, rearrumo a programação – mas nada de forçar. Se conseguir, pelo menos. 

No final do mês, afinal, tenho 50K em Atibaia para os quais quero estar absolutamente em forma! 

  

O pico

Não é (só) pelo fato de ser o ponto mais alto de São Paulo, o que garante uma vista fora de série da terra da garoa e um treino em subida fortíssimo.

Correr no Pico do Jaraguá tem algo de mágico.

Começando pela chegada, logo antes das sete, quando carros se avolumam na portaria aguardando que seja aberta. Depois vem aquele mar de preparações: ciclistas mais aventureiros montando suas bikes, corredores se equipando com água e escolhendo entre trilha e asfalto, curiosos apenas admirando o oásis verde no meio da metrópole.

Depois, o caminho. Pelo asfalto, 4,5km serpenteando a montanha e dando margem a vistas incríveis a cada curva. Paredões rochosos, verdes intensos contra um céu em processo de azulação, cheiro de mato acordando, suor e ácido lático denunciando o esforço. Cansa subir lá – e como.

Mas, no topo, a vista final compensa com a cidade se espalhando pelos seus pés como uma pintura meio neo-impressionista. 

Vista, aliás, que melhora ainda mais pela descida da trilha do Pai Zé, mais técnica e intensa. Corta a mata, demanda mais atenção a cada passo, libera doses cavalares de ácido lático. E compensa.

Quase 20km se passam entre duas subidas e descidas alternando asfalto e trilhas pelo Jaraguá. Passam marcando o cansaço, claro – mas aliviando o peito com esse presente que é respirar com os olhos, por assim dizer.

Poucos lugares são tão maravilhosos pra se correr na capital paulista quanto o Pico.

  

Ultra nas montanhas em Atibaia? Parece boa ideia…

No começo desse ano, fiz uma prova organizada pela Corridas de Montanha que jurei nunca mais repetir: havia charco, travessia de rio e todo um percurso onde trilha, trilha de verdade, era um luxo quase raro.

Aparentemente, algo mudou. Ao menos em minha mente.

Hoje me peguei navegando pelo site deles em busca justamente de desafios semelhantes. E olhe o que encontrei: uma ultra de 50K aqui pertinho, em Atibaia…

Cedi. E me inscrevi, contando também com a dificuldade técnica como ferramenta de treino para a Indomit!

Em resumo: já há uma nova prova em vista. Ainda bem!!

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Como será o treinamento de agora até o final de julho

Hora de colocar as mãos na massa! Com a Indomit programada para o começo de novembro, tenho um período bom para trabalhar a base – principalmente do ponto de vista de velocidade – mantendo o ganho acumulado desse período que culminou na Comrades.

Não pretendo me programar até o dia da prova, mas montei algumas regras que traduzi em uma planilha que seguirei até o final de julho. A partir de então farei algo mais específico com base em como estiver me sentindo. Os ponteiros gerais são:

Começarei nessa semana, tomando como base uma meta semanal de 55-60K (já considerando o “day-off” de ontem).

Terças e quintas serão dias de tempo runs ou tiros, alternando-se. Isso será sagrado: trabalhar velocidade foi algo que gostei de fazer até aqui, até para dar uma variada, e que pretendo continuar.

O modelo será de duas semanas crescentes para cada semana light, buscando uma evolução realmente lenta e terminando em algo como 85-90km semanais.

As primeiras semanas de agosto, ainda não planilhadas, serão o pico do treino para o Indomit. Chegaremos lá depois.

Na medida do possível vou inserir trilhas nos longões. Isso ajudou bastante por mudar grupos musculares.

Também buscarei algumas ultras menores no caminho, o que pode mudar o planejado (de maneira positiva, diga-se de passagem).

Enfim, veremos como tudo funcionará. O programa completo está abaixo:

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Ainda não

Deixei a roupa pronta no banheiro: shorts, camisa e um FiveFingers que sempre uso quando quero trabalhar velocidade. Estava devidamente motivado, pronto para começar um novo ciclo tendo como meta a Indomit Costa Esmeralda e seus 100km de trilhas casca grossa cortando o litoral catarinense. 

Dormi preparado; acordei exausto. 

As pernas pesavam toneladas e a mera intenção de me levantar fazia tudo doer, como se ainda estivesse sob o efeito de um tanque esgotado de endorfinas. Devo confessar que essa experiência de exaustão uma semana depois de uma ultra tem sido algo novo para mim – e algo que, embora curioso, não está me agradando tanto. 

Mas, agradando ou não, ouvir o corpo continua sendo uma disciplina fundamental. 

Cedi. Deixei as roupas no banheiro, o Garmin desligado e as pálpebras pregadas em busca de algum novo sonho.

Hoje ainda não foi o dia. Quem sabe amanhã?

  

Checkpoint: Revisando a chegada e resetando os sistemas

Ainda é difícil de acreditar que a Comrades foi há apenas uma semana e que, nesta exata hora, eu estava já comemorando com os amigos lá em Pietermaritzburg, vestindo as duas medalhas com o peito estufado de orgulho. 

É igualmente difícil acreditar que meu ciclo naquele naco da África, região que mais amo em todo o mundo, se encerrou. 

