Chuva, chuva, chuva

Essas últimas duas semanas deveriam ser as mais secas e quentes do sudeste ao menos no último ano. Eu nem pediria tanto: ficaria feliz apenas com a falta de chuva. 

Mas não: os Deuses, aparentemente, curtem sincronizar as suas águas com o calendário da Indomit. Comigo, pelo menos, foi assim nos 42K de Bombinhas e nos 100K da Costa Esmeralda. 

A Indomit São Bento do Sapucaí, ao que tudo indica, será tanto corrida quanto nadada. 

Cheguei até a questionar a ida – a perspectiva de escorregar e de tentar me equilibrar em rios de lama me dá uma preguiça digna de Macunaíma. 

Mas aí tem os pontos. Os tais 3 pontos que essa prova me garantirá para a OCC, em Mont Blanc, no ano que vem…

Haverá outras oportunidades para somá-los? Certamente. Provavelmente. 

Mas, em um ano complicado em que o calendário de viagens para corridas ficou invariavelmente mais escasso, melhor garantir do que esperançar. 

Águas, nos veremos no sábado.

   

Correndo a Indomit 100K

Doeu – mas isso é meio óbvio.

Falemos, portanto, do que não é.

Largando à meia noite e mergulhando na lama


Isso, por si só, não é tão incomum em ultra mais longas. Mas a grande questão da Indomit é que ela é conhecida pela dificuldade técnica de suas trilhas – algo que só piorou com o as chuvas bíblicas que caem sobre todo o estado de Santa Catarina há mais de um mês.

Para ser justo com São Pedro, ele até deu uma trégua: a noite estava linda e clara e o amanhecer na Costa Esmeralda foi realmente sensacional. Mas… claro… toda a água que caiu permaneceu no chão, encharcando as trilhas.

Muitas trilhas. A primeira série delas, de mais ou menos uns 7km, me tomou mais de 2 horas. Não dá nem para dizer que eram single tracks: estava mais para “single muds”. Lama e água desciam feito cachoeira de todo canto, transformando subida e descida em um desafio por si só. Já nos primeiros metros tomei minha primeira queda, ouvindo um estalo desconfortável do pulso esquerdo.

Depois, em muitas outras, o corpo fez questão de se apoiar na mesma mão, deixando-a dolorida até o final da prova.

Curiosamente, a iluminação em si não foi o problema. Aliás, arrisco-me dizer até que o escuro ajudou: com a visibilidade restrita ao chão imediatamente abaixo dos pés, a mente não via o qiue estava por vir e encarava tudo com mais “esperança”. Ainda bem: daí até o final da primeira série de trilhas, mais difícil de todo o percurso, seria tudo ultra sinistro.

O alívio

Depois dessa série, um alívio: os próximos 30km, aproximadamente, seriam de estrada de terra com um pouco de asfalto. Seguimos, respirando melhor e curtindo mais cada passo noturno. Tudo, claro, estava no mais puro breu: mas passar pela noite foi uma das descobertas positivas para mim: a adrenalina realmente consegue aniquilar o sono.



 E, claro, fechar a distância da maratona beirando o amanhecer foi também um bom sinal: se mantivesse o mesmo ritmo, conseguiria completar a prova lá pelas 15:00.

Ledo engano.

Trilhas infinitas

A partir daí, todo o percurso passou a ser uma mescla de trilhas técnicas com trechos em praia e em estradas de terra. Nenhuma outra trilha foi igual à primeira série – ainda bem. Mas a quantidade e a duração delas foi, aos poucos, massacrando a mente.

Lá pelos 60K estava no meu momento mais baixo. Lembro de ter cruzado com o Rodrigo João, que estava fazendo a prova de 50K, e que me perguntou se eu estava bem. Imaginei que deveria estar parecendo um cadáver.

Para isso servem os postos de controle – todos, diga-se de passagem, perfeitamente organizados. Sentei, liguei para casa, tomei uma Coca, respirei… e saí.

Aos poucos fui recuperando o ânimo e, antes que me desse conta, estava correndo solto pelas areias das praias. O visual deslumbrante, contrastando o verde da mata com o azul do céu e do mar, ajudaram bastante. Claro.


  
    

A Macaca

Uma das metas era chegar no Posto de Controle do Atlântico, no km 77, último grande PC do percurso. Sentei, tomei mais uma Coca e segui. Mais à frente, uma trilha nova esperava: a Macaca.

Essa, no entanto, foi mais ao meu estilo: teve muita subida e descida, mas tudo seco e recompensado com um visual inacreditável no topo. Pausa para foto e para respirar. Àquela altura, minha previsão de tempo já havia evaporado e estava simplesmente dando um passo depois do outro.

 
Mas, claro, como era hábito da Indomit, havia uma surpresa mais para a frente: o fim da trilha da Macaca emendava com outra trilha, bem mais enlameada e sinistra. Segui.

Escorregando, mas segui.

Ao final, praia.

Corri.

Estava exausto, mas segui adiante como única alternativa.

Nas trilhas, os quilômetros parecem se recusar a passar: anda-se por horas e, quando se confere o GPS, parece que se está no mesmo lugar.

