Gravando a última impressão

Mar e dunas ontem, cidade hoje. Por algum motivo, há qualquer coisa que sempre me encantou em pequenas vilas que parecem congeladas no tempo.

Fora algumas anomalias urbanas superpopuladas, repletas de violência e miséria pútrida, o interior nordestino é essenclamente cheio delas. 

A região do pontal não é exceção.

Saí hoje tão cedo que a lua cheia ainda reinava absoluta no céu que apenas começava a se riscar com os primeiros tons de azul claro. Era sábado, dia mais parado que os já calmíssimos habituais, mas algum movimento se ensaiava. 

Mulheres de vestido de renda varriam areia para longe de suas varandas, homens olhavam o sol que sempre viam com um ar de tedioso espanto, crianças e cachorros faziam os primeiros barulhos do dia. 

A pobreza da região era óbvia – mas era também resignada, calma, quase que conivente com sua própria falta de perspectiva. 

Era uma pobreza de tudo: dinheiro, conforto, futuro, vocabulário. Curiosamente, ela se equilibrava com o outro extremo: a abundância de paisagens, de dunas, de oceano, de azul do céu e de vida que cismava em proliferar naquele naco abandonado do mundo.

No caminho, estradas se abriam em frente a igrejas de todas as faces cristãs, ruelas se esgueiravam por entre céu e terra, carnaúbas se erguiam do mato, brisas teimosas quebravam, ainda que por instantes, o já insuportável calor nordestino.

Olhei para tudo aquilo diversas vezes: para os rostos castigados mas leves dos locais, para as casas mal pintadas, para as pracinhas bucólicas e para toda a natureza que se sobressaía superlativa. 

Gravei cada milímetro na mente.

Era essa a última impressão que queria levar de volta para São Paulo amanhã.

   
   

Correndo do barulho

Sair para correr às 5:30 da manhã foi difícil. Desisti por conta de pernas moídas de tanta areia fofa.

Uma hora depois, acordei. Abri a janela: mar azul e areia branca, infinita, me fizeram ficar arrependido até o último fio do cabelo. Mas, àquela altura, não havia mais tempo: estava na hora de conhecer Canoa Quebrada.

Serei sincero: chegar em uma barraca gigante esbanjando um som no talo que vomitava uma mistura de Axé com Sertanejo com Fábio Junior não é exatamente o que entendo como perfeição. A distorção criada entre aquele barulho todo e o cenário paradisíaco era péssima. 

Desisti de desistir: descalço, fui praticamente sugado pelo percurso de areia que se estendia à minha frente e comecei a correr. Não muito – queria apenas fazer uns 6 ou 7km para arejar as pernas, para regenerar a musculatura e oxigenar os ouvidos. Nenhuma decisão poderia ter sido melhor.

Poucos metros depois da barraca infernal, o vento apagava qualquer rastro de som e era tudo apenas mar azul turquesa, areia branca, dunas e céu azul.

No horizonte, torres eólicas se enfileiravam: estava na margem oposta do rio onde o cachorro avançou sobre mim no primeiro dia. Do outro lado, até o estado de espírito parece mudar.

Entre passadas e suor escorrendo pelas costas, só uma sensação de paz absoluta dominava. E mais: o calor, no final, foi rapidamente eliminado com um mergulho extremamente bem vindo no mar cearense.

Estava revigorado ao ponto em que nem o insistente barulho incomodava mais.

  

O dia que faz tudo valer a pena

Às vezes, quando viramos uma esquina no meio de uma trilha ou erguemos a cabeça, nos deparamos com paisagens que dificilmente sairão da retina. São essas vezes, infelizmente menos comuns do que se costuma sonhar, que fazem corridas em locais pouco cotidianos valerem a pena.

Ontem foi um desses dias.

Acordei sozinho, sem despertador, por volta das 5:30 da manhã – e já saí do quarto bêbado com o cenário. Uma praia que beirava o infinito se estendia em minha frente, pontilhada apenas por jangadas cearenses espalhadas pelo areal e, lá no fundo, atrás de falésias vermelhas, um conjunto de torres eólicas.

