Checkpoint: Semana estranha, missão cumprida

Teve de tudo: insolação, febre, gripe, falta de acostamento para correr, 40 graus, umidade maior que o Oceano Atlântico. Me senti até um velho rabugento de tanto que xinguei Walt Disney por ter escolhido um pântano infernal para erguer o seu parque.

Em cima de tudo isso, claro, tinha que trabalhar “normalmente” e encaixar, nas madrugadas, 75km. Ou 55, já que os 20 finais foram feitos hoje, já de volta a Sampa.

Nem acreditei quando dei os passos finais do dia de hoje, depois de ter rodado pelo nosso centro decrépito e pelo sempre maravilhoso Ibirapuera: missão cumprida. 

No total, foram 3 sessões de 20km e 1 de 15km, preenchendo a semana com pequenos longos antecedendo verdadeiras ultras diárias pelos parques da Florida. Mas isso é outra história para algum outro blog.

Por enquanto e por aqui, é hora apenas de encerrar a semana com aquela sensação de incredulidade por ter realmente conseguido executar o planejado.

Agora é voltar à rotina.

   
 

Longões na Disney

Correr pela região da Disney é uma experiência para lá de ruim: as ruas não tem acostamento, os lugares são todos afastados uns dos outros para que se arrisque com segurança (se é que isso existe) e o calor é digno do verão amazônico.

A parte de correr sem acostamento é a pior: mesmo indo pela contramão, os carros e ônibus que passam tiram finos de gelar a espinha. Há, claro, a alternativa de se correr nos resorts, que sempre tem pistas internas bem cuidadas – mas aí o problema é a distância curta. A quase totalidade deles tem, no máximo, 2 ou 3kms “corríveis”, forçando loops atrás de loops para se completar planos como o meu, de 15 a 20km/ dia.

No final do dia de ontem decidi improvisar. 

Fui pela rua mesmo, me espremendo contra árvores e metendo os pés nas gramas altas e cheias de poças, até a região de Downtown Disney. Foram 4km com o pensamento fixo em achar uma nova rota.

Achei – o que não significou muita coisa, diga-se de passagem. Correr por lá foi como correr ao meio dia de domingo no Ibirapuera: era tanta gente, mas tanta gente, que a endorfina acabava se metamorfoseando em doses de estresse. Completei a volta e saí pela rua de novo. 

O tráfego, no entanto, estava tão intenso que decidi cortar o caminho por algum lugar qualquer. Tal foi a minha surpresa quando, de repente, me deparei com uma pista escondida saindo de Downtown Disney e cruzando um campo de golf fenomenal!

Segui, meio receoso de estar invadindo mas seguro de não ter visto nenhuma placa ou portão de alerta. Pelo gps, via apenas que estava na direção certa.

À frente, uma paisagem digna de descanso de tela do Windows: morros verdes meticulosamente cuidados, pontilhados por laguinhos de água negra e buracos com areia branca, tendo ao fundo árvores gigantes emoldurando um por do sol impressionista. 

Há, na vida de qualquer corredor, um punhado de lugares tão belos que nunca saem da mente. Por mais artificial que toda a Disney seja, por menos natureza bruta que ela exiba e por mais cara de “cidade de isopor” que tenha, aquele foi um deles. 

Algumas cenas, creio, acabam sendo perfeitas demais para escaparem às nossas lembranças. Que bom: aquele inesperado campo de golf definitivamente foi uma delas que espero ficar comigo para sempre.

Fiz a minha parte: rodei para cima e para baixo, aproveitando cada centímetro do lugar e sorvendo cada paisagem que se revelava de curva em curva.

Vi o rio que entrava em meu hotel: segui-lo. 

Em um determinado ponto, o campo de golf era interrompido por uma rua normal, já perto do meu destino. Era hora de voltar para casa: entrei nela e segui 1km pela margem até a entrada do hotel vizinho ao meu e interligado a ele por uma pista de corrida. 

Cheguei nos últimos instantes do por do sol, aproveitando uma paisagem tão perfeita quanto a do campo de golf, com rio, barquinhos cruzando de uma ponta a outra e postes de iluminação ao clássico estilo sulista. 

