Voltando à selva antes da hora útil

Repeti a dose de ontem.

Às 5 da manhã estava já de pé, devidamente trajado, ajustando o relógio e olhando pra a tempestade.

A noite estava escura, meio enevoada e com água saindo tanto dos céus quanto das valetas que descem da Paulista carregando cachoeiras nervosas.

Perfeito.

Fiz a mesma rota de ontem e, ligando a lanterna presa à testa, virei à direita na trilha. Familiariza-se rápido com situações diferentes: foi só dar o primeiro passo em uma poça de lama que me senti em casa. A luz estava a mesma, o tênis era o mesmo e o local estava igualmente irreconhecível. Ainda assim, trilhei os 6km como se fosse uma criança.

Corri onde pude, caminhei em locais mais difíceis de ler, respirei cada gota de umidade e cada cheiro de floresta molhada que consegui detectar com os sentidos aguçados. Aliás, desta vez deixei o celular em casa para poder me concentrar mais na trilha e em seus sons.

Muitos sons.

Grilos, insetos, sapos e toda uma gama de espécies rastejantes transformavam o Ibirapuera à noite e sob tempestade em um tipo de festa animada até o último decibel. Fosse alguém vendado e levado até aquele local, dificilmente deduziria estar no coração da maior cidade da América do Sul: nada ali sequer lembrava uma metrópole.

E assim o tempo foi passando regado a sons, chuva, lama e a visão enevoada do fio fino de luz que emanava de uma lanterna já cansada e quase sem pilha.

Quando voltei, novamente subindo a Ministro, era outra pessoa. Parecia que havia me teletransportado de volta para a cidade, provando que estive fora por roupas encharcadas, enlameadas e absolutamente felizes.

  I

O lado selvagem do Ibirapuera no escuro

Dá para achar novidade, algo diferente, na mais estabelecida das rotinas. 

Em grande parte por conta da Indomit, decidi ontem tirar a poeira da minha headlamp e fazer uma corrida em alguma trilha à noite na segunda. Bom… achar uma trilha para se fazer sem a luz do sol em plena segunda-feira útil não costuma ser algo fácil, simples. Certo? 

Errado. 

Primeiro, porque à noite pode ser simplesmente antes do sol raiar. Segundo, porque qualquer trilha no escuro pode servir a estes propósitos: a sensação de familiaridade, afinal, costuma ser irmã da luz. 

Com o iPhone setado para me acordar às 4:30, dormi carregado de alguma ansiedade. Minhas roupas para a manhã seguinte mais pareciam às de uma prova: buff, headlamp, tênis de trilha (também para tirar a poeira e acostumar os dedos dos pés). Lá pela 1 da manhã, uma tempestade sem tamanho, daquelas que deixa a cidade em estado de alerta por horas a fio, se abateu sobre São Paulo. Tudo era som de chuva, estrondos de trovão, relâmpagos iluminando a noite. Cheguei a me perguntar algumas vezes se sairia assim ou não até que peguei no sono. 

Às 4:25 – antes do despertador – acordei. 

O céu estava silencioso, calmo: não havia mais tempestade. Aproveitei a janela de tempo, me arrumei e, em poucos minutos, estava na rua. 

Os parcos seres que perambulavam antes das 5 nas ruas paulistanas me olhavam como que a uma alucinação, alguém absolutamente fora de contexto e lugar. E realmente estava – pelo menos até cruzar o portão do Ibira e entrar na trilha escura já com a headlamp acesa. 

Tudo, tudo era lama. Havia me esquecido como lanternas falham em passar aos olhos a sensação de profundidade: de certa forma, correr à mercê delas é como cruzar uma tela em 2D. Há algum temor de queda nos instantes iniciais mas, logo depois, é como se o corpo se adaptasse ao novo cenário. 

Aliás, tudo era tão novo, tão diferente que, por vezes, eu até me esquecia onde estava. A chuva, por exemplo, havia pintado um lago no meio do caminho que precisei cruzar; raízes de árvores e folhas formavam pequenas armadilhas que precisavam ser evitadas e uma leve garoa misturada a fumaça da respiração formava um clima meio onírico, afastado da realidade. 

Não fosse o tempo passando e o sol que estaria dominando os céus em pouco tempo eu certamente daria mais uma ou duas voltas. Ou três. 

Mas voltei para casa, não sem antes subir a ladeira da Ministro para somar alguma altimetria mais intensa. 

