O que eu deveria fazer vs. O que eu com certeza farei

Minhas pernas estão moídas. Coxas parecem ter sido mastigadas e cuspidas pelo asfalto, panturrilhas reclamam incessantemente e até algumas articulações já mostram sinais de insatisfação. O que eu deveria fazer?

É óbvio: aproveitar hoje e amanhã, dias que estarei em viagem de trabalho, para dar ao corpo o tempo que ele precisa antes de retomar a semana de treino que, por coincidência, está programada pra ser leve. 

Dormi com esse plano.

Acordei com esse plano.

Mas, quando o taxi para o aeroporto chegou, voei até o armário e enfiei tênis e roupa de correr na mochila antes que pudesse pronunciar a palavra “não”.

Sei o que devo fazer: nada.

Mas também sei o que provavelmente farei: um trote leve cortando a cidade.

  

Checkpoint: De acordo com o planejado

Apesar dos obstáculos nos primeiros dias – dores esquisitas no joelho e na panturrilha – a semana acabou exatamente como planejado. Melhor, até, dado que as dores evaporaram por completo. 

Foram 76km rodados, uma altimetria acumulada de mais de 1.100 metros, pace médio abaixo dos 6 min/km e, de quebra, exames que retornaram resultados perfeitos, indicando a (desejada) manutenção da dieta low-carb. 

De certa forma, foi como se essa semana representasse uma luz verde para o próximo ciclo em todas as frentes: nutrição, preparo físico, endurance. Ciclo, diga-se de passagem, que terá os 70K da Bertioga-Maresias e os 100K da Indomit Costa Esmeralda lá em novembro, riscando mais um item da minha lista de desejos. 

Que seja um bom sinal para as próximas semanas.

    

Maratona Bertioga-Maresias no caminho!

Enquanto a luz amarela continuava acesa, acabei pesquisando mais sobre meu treinamento até os 100K da Indomit Costa Esmeralda, no dia 7 de novembro. E olha o que encontrei: a Bertioga-Maresias, prova que sempre quis fazer e que, este ano, acontecerá em 17/10.

Em outras palavras: acontecerá no dia perfeito para o último longão pre-Indomit. E contará ainda com sol, trechos em areia e aquele clima de prova que sempre bate qualquer treinamento.

Serão 75km que pretendo fazer na categoria solo, pegando leve com o pace e buscando apenas um último treino. Depois, descanso e recuperação.

Com a inscrição já devidamente feita, é hora de passear pelo Youtube e curtir alguns dos vídeos de edições passadas para adrenalinar corpo e alma!

Programando o futuro

Como diz o ditado, “o que era doce, acabou-se”. Estou neste exato momento curtindo os primeiros sinais daquela típica depressão pós-viagem, em que a perspectiva de correr no (embora amado) Ibira posa como um contraste absoluto em relação às dunas e praias do Ceará. 

Mas, enfim, parte da graça de correr é poder justamente aproveitar o mundo de uma maneira solitária, intensa, egoista e, sobretudo, completa. Foi-se o Ceará, virão novas trilhas. 

A começar pela que está programada para o dia 7 de Novembro: meus primeiros 100K sob o solo hiper técnico e traiçoeiro de Santa Catarina, na Indomit UltraTrail Costa Esmeralda. Não minto que estou levemente aterrorizado com o prospecto de encarar aquelas trilhas novamente – minha primeira vez foi no Indomit Bombinhas, de 42K, que me tomaram mais de 6 horas. Mas, de lá para cá, muita coisa já aconteceu e amadureci bastante como corredor. Não que esteja pronto para encarar uma Marathon de Sables, claro – mas 100K não há de ser, espero, tão infernal assim. 

E a parte divertida começa agora, com a programação montada por mim mesmo. 

No começo, esta semana, pegarei leve: preciso livrar a musculatura das dores e recome;car o ciclo, embora os 100K com areia fofa que carrego da semana certamente serão uma bela base. 

Depois sigo com microciclos: duas semanas evolutivas com tiros e tempo runs seguidas de uma semana mais leve. Os longões estão até modestos: fora os 50K da semana de pico, já em meados de outubro, os outros variam entre 3 e 4 horas, mais ou menos. Procurarei fazê-los em trilhas diversas, seja na Serra do Japi, no Parque do Carmo ou em qualquer outro canto próximo a Sampa. 

É claro que, como toda boa programação, ajustes devem ser feitos. Mas é sempre bom ter uma base a partir de onde improvisar. 

Agora é foco puro. Em pouco mais de 3 meses terei completado meus primeiros 100K. 

   
    
   

Checkpoint: A descoberta de novas horas

Sabe quando você acorda em estado de exaustão pra ir ao trabalho e, de repente, se dá conta que está em pleno sábado? 

