Cantareira

Fazia tempo – muito tempo – que eu planejava desbravar o Parque da Cantareira. 

Nas duas tentativas anteriores dei de cara com o portão fechado: o parque abre para o público apenas quando as condições meteorológicas indicam possibilidade nula de chuva. E, com isso, a soma da distância da minha casa com o imprevisível do tempo foi deixando o parque lá no fundo da mente, como uma espécie de meta de treino a ser cumprida um dia. 

O dia foi hoje. 

Tinha uma maratona planejada para o treino, o que, por si só, já abria espaço para uma corrida até o final da Zona Norte. Chequei a meteorologia: nada de sol a pino, infelizmente – mas nada de chuva também. 

Segui. Na pior das hipóteses, imaginei, rodaria pelo Horto. 

Não foi necessário: às 8:15, quando cheguei na entrada do Núcleo Pedra Grande, a bilheteria estava aberta e algumas pessoas já perambulavam por lá. 

Entrei. 

Desliguei o podcast. 

Respirei o ar da Cantareira e me concentrei em tudo o que estava ao redor: pássaros, macacos, o cheiro da mata virgem, o ar limpo como São Paulo sonha em ter. 

Tomei o rumo da Pedra Grande. Confesso que não gostei do caminho até lá ser por asfalto, muito embora em (perfeitas) más condições e serpenteando por um caminho que mais parecia ter sido retirado do paraíso. 


Não marquei a quilometragem até lá: estava tão entusiasmado com a beleza do local que esqueci desse detalhe. Detalhe mesmo, reforço: há algumas corridas tão em sintonia com tudo o que existe que qualquer tentativa de marcação ou controle mais parece ingenuidade. 

Sejam lá quantos quilômetros tiverem sido, em algum tempo cheguei a uma clareira. Olhei: era a Pedra Grande. Subi. 

Mal acreditei: em minha frente, um paredão de floresta virgem parecia abraçar a maior metrópole da América do Sul, apequenando-a, emoldurando-a como se fosse apenas um ponto cinza no mar verde. Uma outra perspectiva da cidade se desenhou em minha mente: nada de uma São Paulo disforme, gigante, metendo medo na natureza com seu poderio industrializador: de lá do alto da Cantareira, a cidade parecia tímida, como que encolhida no pouco espaço que a natureza permitiu à civilização. Difícil até de imaginar essas palavras – talvez sejam do tipo que só vendo para crer. 


Passei alguns minutos ali, tentando registrar em fotos aquela beleza poderosa. Falhei. Nem os filtros do Instagram fizeram as imagens chegar aos pés da realidade. 

Segui em frente na corrida, dando a volta na Pedra e voltando. No caminho, entrei pelas trilhas que apareciam: do Bugio, das Figueiras, da Bica. Todas pequenas, de 1 a 1,5km – mas todas permitindo uma incursão mata adentro por single tracks perfeitos. Daria para passar horas ali apenas vendo, ouvindo, sentindo. 


Bebendo das bicas pelo caminho com aquela água clara, gelada, deliciosa. Voando trilhas abaixo, naquele tipo de brincadeira de velocidade que sempre termina com um sorriso involuntário no rosto do corredor. 

Daria para ir e voltar pela estradinha incontáveis vezes. 

Só que era hora de voltar. 

O retorno, aliás, ajudou na perspectiva: me imaginei entrando naquela minúscula cidade que vi de lá da Pedra Grande. 

Minúscula de longe, imensa de dentro: cruzei a Zona Norte, atravessei a Marginal Tietê, voei pela Barra Funda, subi a Pacaembu. Ao meu redor, só gigantezas: as avenidas, os zunidos, os prédios, as casas. 

Em um dado ponto, olhei para trás: dava para ver apenas alguns morros distantes ao fundo – morros que pareciam tímidos de tão pequenos. Nada de paredão verde, de floresta, de mata atlântica: estava no inverso. 

Mas pelo menos já sabia que o que via não era, necessariamente, o retrato da realidade. 

