Sofrendo com a mochila de hidratação

Sábado, dia de voltar à USP.

Desta vez, no entanto, o estilo seria outro: nada de alternar caminhada com corrida – essa era a estratégia de Comrades – e nada de ir apenas com uma garrafinha de água na mão.

Hoje, em um longão de pouco mais de 22K, precisaria acelerar o pace e encaixar algo na casa dos 5’30 a 5’40 como média, incluindo um tiro forte na Subida do Matão.

E mais: levando comigo uma mochila de hidratação que, nessas próximas semanas, deve se tornar minha melhor amiga.

O começo da amizade, no entanto, não foi dos melhores. Sendo direto: odiei cada segundo correndo com a mochila que, mesmo apertada contra o corpo, cismava em balançar e se esfregar nos meus ombros causando uma dor que só piorava.

Agora, escrevendo pós corrida, estou queimado nas costas como se tivesse passado horas sob o sol do Nordeste.

Concentração? Quase impossível. Consegui correr bem no começo e dar o tal tiro na subida – mas, depois disso, a dor era tamanha que por pouco não joguei a mochila fora e peguei um taxi de volta para casa.

Ok…. isso é péssimo. Como vou resistir a uma ultra de montanha, onde mochilas são itens obrigatórios, se quase tive um treco correndo míseros 22k com uma??

Alternativas que pensei:

a) Usar camisas com golas mais longas, estilo tartaruga, fazendo o contato das alças com a pele impossível

b) Me acostumar, queimando um pouco mais até fortalecer o couro

c) Comprar outra mochila

Para o próximo sábado tentarei a alternativa “a” – afinal, a “b” soa dolorosa demais e a “c” cara demais.

Hora também de mergulhar na Web atrás de dicas de outros corredores, o que sempre me ajudou no passado.

Enquanto isso, é hora de passar uns 3 ou 4 galões de hidratante nas costas e torcer para que a dor passe logo!

20140614-084219-31339788.jpg

Nem sempre o corpo curte a planilha

O alarme tocou às 6:30, gritando para que eu pulasse da cama e buscasse as ladeiras em que deveria fazer subidas repetidas a todo esforço.

Missão dada é missão cumprida, certo? Bom… Desde que se entenda qual é, exatamente, a missão.

Os treinos prescritos pelo Ian estão bem duros, principalmente considerando que fiz Comrades há duas semanas. Nos últimos dias já fiz tempos de até 50 minutos, intervalados, mais tempos etc. Fiquei moído.

O mero prospecto de sair para ladeiras hoje – às vésperas de um longão, diga-se de passagem – já fez ressurgirem algumas dores que tinham sumido há dias.

Para piorar, a cabeça começou a martelar de dor por uma noite mal dormida e o humor, com isso, desapareceu.

A missão é terminar bem a DUT lá em setembro – e, para isso, entendo que deva evitar erros do passado e ouvir bem os sinais do corpo independentemente das prescrições da planilha. Fazer qualquer treino duro hoje seria insano, seria buscar uma lesão ou, no mínimo, perseguir overtraining. Pulei.

Fiquei na cama dormindo. E, apesar da culpa que, invariavelmente, bate nessas horas, tenho certeza de ter feito o certo.

Amanhã insiro algumas ladeiras no longão – não será difícil. Principalmente porque – espero – já estarei melhor.

20140613-085806-32286805.jpg

Merrell Barefoot: o tênis perfeito?

Há anos que fiz a transição para tênis de estilo barefoot – os ultra minimalistas com drop zero. No início, corria com Vibram FiveFingers, que até hoje considero um dos melhores do ponto de vista educativo.

Sem praticamente nenhuma estrutura, funcionando mais como uma luva do que como um tênis, o Vibram meio que força o corredor a adotar uma postura mais correta, pisando com o peito do pé. E isso fez maravilhas para mim, eliminando, por exemplo, as (então) sempre presentes dores no joelho após períodos mais longos na rua.

Que fique claro: o milagre não é feito por nenhum tênis, mas sim pela adoção de uma postura biomecanicamente correta. O tênis, no entanto, ajuda com um empurrãozinho importante.

