4 maratonas feitas

Falta apenas mais uma, aproximadamente, para fecharmos a BR135. E esse trecho de agora, entre Tocos do Moji e Estiva, foi daqueles duros e perfeitos, daqueles que mostraram como funciona um ultra. 

Já nos primeiros quilômetros, a Zilma quebrou miseravelmente. O estômago travou, ela ficou nauseada e parecia estar se arrastando pelo caminho. Descidas eram lentas. Subidas, arrastadas. 

A solução, no final, veio da equipe: forçá-la a parar e deitar um pouco, descansando o corpo que já se contorcia depois de mais de 30 horas na estrada. 

Foram necessárias duas tentativas: a segunda, ainda bem, funcionou. A partir daí, como que a passe de mágica, ela se regenerou por completo. 

Correu solta, com a Luana como pacer levemente à frente ditando o ritmo, e acabou ganhando boa parte do tempo perdido. Impressionante como parar, às vezes, nos faz acelerar. 

Impressionante este esporte. 

Agora vamos ao último trecho. 

   
   

Cai a noite na BR135+

Foi difícil segurar. A cada trecho mais sinuoso, a vontade de correr junto era simplesmente inabalável. 
E, assim, decidi saltar do carro e subir mais uma meia dúzia de quilômetros na Serra dos Lima, já no pôr do sol. Valeu a pena? Bastou olhar pelo ombro de vez em quando para beber a vista impressionista e responder com plena obviedade a pergunta.
Para melhorar, o fim do trecho incluía um local para – amém – tomar um rápido banho. 
Depois disso era a minha vez de pegar o volante enquanto o Charlston assumia o papel de pacer. E que volante: por conta de pontes que caíram no trecho mais reto, fomos forçados a percorrer, de carro, uma volta de 80km enquanto eles faziam 22 correndo. Foi longa, loonga, loooooonga. 
Depois de 1h30, no entanto, chegamos ao ponto marcado e aguardamos. 
Enquanto isso, para aliviar a cabeça que começava a pesar de dor, encaixei no carro e dormi o sono dos justos. Por inteiros 30 minutos, diga-se de passagem, até eles chegarem. 
Hora de trocar de pacer novamente – mas para a Luana. Meu turno agora era no banco de carona, acompanhando e apoiando com água, refrigerante e tudo mais. 
A esta hora, a noite já caiu profunda: escrevo este post às 1:54 da manhã, enquanto cruzamos a marca dos 100km. Embora cansados, estamos todos bem e inteiros. 
Hora de seguir e torcer para o sol raiar logo trazendo as habituais boas energias.   

 

Trecho 1 da BR: Largada e Pico do Gavião

Furei o planejamento no primeiro metro. Não resisti: larguei junto com a Zilma e segui pelos primeiros 6km de asfalto. Tá: asfalto não é trilha. Mas a vista compensava com toda a região esparramada pela frente. 

Vista, aliás, que seria aperitivo. Depois dos 6K, entrei no carro e me preparei para assumir o posto de pacer em Águas da Prata – o que fiz com ansiedade batendo na testa. Compensou.

Esse primeiro trecho oficial de pacer, saindo de Águas da Prata, subindo e descendo o Pico do Gavião, foram absolutamente fenomenais. Aliás, basta ter a palavra “pico” no percurso que isso é garantia de deslumbramento. O caminho em si já era perfeito, com pinheiros se alinhando nas laterais da estrada de terra, volta e meia cedendo um pedaço de vista para os morros da mantiqueira. O céu, alternando entre um nublado tempestuoso e um azul cintilante, parecia ter sido criado no Photoshop. Aliás, foi como se estivéssemos correndo no fundo de tela do Windows.

  
Nada que se comparasse ao Pico. De lá, do ponto mais alto de toda a prova, a beleza era tamanha que até a elite parava por alguns segundos para se boquiabertar. 

Cenários, em provas assim, são o maior prêmio. 

De la do topo, voltei com ela e encerrei meu primeiro trecho na base, encerrando a primeira das 5 maratonas. 

Com o sorriso na face e o peito endorfinado, era hora de descansar um pouco. 

O próximo trecho será feito solo pela Zilma. Somente daqui a alguns quilômetros o segundo pacer, Charlston, assumirá o manche. 

   
   

  

Programação da BR 135+: Divisão de trechos com pacers e metas

21 de janeiro de 2016, 5:53 da manhã. Hora de organizar o carro e partir para a largada. 

