O sábado que fecha um capítulo (e abre outro)

Faz tempo que não descanso em um sábado. Normalmente não curto isso: é um dia inteiro que considero perdido não apenas sob o aspecto do treino, mas (talvez principalmente) pelo bem que ele me faz ao proporcionar horas perdido nos próprios pensamentos e por caminhos diferentes da cidade.

Mas hoje, verdade seja dita, a realidade é outra.

Hoje estou encarando esse descanso mais como uma espécie de marco de diferentes fases de treino. Quando se coloca uma quebra mais brusca, mais radical, na rotina, se informa também ao corpo que algo está prestes a mudar – e essa informação acaba sendo vital para que ele se prepare melhor.

Hoje é como aquele momento de plena calma antes de alguma tempestade, com aqueles instantes mais elétricos em que tudo está prestes a acontecer – mas nada efetivamente acontece.

Hoje é o dia que marca o fim de um capítulo e o início de um outro, mais voltado para ganho de velocidade sem perda de endurance. Há duas ultras pela frente, afinal, e ambas ainda no primeiro semestre.

Hoje é hora de dizer ao corpo e à mente que está na hora dos dois ficarem mais sérios.

Começando por amanhã.

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Semana de pico, longão 2: o inesperado

O prospecto de levantar às 5 para fazer mais um percurso de 2h30, verdade seja dita, não era dos melhores. 

Acordei brigando com o despertador e sentindo um pouco as pernas – provavelmente mais pelo que estava por vir do que pelo que passou. 

Ainda assim, não se completa ultras trocando as ruas pela cama. Saí. 

Ainda noite, o ar de Sampa estava frio, meio cortante e com aquele tipo de eletricidade esquisita no ar indicando que o dia seria inesperado. De alguma forma.

A corrida em si não foi. Ela cansou mais a cada volta pelo Ibira, ao ponto de eu chegar a me questionar sobre cortar 30 ou 40 minutos. Não cedi: em momentos assim, aprendi que o melhor a fazer é me fechar em mim mesmo e buscar pensamentos mais intensos na cabeça, focando-me neles ao invés de nos quilômetros por vir. 

Funcionou até o final, inclusive na subida da Ministro.

Quando cheguei de volta na portaria do prédio, estava exausto: as dores pelo corpo pareciam subir lenta e decididamente, em forma de minúsculas pulsações elétricas, pelas pernas.

Como farei as 5 horas do sábado? Esse foi o meu último pensamento antes de entrar em casa.

Aí aconteceu o inesperado: o silêncio. 

Passava um pouco das 8 e minha mulher havia levado minha filha na escola. A partir daí, ela seguiria para o dia dela, tão intenso quanto o de qualquer um que vive aqui na urbe. 

A minha primeira reunião, no entanto, seria apenas às 10. 

A casa estava vazia e em um silêncio absolutamente estranho para qualquer um (que tem filho). E por pelo menos uma hora e meia ela ficaria assim. 

Hora, então, de respirar fundo e desacelerar. 

Fiz café, sanduiche, omelete com curry e tanto tempero que faria a Companhia das Índias pasmar de inveja. Acendi um incenso mais exótico chamado Frankencense e deixei a casa ser tomada pelo cheiro.

Nada de TV com notícias: busquei um playlist chamado “Your Favorite Coffeehouse” no Spotify e deixei ele tocar lentamente, levemente. A cada gole de café. A cada inspirada incensada. 

Sentei. Respirei. 

Não dá para dizer que uma mágica súbita aconteceu e levou embora todas as dores musculares. Elas ainda estão aqui, muito embora bem mais relaxadas. Até o final de amanhã devem passar. 

Neste instante, escrevo este post ainda imerso em um clima absolutamente zen e imune a qualquer tipo de estresse, barulho, ou interrupções – incluindo as que mais amo na vida, diga-se de passagem. É que um pouco de pausa, às vezes, faz bem. 

Quando acordei hoje, brigando com a planilha e o tênis que me olhava torto, imaginei que teria um dia cheio de tumulto, cansaço, demandas alheias e próprias. E provavelmente ainda terei, dado que a minha primeira reunião começa apenas em alguns minutos.

Mas só essa hora e meia de calmaria entoada por temperos, café quente e aromas exóticos já foi absolutamente – e inesperadamente – perfeita. Essa hora e meia, por si só, já valeu o dia. 

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