Velocidade na recuperação da velocidade

Ontem à noite saí para 1h15 de corrida no Ibirapuera. A ideia era continuar perseguindo a velocidade que me deixou desde que voltei da Patagônia, meta na qual devo persistir pelo menos pelos próximos meses.

Não fiz feio.

Ainda estava seco quando estacionei o carro mas, já nos primeiros passos, gotas que me fizeram questionar se chovia granizo começaram a despencar do céu. De início, eram tão grossas que parecia possível ziguezaguear por entre elas, ficando seco enquanto todos buscavam cobertura em algum lugar longe das árvores que ameaçavam voltar a cair como na semana anterior.

Depois, o vento e uma maior força das águas fizeram o parque parecer um imenso chuveiro.

Uma observação: eu não estava aqui na semana passada. Houve um dia em que tantas árvores caíram no Ibirapuera que, pela primeira vez em décadas, ele teve seus portões fechados por uma questão de segurança.

Dias depois, parecia haver uma espécie de trauma coletivo quanto a isso: todos os corredores, vendedores locais e transeuntes estavam com ar de medo, escondidos sob qualquer pedaço de concreto que conseguiam encontrar. Todos olhavam para o céu com a esperança de que mar virasse sertão o mais rapidamente possível. Esperança vã, diga-se de passagem.

Com e memória vazia, sem ter testemunhado o caos, foi fácil para mim ignorar tudo isso. Partindo do princípio de que chuva não mata, apenas molha, continuei cruzando o parque em ritmo firme, rápido, tranquilo. A água refrescava, lavava, até divertia.

Foi uma corrida sensacional e com uma meta mais que bem executada, tendo 14km rodados em 1h15. Missão cumprida.

Parcialmente, pelo menos.

Hoje cedo, antes do sol raiar, estava na rua novamente para outra volta no parque.

Desta vez, o intuito não era manter pace fixo por muito tempo mas sim alterná-lo em 9 tiros de 1 minuto cada, sanduichados entre aquecimentos e desaquecimentos que totalizavam pouco mais de 1h de corrida.

Queria ver o desempenho sobre pernas cansadas por uma sessão feita poucas horas antes.

Mas o dia parecia tão diferente, iniciando com uma lua imensa brilhando sobre um céu sem núvens, cedendo espaço para um amanhecer incrivelmente multicolorido, que dificilmente parecia ter havido um temporal pouco tempo antes. Na verdade, a corrida da noite anterior parecia ter ocorrido há meses.

E, apesar do cansaço das pernas ter discordado disso, a mudança no visual climático enganou bem a mente.

Tudo, afinal, é uma questão de escolher o foco mais eficiente, confortável, no qual se concentrar.

Os 9 tiros não foram os mais rápidos da minha vida – mas saíram bem. Foram executados, milimetricamente precisos, sem nenhum contratempo.

Ao chegar de volta em casa senti o corpo pedir descanso. Tudo bem: além do restante do dia teria ainda amanhã para relaxar as pernas antes do longão de sábado – que também não será nada tão puxado, ficando na casa das 2 horas para evitar sobrecargas desnecessárias.

Quando saí para a minha primeira corrida na terça, a preocupação quanto à perda de ritmo foi relativamente grande. Mal podia eu imaginar que, dois dias e dois treinos depois, já começaria a me sentir inteiro de novo.

O corpo, às vezes, é muito mais rápido do que a mente imagina.

2015/01/img_6443.jpg

Lentidão gerada pelo excesso de montanhas

Quando se está correndo solto por trilhas e montanhas, dificilmente se olha para o relógio em busca de intervalados bem feitos ou tiros. Busca-se apenas aproveitar paisagens únicas e a experiência de se sentir parte de algo muito maior do que tempos e asfaltos podem proporcionar.

Quando o período nas montanhas é grande, esse desprendimento rapidamente vira uma espécie de hábito. Lá nas subidas, correr e caminhar se alternam de maneira absolutamente simbiótica e sem preconceito: caça-se vistas geradas pela altimetria e não quilômetros gerados pelo asfalto plano.

