Simples assim:
corrida
Bertioga-Maresias 2015
Não fazia ideia do que esperar. Era a primeira vez que estava na largada da Bertioga-Maresias e sequer havia calculado o montante do percurso que seria na areia versus em asfalto.
A meu lado, um velho e grande amigo que havia aceitado o convite para ser meio apoio de bike tampouco conhecia algo da prova. Do outro lado, os amigos Cordeiro e Leandro – este último que acabou chegando em terceiro lugar geral – davam uma aula de organização e disciplina.
Tudo bem: não estava ali para buscar podium, então que viesse o que estivesse por vir.
Saímos da casa do Leandro, na Riviera, às 4:40 da manhã, e chegamos na largada, ao lado do Forte de Bertioga, faltando 5 minutos. Tempo o suficiente para um começo correto, embora atribulado. Começamos.
No começo, o areião sem fim da praia de Bertioga assustava. Não pela areia em si, dura e perfeita para correr, mas pela sua extensão. Sem paisagens muito exuberantes – aquele pedaço não é exatamente uma pérola do litoral – e com uma reta a perder de vista, o desafio já começava como sendo mais mental do que físico. Me lembrei do motivo pelo qual curto corridas em montanha. Não é pelas trilhas em si, mas pela quantidade de surpresas que se escondem em cada curva, em cada cume, em cada vale. Nas montanhas, é impossível passar mais de 2 ou 3km sem se surpreender com alguma paisagem diferente. Surpresas empolgam, recarregam a adrenalina e a endorfina.
Não há surpresas em uma praia de quilômetros e mais quilômetros de extensão reta. Ali havia apenas o mar da mesma cor da areia sujado de vez em quando por uma série de canais, casas pontilhando o lado esquerdo, urubus comendo carcaças abandonadas e uma garoa insistente que nos acompanharia até o final da prova.
Bom… se não há surpresas, há espaço para correr. E corri. Ao poucos, no entanto, a paisagem foi cansando e sentia o meu pace diminuir gradativamente, com direito inclusive a uma pausa para caminhada não planejada em um ponto em que cruzei um pequeno rio. Ainda assim, fechei os 42km regados a chuva, conversas jogadas ao vento com o Zé, meu apoio, e alguns novos conhecidos pelo caminho.
Depois, quando começamos a sair dos areiões para desbravar a parte mais bonita do litoral, uma quebra: a monotonia havia operado seus danos no corpo e a coxa esquerda começava a doer. Dai até o final fiquei alternando entre correr e caminhar, parando apenas para comprar alguma Cocas, para visitar alguns banheiros e agradecendo sempre que alguma trilha se colocava no caminho entre uma praia e outra.
Em tese, os 25km finais deveriam ser os mais difíceis. E, a julgar pela altimetria, certamente o foram: mas paisagem faz toda a diferença. As serras cansaram, claro: mas os trechos passando pela Barra do Una, Juquehy, Praia Preta, Barra do Sahy, Baleia, Camburi, Boiçucanga e, claro, Maresias, foram absolutamente sensacionais. Mesmo com tempo fechado e chuva, as vistas dos altos das serras eram inesquecíveis.
Nos postos de controle, o apoio do público era absolutamente estimulante, fazendo com que a endorfina surgisse em ondas poderosíssimas. Nas areias das praias, banhistas olhavam meio incrédulos para os grupos de corredores que vinham da já distante Bertioga e até o calor decidiu aparecer para mudar o visual.
Mas, de todo o percurso, o mais empolgante foi justamente a subida da Serra de Maresias, com 3km de subida íngreme pela Rio-Santos. Não era um trecho de praia mas a soma de chuva, neblina e Mata Atlântica dava uma sensação de desafio intensa, reforçada ainda sempre que se via algum ciclista parado, recuperando o fôlego, à frente.
Alternei caminhada com um trote leve, usando a empolgação para matar o cansaço.
Cansaço.
Não havia antecipado o quão dura essa prova seria. Se a altimetria fosse mais espalhada, se houvesse menos retões infinitos, se as praias do começo fossem mais bonitas, talvez a prova em si fosse diferente. “Se’s”, no entanto, tem pouco lugar em ultras. Enquando chegava no topo da Serra me dava conta de que o desafio era justamente esse: uma prova que, diferentemente da maioria, inverte o desafio: começa testando a mente, depois força o corpo e, ao final, exige sacrifício de ambos.
Nunca havia feito uma prova com essas características – uma experiência bem vinda por ser diferente, inusitada. Experiências assim só somam.
Estava pensando nisso quando, depois de ter descido a Serra em uma alternância de pace por conta de dores no estômago, entrei na praia de Maresias.
Faltavam menos de 15 minutos para que eu fechasse 9 horas de prova e os últimos 2km eram de areia sadicamente fofa.
Olhei para o relógio.
Olhei para a frente.
Respirei. E corri.
Usei cada gota de energia restante para atravessar o areial, ora preferindo o trecho inclinado rente ao mar (com direito a ondas que chegavam aos joelhos), ora subindo pelo trecho mais fofo porém reto. Vi o relógio da linha de chegada bater cada segundo com força sonora.
Pensei nas pausas que fiz. Tivesse meu estômago se comportasse melhor, tivesse parado menos para comprar Coca, tivesse treinado mais para o trecho monótono do começo… Hipóteses se acumulavam, pesavam.
As pernas, no entanto, ignoravam cada uma delas. Dei tudo de mim nos quilômetros finais e cruzei a linha de chegada com o Garmin apontando 8:59:55.
Ultra Bertioga-Maresias terminada.
Ao final, abraços nos companheiros de prova e, claro, um agradecimento todo especial ao Rogério “Zé” Augusto, que seguiu de bike como meu apoio, e aos amigos que me deram abrigo: Leandro, Cordeiro, Daniel e Carol.
Que venha agora uma semana com merecido descanso!
Checkpoint: Joelho melhor, velocidade subindo e ultra à vista
Poucas palavras definem melhor esta semana.
Depois de idas e vindas das dores, descobri que um tênis velho havia, aparentemente, perdido o seu “mo-jo” e estava quebrando a minha biomecânica.
Como parte da “recuperação”, optei por trechos com menos inclinação e turbinei a velocidade. Funcionou: fechei bem a semana e ainda pude contemplar gráficos de pace nos seus melhores dias.
Finalmente, foi o fechamento da última semana pre-prova. Foi-se o pico, somaram-se 78km nos últimos 7 dias e, embora com a musculatura meio cansada, me sinto em uma das melhores formas que já estive.
Agora é descansar nos próximos dias, diminuindo volume (e compensando de leve com mais intensidade) e largar para as areias do litoral norte paulista.
Cruce……..
De todas as provas que tenho alinhadas no meu futuro próximo, o Cruce é sem dúvidas a quem mais tem me deixado empolgado.
Só o prospecto de voltar a correr na região dos lagos andinos – uma das mais belas que já vi na vida – cruzando montanhas e passeando por dois países já faz a endorfina arrepiar cada pelo do corpo.
Ver um vídeo assim, então, é de matar…
Que chegue logo fevereiro!!!
El Cruce 2014 | Kailash Team Neptunia from Morfina Filmes on Vimeo.
‘All systems go’!
Acordei com aquele medo natural que, psicologicamente, “gera” dor justamente onde mais se teme tê-la. Me revirei, pensei, calculei e concluí: não seria inteligente rodar 4 horas hoje.
Por outro lado, também não seria inteligente sucumbir ao medo.
Escolhi uma rota menor: Sumaré, Jardim das Perdizes, Parque da Água Branca, Pacaembu, Brasil e Ibirapuera. Na rota, uns 25km rodados em todos os ritmos possíveis e aproveitando subidas e descidas.
No segundo km, confesso que um pequeno incômodo realmente apareceu para me apavorar. Mas foi só deixá-lo de lado e, como sempre, prestar mais atenção na biomecânica. Aquele foi o último momento que senti dor.
Dali para a frente foi só treino natural, normal, como um sábado qualquer. 25km, pace de 5m54s/ km lisos, fluidos.
E com mais um bônus: a possibilidade de fechar a quilometragem semanal como originalmente planejado, dobrando a carga de amanhã para 3 horas. Melhor que a encomenda.
De toda forma, seja como for, o ponto alto do dia foi concluir que estou já normal, intacto. E pronto para a Bertioga-Maresias!
Ufa!
Abrindo a semana de pico
Semana de pico começando. Com ela, vem as dores musculares acumuladas, a expectativa de um descanço leve precedendo uma prova longa, uma preparação mental que começa a se intensificar.
Hoje já foi 1h30 cedo, somando 16km. Até o final da semana, entre 90 e 95km devem ser rodados, incluindo aí 4h que devo rodar no sábado.
Em períodos assim, costumo ligar um “mode” de foco total: penso apenas na prova-meta, deixo tiros de lado e troco por rodagens em ritmo equilibrado (porém forte) e me forço a levantar regradamente como se fosse um robô. Até hoje, tem funcionado – e não há porque ser diferente agora.
Dia 17 tem os 75km entre Bertioga-Maresias. Já vi vídeos, rotas, altimetria e me emp0lguei com o sempre delicioso prospecto de rodar por horas pelo litoral norte paulista.
Agora é fechar essa fase do treinamento.
Os primeiros e mais importantes passos
Deu até saudade de quando comecei a dar os meus primeiros passos no Parque do Povo :-)
Por que não criamos ultras mais relevantes no Brasil?
Todas as ultras mais desejadas do mundo tem uma característica essencial: um apelo emocionalmente poderosíssimo para os corredores. E esse apelo pode ir por três lados: relevância histórica, dificuldade colossal ou beleza estonteante. Frequentemente, aliás, esses três elementos estão juntos.
Exemplos?
O percurso da Comrades não é exatamente incrível – mas seus mais de 90 anos de história, a força que exerce sobre toda uma nação e as lendas que giram em torno dela a fazem ímpar.
Spartathlon, na Grécia? Junta a dificuldade homérica de se completar 246km em menos de 36 horas – com pontos de corte no mínimo sádicos – com o peso histórico de se estar refazendo o percurso de Filípides.
El Cruce? Precisa falar alguma coisa da sua beleza estonteante? A experiência de cruzar os Andes e beber uma paisagem daquelas por dias está longe – muito longe – de ser considerada corriqueira.
A Marathon de Sables, com quase uma semana para se cruzar 254km no Saara, não é considerada tão difícil quanto outras do gênero por ter postos de corte mais generosos – mas, da mesma forma que o Cruce, permite se testemunhar cenas absolutamente inesquecíveis.
E por aí se vai. TransVulcania, Barkley, Mont Blanc (UTMB)… todas tem um ou mais destes três ingredientes.
Agora olhemos o Brasil.
Das poucas ultras que temos em nosso solo, a única que realmente se destaca é a Jungle Marathon – e que é mais famosa no exterior do que aqui. Mas há tantos locais incríveis no Brasil que, honestamente, não fazer uma ultra neles é jogar fora oportunidades. Exemplos práticos?
Começo com o que nós mesmos fizemos no começo do ano, por conta própria: a Ultra Estrada Real. Refazer o caminho dos mineiros no auge do ciclo do ouro e terminar aos pés da estátua de Tiradentes em Ouro Preto em plena Páscoa, época que toda a região fica deslumbrante, certamente é uma candidata. Dezenas de corredores participaram dessa iniciativa que começou por aqui e que, aparentemente, terá alguma continuidade.
E outros locais?
Correr no sertão em pleno verão escaldante certamente seria um belo desafio. Aliás, o amigo André Zumzum organiza o Caminhos de Rosa que é justamente isso – com o bônus de acontecer na trilha das histórias do mestre Guimarães Rosa. Não fosse tão longa – ela tem 263km – eu participaria na mesma hora.
Há outro sertão perfeito: Canudos. Terra de santos, beatos, guerras e de um dos episódios mais marcantes da nossa história, seria um desafio e tanto.
E Lençóis Maranhenses? Uma prova por suas dunas seria inesquecível e atrairia gente de todo o mundo.

Chapada Diamantina? Que me conste, há apenas uma maratona por lá – mas há terreno suficiente para se explorar distâncias maiores com pérolas espalhadas por ela.