  

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No teto de São Paulo

Cruzei o portão de acesso do Pico do Jaraguá às 7:10, 10 minutos depois dele abrir: gosto de começar a correr cedo, antes do dia acordar. 

Normalmente, uma pequena fila de carros já está formada a essa hora, com corredores e ciclistas se preparando para enfrentar a subida. Hoje, não.

O frio intenso, a garoa fina e a neblina espantaram praticamente todos. Quase todos: eu, afinal, estava lá.

E amei.

Sem música nenhuma nos ouvidos além do som dos ventos soprando a mata, fui serpenteando a estrada pico acima, desviando das árvores derrubadas pela tempestade da noite anterior e respirando o ar puro, úmido, típico de montanha. 

Fui lento, leve, constante. A cada curva cênica, uma conclusão qualquer sobre um pensamento também qualquer, aleatório, que se instaurava na cabeça. Estava tão só naquela montanha fria, belíssima, que me sentia correndo dentro de um sonho. 

Na medida que subia, o frio apertava. O verde intenso das encostas começou a ceder, sendo coberto por uma película de nuvens que, a cada metro, se engrossava. Em mais alguns quilômetros tudo era branco: enxergar qualquer coisa que não poucos metros de asfalto no chão se tornara impossível. 

Perfeito: não enxergar nada, às vezes, nos faz entender tudo muito melhor. Quando cheguei no alto, no pico, estava dentro de uma nuvem gelada sendo soprado por solitários cordões de vento, uivantes, de uma calma quase monástica. Era hora de descer.

Caminho oposto, sob todos os aspectos. Voei ladeira abaixo, a pace queniano, como se estivesse sendo perseguido por um urso polar. A cada passo, o branco foi cedendo e o verde, gritando. O frio foi cedendo espaço ao suor e até uma paisagem qualquer, em um dado momento, decidiu furar a neblina e se exibir. Havia movimento nela: carros, luzes, passos. 

À minha frente, dois corredores e um ciclista, furaram a solidão e superpopularam o local. Até mesmo algumas vozes decidiram contestar os ventos.

Aí cheguei de volta no carro.

Ao pico ermado, à base movimentada. Correr no Jaraguá tem disso: além da vista deslumbrante, aproveita-se toda uma imersão em metáforas mil e mergulha-se naquela zona densa, funda, encravada lá no interior da espinha. É um dos lugares mais incríveis para se comer quilômetros.

Antes de voltar para casa, fiz mais um bate-volta ao topo, fechando os 18km que tinha programado para o dia. E aí tomei o meu rumo.

Era hora se começar o dia.

Tapering? Testemos uma prova sem isso

Quem acompanha o blog sabe que nunca me dei muito bem com o tapering – aquela fase final de preparo para uma prova em que se diminui drasticamente o volume de treino para recuperar a musculatura. 

Em todas as vezes que tentei seguir o “livro de receitas” o resultado foi o mesmo: dores fantasma começaram a brotar pelo corpo com uma intensidade insana, atrapalhando as largadas mais do que qualquer cansaço. Isso sem contar com gripes, ansiedade e tudo mais. Histeria pura? Pode ser – mas que diferença faz ter um diagnóstico se o resultado não mudará? 

Em todos esses ajustes finais, o melhor modelo para mim foi fazer o inverso do que costuma ser pregado: diminuir o volume cerca de um mês antes e depois voltar a subir gradativamente, como se a prova fosse o pico do treino. 

Bom… Para a Indomit, talvez por não ser a prova alfa do meu calendário, o modelo será diferente. Na semana passada cheguei num pico de 81K, o máximo desde que voltei do Cruce, e nessa semana estou mantendo um ritmo fixo, firme, para não dar sinais ao corpo de qualquer tipo de diminuição. 

A ideia é largar nos 50K como se fosse um sábado qualquer – incluindo alguma fadiga muscular que espero que passe nos próximos dias com uma diminuição leve na carga e uma folguinha quase imperceptível estrategicamente inserida na planilha. 

Vamos ver que resultado isso trará. 

   

Niterói, dia 2: Caçando trilhas

Com a cidade devidamente desbravada, estava na hora de me embrenhar por alguma trilha mais próxima. 