Corri pela praia, que ostentava uma maré baixíssima que fazia o chão parecer um espelho ocre ilustrando o céu inatacavelmente azul. Fui por uns 6, 7km até chegar no Rio Jaguaribe e segui margeando-o. O cenário cedeu, ficando mais parecido com um mangue, e barcos ainda adormecidos pareciam ansiosos para carregar turistas para a outra margem, onde ficava Canoa Quebrada.

Ainda assim, segui até onde consegui: parei apenas quando um cachorro furioso decidiu avançar sobre mim, me fazendo entrar com tudo no rio, o que certamente gerou uma carga de adrenalina eletrizante. Continuei um pouco dentro do rio até sair do seu alcance e voltei para a areia. Estava na hora de mudar de rota.

Entrei à esquerda por uma ladeira invadindo um pequeno povoado, daqueles que mistura pobreza com o ar bucólico que apenas o nordeste guarda. Passei por uma igrejinha típica, de uma vila típica, com pessoas típicas varrendo o chão. Tudo era tão típico que parecia até cenário de novela. Não era.

Fui mais algum trecho por ela até decidir tomar uma trilha de areia fofa que parecia margear o oceano. Sob o calor já escaldante, aquele momento pertencia ao suor e ao ácido láctico que cismava em reclamar.

Pelo menos até que os arbustos subitamente ficaram menores e o horizonte inteiro se abriu.

Se abriu não: se impôs em forma de susto visual, roubando cada gota de concentração para si. Estava rodeado por campos secos, dunas, mar e céu azul, todos pontilhados apenas por um farol distante e grandes pedras vermelhas como o fogo. A paisagem era tão incrível que foi difícil até mesmo entendê-la: entre passos, ficava olhando atentamente a tudo e tentando gravar na memória cada átomo de pura beleza.

Tirei fotos, parei, respirei fundo. Corri de um lado para outro, tentando alcançar vistas mais belas como se fosse possível. E pior: era. A cada morro, uma nova cena se abria, intensa, forte.

Fiquei até aqueles segundos antes do cansaço.

A volta, já pela praia, poderia ter sido pelo asfalto de alguma periferia qualquer: estava com tudo aquilo tão gravado na memória que nada mais, nem o calor ou o sol, nem o mar, nem o cansaço e nem mesmo a perspectiva de repetir o percurso inteiro faria qualquer diferença. Minha retina estava irremediavelmente manchada pela beleza.

Foi uma das corridas mais incríveis da minha vida.

   
    
    
    
 

Meia do sol

Nosso corpo esquece fácil.

Saí de Salvador para morar em São Paulo há quase 20 anos. À época, o calor intenso da cidade era apenas cotidiano, alvo de pequenas reclamações frugais e base para muitos programas que tinham o sol e o mar como protagonistas máximos.

Com o tempo, as lembranças foram ficando no passado mais remoto, naquele canto do cérebro que desconhece termômetros e sensações mais fisiológicas.

E muita coisa aconteceu – incluindo a minha descoberta da corrida como esporte que, hoje, é parte tão integrante do meu estilo de vida.

Todo ano volto a Salvador, nem que seja por um punhado de dias, para me abençoar nas águas de Yemanjá, revisitar o passado e, claro, correr a cidade. E todo ano me esqueço de como aqui é quente.

Hoje saí para fazer 2 horas de treino às 7 da manhã. Só que 7, no nordeste, está longe de ser cedo.

O termômetro que encontrei já no km 3 apontava 28 graus. De tempos em tempos, quando cruzava por outros termômetros, via aumentos contínuos que rimavam bem com os rios de suor que jorravam do corpo.

Umidade alta, sol escaldante e nenhuma única núvem no céu.

Para não esquecer que era Carnaval, alguns trechos eram pontilhados por ambulantes dormindo ao lado de seus isopores e caminhões ensaboando todo o asfalto para limpar um pouco o pecado que faz da capital baiana seu lar durante os festejos.

Em um ou outro canto, casais continuavam firmes na safadeza, certamente remanescente da noite anterior e embalada por um mar deslumbrantemente azul.

Eu amo esta cidade.

Com esses pensamentos ecoando entre os ouvidos, cheguei ao bairro de Ondina, logo antes da Barra, e dei meia volta.