Hoje é uma segunda-feira como outra qualquer: começo de semana de trabalho, repleta de reuniões e tarefas, com prazos apertados e tudo aquilo que caracteriza a vida de quem habita esta grande urbe. Ainda assim, posso dizer que comecei o dia cruzando uma trilha noturna, atravessando um lago improvável, deslizando por lamaçais esparramados pelo chão e movido pelo som isolado dos pulmões e testemunhando o encontro de névoas que saíam da boca e das núvens. 

Tirei uma foto antes de voltar para casa para me assegurar de que tudo aquilo realmente acontecera. Olhe bem… não é incrível o que podemos extrair mesmo da maior das cidades quando se tenta algo diferente? 

  

Correndo pelo tempo, pelo mundo e pelo centro

7 da manhã, hora de sair desbravando um mundo que parece exótico de tão diferente – embora esteja há apenas metros de distância. 

Bastou cruzar a Paulista e seguir mais alguns passos e pronto: estava no centro velho de São Paulo. 

De início, passando pelas zonas mais degradadas da Augusta e Consolação, áreas que parecem ter nascido com um tipo de decadência típica de grandes cidades. São vias que funcionam como túneis do tempo, ligando o moderno ao antigo, o presente ao passado. 

E o passado, afinal, era o destino. 

Com algum zigue-zague proposital, subitamente me deparei com a Boa Vista. Região da Bolsa de Valores, onde ruas não existem e tudo é calçamento. 

Fiquei rodando pelos chãos de cimento ladeados com pedras portuguesas, uma espécie de tentativa de mesclar a solidez de uma cidade moderna à sua velha herança colonial. Prédios incríveis se enfileiravam: Edifício Martinelli, Centro Cultura Banco do Brasil, Banespa e outros. Muitos outros se erguendo do chão como monstros de dinheiro olhando, com algum desprezo, o que acontece aos seus pés. 

Mendigos, ambulantes, imigrantes vestindo cartazes, sacoleiros. O chão, ainda molhado pela ingênua tentativa da prefeitura de tirar o odor fétido do centro, era puro contraste. Todo o centro era contraste. 

De um lado para outro, fui ao grandioso Vale do Anhangabaú, ao Municipal, à Sé, ao Mosteiro de São Bento, ao Páteo do Colégio. De ponta a ponta, o passado colonial de São Paulo ia se transformando em uma Paris dos trópicos e, depois, em uma vila Africana abandonada pelos colonizadores europeus. 

Saí. Fui até o Mercado Municipal, tendo ao lado mais decadência que lembrava de um passado melhor por meio de casarios coloridos e agitados. Dei a volta nele, me esforçando para ignorar o cheiro de frutas podres, e voltei. Estava indo à Luz. 

Na velha estação, dei uma volta pulando drogados que queimavam cachimbos de craque fazendo de conta que eram postes. A única forma de ignorar os perigos do centro de São Paulo, aprendi, é fazendo de conta que eles são apenas parte imóvel da paisagem. E forçando a vista para que ela se concentre na beleza. 

Há beleza. Há a Luz, a Pinacoteca, a Sala São Paulo. Há o Museu da Língua Portuguesa, há as primeiras igrejas plantadas no então sólo indígena. 

Há o oásis que é o Parque da Luz. 

Entrei nele e, de repente, foi como se tivesse atravessado uma dimensão inteira. Tudo era silêncio, exceto por alguns pássaros cantando. A pequena trilha em seu entorno, adornada com alguns lagos e esculturas, ouviam apenas passos de outros poucos corredores e seu interior era tomado por japoneses jogando peteca e rindo em outro idioma. 

Dei mais que uma volta: o contraste fez um bem incrível. 

E depois saí. 

Hora de voltar pela cracolândia, de passar pelos prédios incríveis e de subir a Brigadeiro. Subi tudo. 

Atravessei a Paulista. 

Desci. 

Dali em diante, foi só seguir a rota convencional margeando o Parque do Ibirapuera. 

Aquela parte do dia, no entanto, já havia terminado – e com uma viagem à parte. Em pouco menos de 3 horas e 28km, rodei pela história da cidade, por imigrantes e migrantes, por neo-yuppies bêbados e mendigos esquálidos, por Brasil, Paris, África e Japão. 

Poucas trilhas são mais intensas do que essas que cortam uma malha urbana tão densa quanto a desta incrível cidade. 

   
    
    
   

Vivendo no século XVIII

Quando cheguei em casa, subi as escadas até meu andar (por conta da falta de energia) e, antes de dormir, enchi um balde de água para poder tomar banho na volta da corrida do dia seguinte.

