Os 3 Ibirapueras

Por mais que eu goste de explorar lugares novos e sair por aí desbravando trilhas, urbanas ou não, é sempre bom ter um lugar para chamar de casa. E, aqui em Sampa, esse lugar é o Ibirapuera.

É o ponto principal de meus treinos durante a semana, seja nas primeiras horas da manhã, às noites ou, em alguns raros momentos, no intervalo do almoço. É onde me sinto mais à vontade por conhecer cada uma de suas travessas e cada esconderijo e, claro, onde posso variar por diferentes percursos.

O Ibira, na verdade, pode ser dividido em três.

Primeiro, há a tradicional pista no interior do parque, totalizando 3km e que costuma ficar coalhada de corredores nos horários de pico ou finais de semana. Quer treinar velocidade? É perfeito. Desde que se tenha cuidado com ciclistas que, volta e meia, voam cortando caminho.

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A pista não é o meu lugar preferido. A trilha é.

Ela vai mais discreta, logo dentro da grade, e soma cerca de 5km entre zigues e zagues. Não é uma trilha técnica, obviamente: salve uma ou outra ladeirinha, o Ibira é relativamente plano. Mas, ainda assim, é uma trilha: tem pontos com lamas, árvores caídas servindo de obstáculos em alguns pontos, cheiros de floresta, silêncio e muito, muito menos corredores. Dá para sair muito mais livre, sentindo a corrida como ela realmente deve ser.

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Finalmente, há o percurso fora do parque, margeando a grade pela calçada. Tecnicamente, a distância não é muito diferente da trilha – mas há mais asfalto e, dependendo do ponto (principalmente na IV Centenário), ainda mais isolamento. A corrida por fora é uma espécie de mescla dos dois mundos: tem o asfalto do circuito e a distância da trilha, com trechos cheios (nos arredores dos pontos de ônibus) e vazios (nas zonas mais residenciais). E, claro, há iluminação – algo que falta na trilha por um motivo óbvio: é uma trilha.

Dia desses decidi fazer os três percursos no mesmo treino. Variar, afinal, faz bem – mesmo quando se está no percurso mais repetido de todos. Quer saber? Gerou uma sensação de “patrulha em torno da própria casa” quase inédita, como se eu estivesse oficialmente conferindo as “condições” do Ibira. Senso de propriedade é bom, faz bem – principalmente quando se está falando de um lugar tão importante para mim (e para tantos corredores paulistanos).

Fora isso, há ainda as surpresas que o parque prepara por ficar no coração de Sampa, como a iluminação incrível de Natal, os shows com as águas, os concertos que emanam música clássica cortando qualquer headphone aos domingos etc.

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Tem como não amar esse parque?

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Que tal mapear a cidade por zonas de corrida?

Férias tem uma consequência imediata: o ócio criativo. Verdade seja dita, estou de férias há apenas algumas horas – mas correr em plena quarta sem ter que voar para a agência em seguida faz a mente viajar um pouco. Instantaneamente.

Hoje, viajei por um possível projeto novo. Que tal organizar uma área aqui no blog com as trilhas urbanas e parques perfeitos para corrida em São Paulo? Aparentemente, há interesse: os posts sobre Horto, Parque do Carmo, Ipiranga, centro etc. tem sido bastante acessados, o que indica também uma espécie de vontade dos corredores paulistanos de sair da rotina, do cotidiano. Para corredores de fora que estiverem visitando Sampa, por sua vez, pode ser um bom conjunto de dicas para sair do óbvio.

E, como sair cortando a cidade de ponta a ponta tem sido algo maravilhoso, seria um projeto perfeito para levar adiante.

Pois bem… 2014 encerra-se assim com algo diferente: um mapeamento de lugares perfeitos – ao menos na minha opinião – para se correr nessa metrópole tão caoticamente gigante quanto incrível.

Começarei por organizar as páginas, ao mesmo estilo da Ultra Estrada Real, e por estruturar melhor os posts que fiz. De pouco em pouco, vou montando aqui um banco de zonas de corrida para todos os gostos – o que também me ajudará bastante a caçar novos e impensáveis locais, além dos parques tradicionais e escondidos no meio do cinza paulistano.

Ao menos por hora, parece uma boa ideia. Vamos ver na prática!

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Trilha Urbana: Pelo Horto

O incrível de cidades grandes como São Paulo é que elas nunca param de surpreender.

Hoje, meu plano era ir ao Parque da Cantareira e fazer 3 horas de trilhas por lá, desbravando matas e absorvendo vistas. Não deu: assim que saí do carro fui informado de que, por conta da garoa que insistia em cair, o parque não abriria hoje.

Plano B: Horto Florestal.

Não conhecia o Horto mas sabia que ficava a cerca de 500 metros da Cantareira. Fui até lá e entrei.

Primeira impressão: o lugar é lindo. Verde, cheio de sons vindo do céu e de dentro da mata e extremamente bem cuidado. A segunda impressão veio quando olhei o mapinha do local: cada volta tinha menos de 3km! Para completar as 3 horas seria necessário dar tantas voltas que, provavelmente, acabaria tonto!

