Sábado na USP

Quem não é de São Paulo provavelmente terá dificuldades em entender o que significa a USP para corredores. 

Sempre fui apaixonado por esta cidade mas, verdade seja dita, encontrar uma natureza pardisíaca para se correr aqui não é tarefa fácil. Sim: há o Pico do Jaraguá e o Cantereira – mas eles são distantes, fora de mão quando se busca um treino mais fácil. 

Há o Ibirapuera, sem dúvidas – mas este acaba sendo cotidiano demais quando se pega o hábito de corrê-lo em 3 dias úteis por semana. Há a cidade em si? Claro: cruzar o centro velho é sempre um prazer para mim – mas às vezes queremos aquele tipo de paz que apenas passos cruzando o verde proporciona. 

É aí que entra a USP. 

Aos sábados, ela costuma ficar tomada de corredores e ciclistas como se fosse uma prova de rua, com todos querendo aproveitar o seu espaço verde, bem cuidado e quase vazio de vida urbana. Seu entorno abre diversos percursos: três grandes e um com uma pequena trilha fechada que nos dá a sensação de ter entrado no meio de uma floresta virgem. 

Em dias chuvosos, então, tudo fica ainda melhor. Além de respirar esporte como em todo sábado, o movimento fica suavemente mais leve e se consegue cruzar seus bosques e ladeiras sentindo na pele a umidade fria da capital paulista, clima responsável, em última instância, para que a cidade tivesse sido fundada aqui. 

Tinha uma maratona para rodar no sábado passado e fui para lá. Além do caminho de e para casa, foram necessárias 3 voltas. Alternei o percurso nelas e, por todo o tempo, corri com o fone desligado apenas escutando a mata. Ali, no meio da cidade, dava para ouvir apenas sons de pássaros, plantas chacoalhando ao vento e eventuais passadas de corredores. 

Dava para sentir o cheiro da umidade, para sentir o clima provocar uma mescla de suor com frio arrepiando os braços.

Dava para estufar o pulmão e deixar nas ruas todo o estresse que cisma em grudar em nossos peitos em tempos difíceis. 

Dava para correr com uma leveza bem próxima à perfeição.

Não vou à USP com tanta frequência assim: na maior parte das vezes acabo cavando percursos inéditos ou cantos mais isolados da cidadade. Tudo depende sempre do estado de espírito no sábado pela manhã. 

É sempre bom, no entanto, saber que ela estará lá, à espera, sempre que precisar. E que imagens como essas abaixo, que instagramei no meio do treino, estarão sempre ao alcance.

 

Sábado

Não deu para acordar no sábado de manhã. Foi simples assim: a cama foi mais forte que o tênis. 

Mas era um sábado diferente: na prática, o ano já estava terminado. Era um sábado que teria cara de sábado mesmo no domingo, na segunda, na terça. Era um sábado de encerramenta de ano, de ciclo, de Tempo. 

Não correr seria algo quase criminoso. 

E, então, saí mais tarde. Bem mais tarde, por volta das 5, sob uma garoa fina que cobriu São Paulo. Não fui para nenhum parque: me embrenhei pela Barra Funda, perto do centro da cidade. 

Aproveitei aquela luz de fim de tarde nublado, com os postes começando a se acender, para quase flutuar pela ciclovia da Sumaré e pelo Parque da Água Branca. O melhor veio depois: fazer o Minhocão. Quando cheguei lá a noite estava quase se apossando do céu: a garoa ainda insistia em riscar o asfalto, as luzes do trânsito mostravam um quê de impaciência generalizada e, no ouvido, um rock leve, liso, embalava os passos. 

Quando saí do Minhocão peguei a Consolação ainda cheia, mas já começando a dar o dia por encerrado. Tangenciei o Cemitério, cruzei a Paulista. As pistas já estavam tomadas por happy hours de sábado, por sons de brindes e risos cortantes. 

O ano já estava terminado para muitos – possivelmente há algum tempo. 

Para mim, no entanto, só naquele sábado é que as peças efetivamente se encaixaram. 

  
 

Sábado endorfinado

Dia de longão esperado. Depois de uma semana tensa, com gerenciamento simultâneo de 2 crises e algumas noites sem dormir, tudo se resolveu perfeitamente na sexta. 

E correr no sábado de manhã nessas condições, com endorfina pre-liberada pelo alívio, é perfeito. 

Fui até o Morumbi, via Parque Alfredo Volpi e com destino às trilhas escondidas atrás do Parque Burle Marx. 

Não lembrava que havia tanta ladeira pelo trajeto, mas elas fizeram bem. Acordaram músculos que estavam adormecidos, posicionaram obstáculos mais interessantes e fizeram suor ser liberado de maneira mais solta.

Nem escutei podcasts ou audiobooks: fui direto em playlists de Rock no Spotify e saí acelerando e sorrindo sozinho. 