Saí cedo, na esperança de que pudesse contar com algumas gotas de água antes que os vizinhos acordassem para tomar os seus banhos.

Foi bom: os primeiros raios de sol estavam escondidos por algumas parcas nuvens e uma brisa súbita parecia querer enganar o verão. Pelo menos pelos primeiros cinco minutos.

Já nas primeiras irregularidades da calçada, causadas por uma árvore que caiu em função das chuvas, o clima esquentou.

As nuvens sumiram e o sol dominou o céu que, de tão azul, parecia artificial. Forte, intenso, inclemente.

Ao chegar no parque voei em direção a um bebedouro: nada. A água saía de maneira tão frágil que beber era impossível. Segui.

Exceto por alguns cruzamentos, mantive um ritmo forte. Ignorei a dor nas costas que, embora melhor, persistia, e uma sensação esquisita na biomecânica como um todo. Me sentia torto, desajustado, desalinhado. Mas bem o suficiente para prosseguir.

Pulei algumas outras árvores caídas, cumprimentei um amigo que voava no sentido oposto e tomei o rumo de casa. A essa altura, sob um sol impiedoso, estava já desidratado. “Pena que não há um riacho próximo”, pensei, crente que havia realmente voltado no tempo até o século XVIII.

Na volta, subi as ladeiras do antigo pântano que hoje abriga o bairro dos Jardins (mas que estava realmente mais parecido com um pântano) e, com alguma esperança de encontrar um chuveiro, entrei endorfinado pela porta de casa. A realidade foi mais frustrante.

O banho foi com levas de balde com água fria, talvez insuficiente para limpar o calor. “Mas pelo menos existiu, graças à precaução da noite anterior”, concluí. Ser precavido é essencial em tempos de escassez de conforto urbano.

Em seguida, me peguei tentando me lembrar onde havia deixado a tinta e a pena de escrever. Afinal, embora São Paulo houvesse decididamente retornado ao século XVIII, estava na hora de fazer um novo post aqui no blog.

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Checkpoint semanal: Velocidade, tempo e centro

De vez em quando, uma semana de treino acaba se transformando em um período de descobertas.

Apesar de não ser obcecado por pace, notei que estava lentamente diminuindo minha velocidade média na medida em que passava mais e mais tempo nas ruas. Até aí, nenhum problema: aproveitar é o verbo mais importante quando se corre, ao menos em minha opinião.

Mas aí algo diferente aconteceu: juntamente com a perda de velocidade veio um desnecessário aumento do cansaço. Ou seja: estava correndo menos e cansando mais, uma combinação decididamente ruim.

Aí decidi ouvir – finalmente – o meu treinador.

A contragosto, diminui o tempo na rua e aumentei a velocidade por meio de mais tempo runs e intervalados. Ainda estou na primeira semana dessa mudança – mas os efeitos já estão acontecendo.

Fato: tenho voltado exausto das corridas em dias de semana – mas mais motivado, como se cada minuto tivesse valido mais a pena.

Faltava alguma coisa, no entanto: algo que me fizesse aproveitar mais nos momentos mais livros – os finais de semana.

Bom… no domingo passado, mudei o percurso tradicional e me mandei para o centro de São Paulo, rodando Pinacoteca, Luz e toda uma gama de prédios belíssimos e históricos. Foi como fazer turismo em minha própria cidade, com tempo e disposição. Amei.

Repeti a dose ontem, no sábado, só que fazendo uma outra parte do centro e indo até o Palácio do Ipiranga. Foi um longão memorável, daqueles que transformam corridas em passeios intensos. E esse veio com um bônus: descobri que o centro de São Paulo é quase uma cordilheira: a quantidade de morros, tanto pela região da Sé e seus vales quanto pela Aclimação, entre o centro e o Ipiranga, delineiam o perfil perfeito para se treinar em subidas e descidas.

Hoje voltei ao centro, fazendo uma mescla mais livre do percurso e incluindo Sala São Paulo, Sé, Municipal e região da Bolsa de Valores. Rodei por algumas ruas novas e desconhecidas por mim, repletas de casarões incríveis, e voltei pela Consolação. Tudo novo, visto sob uma ótica diferente.

Já disse isso antes e repito: recomendo a todos. Sair da rotina é simplesmente necessário de vez em quando.

E vejam só: no final de contas, ao tentar ser mais conservador no meu treino, acabei me focando em velocidade, ampliando áreas de corrida e ganhando excelentes oportunidades subindo e descendo morros. Perfeito, não?

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