Deixando o estresse no caminho

Sabe quando se tem um dia para lá de complicado, com uma somatória insana de problemas e um desfecho digno de filme de terror? É impossível deixar esse acúmulo de problemas no caminho do trabalho para casa. 

Problemas no trabalho normalmente significam noites mal dormidas, estômagos que cismam em ficar tensos, mente que metamorfoseia qualquer mínimo desafio em barreiras intransponíveis. No passado, minha forma de lidar com problemas assim era “simples”: deixar o corpo cozinhar até transbordar. E, no passado, o corpo transbordou: cabei na mesa de cirurgia para retirar metade do meu fígado. 

Hoje, ainda bem, há uma opção mais fácil: a rua. 

Acordei cedo, por volta das 5, e decidi deixar o estresse ao longo do caminho. Claro: como o estresse era grande, o caminho também deveria ser. 16km que não estavam programados e que se iniciaram por volta das 5:15 da manhã, ainda antes de qualquer sinal de claridade de um sol que provavelmente nem pensava em acordar. 

Não fiz tiros, não me apliquei metas e nem controlei o tempo. Nem relógio eu levei. 

Simplesmente corri até a vontade acabar. 

Cortei a noite de casa até o parque, entrei com aquela precaução de quem não enxerga o solo escuro, cruzei o vento e passei por outros corredores tão compenetrados quanto eu. 

No fone, um podcast qualquer cuspia alguma história que eu mal prestava atenção. Mas a mantive ligada: de alguma maneira, ouvir zunidos de vozes ecoando entre os ouvidos estava me fazendo bem. 

Cheguei a pensar em pegar a trilha do lado de fora do parque na segunda volta: trilhas, mesmo as mais levinhas, sempre fazem um bem colossal. Só que ainda estava escuro e, sem lanterna, seria uma receita certa para acidentes indesejados. 

Sem problemas: dei outra volta. E parei. 

Respirei. 

Fundo.

Algumas vezes. 

A mente, então abarrotada de pensamentos espremidos como se estivessem em um trem indiano, de repente se viu vazia. Perfeito. 

Voltei para casa rejuvenescido, inteiro, intacto, novo. 

O estresse do dia anterior ficou lá atrás, no asfalto. O do dia corrente estava ainda por vir já nas próximas horas. 

Mas tudo bem: àquela altura, estava já preparado para matar qualquer novo leão. 

  

Reunião comigo mesmo na Sala Zero (a rua)

Terça-feira, 7 da manhã.

Agosto começou preocupado, com aquela estática no ar que emula a mais nítida tensão do cotidiano. Sem Copa, o mundo finalmente começa a voltar ao seu ritmo cotidiano, muito embora os quase dois meses perdidos tenham feito um belo grau de estrago.

O final de julho e o começo de agosto estão sendo devotados, quase que na íntegra, a arrumar a casa. Otimizar processos, equipe, planos, projetos e tudo mais que desenha o dia a dia de uma empresa. E o que isso tem a ver com corrida?

Tudo.

Pelo menos para mim, tomar decisões que gerem qualquer tipo de reorganização do presente tem uma dependência quase natural da corrida.

O despertador de ontem já foi setado com isso em mente – uma espécie de reunião comigo mesmo na sala de número zero (a rua).

Saí com os mesmos Merrell TrailGloves que detonaram meus pés há algumas semanas (mas que agora estão perfeitamente adaptados) e rumei para o Ibira. Garoa fina, frio, muitas buzinas e nuvens negras do lado de fora.

Do lado de dentro, na mente, silêncio. Estava isolado do mundo, pensando, enumerando os problemas e bolando soluções. Invocando calma e afastando preocupações vazias. Antes de morrer, Churchill disse que sua vida havia sido “marcada por gigantescos problemas – a maioria dos quais nunca chegou de fato a acontecer.”

Isso virou meu mantra. Assim como a experiência de correr Comrades, com 90 km de passos calmos, planejados, mantendo sempre o ritmo e com a confiança de que o final chegará mais cedo ou mais tarde.

Experiências assim são fundamentais em tempos de turbulência. Ainda bem que elas existem.

Aliás, correr ultras traz um tipo de benefício que vai muito além da saúde física: nos ensina a manter o curso firme, fixo, em um tipo de sintonia entre mente e corpo que dificilmente se encontra em esportes que não sejam de puro endurance. Nos ensina a respeitar subidas e descidas, usando a sempre inevitável gravidade a favor de cada decisão tomada. Nos ensina a respeitar o tempo ao invés de atacá-lo. É o melhor de todos os MBAs.

Ao final, depois da subida da Ministro, estava quase aliviado. Não consegui resolver todas as questões, mas algumas.

O suficiente para levar bem o dia e ainda ter no que trabalhar durante a corrida de amanhã.

O suficiente para enxergar melhor.

Agora, portanto, está na hora de colocar em prática os raciocínios desenhados nos últimos 12km.

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Hora de correr

Correr é uma forma de escape.

Não escape no sentido de fuga, de esquecimento temporário da realidade que se impõe sobre nós com todos os seus problemas e asperezas. Escape no sentido oposto: o de mergulho tão intenso nesta mesma realidade que ela se torna mais palpável, nítida, mensurável.

A cada passada, a cada intervalo, uma conclusão sobre algo se desenha. Nos entendemos melhor, nos enxergamos, nos perdoamos, nos perdemos. Em nós mesmos, por mais reto e repetido que seja o percurso.

Correndo, os problemas não são esquecidos ou varridos para debaixo de um tapete. Eles são resolvidos como equações matemáticas, um a um, mesmo quando nos esforçamos arduamente para não enxergar nada além das próprias passadas.

Irônico: é justamente nesse escape do cotidiano que conseguimos resolver melhor os problemas que mais o assolam.

Pensando bem, há, sim, uma fuga: a do cansativo esforço consciente para achar as soluções que o inconsciente parece conhecer incrivelmente bem. Nessa fuga, a barreira que os separa, que se prostra entre o que sabemos e o que acreditamos ainda não saber, se atenua, se acinzenta, fica porosa ao ponto de permitir um tipo de intercâmbio semi-onírico de conclusões. Decisões simplesmente parecem brotar, óbvias, inteiras.

No intervalo entre uma música e outra no iPhone, ao cruzar o portão do Ibirapuera, ao diminuir o ritmo para que um ciclista desatento passe sem perigo. A vida inteira parece se autoresolver no instante entre passadas. Entre pingos de suor.

Às vezes tudo o que precisamos é justamente deste escape para achar soluções sem esforço – mesmo porque esforço demais destroça qualquer tentativa de sanidade mental.

Essas semanas estão recheadas de problemas.

Ainda bem que está na hora de correr.

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