Falando em Chapada, há a dos Veadeiros que tem o pitoresco Vale da Lua.
O Rio de Janeiro também poderia receber uma ultra. A cidade é inegavelmente uma das mais lindas do Brasil e conta com pontos perfeitos como o Pão de Açúcar, o Cristo, a região da Vista Chinesa. Sua cidade irmã, Cape Town, fez uma ultra pela cidade que rapidamente cresceu (Ultra Trail Cape Town).
Lá no sul há a região das Missões ou a Serra Gaúcha. Locais PERFEITOS para se correr em trilhas animais e memoráveis.
Isso sem contar com locais de mais difícil acesso como o Monte Roraima, o Jalapão e tantos outros.

O fato é que vivemos em um país que, embora não esbanje praias como as do Caribe ou montanhas como as dos Alpes, tem belezas inquestionáveis. Também é fato que, senão todos, a grande maioria dos ultramaratonistas vivem para beber cenas marcantes nas trilhas ou ruas do mundo.
Por que, então, as ultras que acontecem por essas bandas cismam em não aproveitar quase nada das nossas belezas naturais?
Tomara que alguém leia esse post e tome alguma providência organizando algo mais parrudo. Uma coisa eu garanto: a minha participação entusiasmada.
Ultra Bertioga-Maresias se aproximando…
Está na hora de começar a focar um pouco nessa prova, que acontece dia 17 de outubro.
O primeiro passo: mergulhar no Youtube e caçar vídeos, relatos, cenas e tudo mais que pode empolgar e inspirar. Convenhamos: não é exatamente difícil se empolgar com uma subida pelo litoral norte paulista…
O outro Tempo
Tempo é algo extremamente relativo para quem corre.
Para qualquer outra pessoa, o dia costuma ser dividido, a grosso modo, em dois grandes pedaços: um apressado, feito de tarefas, prazos e compromissos profissionais, e outro doméstico, quando se começa a cuidar do outro lado – o mais importante, diga-se de passagem – da vida.
Entre um e outro, no entanto, há tempo para se criar um novo pedaço de Tempo.
Digo mais: a meu ver, é o Tempo mais sagrado de todos por ser absolutamente egoísta, por ser exclusivamente seu e feito para que se curta a si mesmo. Ele não costuma começar promissor: o despertador soando às 5 da manhã dificilmente empolga. Mas, aos poucos, acaba-se cedendo à expectativa de se aproveitar esse Tempo.
Aos poucos, roupas vão se trocando, portas vão se abrindo e, de repente, você está lá, só, de frente para uma rua vazia iluminada apenas pelos primeiros tímidos raios de sol.
Você segue.
Passos ritmados, fone ecoando alguma coisa desimportante qualquer. A vida passa em revista, com o dia atual servindo de marco entre o passado recente e o futuro distante. O pensamento viaja por projeções esculpidas sobre a vida alheia de outros corredores, de outros cotidianos, de outras possibilidades.
Cruzando um portão, o asfalto se transforma em trilha e os prédios, em árvores. Tudo muda. Os raios do sol, mais lineares e nítidos, parecem desenhar cores pioneiras nos troncos enquanto mente segue viajando sabe-se lá por onde. O ritmo vai mudando: tempo runs, intervalados, trotes, todas as modalidades se alternam prendendo o corpo a alguma coisa que lembre um planejamento prévio. A mente fica indiferente: tudo o que ela consegue fazer é aproveitar aquelas cenas, aqueles cheiros, aquele calor maravilhoso que assa a pele sob um céu já permanentemente azul.
Tudo é incrível.
E tudo dura pouco mais de 1h30.
A extensão desse Tempo, desse momento intermediário entre os períodos normais, é relativamente pequena. Ainda assim, parece gigante por ser o único não dividido ou compartilhado com absolutamente ninguém além de si mesmo e da própria imaginação.
Depois dessa corrida que beira o surreal, cruzar o portão de casa para começar o primeiro dos Tempos normais é como iniciar um novo dia.
Um novo dia no mesmo dia – mas devidamente dotado de uma espécie de paz interior que poucos conseguem sequer entender.
