Seguindo indicações de amigos, o plano era ir à Trilha do Costão, no Parque Estadual da Serra da Tiririca. Descoberta do dia: o Google Maps não entende muito de trilhas ou de entradas de parques. 

Infelizmente, a descoberta veio tarde. Segui pela estrada principal saindo de casa e entrei no sentido de uma serra imensa, ainda crente que estava no caminho certo. Mais tarde, descobriria que havia errado por uma entrada. 

Seguro que estava na rota, segui. Subi, subi e subi até um ponto chamado de Mirante de Itaipuaçu. Não nego: o lugar era absolutamente incrível, com uma praia de areia branca esparramada aos pés da serra iluminada pelo sol que, novamente, parecia anabolizado. 

Parei, tirei fotos e desci. Tudo, até a praia de Itaipuaçu. Foi lá que me toquei que algo estava errado: não havia nada perto de uma entrada para a Trilha do Costão. 

Bom… com quase 8km rodados e a volta inteira por vir, decidi retornar. Subi novamente a serra e, na boca do mirante, vi uma placa indicando a entrada de uma outra trilha, a do Elefante. Já tinha lido sobre ela: era maior, mais bonita e mais dura. 

Olhei para o relógio: já estava na hora de retornar. Olhei para a trilha: “puxa, como desistir de algo assim?”, me perguntei. 

Fiz um acordo comigo mesmo: aproveitaria um trecho dela, sem ir até o final, apenas para sentir aquele cheiro sensacional de mato. Subi como se não houvesse amanhã: rápido, leve, tranquilo. Pelos meus cálculos, devo ter feito 60% da trilha – e, pelo menos até ali, não achei nada muito técnico. 

Mas o tempo, infelizmente, costuma ter pouca misericórdia: já estava atrasado e seguir em frente certamente me traria problemas. 

Voltei. 

Desci a trilha feito uma bala: descidas assim, em singletracks leves dentro de uma mata fechada, são absolutamente sensacionais. 

Quando cheguei de volta ao mirante, virei à esquerda e desci mais asfalto, mantendo um ritmo apertado. No total, cheguei em casa com 18km rodados em pouco mais de 2 horas, muita felicidade estampada no rosto e a certeza de que farei a Trilha do Elefante inteira nos próximos dias!

   
    
   
   

Que venha a Indomit Costa Esmeralda 100K!

A esta altura, minha esperança de passar por um percurso seco, relativamente tranquilo e sem muitas intempéries, já se foi. Mesmo que não chova na madrugada do dia 6 para o dia 7, as tempestades das últimas semanas já se encarregaram de deixar o solo molhado o suficiente para garantir muita, muita lama.

Paciência.

Inaugurei minha primeira prova mais longa em trilhas na mesma região: foi a Indomit Bombinhas, com 42K, regada a chuva e a escorregões. Quando terminei, jurei a mim mesmo que jamais voltaria ao local.

O tempo passou, me adaptei mais às trilhas, perdi o medo. E, curiosamente, lá estarei eu para uma nova estreia: os primeiros 100K.

O que esperar? No mínimo, uma dificuldade técnica alta.

A largada será na madrugada, garantindo pelo menos umas 6 horas de escuridão. Comigo, além da óbvia mochila de hidratação, levarei uma lanterna testeira poderosa e poles para ajudar no equilíbrio e nas escaladas. Serão muitas: 3.088 metros acumulados, para ser exato. Pior: as maiores montanhas estarão justamente no começo, quando a luz inexistirá.

100k1

Não vou estimar pace algum aqui – mas ficaria muito feliz de chegar ao menos próximo do marco da maratona quando o sol começar a raiar. 4 ou 5 subidas, portanto, estarão para trás.

Ainda assim, não planejo acelerar nada: a meta é ir no ritmo que o corpo, os olhos e o equilíbrio permitirem, poupando energia física e mental para os últimos trechos.