Ontem à noite já definimos a nossa programação, distribuindo trechos entre os 3 pacers e deixando o mínimo possível de momentos em que a Zilma percorrerá sozinha. Há dois pontos de preocupação: o começo, entre os km 76 e 97 (da Serra dos Lima ao povoado de Crisólia), que teve estragos grandes causados pela chuva dos dias anteriores (incluindo queda de pontes e um lamaçal bíblico); e a noite, que a organização do evento impõe a necessidade constante de pacers. 

  1. Nossa divisão foi feita assim: 
  2. O primeiro trecho (19km), de São Joao da Boa Vista a Águas da Prata, será percorrido solo;
  3. Eu assumo daí por 23km, incluindo subida e descida do Pico do Gavião;
  4. Os 18km até Andradas serão percorridos solo pela Zilma;
  5. A “zona tensa”, com 18km entre a Serra dos Lima e Crisólia, será feita junto com o Charlston;
  6. Nova corrida solo, de Crisólia a Ouro Fino, com pouco mais de 6km;
  7. Luana assume de Ouro Fino até a marca da terceira maratona, somando mais 23km;
  8. Daí será a minha vez novamente, indo de lá até Tocos do Moji (24km), já durante a noite;
  9. De Tocos do Moji até Estiva, mais 21km, Charlston assumirá o manche;
  10. De Estiva a Consolação, mais 19km, será a vez de Luana;
  11. Finalmente, de Consolação a Paraisópolis, os últimos 22km que fecharão a prova, será a minha vez. 

Há, claro, margens relativamente folgadas de erro nessa programação. A mais óbvia: a soma de todas essas distâncias dará 212km, sendo que a prova tem 217km. Onde foram parar os 5km de diferença? Nem ideia. A organização oficial parece ter desconsiderado-os. 

Por outro lado, há também o fato da prova ser corrida em estrada de terra e em uma zona cheia de “buracos” na comunicação com os satélites. Nesse sentido, 5km de diferença acaba até sendo pouco. 

De toda forma, estamos bem cobertos, com a maior parte dos trechos correndo em duplas e o suporte do carro em praticamente todo o percurso. Me parece que isso é o máximo que uma equipe novata de apoio conegue chegar – e estou bem confiante em tudo. 

Vamos ver o que acontece ao longo dessas próximas horas!

A título de curiosidade, essa programação incluirá as seguintes distâncias percorridas por cada pacer: 

  • Ricardo:  69km
  • Charlston: 39km
  • Luana: 42km
  • Total de km corridos acompanhados por pacers: 150km

Nossas metas:  

  • Meta A: 32 horas
  • Meta B: 36 horas
  • Meta C: 40 horas
  • Tempo limite estabelecido pela organização: 60 horas (sendo que a ampliação frente às originais 48 horas foi anunciada ontem, no congresso técnico)

Boa sorte a todos nós!

  

Uma seita

Reunidas em um ginásio, algumas centenas de pessoas devidamente trajadas de ultramaratonistas – com barbas meticulosamente longas ou propositalmente mal feitas, camisas exibindo logos e palavras de ordem, tatuagens espalhadas pelo corpo e olhares de fundo infinito – começavam a tarefa de reconhecimento. 

Saudações de quem não se via há algum tempo rapidamente se metamorfoseavam em pequenas histórias, lendas de trilhas e asfalto que corriam de boca em boca, gerando uma mescla de risos com exclamações. Alguns caminhavam até o mapa gigante do percurso que, dividido em duas distâncias – 217 e 260km – praticamente gritava dificuldade. Olhavam, pensavam, faziam contas mentais e, com alguma respeitosa soberba, voltavam aos seus lugares. 

Hora do anúncio. Alguém teve a ideia de pedir para que todos os veteranos da BR135+ subissem ao palco e se apresentassem. Não digo que foi uma boa ideia: o congresso técnico acabou se estendendo por valiosas horas. Por outro lado, deixou uma coisa clara a novatos ou observadores: por estranho que pareça, a BR é uma corrida de veteranos. 

Mesmo os que estreiam no percurso o fazem, em sua maioria, depois de ter apoiado algum outro atleta como pacer. Todos parecem conhecer bem o desafio. Todos parecem se conhecer, se reconhecer, e entender. Os olhares já transmitem algum tipo de cumplicidade que quase inexiste em outras provas. 

É uma seita. 

Uma seita que tem como Deus supremo algo amorfo, inexplicável, intangível: a energia da endorfina coletiva gerada ao longo da travessia da Serra da Mantiqueira. É a essa energia que todos parecem saudar, de alguma forma meio zen; é ela que une e reune corredores, que salta da boca de veteranos ou do comandante que dirige a prova, que transforma os olhares de expectativa em orgulho. 

