Como lidar com a imprevisibilidade

Se tem uma palavra que define bem corrida de montanha, ela é “imprevisibilidade”. Pode-se trabalhar como quiser no preparo, montando um treinamento “perfeito”, juntando o kit ideal, calculando os tempos nos pontos de controle com a exatidão de um matemático… Mas, ainda assim, as chances de erro são grandes.

E por quê? Porque, no final das contas, sempre dependemos da caprichosa vontade de Pachamama, também conhecida como Mãe Natureza. 

Me preparei para uma corrida longa, técnica e relativamente seca neste final de semana. Ela será longa e técnica – mas quis Pachamama que fosse também quase tão úmida quanto o oceano. Fazer o quê?

No começo, entrei em pânico: checava o Wearher Channel diariamente, acompanhava notícias da região, repassava o kit por horas a fio. Lama e eu, afinal, nunca nos demos muito bem.

Mas, com o tempo, acabei me ligando de uma coisa fundamental: ninguém está me forçando a nada. Me inscrevi nos 100K da Indomit Costa Esmeralda porque quis, comprei passagem e hospedagem sozinho e estou embarcando para Santa Catarina com os meus próprios pés. 

E, por mais que corredores de ultra sempre persigam o desafio, a superação e coisas do gênero, no final buscamos a mesma coisa que todo mundo: diversão. 

Largarei à meia noite da sexta pra o sábado para cruzar a Mata Atlântica, descobrir vistas novas, cair e levantar, me sujar feito uma criança, ficar ensopado e, espero, rir muito. 

Levei um tempo para aprender essa primeira lição, mas fico feliz que a tenha aprendido a tempo: a melhor maneira de lidar com a imprevisibilidade do tempo é sempre ter em mente que, no final das contas, só viemos mesmo ao mundo para nos divertir.

Que as quase 20 horas de prova sejam inesquecivelmente divertidas.

  

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Lição aprendida com o Indomit: tipo de terreno importa tanto quanto distância e altimetria

Quando se faz qualquer tipo de transição, costuma-se levar em conta apenas as variáveis já conhecidas. No meu caso, a mudança do asfalto para a trilha incluiu treinos e análises sobre os dois principais parâmetros que considerava em provas: distância e altimetria.

Assim, todo percurso de prova era encarado de maneira bidimensional: contavam quanto eu correria e quanto subiria. Só.

Mesmo quando ouvia que percursos eram excessivamente técnicos o que considerava apenas eram graus mais severos de inclinação – como se isso bastasse.

Aí veio a Indomit Bombinhas e uma lição que todo corredor em transição deve ter.

A altimetria da prova não é tão severa: cerca de 1.200 metros ao longo de 42K – menos do que faço em um longão cotidiano de sábado. As subidas e descidas, em circunstâncias normais, não seriam tão tensas e até permitiriam uma visão que tendesse a esse bidimensionalismo do asfalto.

Mas, em trilhas, há sempre o elemento inesperado. No caso de Bombinhas, a chuva.

Com chuva, a terra vira lama, as descidas viram escorregadores, as subidas viram um desafio mais mental do que físico.

Com chuva, os olhos se focam no chão (e não na paisagem), fazendo o tempo se esticar para além do marcado no relógio.

Com chuva, outros corredores diminuem o pace em trilhas de uma via só, forçando uma queda talvez mais desestimulante do que o efetivamente necessário.

Com chuva, tudo muda.

E aí veio a lição, mesmo que com alguns dias de atraso: o tipo de terreno (aliado, às vezes, a imprevistos meteorológicos) é uma variável tão importante quanto distância e altimetria. A chuva é apenas um exemplo: neve, areia de praia, dunas, trechos que incluam pequenos riachos, enfim: sempre há algo que deva ser levado em consideração.

As quase 6 horas e meia que passei no Indomit – que, diga-se de passagem, foi uma prova sensacional – me deram essa dura (e muito bem vinda) lição.

Agora é digeri-la e usá-la mentalmente em outras provas.

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