Corrida, no entanto, não é caminhada – são esportes diferentes, com efeitos diferentes no corpo e na cabeça.

Estou descobrindo isso agora. Hoje, mais precisamente, depois de voltar da minha primeira sessão pós-Andes lá no Ibirapuera.

Em tese, uma sessão de dificuldade média: duas séries de progressão incluindo, cada uma, 2′ em zona azul, 3′ em verde, 4′ em amarelo e 5′ em vermelho.

Os 15 minutos de aquecimento inicial já foram meio difíceis, soltando a musculatura das pernas. Mas, depois disso, desafiar o ímpeto irrealmente natural de caminhar ao invés de acelerar foi difícil.

A cada esquina ou mini subida o corpo baixava a marcha por conta própria – e eu forçava nova aceleração; meu ritmo, ao invés de subir até pela falta do peso extra da mochila de hidratação, permanecia teimosamente igual; e o cansaço era decididamente maior que qualquer subida do Cerro Bayo, Belvedere, Inacayal ou Arrayanes.

Os 10 dias nas montanhas me inspiraram como poucas coisas antes – mas também me deixaram mais lento.

Essa volta à rotina será focada na recuperação de performance – pelo menos em níveis mais aceitáveis.

/home/wpcom/public_html/wp-content/blogs.dir/5b7/69502451/files/2015/01/img_6436-2.jpg

As luzes do Ibirapuera

Fazia algum tempo que eu não corria à noite: a última vez já deve fazer pelo menos um mês, antes das luzes de Natal se instalarem no Ibirapuera.

Ontem, no entanto, foi dia de intervalados – e a manhã atribulada acabou empurrando a planilha para depois das 20:00.

Para falar a verdade, eu nem me lembrava que o Ibira estava iluminado: o sol do verão, às vezes, nos faz esquecer que a noite sequer existe. Mas foi só eu me aproximar do parque e, de repente, músicas começaram a ecoar pelos céus, animando um show de águas nas fontes para uma plateia que persistia presente, teimosa, ignorando a garoa fina que caía. E isso tudo com milhares de luzes pintando as árvores ao fundo.

Na mesma hora eu desliguei o podcast e fiquei ali, absorvendo o clima a cada passo. Normalmente eu gosto do silêncio que acompanha corridas nas horas extremas do dia, seja no começo da manhã ou noite adentro – mas o barulho bem orquestrado de ontem foi muito, muito bem vindo.

O ano – ainda bem – está acabando.

Ele está levando consigo, sem dó, cada gota de energia que eu havia reservado para 2014: mas a cena de ontem ajudou a me dar pelo menos mais algum impulso para chegar inteiro ao dia 31.

IMG_6168.JPG

Checkpoint semanal: Velocidade, tempo e centro

De vez em quando, uma semana de treino acaba se transformando em um período de descobertas.

Apesar de não ser obcecado por pace, notei que estava lentamente diminuindo minha velocidade média na medida em que passava mais e mais tempo nas ruas. Até aí, nenhum problema: aproveitar é o verbo mais importante quando se corre, ao menos em minha opinião.

Mas aí algo diferente aconteceu: juntamente com a perda de velocidade veio um desnecessário aumento do cansaço. Ou seja: estava correndo menos e cansando mais, uma combinação decididamente ruim.

Aí decidi ouvir – finalmente – o meu treinador.

A contragosto, diminui o tempo na rua e aumentei a velocidade por meio de mais tempo runs e intervalados. Ainda estou na primeira semana dessa mudança – mas os efeitos já estão acontecendo.

Fato: tenho voltado exausto das corridas em dias de semana – mas mais motivado, como se cada minuto tivesse valido mais a pena.

Faltava alguma coisa, no entanto: algo que me fizesse aproveitar mais nos momentos mais livros – os finais de semana.

Bom… no domingo passado, mudei o percurso tradicional e me mandei para o centro de São Paulo, rodando Pinacoteca, Luz e toda uma gama de prédios belíssimos e históricos. Foi como fazer turismo em minha própria cidade, com tempo e disposição. Amei.