Aparentemente, é esse Deus que será saudado amanhã, às 8, na linha de largada, em São João da Boa Vista. 

E foi ele que já se mostrou enfaticamente presente nessa primeira reunião de súditos. 

  

A caminho da BR

Malas prontas. 

2 headlamps, mochila de hidratação, meias extras, camisa do time de apoio, colete refletor, um carro abarrotado de malas, time completo com um total de 3 pacers (além da corredora, claro) e muita, muita gana.

Neste instante rumamos para São João da Boa Vista, ponto de largada da BR. 

De lá, toda uma nova experiência – ao menos para mim – me aguarda.

  

Descobrindo novas cidades em trilhas urbanas

Quem corre em trilhas gosta – obviamente – de um contato mais intenso com a natureza. Não quero dizer nada exatamente “zen-zóide”, claro – mas cortar montanhas, subir pedras que desembocam em vistas quase lisérgicas, traçar caminhos em areias de praias ou em dunas… Tudo isso tem um encanto bem maior do que qualquer prova de rua. 

Só que eu moro em São Paulo.

Há trilhas por aqui? Há, claro. Consegue-se descobrir trechos de “mini-florestas” em pequenos parques como o Burle Marx ou o Alfredo Volpi, na lateral do Ibirapuera, no sensacional Parque do Carmo ou até mesmo dentro da USP. Mas, ainda assim, são circunferências protegidas, muralhadas, fechadas. 

E como juntar a necessidade de desbravar novas matas com estar em uma paisagem tão urbana? 

Aproveitando-a – claro. Há vantagens em se estar em uma cidade como Sampa: cada esquina tem sua história, tem seu motivo, tem seu contexto. Cada bairro esconde seu segredo, sua origem de nobreza ou pobreza, seu futuro incerto traçado nos rostos de seus moradores. 

E, mais, há uma infinidade de possíveis trilhas, embora todas essencialmente urbanas, que se pode fazer em São Paulo. A de ontem, por exemplo, foi diferente. Larguei da represa de Guarapiranga, em um dos extremos da capital paulista, saindo de uma avenida batizada, por ironia ou inveja, de Atlântica. Margeei a represa enquanto jet-skis, wind-surfs e veleiros a coloriam de calma. 

E, por lá, cruzei o bairro do Socorro, entrando pela Santo Amaro. Parei na estátua do bandeirante Borba Gato, imensa, meio esquisita, com um olhar meio que distante buscando novos horizontes a desbravar. Poucas cidades no mundo homenageiam genocidas tanto quanto São Paulo: ignora-se as vidas que eles ceifaram, exalta-se o espírito aventureiro com que adentraram as matas e clamaram terras. Eis a vantagens dessas trilhas urbanas: elas nos ajudam a entender melhor os tantos detalhes que fazem as grandes cidades grandes. 

  
Deixei o bandeirante para trás e segui. Aos poucos, o cenário foi mudando: casinhas com cheiro de tristeza e praças abandonadas foram ficando mais verdes; igrejas reformadas apareceram, carros se renovaram nas vias, verdes ficaram mais vibrantes. Pequenos botecos sumiram de vista e, ao pé de prédios luxuosos, bares charmosos exibiam letreiros bem desenhados e dentes bem tratados. Entrei na Hélio Pellegrino e subi até o Ibirapuera. 

Meu velho amigo, o parque de todo dia, estava lá recebendo os costumeiros visitantes de domingos ensolarados. Ao invés de cortar caminho, alonguei-o para poder pegar um pouco do solo do Ibirapuera no tênis. Fiz meio parque até sair na República do Líbano e traçar meu caminho de volta. 

Da represa até a porta da minha casa, com apenas um ou outro desvio, foram 20km. 20km, diga-se de passagem, em que toda uma série de São Paulos diferentes desfilou para mim. 20km de um mar inexistente, de bairros empobrecidos, de arranha-céus, de parque, de cidade grande. 

Quer maneira melhor de aproveitar uma metrópole assim do que fazendo uma trilha urbana por ela? 

   

O melhor percurso para longões de São Paulo

Esse é, ao menos para longões, o melhor percurso para fazer em São Paulo. 

Começa pela descida via Rebouças, um trecho não exatamente arborizado ou verde, mas que logo muda quando se cruza a ponte e se entra à esquerda no Butantã. A partir daí, a urbe dá lugar a um verde mais esparramado e quase mesclado a casarões meticulosamente plantados no terreno. 

Pelo bairro deserto, com árvores para todos os lados, vamos atravessando uma zona que parece outra cidade. Há ladeiras: o sobe e desce não pára, um dos pontos altos desse trecho. Em uma das descidas, acabamos na Oscar Americano quase de frente para o Parque Alfredo Volpi. Nova mudança de cenário. 