Ajudou também o fato do percurso – ignorado por muitos paulistanos – ser belíssimo. Em um sábado ensolarado pela manhã, as ruas arborizadas e desertas do Morumbi são incríveis. Os parques, tanto o Volpi quanto o Burle Marx, são muito bem cuidados e com trilhas que mais parecem ter saído de um conto de fadas, com bosques, lagos e retões convidativos.

Até levei mais tempo que havia planejado – mas quase sem sentir.

No final das contas, rodei 29km cheio de subidas, com trilhas e ruas, sob um céu impressionantemente azul e carregado de endorfina do primeiro ao último minuto.

Difícil imaginar uma maneira melhor de começar um sábado.

  

Ritmo errado

Depois de dois dias de descanso total para me recuperar de algumas estranhas dores pelo corpo, chegou o sábado.

4 horas de treino previstas em um local mais “fácil”, com menos ladeiras e trânsito praticamente inexistente: a USP, meca dos corredores de rua aqui em Sampa.

Saí às 8 em ponto – talvez um pouco tarde dado o calor senegalês que se abateu sobre a cidade neste final de verão.

Talvez, não: com certeza.

Os primeiros quilômetros em direção à Marginal, ainda em um pace relativamente firme no sub-6′, já alertaram para as dificuldades. Clima desérticamente seco, termômetros subindo sem parar e um céu com pouquíssimas núvens guiaram o meu caminho de pouco mais de 8km até a Cidade Universitária.

Lá dentro, acompanhado pelas hordas de corredores e ciclistas que vivem nas ruas da USP, a ideia era dar 3 voltas (também com cerca de 8km cada) e retornar. Ou seja: faria, assim, algo como 40km no longão.

Faria.

Lá pelo quilômetro 15, o abdômen voltou a incomodar mais do que deveria e a cabeça, a pesar com o sol.

Diminuí o ritmo, comecei a intercalar com um pouco de caminhada e, por um tempo, tudo melhorou um pouco.

Foi só encarar o retão próximo à Raia Olímpica, no entanto, que todas as dores voltaram. Correr passou a ser algo menos natural, mais difícil. Desacelerei.

Entrei na trilha, já consciente de que cortaria a terceira volta, para mudar de ares. Trilhas são sempre um bom remédio.

Sob a sombra das suas árvores, melhorei um pouco e encarei a segunda subida do Matão.

Não deu: andei por parte dela. Voltei a correr.

Na descida até o portão voltei a acelerar, fazendo pouco mais de 1km em ritmo de Usain Bolt. Fui bem, estranhamente confortável.

Quando cheguei no plano novamente, troquei de marcha e decidi me encaixar em um pace mais leve e compatível com o estado do corpo.

Quer saber? Funcionou maravilhosamente bem.

Como saí de casa em jejum (algo que sempre faço, aliás), parei em um boteco a uns 5km de casa e tomei uma Coca. Açúcar cairia bem naquele ponto.

De lá em diante, não posso dizer que tive uma corrida perfeita: o estrago, afinal, já havia sido feito.

Mas consegui correr relativamente bem, fechando quase 32km em 3h30.

O longão de hoje não foi exatamente algo incrível – mas me ensinou uma lição importante: ritmo bom é aquele que nos permite chegar no melhor estado possível à nossa meta.

Parece óbvio, claro: mas, no calor dos treinos e na ansiedade de se superar marcos pessoais, isso acaba se perdendo no esquecimento.

Se tivesse sido mais conservador já no início eu certamente não teria quebrado como quebrei no longão. Tudo bem: que a memória do erro sirva de combustível para o próximo.

Mas há, ainda, algo a mais que também não posso ignorar: há algo de errado com o meu estômago, que tem estado em uma espécie de constante estado de dilatação e doendo mais do que deveria. Nutrição, talvez?

Não sei a causa exata – mas certamente é algo que merece ser observado mais de perto nos próximos dias.

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O sábado que fecha um capítulo (e abre outro)

Faz tempo que não descanso em um sábado. Normalmente não curto isso: é um dia inteiro que considero perdido não apenas sob o aspecto do treino, mas (talvez principalmente) pelo bem que ele me faz ao proporcionar horas perdido nos próprios pensamentos e por caminhos diferentes da cidade.

Mas hoje, verdade seja dita, a realidade é outra.

Hoje estou encarando esse descanso mais como uma espécie de marco de diferentes fases de treino. Quando se coloca uma quebra mais brusca, mais radical, na rotina, se informa também ao corpo que algo está prestes a mudar – e essa informação acaba sendo vital para que ele se prepare melhor.

Hoje é como aquele momento de plena calma antes de alguma tempestade, com aqueles instantes mais elétricos em que tudo está prestes a acontecer – mas nada efetivamente acontece.

Hoje é o dia que marca o fim de um capítulo e o início de um outro, mais voltado para ganho de velocidade sem perda de endurance. Há duas ultras pela frente, afinal, e ambas ainda no primeiro semestre.

Hoje é hora de dizer ao corpo e à mente que está na hora dos dois ficarem mais sérios.

Começando por amanhã.

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