Mais para a frente, um outro posto de controle pequeno me permitiu recobrar o ar. Estava em uma nova zona baixa, com fome e exausto. Tomei uma sopa salvadora que eles serviam, engoli uma Coca e segui adiante.

O último trecho

Dali para a frente, os apoios falaram que seria apenas praia e estrada de terra.

Mentiram. Por surpresa, uma nova trilha entre Bombas e Porto Belo, com cerca de 2km, estenderia a sua lama sob nós. Foi uma espécie de golpe quase fatal: ela trouxe um mau humor que só foi aliviada pelo papo com os outros corredores, todos igualmente exaustos de trilhas.

Mas, eventualmente, tudo chega ao fim.

A trilha terminou em uma estrada de terra que, por sua vez, emendou no asfalto. Parei no último PC, faltando 5km, e sentei.

Lá, no entanto, o corpo começou a dar sinais de esgotamento: senti frio, comecei a tremer e a ficar muito, muito fraco. Se permanecesse sentado por mais alguns minutos, eu sabia que não conseguiria retornar à prova – e não havia passado por tanto para desistir nos últimos 5km.

De repente, me levantei, olhei para frente e comecei a correr.

Alcancei um grupo de corredores – incluindo o Nélio, leitor do blog que me reconheceu sabe-se lá como – com quem fui até o final. Batendo papo com eles, todo o mal estar sumiu: de alguma forma eu havia me recuperado plenamente. Estava conversando normalmente, sem frio e até com menos dores.

E, tirando uma ou outra subida, fomos trotando até o final, engolindo o que faltava de asfalto e praia até ver o pórtico e cruzá-lo como se fôssemos os maiores heróis do dia.

Talvez para nós, aliás, tenhamos mesmo sido. No total, fechei os 100K em 21:07:26, meu recorde de tempo em uma prova.

Cheguei exausto, faminto e com dores generalizadas, destacando coxas e pés – mas muito mais forte do que imaginava. Provavelmente precisarei de uns dias a mais para entender esse longo, longo dia que se passou – mas tê-lo vencido foi, para mim, verdadeiramente marcante.

Pros e contras?

Antes de mais nada, vale reforçar que a organização foi realmente incrível. Mesmo com uma mudança de percurso no mesmo dia da largada por conta de condições técnicas (e, dado que eles mantiveram a primeira série de trilhas, nem dá para imaginar como estava o trecho que substituíram), tudo estava perfeitamente marcado.

Havia postos de apoio mais que o suficiente, o abastecimento estava redondíssimo e a segurança estava reforçada (apesar dos trechos de trilha inegavelmente perigosos).

Mas, ao menos na minha opinião, a dificuldade foi exagerada. Talvez pelas condições em si de cada trilha, ter tantas assim dos primeiros aos últimos quilômetros foi um pouco demais, algo estampado nas faces tanto dos corredores que chegaram até o final quanto dos tantos que desistiram pelo caminho.

Ainda assim, recomendo esta prova para quem quiser – desde que tenha claro que estará enfrentando uma dificuldade realmente colossal.

O lado selvagem do Ibirapuera no escuro

Dá para achar novidade, algo diferente, na mais estabelecida das rotinas. 

Em grande parte por conta da Indomit, decidi ontem tirar a poeira da minha headlamp e fazer uma corrida em alguma trilha à noite na segunda. Bom… achar uma trilha para se fazer sem a luz do sol em plena segunda-feira útil não costuma ser algo fácil, simples. Certo? 

Errado. 

Primeiro, porque à noite pode ser simplesmente antes do sol raiar. Segundo, porque qualquer trilha no escuro pode servir a estes propósitos: a sensação de familiaridade, afinal, costuma ser irmã da luz. 

Com o iPhone setado para me acordar às 4:30, dormi carregado de alguma ansiedade. Minhas roupas para a manhã seguinte mais pareciam às de uma prova: buff, headlamp, tênis de trilha (também para tirar a poeira e acostumar os dedos dos pés). Lá pela 1 da manhã, uma tempestade sem tamanho, daquelas que deixa a cidade em estado de alerta por horas a fio, se abateu sobre São Paulo. Tudo era som de chuva, estrondos de trovão, relâmpagos iluminando a noite. Cheguei a me perguntar algumas vezes se sairia assim ou não até que peguei no sono. 

Às 4:25 – antes do despertador – acordei. 

O céu estava silencioso, calmo: não havia mais tempestade. Aproveitei a janela de tempo, me arrumei e, em poucos minutos, estava na rua. 

Os parcos seres que perambulavam antes das 5 nas ruas paulistanas me olhavam como que a uma alucinação, alguém absolutamente fora de contexto e lugar. E realmente estava – pelo menos até cruzar o portão do Ibira e entrar na trilha escura já com a headlamp acesa. 

Tudo, tudo era lama. Havia me esquecido como lanternas falham em passar aos olhos a sensação de profundidade: de certa forma, correr à mercê delas é como cruzar uma tela em 2D. Há algum temor de queda nos instantes iniciais mas, logo depois, é como se o corpo se adaptasse ao novo cenário. 