A parte “boa” é que, por mais que seja uma prova dura, os trechos mais ásperos serão percorridos à noite, sem que os olhos possam assustar a cabeça devido à redução no campo de visão. É o ideal? Não sei – mas é o que se apresenta.

Pelo mapa, pelo menos, haverá alguns espaços longos de “calmaria técnica”: ruas, seja de asfalto ou de terra, onde a cabeça poderá descansar um pouco.

Aproveitemos também esses espaços.

Aliás, aproveitemos tudo.

Serão meus primeiros 100K e nada melhor do que começar em um lugar incrivelmente lindo, com um desafio forte e um potencial altíssimo de boas histórias para contar.

Minha expectativa de tempo? A julgar pelos tempos do ano passado, imagino que levarei algo entre 15 e 18 horas. Menos, difícil; mais, possível.

Seja como for, espero apenas uma coisa: que me divirta por cada um dos segundos que a Indomit durar!

Fazendo as pazes com a USP

Não era o plano original: hoje deveria ter ido ao Pico do Jaraguá. Mas acordei tarde e, por algum motivo, decidi ir até a USP. 

Estava ‘embirrado’ com a USP. Por algum motivo, provavelmente pelo excesso de longões rodados lá no passado, enjoei das voltas, das paisagens, do trânsito de bikes e corredores. De repente, tudo pareceu lotado demais para um sábado de manhã. 

E comecei a variar. Rodei parques novos, trilhas escondidas, bairros distantes. Amei cada parte dessas descobertas e provavelmente continuarei as tendo como meta todos os sábados. 

Mas, por algum motivo, decidi voltar à USP hoje. Fui guiado pelos pés: quando cruzei a ponte da Rebouças, ao invés de seguir pela esquerda até o Morumbi, virei à direita até o Butantã. E fui. 

Sob um garoa insistente, entrei nos portões da Cidade Universitária e percebi que, na verdade, o lugar continuava sendo uma espécie de oásis da corrida. Calmo, silencioso, arborizado. Fiz a rota normal uma vez, subindo a belíssima Rua do Matão. Aquele sempre foi o ponto mais bonito de toda a USP. 

Desci voando, completei o circuito e dei outra volta. Nesta, no entanto, peguei uma outra curva e aumentei a circunferência, passando por áreas mais desertas. Na descida, desviei de novo e, desta vez, desci a Rua do Matão pela primeira vez na vida. 

Entrei na trilha, úmida e escorregadia por conta do tempo. Dei uma volta. Saí. 

Peguei uma diagonal até a praça do monumento. Voei até a raia olímpica e fui margeando-a até a saída. 

Com e memória de uma espécie de redescoberta de um local tão importante na minha vida de corredor, segui até em casa fechando exatos 35km de longão. 

No final de uma corrida daquelas perfeitas, onde tudo parece se encaixar e com endorfina durando do primeiro ao último passo, uma sensação ficou: fiz as pazes com a USP. 

Que bom. 

  

Bertioga-Maresias: o que imagino encontrar

Antes de qualquer coisa: não tenho nenhuma dúvida de que qualquer ultra aqui no Brasil teria um peso fortíssimo se fosse tratada pelos organizadores de maneira mais profissional – ao menos na comunicação. Digo isso sem jamais ter corrida a Bertioga-Maresias e já fazendo a ressalva de que só ouvi elogios quanto à prova.

Mas puxa… qual o problema em usar o site para colocar altimetria detalhada, mapa e um acervo de vídeos minimamente bem produzidos? Outras provas na Europa, África ou EUA esbanjam qualidade nesse sentido e não tenho dúvidas de que isso faz toda a diferença para elas.

Mas enfim: chega de reclamações. Vamos à parte prática.