Dizem, no entanto, que se deve encarar finais de ciclos como início de novos tempos. Talvez seja mesmo hora de me concentrar em outras provas da minha lista de desejos – ou mesmo de varrer a mesma África em busca de outras ultras e desafios, seja em Victoria Falls, nas Drakensberg, em Lesotho, no Kilimanjaro ou em qualquer outro local. Uma coisa é certa: meu tempo na África está longe de ter terminado: se não para a Comrades, ainda voltarei lá para correr algum outro solo. 

Enquanto isso, claro, essa semana foi de pura recuperação. Recuperação equilibrada, devo acrescentar: corri um total de pouco mais de 40km, me entregando à vontade de estar nas ruas, fiz novos planos, busquei novas provas, respirei novos ares. Aproveitei esse (muito) bem vindo feriado para repassar esses últimos meses e todo esse treinamento que se foi. 

Curioso: no final das contas, a quantidade de trilhas que fiz no caminho até a Comrades foi tão grande, gerando tantos altos e baixos do ponto de vista de volume de rodagem e pace médio, que facilmente se deduziria que a linha de chegada seria cruzada com muito mais dificuldade. Não foi o caso: possivelmente pela somatória de experiência com variação muscular no treinamento acabou funcionando de maneira perfeita e cheguei em Pietermaritzburg com um tempo melhor e com muita, muita energia ainda sobrando. É só ver abaixo, pelos gráficos:

  
Só isso já diz muito sobre o quanto a variação em terreno pode fazer bem para o corpo. 

Agora é hora de recomeçar. Minha próxima grande meta é apenas em novembro, fechando meus primeiros 100K nas trilhas de Santa Catarina. Até lá ainda há muito chão pela frente. 

Que bom.

O corpo depois de 2 meses em low-carb

Antes de começar, um rápido “disclaimer”: ainda tenho que fazer mais uma bateria de exames nos próximos dias para saber como o meu corpo está reagindo “por dentro” à dieta low-carb-high-fat.

Tendo dito ido, vamos às observações práticas:

  • A fome realmente sumiu. Passo tranquilamente 12 horas sem comer nada e sem sentir falta de nenhum alimento. Esse certamente deve ser um dos motivos que geram perda de peso apesar do elevado consumo de gorduras.
  • No começo, inclusive, deixe o limite de carboidratos em 20 a 25g por dia. A perda de peso foi tamanha que, hoje, relaxei mais o limite e procuro apenas mantê-lo abaixo dos 90g/ dia. 
  • O problema é que, quando se muda um hábito alimentar, qualquer coisa diferente parece forçação de barra. Tenho quase me cobrado diariamente a comer mais carbs para não emagrecer tanto. Ainda assim, veja os resultados no gráfico abaixo: ele mostra 3 meses (sendo o primeiro fora do low-carb e os últimos dois dentro). Em 60 dias, despenquei de 75 para 67kg.
  • Não estou me sentindo fraco e nem nada. Ao contrário: nunca me senti tão disposto, nunca dormi tão bem e nunca estive tão “atento”. Impressionante.
  • A recuperação também está extremamente ágil. Na semana passada, saí cedo para meu ultra longão pre-Comrades, de 53K. Cheguei em casa de volta às 13; às 20:00 já não sentia nem lembrança de dor. Só não corri no dia seguinte por precaução.

Enfim… até o momento, pelo menos os “efeitos visíveis” estão excelentes. Espero que os exames confirmem isso pois eu realmente não gostaria de abandonar o low-carb que, a essa altura, virou mesmo um estilo de vida!

  

Sobre comer antes de correr

Bem antes de ser “oficialmente” low-carb, eu raramente comia antes de correr. Apenas em longões de mais de três horas eu abria uma exceção – e mesmo assim para uma torrada pálida, apenas para enganar o estômago. 

Não tinha muita teoria em cima disso mas o fato é que eu sempre me sentia melhor quando ganhava as ruas de estômago vazio. 

Depois de algum tempo, acabei entendendo que meu corpo havia se habituado a queimar gordura mesmo bem antes de eu “ajudá-lo”, por assim dizer. Ainda assim, sempre fico curioso por entender a ciência por trás desse mecanismo que transform o jejum em aliado (ao invés de vilão). 

Na semana passada eu me deparei com um gráfico BEM interessante, publicado no MySportScience, que ilustra o efeito da ingestão de alimentos. A explicação é simples: comer antes de treinar gera um pico de glicose e, consequentemente, de insulina. A glicose alimenta a musculatura e acelera a performance mas, depois de algum tempo (cerca de 45 minutos), o seu efeito termina e o organismo entra em uma espécie de “vale”, pedindo mais alimentação para se manter no estado em que estava. 

Se for fazer uma prova rápida, de 5K ou 10K, esse tipo de mecanismo pode funcionar perfeitamente – mas esse não é o meu caso. Comer a cada 45 minutos ou 1 hora em uma ultra que pode levar até um dia inteiro é abolutamente inviável: não há gráfico, nesses casos, que faça o estômago aguentar isso. 

Conclusão: se curte distâncias mais longas, é sempre mais válido mesmo acostumar o corpo a queimar o combustível que ele já tem estocado, a partir de gorduras, do que desenvolver uma “rotina viciante de entrega de açúcar” para ele.

Recomendo a leitura do artigo do MySportScience, aqui: http://www.mysportscience.com/#!What-to-eat-the-hour-before-a-race/cjds/54d318730cf27bee9f050812

O gráfico está abaixo: