Green Number na Comrades?

Eu participo de um grupo no Whats com os corredores que vão para Comrades. Participo desde o começo, aliás, em grande parte por conta do www.rumoacomrades.com, que inaugurou toda a minha jornada tanto pelo mundo das ultras quanto pela blogosfera como um todo.

Quando cruzei a linha de chegada em Pietermaritzburg no ano passado, recebendo a medalha back-to-back, fiz um último post lá no blog dizendo que aquela seria a minha última Comrades. Fazia sentido: já havia percorrido os dois sentidos, vivenciado a experiência da prova e estava pronto para novos desafios. Fazer mais 8 edições até conquistar o Green Number era algo que não fazia sentido para mim.

Até que o calendário correu e comecei a ver tantos amigos animados e cozinhando as suas ansiedades para ir à África.

Aí bateu saudade do Shosholoza, do clima de Durban, daquele país inacreditável que é a África do Sul, da profusão de idiomas que cortam os ares, das tradições, do oceano Índico.

Aí entendi a mágica por trás do Green Number.

Já não sei mais se deixei a minha última Comrades em 2015.

Talvez já esteja tarde para 2016 mas, a essa altura, confesso que o prospecto de eu me organizar para correr atrás do Green Number é grande. Muito grande.

cool-cropped-it-will-define-you

A lição do menosprezo

Eis uma lição que aprendi na Indomit São Bento do Sapucaí: menosprezar provas faz mal. 

Quando me inscrevi, a ideia era apenas ter uma espécie de treino de luxo, uma etapa relativamente simples no caminho até os 140km dos sertões mineiros em agosto. 

A semana que me levou até os 50K não teve nenhum milímetro de diminuição de ritmo ou volume – foi uma semana normal, por assim dizer. 

Ignorei a altimetria acumulada de 3,450m: o máximo de subida que treinei ficou no Cruce, lá no distante mês de fevereiro. 

Quando cheguei em São Bento não sabia direito sequer o horário da largada de tão despreparado que estava. O resultado foi óbvio: penei muito mais do que deveria ter penado. 

Cheguei até o final, é verdade: mas certamente poderia ter feito o mesmo em um estado menos cadavérico. 

Prova é prova – mesmo que seja parte de um treinamento. E uma prova da Indomit carrega no sobrenome a certeza de desafios que estão longe de serem meras brincadeiras. 

O que dizer agora? Lição aprendida!

  

Indomit São Paulo Ultra Trail: Relato da prova

Tenho para mim que poucos lugares no Brasil são tão maravilhosos quanto a Serra da Mantiqueira. Seu verde clorofilático, suas montanhas, a majestosa Pedra do Baú e as pequenas cidades que polvilham a paisagem, encrustrando-se entre os vales, se somam em um cenário ímpar, inesquecível.

Foi por isso que me inscrevi na Indomit São Paulo. Por isso, claro, e pelos 3 pontos que cruzar a linha de chegada me daria para a UTMB.

Cruzei a largada já encantado com a paisagem de São Bento do Sapucaí – principalmente quando começamos s subir e deixamos a névoa que encobria a manhã para baixo.

Tudo era tão bonito que difícil foi não parar para tirar fotos e simplesmente respirar a Mantiqueira.

Pelo menos até determinado ponto.

Em algum momento lá pelo km 15, comecei a ouvir muitas preocupações quanto ao tempo de corte no km40 ena prova em si. Olhei pra o relógio e para cima.

Nas outras Indomit que participei, o terreno encharcado transformou as tantas trilhas técnicas em um pesadelo. Nessa, praticamente não havia trilhas técnicas e tudo estava relativamente seco – mas as dificuldades foram outras.

O calor, por exemplo, batia facilmente os 35, 37 graus. E isso não era nada perto da altimetria insana: os 3.500 metros de subida em 50K eram crueis. Árduos, áridos, gerando cenas com direito a corredores encostados em algum paredão vomitando seus estômagos para tentar manter guardadas as almas.

Em um determinado ponto, o coração disparava incerto, remexendo as entranhas inteiras. Onde achava sombra, parava para respirar e descansar uns minutos. Mas não muito: pela primeira vez na vida me senti pressionado por um cut-off e sabia que fotos e descansos deveriam ficar para uma outra prova.

Nesses momentos de cansaço extremo uma outra dificuldade se abateu: a falta de água. A temperatura engolia as mochilas de hidratação com uma sede insana, quebrando sem dó o planejamento da organização. Pelo menos 3 ou 4 dos 10 postos estavam secos quando eu passei, forçando os corredores a seguirem em frente bebendo apenas a força de vontade. Um deles foi especialmente marcante: o do corte no km40, depois de uma interminável subida. Passando por ele, um grupo de 5 ou 6 corredores estavam sentados no meio do estradão perguntando a quem passava se eles tinham água para compartilhar.

Eu ainda tinha alguns goles e, assim, fomos dividindo a sede por uns 3 ou 4km (de mais subida sob o sol, claro).

Os meros 15 minutos de folga com que eu tinha passado no corte do km40 foram evaporados pela força do sol e da altimetria. Àquela altura, muitos corredores haviam ficado no corte ou desistido e eu já duvidava se conseguiria chegar antes das 10h de prova – principalmente depois que me deparei com um trilha estilo vala, onde correr era impossível. Fui lento, tentando recuperar um pouco o organismo remexido e aproveitando cada milímetro de sombra e descida. 

Funcionou: depois de uns 3km, estava inteiro. O tempo, no entanto, já era inimigo.

Corri o quanto pude, usei os poles para forçar velocidade nas subidas, parei o mínimo possível. 

Quando cruzei a linha de chegada já havia estourado o tempo: 10h11m31s. 

Ainda assim, alguma compaixão deve ter acometido os organizadores que me deixaram cruzar, penduraram a medalha no meu peito e me entregaram a camiseta de Finisher. Se esses 11 minutos me tirarão os 3 pontos para Mont Blanc ainda não sei – mas espero que não.

Descobrirei no futuro próximo.

O balanço da prova? Linda como poucas, dura como menos ainda, com algumas falhas da organização mas, ainda assim, altamente recomendável. Altamente.

Com ou sem pontos, mesmo com o cansaço e os miseráveis 11 minutos e 31 segundos, testemunhar esse percurso foi, por si só, algo inesquecível.

Tão inesquecível que, embora ainda com as dores do dia seguinte, já ouso dizer que são grandes as possibilidades de eu voltar no ano que vem.

(Só espero que eles aumentem esse tempo de corte para que pelo menos possamos parar em alguns pontos para aproveitar a paisagem, esse sim o ponto mais alto da prova!)

   
    
 

A bênção de uma linha de largada próxima

Ansiedade, expectativa, preparação. 

Quando uma prova se aproxima, qualquer que seja ela, é difícil não ter essas três palavras como parte do cotidiano dos dias que antecedem a trilha. E são palavras desejadas, aguardadas com aquele tipo de vontade que só se entende quando a linha de largada está próxima.

Basta olhar o calendário e enxergar uma viagem e pronto: o corpo já fica ouriçado. Problemas cotidianos? Todos parecem sumir como que a passe de mágica, encobertos pela espessa neblina da expectativa. Sim: ainda há alguns dias a serem vencidos até que pegue o carro e dirija até São Bento do Sapucaí; ainda há projetos, planos, apresentações e toda aquela gama de afazeres típicos da vida na selva profissional paulistana. 

Mas… quem se importa? O que são essas pequenas tarefas quando se tem 50km pela Serra da Mantiqueira logo ali? 

Eu deveria programar mais provas no meu calendário: o efeito que elas tem nos níveis de empolgação são simplesmente únicos. 

  

Hora de ficar sério

Pois é. Treinar para 140K no sertão certamente não é algo que se consiga resolver com meia dúzia de trotinhos no parque.

Hora de ficar sério: montei um cronograma intenso, tomando como base este post aqui com uma planilha focada em 100 milhas.

Apliquei apenas algumas diferenças:

O pico, para mim, será de 115km – por algumas semanas seguidas, diga-se de passagem. Na planilha original, esse mesmo pico é de 124km.

Apesar de uma concentração grande de longões aos sábados – só de 50Ks serão 4 sessões de hoje a agosto, além de 7 maratonas – os dias úteis estão relativamente leves. Relativamente, reforço: por muito tempo, terei pelo menos uma meia por terça.

Claro: há tempo daqui até agosto. Até lá, teremos um provável impeachment no governo, uma Olimpíada, um sufoco danado com a crise e talvez uma ou outra prova ainda não programada. Isso sem contar que, entre junho e julho, me mudarei de casa.

E por que digo isso? Porque todas essas coisas influenciam bastante no ritmo do trabalho e, consequentemente, na energia disponível para completar essa planilha. Ainda assim, uma coisa é certa: sem ela eu dificilmente conseguirei funcionar.

Veremos agora com ela – que inclusive pode ser acompanhada, em tempo real, clicando aqui (ou na figura abaixo).

Os sertões do Rosa que me aguardem!

Captura de Tela 2016-03-20 às 19.51.24

Na normalidade

Com a única ressalva de estar sendo difícil acordar às 5 para correr – o que tem inserido alguns finais de tarde no parque como rotina – tudo parece estar perfeitamente normal. 

Já não era sem tempo.