O parque é pequeno, mas com uma natureza quase intacta. Não há asfalto e nem visão de prédios: tudo é trilha pela mata atlântica, incluindo um ou outro single track e aquela umidade típica das florestas. Dá para se passar um bom tempo lá, mas demos uma volta. Às vezes, é o suficiente para respirar o ar mais denso do verde. 

De lá, saímos e subimos a avenida que passa pelo São Luis. Subida grande, mas voltando a ter os ares de outra cidade. Ainda assim, o cenário vai se transformando e, de repente, entramos no Morumbi. Não o Morumbi que se ouve falar, do trânsito e da violência: um outro, vazio, super arborizado e delicioso se estende pela frente. 

Entre subidas e descidas, passamos pelo Palácio do Governo, pela casa que parece ter sido construída a 4 séculos (embora seja relativamente nova), pelo pórtico de entrada da antiga fazenda que ocupava o terreno, pela Capela do Morumbi. Seguimos por entre praças, casas e prédios que se contrastavam mantendo a beleza. Descemos. Subimos. Subimos mais. 

De lá de cima, a cidade parecia se estender pelos nossos pés tendo apenas uma faixa densa de mata no caminho. Essa faixa abria caminho para o próximo destino: o Parque Burle Marx. 

Nele, é possível passar horas percorrendo as trilhas que se ziquezagueiam e se cruzam. Tudo parece diferente, mas mantendo o estilo. Tudo é verde, é mata, é trilha. Tudo é tão sintonizado que, de novo, parece que estamos em outra cidade. Nos mantivemos correndo naquele naco de natureza por alguns poucos quilômetros até sair. 

Era hora de voltar, só que por outro caminho. No começo, subimos a ladeira até o alto do Morumbi e tomamos a avenida. Nela, no entanto, nos mantivemos até cruzar a ponte e chegar no Brooklin, onde outra cidade nos aguardava.

Essa não era particularmente bonita. Era cinza, mais poluída, mais movimentada pela pressa dos carros, mais paulistana. Cruzamos um dos epicentros da metrópole, a Berrini, cruzamos o Parque do Povo, subimos a Tabapuã e entramos na Faria Lima. 

Hora de entrar pela Cidade Jardim. Subimos testemunhando os novos prédios cedendo o terreno para casas amplas, confortáveis. Estávamos já no final. 

Dali era só cruzar a Brasil, subir a Bela Cintra e pronto: fechar os 30km de percurso. Foi onde meu companheiro de corrida de hoje, Geovane, se separou de mim e seguiu seu rumo até o outro lado da Paulista, somando ainda a cena da grande avenida ao seu percurso. 

No total, foram dois parques com trilhas sempre bem vindas, cenários absolutamente diferentes, contrastes, árvores, vistas, subidas, descidas.

Longões são bons assim, quando quebram a monotonia e agregam cenas diferentes para divertir a cabeça. E, por mais que não faltem opções de percursos e trilhas urbanas em Sampa, esse certamente está no topo da lista. 

(A propósito, deixei o link do trajeto via Strava abaixo – é só clicar na imagem ou aqui).

  

Correndo pelo passado

No começo do século XVII, uma corrida pelo planalto que se elevava sobre o Anhangabaú revelaria uma São Paulo bastante diferente. Claro: alguém correndo só pelo mato há mais de 300 anos provavelmente geraria uma estranheza tamanha que, eventualmente, acabaria na forca. Mas ignoremos isso por alguns instantes ao imaginar a cidade de São Paulo pouco tempo depois do Anchieta ter fundado o seu colégio jesuita. 

O próprio conceito de cidade, aliás, era outro: ao invés de uma imensa metrópole, era uma vila composta por uma punhado de loucos desbravadores e delimitada por três igrejas. 

Em uma das pontas ficava a Igreja de São Francisco. Apesar de feita de taipa, como todas as construções da época, era tão suntuosa quanto a própria ironia dado o santo que homenageava. Ficava no alto de uma colina, praticamente de frente para o Anhangabaú. Bote-se que, à época, o vale era puro mato pantanoso, provavelmente de um verde gritante, marcado apenas por alguns poucos aldeamentos indígenas e por eventuais colunas de bandeirantes que buscavam rasgar os interiores à procura de escravos e riquezas. 

  
Na outra extremidade, quase em uma linha reta e ignorando a Praça da Matriz (que eventualmente se transformaria no coração do centro com a construção da Sé), chegaríamos ao Carmo. De todas, era a igreja mais suntuosa e muito bem localizada.