E essa é a parte que a cidade surpreende. Decidi ignorar o traçado e sair guiado apenas pelos pés. No começo, até segui o percurso demarcado – mas por menos de 5 minutos. Avistei algumas entradas escondidas: entrei.

Descobri trilhas escondidas – algumas, confesso, parte do vizinho Parque da Cantareira desvendadas por fendas em trechos das grades o separa do Horto. Fui assim mesmo, embora com mais cautela.

O único problema é que nenhuma das pequenas trilhas tinha qualquer tipo de demarcação – algo meio complicado para quem tem un senso de localização tão ruim quanto o meu.

Mas, ainda assim, elas eram pequenas e fáceis de encarar.

Na saída, decidi sair do Horto e dar voltas por fora, pela região. Ideia ótima para somar quilômetros e que acabou sendo repetida mais uma vez, mas que deixou saudade da mata. Cheguei até a esticar um pouco pela Estrada de Santa Inês, rumo ao Velhão, mas desisti depois que o acostamento desapareceu e o perigo aumentou. Não estava lá para isso.

Resumo: correr no Horto foi como descobrir uma mini selva dentro de São Paulo – e aproveitá-la ao extremo.

Amei o lugar – mas, na semana que vem, espero que o tempo colabore para que eu possa descobrir a Cantareira!

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Checkpoint semanal: 80K com explorações pela cidade

Na semana retrasada eu combinei comigo mesmo que me dedicaria mais a treinos de velocidade do que a passar longas horas na rua, o que estava nitidamente comprometendo meu pace. E não pretendo descumprir isso, claro – mas minha planilha para essa semana, ironicamente, estava inteiramente tomada por longões.

Verdade seja dita, terça, quarta e quinta continham intervalados e tempo runs que foram devidamente cumpridos. O da quarta, que tinha dois tempos de 20 e 30 minutos cada em meio a duas horas de corrida, foi especialmente perfeito por mesclar objetivo com prazer.

Na quinta, porrada pura que me exauriu por completo… até o sábado.

Ontem foi dia de desbravar São Paulo e o percurso pelo Jardim Botânico foi inspirador. Devo confessar que essa onda de marcar um ponto relevante diferente da cidade toda semana e inserir o longão em torno dele está mudando a forma com que treino. Sim: a pausas para fotos que decididamente comprometem os meus indicadores; mas, por outro lado, isso traz um ar de exploração inerente a esse esporte que, até então, eu achava impossível de encontrar em percursos urbanos.

Ainda não vi as planilhas da semana que vem mas tenho duas certezas: elas provavelmente serão mais intensas e menos extensas e conterão algum lugar novo, ainda a ser definido, que me aguarda aqui em Sampa.

Até lá, hora de descansar desses 80K que rodei desde a terça – algo que, independentemente de qualquer planilha, estava já com saudades de fazer.

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Finalmente de volta ao ritmo!

Ufa! Depois de uma “semi-depressão” doída por conta do overtraining e do estresse de um fim de ano no mínimo tenso, depois de uma corrida de segunda libertadora e de um longão feito hoje, domingo, incluindo um percurso diferente pelo centro de Sampa, estou finalmente me sentindo inteiro de novo!

E a maior prova talvez seja justamente o acúmulo de tempo, quilômetros e altimetria nas ruas. Nada que se assemelhe a um corredor de elite ou mesmo aos meus próprios marcos em tempos de picos de treino, obviamente – mas, na corrida, peculiaridades individuais se somam a momentos e contextos para desenhar o que é, de fato, um desafio.

O dessa semana foi fechar essa fase ruim pela qual estou passando com algo além dos 60km. Deu certo: cheguei aos 65km extremamente bem.

Meta cumprida com cérebro, motivação e inspiração devidamente oxigenados.

Aliás, eu arriscaria dizer que o “adeus” dado ao overtraining veio com um alívio tão grande que, até agora, a endorfina parece caminhar pelas veias soltando picos de bom humor por todo canto do corpo.

Perfeito.

Hora de aproveitar e de seguir adiante. Semana que vem, afinal, tem mais ruas e trilhas a serem corridas. Ainda bem!

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Hora de voltar para as trilhas

No último mês, saí das trilhas e me foquei no asfalto. A meta: me qualificar para Comrades, onde devo voltar em 2015 em busca da back-to-back medal.

Não vou dizer que fiquei satisfeito: fiz uma maratona de SP difícil, sob um calor escorchante e que me quebrou miseravelmente, levando meu tempo para sofríveis 4h15.

Mas me qualifiquei, mesmo que em uma baia diferente da que pretendia. Hora de virar a página.

E a Maratona de São Paulo, aliás, é perfeita para isso. Sem atrativos no percurso, boa parte do tempo na Marginal, em túneis ou sobre pontes, ela marca bastante as diferenças entre trilhas e asfalto.

E dá saudade das trilhas.

Agora, no entanto, é hora de retornar a elas. Ainda não sei qual a minha próxima prova, mas estou inclinado a me inscrever em uma ultra de 50K lá em São Bento do Sapucaí no final de novembro.