Aliás, tudo era tão novo, tão diferente que, por vezes, eu até me esquecia onde estava. A chuva, por exemplo, havia pintado um lago no meio do caminho que precisei cruzar; raízes de árvores e folhas formavam pequenas armadilhas que precisavam ser evitadas e uma leve garoa misturada a fumaça da respiração formava um clima meio onírico, afastado da realidade. 

Não fosse o tempo passando e o sol que estaria dominando os céus em pouco tempo eu certamente daria mais uma ou duas voltas. Ou três. 

Mas voltei para casa, não sem antes subir a ladeira da Ministro para somar alguma altimetria mais intensa. 

Hoje é uma segunda-feira como outra qualquer: começo de semana de trabalho, repleta de reuniões e tarefas, com prazos apertados e tudo aquilo que caracteriza a vida de quem habita esta grande urbe. Ainda assim, posso dizer que comecei o dia cruzando uma trilha noturna, atravessando um lago improvável, deslizando por lamaçais esparramados pelo chão e movido pelo som isolado dos pulmões e testemunhando o encontro de névoas que saíam da boca e das núvens. 

Tirei uma foto antes de voltar para casa para me assegurar de que tudo aquilo realmente acontecera. Olhe bem… não é incrível o que podemos extrair mesmo da maior das cidades quando se tenta algo diferente? 

  

Indomit Bombinhas: difícil, mas sensacional

Fase dois do plano completa: fiz hoje os 42K da Indomit Bombinhas, última parada antes da Douro Ultra Trail.

A palavra “difícil” nem começa a descrever a prova.

Na madrugada de ontem para hoje, um temporal bem forte se abateu sobre a costa catarinense – algo como um pacto entre Iansã e Æolus para deixar a prova mais emocionante.

Funcionou. A quantidade de lama era tamanha, principalmente na primeira montanha, que escorregar passou a ser algo quase corriqueiro. Subidas íngremes se alternavam com descidas tensas em um piso que parecia gelo marrom – e que piorava a cada instante com a chuva que nunca chegou a parar de cair.

Depois, areia de praia. Dura ou fofa, foi bem vinda. Uma espécie de relaxamento para a mente que já mostrava sinais de cansaço.

Relaxamento temporário: logo ele foi substituído por mais trilhas fechadas. Mais emoção e uso de, acredito, todos os músculos existentes nas pernas.

E assim, com muita trilha, muita praia, alguns trechos em estrada de terra e, claro, um inesquecível costão de pedras, finalizei a Indomit.

Entre subidas e descidas técnicas, escorregões e algumas paradas para ver a incrível paisagem de Bombinhas, fiz um tempo bem pior do que imaginava: 6h27.

Mas tudo bem: foi uma iniciação em corridas por trilhas mais longas e mais árduas e eu nem sabia bem o que esperar.

Agora sei.

Sei que doeu, que é bem diferente de corrida de rua, que há elementos muito mais imprevisíveis que o asfalto e cenários tão acachapantes que dificilmente esquecerei.

Amei cada quilômetro.

Agora quero mais.

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Mais algumas fotos que encontrei pela Web:

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E mais outras publicadas diretamente no Facebook da Indomit:

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Clima animador para a Indomit?

Já fiz algumas provas sob chuva pesada (como a Maratona do Rio de 2012) e sob ventos de mais de 50km/h (Ultra de Two Oceans, 2013). Mas todas elas foram sempre no asfalto, o que ajuda a ter um tipo de controle maior do ritmo e das circunstâncias como um todo.

Em trilha, claro, isso muda. Para começo de conversa, há lama. Muita lama, dependendo da água que vier de cima.

Há trechos escorregadios, poças que podem ficar do tamanho de pequenas piscinas e assim por diante. Na minha cabeça, aliás, passar por uma prova de trilha com condições pouco convidativas é uma experiência que todos deveriam ter.

Mas poxa…. não precisava ser exatamente na minha estreia em corridas de trilha mais longas!

Ontem à noite olhei a previsão para Bombinhas no sábado, data da Indomit: 90% de chance de chuva!

Parece que os 42km serão (literalmente) regados de mais emoção e com mais dificuldades! Não vou dizer que fiquei entusiasmado com isso não… mas, também, não dá para negar que essa falta maior de controle sobre fatores externos faz parte da graça de se correr em trilhas.

Tendo dito isso, que venham o sábado e a Indomit! E que cheguem com toda a ira que uma trilha insana tiver para mostrar!

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Vídeo com dicas para a Indomit K42 Bombinhas

Empolgado pelo vídeo de ontem, sobre o DUT, acabei acordando para o fato de que minha preocupação maior deveria ser a Indomit K42 que, afinal, acontece neste sábado!

Pelo jeito, será uma corrida com direito a muita chuva, lama e todo tipo de dificuldade que serve como boas vindas para novos corredores de trilha como eu. Como o vídeo da prova tem apenas imagens promocionais, busquei um da MidiaSport mais interessante, com relato gravado ao longo da prova e ilustrando melhor os seus altos e baixos. Para quem se interessar vale conferir abaixo.

(O post feito pelo Enzo Amato também é bem interessante e pode ser acessado clicando aqui.)