Pois é: hoje foi mais ou menos assim. Acordei pronto para arrumar as malas e sair até me dar conta que partiria para o aeroporto apenas às 14:30! Tempo de sobra para espremer uma última volta e fechar 100km na semana (embora, se contarmos o domingo passado, já estivesse com 110km e nem um único dia de descanso).

Esse foi o tom da viagem toda, aliás: nos 8 dias em que estive aqui não deixei de correr por nenhum. Não por falta de avisos do corpo: minhas pernas estão moídas – mais pela falta de interrupção do que pela rodagem em si – e cheguei a acordar ao menos duas vezes decidido a passar o dia inteiro no mar. Não deu: a mente comandou as pernas dunas a fora para mostrar a beleza do lugar aos olhos.

     

 E, assim, cheguei pela primeira vez ao marco de 8 dias seguidos correndo, somando neles 118km – boa parte por muita areia fofa.

Sim, tudo errado de acordo com o planejamento. Mas semana que vem descanso um pouco mais: é sempre bom, afinal, entender que saber ouvir o corpo não é a mesma coisa que ficar submisso a cada um dos seus desejos. 

Embora fisicamente exausto, afinal, estou inteiro. Pronto para uma nova fase do treino, agora mirando os 100km da Indomit UltraTrail Costa Esmeralda!
   
 

Sábado sem longão :-(

Receita básica: como domingo tem ultra, sábado é dia de descanso. Descanso, afinal, também é treino. 

Poucos bordões são tão repetidos quanto este no mundo das corridas. 

Só que passar as primeiras horas do sábado desbravando a cidade sobre os pés é um hábito já tão arraigado em mim que dormir até tarde, descansar, trocar o tênis por uma manhã preguiçosa, parece simplesmente errado. 

Esquisito? Totalmente. 

Eu, pelo menos, não conheço ninguém mais que prefira evitar um sábado de manhã como este ilustrado na foto. 

  

Como serão os 50K em Atibaia?

Sendo bem sincero, é difícil de dizer. Ao contrário de muitos circuitos de ultra no mundo, no Brasil há uma espécie de aversão tácita a prover informações aos corredores. Resultados: nos inscrevemos no escuro, sabendo apenas a distância total e deduzindo o resto pelo perfil do organizador. 

No caso de Atibaia, organizado pelo Corridas de Montanha, imagino que será algo bem técnico e possivelmente em um circuito menor que a distância, incluindo assim alguns loops. Sem problemas quanto a isso: diferente da última vez que fiz uma prova deles, agora estou preparado. 

Mas tive uma ideia essa semana: lembrei que, há algum tempo, vi alguns circuitos deles na minha timeline do Strava. Resultado: depois de uma breve caça, percebi que eles mapearam o percurso nessa semana. 

Ponto positivo: agora pelo menos sei que o percurso incluirá trechos longos em estrada (creio que de terra) e uma subida que promete ser deliciosamente intensa. 

Pelo mapa, acredito que os 50K incluirão uma soma de 4 percursos: 3 loops e um bate-volta até o topo de uma montanha. 

Do ponto de vista de elevação, a altimetria acumulada deve ser de 1.840m – um bom número para a distância – com as duas maiores subidas no final. Pelo mapa, no entanto, parece que a chegada será em um local diferente da largada. Não sei se isso procede mas, caso positivo, será bem vindo. É sempre mais empolgante seguir em uma “reta” do que em “círculos”. 

Agora é me preparar. 

E correr.  
   
 

Planejamento de ultras

Depois de algumas semanas me organizando, caçando calendários e fazendo todo tipo de conta, é hora de efetivamente estabelecer as minhas próximas metas. E já digo uma coisa: estou absolutamente empolgado com elas!

Daqui até fevereiro tenho pelo menos três provas nas quais já me inscrevi e que, claro, pretendo dominar para riscar itens da minha lista de desejos.

A primeira será logo agora, no final do mês: 50K em Atibaia, parte do circuito da Copa Paulista de Corridas de Montanha. A prova em si não deve ser nada de apavorante, mas quero tirar da mente aquela impressão negativa de passar por percursos “excessivamente selvagens”. Não sei se é ou não o caso de Atibaia – o site não dá nem sequer uma pista sobre nada – mas será excelente para returbinar o corpo.

A segunda já será mais “tensa”: meus primeiros 100K, com direito às trilhas técnicas da Indomit Costa Esmeralda e a uma largada à meia noite. Uma prova de fogo: passando bem por ela, encaro qualquer coisa! E, para falar a verdade, essa é a prova que mais está me deixando de cabelo em pé, meio inseguro. Mas, enfim, só sabemos mesmo quais são os nossos limites depois de nos testarmos.

Finalmente, a terceira e última também está nos meus sonhos faz tempo: o El Cruce, lá nos Andes, paisagem exuberante que tive o prazer de percorrer por conta própria no final do ano passado. E, nesse caso, será a minha primeira corrida em estágios.

Agora é treinar.