Parei, fechei os olhos por um instante e respirei fundo, puxando com os pulmões todo aquele cenário.

Encerrei ali minha corrida e minha viagem.

No final das contas, os ‘pros’ foram tão maiores que os ‘contras’ que só trouxe boas lembranças desses últimos 15km. 

Ainda assim, serei franco: aos que planejam visitar a Disney, tenham em mente que não é um lugar feito para se correr e que planejar longões pode ser mais complicado do que completar uma ultra! 

   
 

O que faz valer a pena

Mesmo com tanto calor e umidade, com percursos improvisados por estradas sem acostamento, com despertares horas antes do sol pensar em nascer… mesmo com tudo isso, correr em lugares diferentes vale pelas cenas novas, maravilhosamente estranhas, que as pálpebras colecionam.

Há coisas que dificilmente sairão da mente – como esse caminho que fiz nos 20K de hoje de manhã. Ainda bem.

   
  

Queimado pelo calor do sul dos Estados Unidos

35-40 graus com umidade acima dos 90% intercalados com períodos em locais com ar condicionado digno da Sibéria: não há corpo que aguente.

Ou até pode haver – mas não é o meu. Já fui dormir ontem sem voz, com dor de cabeça e um teco de febre. Acordei às 5 para correr… mas desisti. Há dias em que o melhor a fazer é ceder ao corpo, dando tempo para que ele se recupere. 

Passei o dia com idas e vindas do mal estar… mas melhorando. A cada olhada no céu azul, um arrependimento de não ter aproveitado o asfalto logo cedo; a cada tosse ou incômodo na garganta, um alívio pelo mesmo motivo.

Asfalto, de amanhã você não me escapa.

  

33 graus, 92% de umidade relativa

O problema definitivamente não foi o sol. Tanto hoje quanto anteontem saí com o dia ainda escuro, às 5:15 da manhã aqui na região central da Florida. 

O problema foi o calor perfeitamente temperado pela umidade. 

Saí por uma rota improvisada pela estrada, buscando me fazer visível na contramão dos carros com uma camisa mais brilhante que a luz do dia. Funcionou. 

Se alguém visse a cena a distância – incluindo um céu azul escuro com uma lua imensa reinando absoluta – imaginaria um clima ameno, gostoso. Não era o caso: mesmo no final da madrugada o calor castigava como em poucos outros lugares em que já estive. 

Quando o dia em si nasceu, lá pelas 6:30, sem uma única nuvem, tudo piorou. 

Cada passo vinha acompanhado de jorros próprios de suor.

Por algum motivo, tanto a braçadeira com o IPhone quanto a garrafinha d’água que carregava pareciam mais pesados, quase insuportáveis. 

Nos momentos em que tinha que correr sobre a grama, a umidade nas solas dos pés davam aquela sensação de talho dolorido, rivalizando com o ardor dos olhos por conta das gotas de suor que insistiam em entrar pelas pálpebras para queimar as pupilas. 

A estrada vazia à frente, rodeada de pântanos, mostrava as ondas de calor que o corpo, absolutamente pegajoso, denunciava. 

Tudo estava grudento, molhado, pesado. 

Entrei por caminhos diferentes para variar a paisagem: a sensação de estar no passado confederado americano trazia algum conforto – sempre curti a percepção de correr pela história. Casas e hotéis com a arquitetura sulista se erguiam em frente a lagos com ares de pântano enquanto a trilha sonora, quase que inteiramente feita de sapos e pássaros, completava a paisagem. 

Mas era o calor quem falava mais alto. Muito mais alto.

Na prática, estava fazendo 33 graus com umidade de 92%. Não faço ideia de como calcular a sensação térmica disso, mas certamente não é coisa bonita. 

Ainda assim, depois de 20km nesse cenário novo que mesclava Saara a Amazônia, as reclamações do corpo cederam espaço a uma espécie de alegria esquisita: estava, afinal, experimentando uma espécie de novidade na corrida, cruzando lugares novos e em condições absolutamente diferentes do que esotu habituado. 

Incomodou? Sem dúvidas. 

Doeu? Sim. 

Mas mal posso esperar para repetir tudo amanhã.