De acordo com os zilhões de relatos que cacei Web afora, devo encontrar um percurso relativamente plano – ao menos no começo. Essa imagem ilustra bem (apesar de ser desatualizada por conta de uma mudança no percurso desde 2012). Mas, contando com a possibilidade da mudança ter sido pequena, ei-la:

Percurso Altimetria Bertioga-Maresias 75K

Uma outra imagem, mais recente, dá alguns dados a mais:

percurso_percorrido

A parte mais tensa é no final, principalmente na subida da serra de Maresias. Será uma subida de 300 a 400 metros em algo como 2 ou 3 km depois de ter passado por bastante areia fofa. O fato disso ter ficado para o final é até bom: não seria uma ultra de respeito sem alguma pitada de sadismo :-)

Achei uma outra imagem, de outro corredor, que destaca justamente esta subida:

bertioga-maresias-altimetria

O site tem também uma relação de pontos de controle:

percursoInterno

Pois bem: hora de começar a aquecer os motores. Até lá, meu foco será misto entre uma manutenção de volumetria e alguns tiros para forçar velocidade.

Como meu foco principal é a Indomit 100K – esta prova é mais um longão de luxo – não devo fazer nenhum processo mais agressivo de “tapering” ou forçar muito a barra para bater o recorde galáctico. A ideia será apenas correr como se fosse um dia como outro qualquer – só que aroveitando a maravilhosa paisagem do litoral norte paulista.

Checkpoint: Morros?

Depois do calor e da falta absoluta de morros, a volta para Sampa fez bem. Não que não curta o sol, claro – mas aquela umidade do sul americano estava realmente dando nos nervos. 

Só que uma coisa curiosa aconteceu: o cansaço bateu inesperadamente mais forte a cada subida de morro que fiz desde o meu retorno. Sim, foi só uma semana correndo no plano absoluto – mas parece que esse tempo foi o suficiente para deixar o corpo mal acostumado. 

Fugi um pouco da rota tradicional e, no sábado, fiz o meu longão indo e vindo até o Burle Marx, no Morumbi. São poucas as rotas com mais subidas do que lá, perfeito para colocar de novo o corpo em ordem. 

E coloquei – em que pese o cansaço esquisitíssimo que fiquei depois. Foram 3h30 de corrida, incluindo nelas duas voltas pelas trilhas dos parques Alfredo Volpi e Burle Marx. Ainda assim, somei mais 1h30 hoje, com uma volta pela trilha e outra pela pista do Ibira, além da ida e vinda até em casa. 

Ficou aquela sensação de missão cumprida com os 85km semanais batidos – mas também a nítida certeza que o corpo perde o seu ‘mojo’ com uma facilidade maior do que o que se espera. 

Ainda bem que deu para perceber isso a tempo. Resta agora acelerar essa ‘recuperação’ até meados de outubro, quando farei a Bertioga-Maresias fechando a fase de pico para o Indomit 100K. 

   
 

Não teve Cantareira – mas teve Jaraguá

Parece que o destino me quer longe do Cantareira: depois de nova programação – a sétima – a falta de carro me fez desistir.

Tudo bem: se não tem Cantareira, tem Pico do Jaraguá. E como pacer durante o treino de 80k da Zilma, em pleno pico de preparação para os 246km do Spartathlon. Claro: a ideia não era fazer os 80k com ela: apenas os primeiros 30, incluindo uma subida e descida no Pico e a volta correndo até a minha casa.

E só amanhecer no Pico, sob um céu azul claro ainda se livrando da tênue neblina e com aquele cheiro de orvalho dominando o ambiente, já vale. É um dos lugares mais belos de São Paulo – um dos poucos, por exemplo, em que se pode cruzar com bandos de macacos no meio da rua. 

A subida não é moleza, claro. Mas, se estiver bem preparado, também não é assassina. É só deixar a beleza ditar o pace e manter-se em trote contínuo até o topo, quando se pode encaixar a quinta marcha e descer mais solto que uma criança.

Já fui no Pico algumas vezes – mas essa foi a primeira em que voltei correndo. Valeu a pena.

O caminho corta um pedaço semi-rural no meio de São Paulo, se transforma em um bairro quase bucólico e, de repente, se abre nas regiões do City America e City Lapa. Ruas e avenidas amplas, absolutamente arborizadas, com praças bem cuidadas e tão diferente do que se está habituado e ver na urbe que, por um momento, se pensa estar em outro país.

Vantagens de uma cidade grande como Sampa: tem tanta coisaem tanto lugar que, de repente, você se pega descobrindo territórios que nem sonhava que existiam. 