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Decidir o ponto de retorno em um percurso tão quente e úmido tem o lado bom e o ruim. O bom, claro, é saber que dali em diante, a próxima parada é em casa; e o ruim é a certeza de que ainda há o dobro de chão a percorrer enquanto o dia apenas esquenta.

Tudo bem: fechar duas horas com qualidade no calor do auge do verão baiano serve, no mínimo, como treino mental.

Aprende-se, por exemplo, a encontrar pontos no percurso que tirem o foco do esforço. Como essa vista abaixo, por exemplo, que praticamente me acompanhou por todo o caminho:

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Perfeito.

Pelo menos o suficiente para que eu ignorasse os efeitos do inclemente (mas belíssimo) sol soteropolitano e fechasse uma meia maratona inesquecível.

Checkpoint: Fechando a semana no Carnaval baiano

Independentemente de qualquer gosto musical, há qualquer coisa de muito diferente em se testemunhar o Carnaval em Salvador. Na prática, a sua essência tem muito pouco a ver com Cláudia Leite, Ivete Sangalo ou quem quer que esteja em cima de um trio: tem a ver mesmo com o que se passa abaixo dele.

Explico: o Carnaval baiano só se tornou o que é por conta de uma força popular essencialmente local e que mescla malandragem, energia, sol, mar, suor e muita, muita vontade de ser feliz. A música em si é apenas uma coadjuvante que ganhou proporções muito maiores do que deveria.

Cheguei em Salvador ontem à noite para aproveitar o feriado unindo a família formada por mim à que me gerou, casando as minhas raízes às raízes que estou formando hoje, na outro ponta do país em que vivo.

E a primeira coisa que fiz – claro – foi sair para uma corrida de cerca 1h30 pela orla. Saí do bairro do Caminho das Árvores, onde meu pai vive, e desci até a Pituba, cruzando Amaralina, Rio Vermelho, Ondina e Barra. Fiz boa parte da orla baiana correndo por entre as minhas lembranças e encontrando pérolas como um ritual de Candomblé em plena praia. Não resisti e tirei uma foto:

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De lá em diante fui embalado pelos batuques dos Orixás, testemunhando sorrisos de todos os lados, cruzando com trios se preparando para um dia de guerra e sendo abençoado pelo sol e pelo onipresente mar soteropolitano.

A cidade parecia de uma felicidade sem paralelos, mesmo considerando o cansaço estampado nos olhares dos ambulantes que fazem da folia o seu ganha-pão. Em Salvador, a sensação que dá é que trabalhar é apenas algo necessário para se viver – e que deve ser feito com a mesma alegria que se tem ao tomar um chopp com os amigos em algum boteco qualquer.

E o que tudo isso tem a ver com corrida e com o treino? Mais do que se imagina.

Sob o sol da cidade, as dores nas costas evaporaram por completo; o estômago melhorou; o ritmo voltou ao normal e tanto mente quanto corpo pareciam curados no instante em que encerrei a corrida para um mergulho nas águas transparentes da Baía de Todos os Santos.

Não poderia ter esperado nada melhor que isso para finalizar uma semana tão difícil e dolorosa quanto esta.

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Rumo a Paraty

Viajar a trabalho sempre é cansativo – principalmente quando se tem um evento para coordenar, o que geralmente significa horas sem fim de esforço, estresses súbitos sendo desenrolados etc. Isso sem contar com o tempo longe da família, que faz uma falta de arrebentar.

Quando a viagem é para um lugar paradisíaco, no entanto, o horizonte já melhora.

Neste instante estou a caminho de Paraty, no meio do abençoado litoral que separa o Rio de Sampa.

A previsão é de sol sem nuvens e temperaturas entre 15 e 28 graus até o domingo.

Trabalho? Terei muito o que fazer – mas, honestamente, a única coisa em que consigo pensar agora é nas vistas, trilhas e estradas que pegarei por lá.

Calor, umidade, montanhas e praias com tudo que tem direito: há coisa melhor para inspirar uma corrida?

O problema agora é só segurar as 24 horas que me separam dos primeiros trotes!

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