Seja qual for, a sensação de estar de volta ao tipo de percurso que eu realmente gosto é muito, muito boa!

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A hora perfeita para se correr em Sampa

Há um horário perfeito para sair para longões durante a semana – um horário em que se consegue testemunhar tantas fases do mesmo dia que parece que você ficou fora por praticamente todo ele. 

Ontem tinha um longo mais tenso programado, com duas horas em gás total, e acabei saindo às 6:30. 

Apesar de não ser, exatamente, madrugada, as ruas ainda estavam vazias e começando a acordar. Nem as velhinhas que costumam passear com seus cachorros logo cedo estão à vista a essa hora: apenas alguns motoristas fugindo do rodízio, operários entrando nas obras e, claro, corredores rumando silenciosa e ritmadamente até o parque. 

Assim começa uma terça qualquer em Sampa.

Uma vez no parque, pode-se testemunhar a mudança na população com o passar das horas. Os primeiros corredores, mais sérios e rápidos, começam a sair pelos portões e cruzar com os mais casuais. Nos semblantes, saem preocupações com pace e entram preocupações com saúde. 

Bikes começam a aparecer, ainda tímidas. Um ou outro casal aparece caminhando junto. 

Do lado de fora, o silêncio quase absoluto cede espaço a buzinas e freios de ônibus. O céu azul, que até então reinava sozinho sobre a paisagem, agora vira coadjuvante do barulho típico de qualquer grande urbe. 

É hora da pressa. 

O sol, irritado com o barulho, começa a queimar. Ignora que é inverno e simplesmente brilha, afastando toda e qualquer nuvem. 

Algumas horas depois, os corredores casuais também já seguem seus rumos e deixam o parque para estudantes secundaristas que, aparentemente, tentam ignorar as aulas. Sem tantas passadas e com alguns beijos escondidos, o parque fica mais só. Mais sigiloso. Escondido. Esquecido. 

Os carros abarrotados no tráfego transformam a saída em uma espécie de desafio: há que se esgueirar por ônibus, observar motos que cismam em ignorar faixas de pedestres e tapar os ouvidos para gritos de motoristas enraivados que se acham donos da cidade. 

Sampa está a toda. 

A mente já começa a se desconectar do asfalto: pouco a pouco, as tarefas do dia começam a se desenhar. Decisões a serem tomadas, reuniões a serem enfrentadas, prazos a serem cumpridos. Não há nada de zen no final da corrida: há a mais pura rotina de uma cidade grande. 

Entre um e outro passo, entre um e outro compromisso mental, imagens da família que ficou dormindo e que, agora, já estava dividida entre trabalho e escola. 

Hora de trocar de roupa e virar um daqueles motoristas atrasados. 

Há tanta vida inserida em duas horas de corrida que fica difícil não se apaixonar por cada segundo passado aqui, nesta incrível cidade tão cheia de contrastes. 

Assim como é difícil não torcer para que o dia transcorra e termine de maneira tão intensa quanto ele começou. 

Sampa é incrível.

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Treinando no Pico do Jaraguá

Sensacional.

Não há outra palavra para descrever o treino de hoje no Pico do Jaraguá, sugerido pelo Leandro Carvalho quando nos conhecemos lá na Comrades.

Ou talvez haja, muito embora seja uma palavra inventada: “humildecente”.

Cheguei cedo no parque onde fica o ponto mais alto de Sampa, tendo inclusive que aguardar alguns minutos para que ele abrisse. Cancela liberada, fui de carro até o topo, ainda inseguro de onde parar.

A partir daí, tudo foi novidade. Comecei pela Trilha do Pai Zé, que serpenteia o morro até a sua base passando por caminhos deslumbrantes. Descida relativamente rápida, subida mais técnica e íngreme. Tudo o que eu precisava para me sentir mais à vontade com o próprio conceito de trail run.

Do topo à base e da base ao topo foram cerca de 5km. De volta ao pico, decidi fazer mais um bate volta – só que pela estrada normal, mais longa e “corrível”. Descer foi fácil: 4,5km de pura leveza e cenários que incluíam belas encostas, feixes de luz do sol entre árvores e vistas incríveis da urbe que parecia muito, muito distante.

A subida foi mais complicada. Longa. Não parecia tão íngreme ou interminável antes, mas era. Lembrava Comrades.

Troquei o passo algumas vezes, caminhei um pouco, voltei a correr e cheguei ao topo. Olhei para o relógio: já estava quase fechando duas horas – mas tinha feito apenas 14,5km.

Essa foi a parte “humildecente”: a terceira volta que planejei dar antes de sair de casa ficaria para uma outra oportunidade. Hoje tem jogo do Brasil, afinal, e chegar tarde em casa não estava nos planos.

O resumo do primeiro treino no Jaraguá foi assim: 14,5km de vistas incríveis e 830m de ganho altimétrico acumulado, uma introdução de verdade às trilhas e uma pitada de frustração por não ter conseguido terminar o percurso que desenhei originalmente.

Mas, ainda assim, a experiência como um todo foi tão sensacional que dificilmente conseguirei tirar o sorriso do rosto nas próximas horas!

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