Agora é apertar gradativamente o treino: dia 2, afinal, tem Indomit lá em São Bento do Sapucaí!

  

El Cruce: Dia 3

Escrito já do conforto do hotel em San Martin de Los Andes, depois de um bom banho, na tarde de 14/02/2016

Difícil saber por onde começar a descrever este que, com absoluta certeza, foi o dia mais incrível de toda essa jornada pelos Andes. 

Primeiro, houve o frio. Acordar às 5:30 da manhã tremendo dentro da barraca certamente não foi uma sensação agradável, algo compartilhado por todos. O frio e o vento, aliás, foram tão intensos que o horário de largada chegou a ser adiado por alguns minutos. Poucos, ainda bem. 

Quando largamos, devidamente paramentados, já encaramos 5km de uma subida muito, muito intensa. Não que ela fosse técnica: o grau de dificuldade das trilhas por essas bandas é muito mais leve do que as do Brasil. Mas foi longa, nos fazendo cortar florestas e testemunhar, quase que a cada passo, mudanças na vegetação. 

Em 5 quilômetros, no entanto, estávamos já de frente para a primeira meta: o cume do Milito, ponto mais alto de todo o Cruce com quase 2 mil metros. Lá cima estava frio, com uma ventania típica da montanha e uma vista panorâmica absolutamente inesquecível. Cansaço? Sim, claro – mas ele ficou esquecido, relegado a algum canto escuro da mente enquanto os olhos teimavam em acreditar no que estavam testemunhando. Estava ali, depois de 2 dias correndo e acampando pelos Andes, efetivamente de pé sobre um cume belíssimo! 

Pausa para foto – rápida, já que o frio mal deixava os dedos obedecerem – e era hora de descer. Não muito: um segundo cume se aproximava, menor que Milito mas, ainda assim, incrível. Diferente, aliás: todos os cumes que subimos foram diferentes em tudo, dos arredores à própria vegetação. Esse segundo, por exemplo, era praticamente formado de pedregulhos soltos e esparramados por uma vegetação queimada, quase inexistente. Mais vento, mais frio. 

Descemos. 

Cortamos uma floresta densa, sob uma neblina espessa e praticamente rodeados por flores amarelas em um cenário que mais parecia um conto de fadas. As trilhas, suaves, permitiam que se voasse montanha abaixo – ao menos por algum tempo. 

Curva aqui, curva ali e, de repente, outra subida. Cerro Colorado, nome perfeito para uma montanha praticamente toda avermelhada. A ventania lá era a mais intensa de todas mas, ao fundo, um fio de música me fez acreditar estar alucinando. Não estava: no caminho para este último cume do El Cruce, um violinista solitário tocava Bach, deixando a música encher toda aquela paisagem árida, fria e seca com a mais pura poesia. Aquela foi, provavelmente, uma das cenas mais incríveis que presenciei em toda a minha vida. 

Mas era hora de seguir: subi o Colorado adrenalinado pela música e pelo visual andino, enfrentando vento e frio, e comecei a descida. Dali para a frente, aliás, era tudo uma imensa descida. 

Começava relativamente técnica, com muitas pedras soltas derramadas pela montanha e que, aos poucos, se transformaram na areia marrom característica da região. Aí foi acelerar o passo e voar pelas trilhas sinuosas, sentindo o calor crescer a cada metro de descida. Em pouco tempo, estávamos já no Oasis, único posto de apoio do dia que ficava mais ou menos no km 23. Era hora de tirar parte das camadas de roupa que vestia, tomar uma Coca, guardar os poles e seguir. 

Exceto por uma ou outra subidinha, o caminho estava aberto e apontando para baixo, fechando a descida da montanha até San Martin de Los Andes. 

Aos poucos, aliás, a cidade foi aparecendo no canto do lago, que já dominava o lado direito da paisagem. Pequenas casas começaram a surgir, quebrando a sensação de isolamento na qual vivemos por 3 dias; grupos de locais fazendo trekking cruzavam conosco; a música da linha de chegada foi ampliando o volume; e os últimos incentivos de parabéns começaram a ser gritados pelo staff do Cruce. 

Estava ali, entrando em San Martin, com o pórtico de chegada pintado à minha frente. Acelerei. Corri como se minha vida dependesse disso – mas sem deixar nada para trás. Ao contrário: 3 dias nos Andes, sem nenhum contato real com a civilização e vivendo à mercê das vontades da natureza mudam a gente. É diferente de uma prova de um dia, em que se larga e chega sem intervalos prolongados: o El Cruce, como acabei entendendo, não é chamado assim por cruzar os Andes, mas sim por fazer quem quer que o corra mudar de percepção de vida. 

Se tem uma prova que recomendo a todos, é essa. Absolutamente inesquecível.