   
 Ficava a poucos passos do Pátio do Colégio, primeira construção do homem branco na região, e provavelmente ainda tinha alguns aldeamentos indígenas nas proximidades. 

  
O Carmo ficava em outra quina do planalto, de frente para o atual terminal D. Pedro e dando acesso a uma várzea imensa. Percebe-se por aí o quanto a região era perfeita para se erigir uma vila, contando com a natureza como principal arma de defesa. Aliás, era dali de uma da torre do Carmo que melhor se conseguia avistar qualquer “visitante” vindo do litoral, seja Santos, São Vicente ou Rio. Bastava que alguém visse o estranho perambular organizado de raros transeuntes e os sinos tocavam, sendo seguidos pelos da Matriz, de São Francisco e São Bento. 

São Bento seria a próxima igreja delimitando São Paulo, fechando o triângulo original do planalto. Mas, antes de chegar lá, o visitante se depararia com uma curiosodade: justamente na região de maior concentração de templos – Carmo, Pátio do Colégio e Matriz – ficava a famosa Rua das Casinhas. O motivo da fama: alinhada de pequenas casas que serviam de quitandas durante o dia, ela se transformava às noites em um dos maiores aglomerados de prostitutas de todo o mundo dito civilizado. 

  
Ignoremos o detalhe profano e sigamos rumo a São Bento, cujas origens tem também muito pouco do sagrado. Quem bancou a construção foi um dos principais bandeirantes paulistas, Fernão Dias, responsável por um genocídio quase sem precedentes junto às populações indígenas. Outros tempos: ao invés de condenado, claro, seus “esforços civilizatórios” foram recompensados por um túmulo de destaque no altar. 

  
Olhando o parapeito do mosteiro beneditino, aliás, um corredor perdido no tempo teria testemunhado uma cena incrível. Inconformados com a confusão causada pelo fim da União Ibérica, os paulistas se revoltaram e decidiram declarar um estado próprio, aclamando um de seus cidadãos (de origem espanhola, diga-se de passagem), Amador Bueno, como Rei. Este, calculando o perigo e a morte certa que o esperaria, recusou veementemente a oferta jurando fidelidade à Coroa Portuguesa. A pequena multidão mudou os ânimos de aclamação para indignação e ele acabou se refugiando no Mosteiro, de onde falou à população pedindo calma e conseguindo se esquivar do que seria um destino fadado à forca. 

Entre igrejas, cenas tragicômicas, colunas de bandeirantes genocidas, muito mato e agrupamentos indígenas em todo canto, São Paulo estava longe de ser o que é hoje. E por que falar de tudo isso em um blog de corrida? 

Porque correr, claro, permite também se ignorar o tempo e aliar a vista seletiva a uma viagem por outras épocas. Permite se ignorar ônibus, mendigos e fuligem, pixações e fiações, depredações e vandalismos, e se focar no que seria o percurso corrido há 300, 400 anos. 

E, claro: qualquer cidade que corramos nos permite isso. Mas quanto mais diferente for o passado e o presente, mais impactante, mais “chocante” será a percepção. 

Uma corrida de domingo pode revelar muito mais do que tempos e paces. 

  

Organizando a BR 135+: Informações práticas sobre a prova

Que comecem então os trabalhos de pacer da Zilma Rodrigues nos 217km da BR135! 

Nosso plano: fazer a versão “curtinha”, de apenas 135 milhas (ou 217km), em 40 horas. Emocionante, não? 

Que bom que será a Zilma que correrá o percurso todo – eu decididamente ainda não estou preparado para isso. Mas farei algo como uns 50km, estimo eu. 

Quem será pacer? Eu (Ricardo Almeida), Charlston Benassi e Luana Bianchi. 

A altimetria total da prova é essa, abaixo (sendo que faremos apenas o trecho azul):

  

Há um mapa de cidades e distâncias, que coloco abaixo. Há apenas um erro no mapa: o primeiro trecho, nele, está marcado como 19km – mas na verdade são 24. Isso, claro, acaba somando 5km em todos os pontos daí em diante. Fora essa consideração, eis os trechos e distâncias: 

  

O blog do Dionísio Silvestre tem um mapa mais bem feito:

 
OK… E que trechos faremos?

Por hora, a única decisão é que eu farei a primeira parte com ela, do Pico do Gavião – algo como 10km, durante o dia, mais ou menos a partir do km 35. Mas o intuito é fazermos mais ou menos 50km cada. 

Divisões, a princípio, ficarão para o próprio dia. 

Mais informações, posto aqui mesmo no blog depois. Mas uma coisa já posso garantir: será uma jornada e tanto!