Fizemos o percurso inteiro guiado pelo Google Maps, inserindo apenas uma ou outra pausa para hidratação. O ritmo foi leve – ao menos para mim, que não teria mais 50km pela frente depois do término. 

Mas foi também perfeito. Há dias em que se quer apenas passar um tempo na rua jogando papo para fora e botando quilômetros para dentro. Quando isso acontece por locais tão singulares quanto o entorno do Pico do Jaraguá, então, nada pode ser melhor.

Só espero que tenha sido um bom pacer!

   

 

50 deslumbrantes quilômetros por Atibaia

Já acordei ansioso, lá pelas 5 da manhã do domingo, e com tudo pronto para pegar a estrada. Tinha uma hora até Atibaia para os 50K e, honestamente não fazia ideia do que me esperava. 

A organizadora, a Corridas de Montanha, tem o mérito de garantir que o calendário tenha pelo menos uma prova de 50K todo mês – mas a organização pre-prova não é o seu forte. Mapa de percurso, informações sobre o quão técnico ele é, fotos… enfim, nada aparece para ajudar. 

Mas depois que participei da primeira prova deles, praticamente toda corrida em charcos e escalando morros absolutamente úmidos, aprendi a esperar de tudo. 

Técnica perfeita quando não se sabe nada.

Os primeiros quilômetros em Atibaia foram bem mansos: estradões de terra cortavam as montanhas e abriam caminho para vistas deslumbrantes. Muita subida e descida, claro – mas por trilhas leves, fluidas e deliciosas. 

Só em um trecho tive problemas, quando alguns cachorros grandes decidiram fechar o caminho e mostraram intuito de avançar. Com cautela, parei, dei alguns passos para trás e esperei um pouco até que eles desaparecessem para seguir. São coisas das trilhas para as quais sempre devemos estar preparados.

Fiz os primeiros 40km assim, de forma tranquila e relativamente rápida, caminhando pouco e correndo até na mais íngreme das subidas. Até que chegou a montanha.

Ali, nos km finais, a prova mudou.

Correr era impossível: uma single track bem técnica serpenteava a região da Pedra Grande inclusive por trechos em que se podia duvidar da existência de um caminho. As marcações de percurso ficaram escassas mesmo em bifurcações, um erro da organização reclamado por muitos. Errei.

Segui por uma trilha paralela por mais ou menos 1km, voltando apenas quando um outro corredor que já conhecia a região levantou a hipótese de estarmos perdidos.

Voltamos.

Tomamos o outro caminho.

Acertamos, muito embora as bandeiras que sinalizavam o percurso só fossem aparecer mais de 1km depois.

Houve trechos tão íngremes que tive que parar para recuperar o fôlego e deixar o coração bater mais devagar. Depois continuei.

Em um ou outro momento olhei em volta: a vista era simplesmente incrível!

Mas precisava, claro, seguir. E segui.

Uma subida ainda mais íngreme me esperava. 

Joguei fora um pedaço de pau que estava usando como pole improvisado: já não conseguiria mais utilizá-lo por ali.

Subi com mãos e pés, deixando um rastro de suor para trás.

No topo de uma pedra avistei a chegada, lá longe, onde paragliders e asas delta saltavam para o céu. A vista era inesquecível.

A partir dali tudo estava mais fácil.

Segui a trilha e caminhei pelas pedras, respirando o céu azul e vendo a cidade esparramada lá em baixo. 

Quando cheguei, foi hora de respirar fundo e ainda descobrir que tunha levado o 3º lugar por faixa etária! Uma bela surpresa – muito embora, claro, a pouquíssima quantidade de corredores na ultra certamente tivesse contribuído bastante.

Ainda assim, devo dizer que amei essa prova. Sim: a organização foi média e poderia ter melhorado em muitos aspectos, incluindo a quase inexistente hidratação e a marcação fraquíssima do trecho montanhoso. Mas isso é tudo detalhe.

Olhe as fotos, afinal. Dá para reclamar de algo assim?