Repeti a dose ontem, no sábado, só que fazendo uma outra parte do centro e indo até o Palácio do Ipiranga. Foi um longão memorável, daqueles que transformam corridas em passeios intensos. E esse veio com um bônus: descobri que o centro de São Paulo é quase uma cordilheira: a quantidade de morros, tanto pela região da Sé e seus vales quanto pela Aclimação, entre o centro e o Ipiranga, delineiam o perfil perfeito para se treinar em subidas e descidas.

Hoje voltei ao centro, fazendo uma mescla mais livre do percurso e incluindo Sala São Paulo, Sé, Municipal e região da Bolsa de Valores. Rodei por algumas ruas novas e desconhecidas por mim, repletas de casarões incríveis, e voltei pela Consolação. Tudo novo, visto sob uma ótica diferente.

Já disse isso antes e repito: recomendo a todos. Sair da rotina é simplesmente necessário de vez em quando.

E vejam só: no final de contas, ao tentar ser mais conservador no meu treino, acabei me focando em velocidade, ampliando áreas de corrida e ganhando excelentes oportunidades subindo e descendo morros. Perfeito, não?

Screen Shot 2014-11-30 at 11.04.18 AM

O que nos faz perder velocidade: ultras ou não saber treinar?

Quando fiz a Maratona de Chicago, em outubro de 2013, meu treinamento girou quase todo em cima de velocidade – com intervalados de sobra e tempo runs até não poder mais. Foi cansativo e intenso – mas gerou o meu recorde pessoal de 3h38. Nada de espetacular, devo assumir, embora importante para mim.

Foi nessa época que, ao garantir tempo para a baia C da Comrades, comecei a treinar para a ultra. Matei os intervalados e fartleks e me concentrei apenas em morros e tempo runs. Depois, na medida em que o tempo na rua subia, acabei trocando as tempos por volume. Resultado: minha velocidade despencou.

Fiz Comrades dentro da minha meta de sub-11 mas senti que poderia ter me saído melhor.

Quando voltei para Sampa, voltei a dar mais atenção a velocidade. Um treino específico na planilha me “acordou”, por assim dizer: 1 hora em pace de maratona.

Bom… no meu caso, isso significava algo na casa dos 5’/km – pelo menos de acordo com o tempo de Chicago. Mas quem disse que consegui? Se muito, mantive esse ritmo por 10 minutos antes de quase engasgar na respiração!

A meta estava, portanto, definida. Não sabia em quanto tempo, mas definitivamente precisaria recuperar a velocidade que se perdeu nos treinos de ultra.

Já cheguei a comentar sobre isso no último post, mas o fato é que estou me esguelando em treinos duros, fortes. E não é que eles estão dando resultado mais rapidamente do que o imaginado?

Hoje saí para quatro tiros de 6 minutos (algo que beira uma tempo run). Como tenho prova no domingo, a ideia era não me matar e pegar mais leve.

Olhei para o relógio em um dos tiros: estava a 4’30″/km praticamente sem alterar a respiração! De alguma forma, talvez magicamente, alguma parcela da velocidade parece ter voltado às pernas mesmo com apenas um mês de treino intenso!

Nos tiros seguintes, a mesma constatação. Estava bem, inteiro e, ao menos pelos parâmetros pós-Comrades, veloz.

Por outro lado, meu volume semanal caiu para a casa dos 65km, ao menos por enquanto. Isso será um problema?

Dado que ainda restam 2 meses para o DUT, tudo aponta para um “não”. A princípio, tenho tempo para ganhar volume e essa recuperação de velocidade deve ser mantida em uma espécie de equilíbrio que não sacrifique nenhum dos dois elementos.

Sempre ouvi dizer que corredores de ultra são lentos por natureza. Mas talvez isso não seja exatamente verdade. Talvez seja apenas uma questão de saber dosar bem o treinamento, algo que realmente fica mais difícil na medida em que os quilômetros se alongam.

Difícil, no entanto, sempre esteve longe de ser impossível. Não é?

20140704-085326-32006774.jpg