Mas o Vibram tinha dois problemas: a falta total de estrutura começa a incomodar em distâncias mais longas e, claro, a sua aparência exótica rende comentários e olhares desnecessários e “desconcentradores”.

O que havia de alternativa? Fuçando na rede, acabei descobrindo a marca Merrell, que uso faz bastante tempo.

O solado é duro e resistente como o do Vibram, sendo inclusive fabricado pela mesma empresa; há alguma estrutura, embora pouca; o cabedal (parte da frente) é bem grande, dando espaço aos dedos e evitando de bolhas a unhas pretas; e o drop continua sendo zero.

Em outras palavras: é o Vibram sem nenhum dos seus problemas.

Já usei o Merrell Barefoot em maratonas e nas duas ultras que fiz, Two Oceans e Comrades: ele foi perfeito. Mesmo as dores no pé (por conta da falta de amortecimento) nos 90K em asfalto da Comrades não foram nada considerando que joelhos e articulações como um todo saíram praticamente ilesos.

A dúvida agora seria usar ou não os Merrells nas trilhas. E, pensando no caso, acabei lendo o nome inteiro do modelo que tenho, o que trouxe uma resposta óbvia: Merrell Barefoot Trail Glove.

O grip e a resistência do solado Vibram realmente são indiscutíveis – e creio que isso seja 90% do que um tênis de trilha precise. Certo?

Para falar a verdade, minha total falta de experiência fora do asfalo me impede de dar uma resposta mais segura. Mas uma coisa é certa: estou prestes a descobrir!

20140610-082624-30384440.jpg

Eis o Ian Corless, meu Sherpa nessa nova jornada

Quem me conhece ou acompanhou o blog anterior, Rumo a Comrades, sabe que nunca me dei tão bem com treinadores. Por algum motivo qualquer, quando passava a seguir as suas planilhas, ignorava todo e qualquer sinal do meu corpo. Sim: tinha plena ciência do tamanho da estupidez que fazia – mas simplesmente não conseguia agir de outra forma.

E, assim, com MUITA pesquisa, leitura e estudo, acabei me guiando sozinho por uma série de maratonas e duas ultras, sempre saindo inteiro delas, com resultados que me orgulho e sem nunca ter me lesionado. OK, tudo ótimo… mas trilha é outro bicho.

A mera noção de fazer, sozinho, um treinamento para uma ultra em montanha – terreno que desconheço completamente e sobre o qual há muito menos referência – seria algo ingênuo, infantil. Assim sendo, mergulhei na Web.

Acompanhado da força da globalização, fui atrás dos meus ídolos: Kilian Jornet, Ian Sharman, Sage Canaday, Emelie Forsberg, Anna Frost, Fernanda Maciel etc. Dificilmente conseguiria que um desses heróis das trilhas sequer prestasse atenção em mim – e então busquei algo ou alguém que todos tinham em comum. A resposta veio na hora: Ian Corless, um dos maiores blogueiros de ultra do mundo e responsável pelo podcast TalkUltra, que ouço nos meus longões já faz tempo.

Sem medo, entrei em contato com ele. E a resposta foi absolutamente positiva.

Ian é corredor, podcaster, blogueiro e fotógrafo de ultras. Sua vida gira em torno das trilhas, o que o permite conhecer a fundo estratégias, táticas e pequenos segredos dos maiores atletas desse esporte. E, claro, também treina corredores mundo afora.

Meu briefing para ele foi direto: transicionar do asfalto para a trilha em 3 meses, a tempo de pegar a Réccua Douro Ultra Trail com a confiança de poder terminar inteiro.

Desafio topado, primeiras planilhas mandadas, primeiras corridas já feitas.

De antemão, o que posso dizer é que ele não pega nada leve: nessa primeira semana já há sessões com tiros de 10 minutos, repetições em morro e tempo runs de 50 (!) minutos!

Do lado de cá, vou procurar seguir tudo – mas sem repetir erros do passado. Sinais esquisitos do corpo gerarão alertas que procurarei documentar logo depois do treinamento (antes da minha mente me forçar a ignorar problemas para seguir planilhas).

Como será esse novo processo, com treinador a distância por uma jornada absolutamente desconhecida? Nem ideia.

Mas em breve descobrirei.

Screen Shot 2014-06-09 at 8.51.10 PM