Empolgado.

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Checkpoint: Corpo vencendo o Garmin, 50K de Atibaia se aproximando

Até o começo desta semana, minha maior preocupação era em voltar ao normal. Bom… preocupação talvez seja uma palavra forte demais, dado que eu não estava sequer pensando muito sobre o assunto…

Mas o fato é que algo ainda não estava tão certo com o corpo desde que voltei da Comrades. 

Foi uma questão de dar ouvidos e tempo ao corpo. Passadas as primeiras semanas, o único efeito residual, meio que fruto de um rebote, tem sido um aumento na velocidade. 

Fora um único treino mais complicado na quarta de manhã, quinta, sábado e domingo foram rodados em uma velocidade de cruzeiro absolutamente suave. Por suave, entenda mais rápido e com bem menos esforço que o normal. 

O longão de sábado foi especialmente curioso neste sentido, até porque costumo rodar propositalmente mais devagar quando o volume cresce. E até tentei no começo, mas o corpo começou a estranhar o pace de 6’30″/km de tal maneira que decidi ignorar o relógio e simplesmente obedecer as pernas. 

E assim foram 30km na casa dos 5’50”, um ritmo que eu, pelo menos, considero forte para este tipo de rodagem – especialmente considerando que boa parte dele foi feito na escuridão da madrugada paulistana, com direito a alguns tropeços e atenção redobrada no caminho. 

Mais curiosa ainda foi a reação do corpo: nada de dores, de incômodos, de reclamações. Estava bem. Simples assim. 

Decidi tirar a prova hoje pela manhã, aproveitando o dia incrível para fazer a trilha do Ibirapuera e a mega-íngreme subida da Ministro Rocha Azevedo que, aliás, já se incorporou ao meu cotidiano. Zero de problema. Foram 13km em um ritmo mais rápido que o de sábado, inclusive – e também com zero de esforço. 

Semana que vem tem novidade: a ultra de Atibaia, com 50K mais “roots” para auxiliar na preparação da Indomit Costa Esmeralda em novembro. Ajudar, claro, do ponto de vista mais de preparação mental que qualquer coisa: o percurso, que nem aparece no site do evento, deve ser daqueles pesados, técnicos e com subidas capazes de fazer jorrar o ácido láctico. 

O plano é simples: me acostumar a ambientes mais técnicos. Assim, nada de preocupação com pace, com horário ou coisa alguma. No meu entendimento, a missão estará cumprida apenas se eu cruzar a linha de chegada com a sensação de ter me divertido. 

Esperemos que funcione.

  

Lidando com a adaptabilidade

O dia ainda não havia caído e tudo indicava um entardecer daqueles bem vermelhos, secos, intensos.

Coordenei meu dia no trabalho para conseguir sair a tempo de pegar aqueles últimos raios de sol, sempre tão bem vindos quando se quer respirar alívio quanto a qualquer coisa. Deu certo: no horário programado, estava na rua.

Cortei a Santo Amaro, cruzei a IV Centenário e, em minha frente, o velho Ibiraquera parecia dar boas vindas com aquele sorriso de quem está à espera faz algum tempo. Dava tempo ainda de pegar a trilha, aproveitando o pôr do sol entre os verdes e os lagos.

E tudo parecia perfeitamente sincronizado… até que um vento súbito me pegou de surpresa. Olhei para os lados: folhas pareciam voar, ágeis, na horizontal.

O vento assobiava nervoso, agitado, quase elétrico.

Pequenos mosquitos pareciam voar desnorteados em torno das luzes nos postes.

E, no lago, pequenas gotas começaram a se fazer onipresentes.

A garoa tensa durou apenas alguns segundos e logo se transformou em tempestade. A água, aliás, parecia vir com tamanha força do céu que até o lago parecia mais seco que o ambiente em si.

Olhei para os lados: os corredores que estavam por ali há apenas alguns instantes pareciam ter evaporado. Era apenas eu no parque inteiro – eu e a chuva torrencial. Aproveitei.

O fim do dia de ontem não teve pôr do sol vermelho, mas teve algo ainda melhor: uma tempestade sem aviso prévio que expulsou todo mundo e deixou o Ibiraquera inteiro para mim. Corri livre, ensopado, alternando trilha com asfalto para evitar quedas e bebendo cada gota de endorfina que parecia estar sendo produzida pelo tempo em vez de pelo corpo.

Foi extasiante.

E, da mesma forma que começou, a tempestade parou: de repente.

Os corredores voltaram às ruas, a noite se abriu, as nuvens sumiram.

Voltei para casa.

O simples ato de correr, às vezes, nos faz entender que podemos até não controlar o tempo – mas conseguimos nos adaptar e aproveitar, com toda a intensidade do mundo, qualquer forma que ele decidir impor sobre nós. Adaptabilidade, aliás, talvez seja a maior das lições das trilhas.