Alternar corrida em trilhas com natação nas gélidas águas do norte europeu: isso sim é desafio.
Já tinha ouvido falar desse “esporte exótico” por aqui, mas esses vídeos são entusiasmo puro.
Quem sabe um dia?
Alternar corrida em trilhas com natação nas gélidas águas do norte europeu: isso sim é desafio.
Já tinha ouvido falar desse “esporte exótico” por aqui, mas esses vídeos são entusiasmo puro.
Quem sabe um dia?
Eis uma lição que aprendi na Indomit São Bento do Sapucaí: menosprezar provas faz mal.
Quando me inscrevi, a ideia era apenas ter uma espécie de treino de luxo, uma etapa relativamente simples no caminho até os 140km dos sertões mineiros em agosto.
A semana que me levou até os 50K não teve nenhum milímetro de diminuição de ritmo ou volume – foi uma semana normal, por assim dizer.
Ignorei a altimetria acumulada de 3,450m: o máximo de subida que treinei ficou no Cruce, lá no distante mês de fevereiro.
Quando cheguei em São Bento não sabia direito sequer o horário da largada de tão despreparado que estava. O resultado foi óbvio: penei muito mais do que deveria ter penado.
Cheguei até o final, é verdade: mas certamente poderia ter feito o mesmo em um estado menos cadavérico.
Prova é prova – mesmo que seja parte de um treinamento. E uma prova da Indomit carrega no sobrenome a certeza de desafios que estão longe de serem meras brincadeiras.
O que dizer agora? Lição aprendida!
Já no domingo, horas depois de chegar em casa de São Bento do Sapucaí, me peguei vasculhando sites em busca de uma próxima ultra.
Fiz isso escondido, acrescento: ser visto em casa entre gemidos de dor buscando uma próxima prova massacrante poderia ser interpretado como sinal de indiscutível loucura, talvez me rendendo um passeio até o manicômio mais próximo. Era prudente evitar.
Depois de um tempo, no entanto, entendi melhor o que estava acontecendo. É simples: beleza vicia.
Não há pontadas de dor nas coxas mastigadas pelos 3.500 metros de subida ou pelas unhas buscando fugir dos seus respectivos dedos que superem um único suspiro de paisagem maravilhosa. Mesmo nos momentos mais difíceis, como chegar ao primeiro cume ou serpentear sem água por um improvável bananal parece, aos olhos atuais, uma frugalidade.
A falta de água não deixa memória: o bananal com suas folhas abafadas tentando, inutilmente, esconder as montanhas, deixa.
A lembrança do esforço se esvai antes mesmo dar dor: a imagem da serra se exibindo, com seu verde clorofilático, em um show quase erótico, fica.
E são essas imagens, essas cenas e sensações, que praticamente ordenam os dedos a passear por sites buscando a próxima serra, as próximas gotas de suor endorfinado, as próximas linhas de largada.
Sim, beleza vicia.
Não vou dizer aqui que seja um vício saudável. Talvez nenhum seja, é bem verdade – mas passar 10, 15 ou 20 horas correndo sem parar certamente está ali pertinho de alguma droga pesada.
Mas, já que não mata, o que se há de fazer senão se entregar de peito, alma e pernas a toda essa beleza que cisma em se traduzir em percursos improváveis?
Que venha mais beleza. Que venha uma próxima prova.
Que meus 50K sejam tão divertidos quanto parecem ter sido os dela:
Faltam mais 2 dias.
Ou 1, considerando que amanhã à tarde zarpo para São Bento do Sapucaí.
Não é a ansiedade da prova que está me comendo hoje – é o cansaço do trabalho. É esse exaustivo ritmo de Brasil em crise, com ânimos exaltados e ações em permanente estado de alerta, de expectativa e de surpresa. Trilhar a selva paulista tem sido uma tarefa muita mais técnica do que qualquer trilha da Indomit.
Ainda assim, hoje é quinta.
É dia em que o horizonte do descanso está mais próximo, mais visível.
Preciso recarregar as baterias trocando cabeça por pernas lá na Serra da Mantiqueira.
Ansiedade, expectativa, preparação.
Quando uma prova se aproxima, qualquer que seja ela, é difícil não ter essas três palavras como parte do cotidiano dos dias que antecedem a trilha. E são palavras desejadas, aguardadas com aquele tipo de vontade que só se entende quando a linha de largada está próxima.
Basta olhar o calendário e enxergar uma viagem e pronto: o corpo já fica ouriçado. Problemas cotidianos? Todos parecem sumir como que a passe de mágica, encobertos pela espessa neblina da expectativa. Sim: ainda há alguns dias a serem vencidos até que pegue o carro e dirija até São Bento do Sapucaí; ainda há projetos, planos, apresentações e toda aquela gama de afazeres típicos da vida na selva profissional paulistana.
Mas… quem se importa? O que são essas pequenas tarefas quando se tem 50km pela Serra da Mantiqueira logo ali?
Eu deveria programar mais provas no meu calendário: o efeito que elas tem nos níveis de empolgação são simplesmente únicos.
Essas últimas duas semanas deveriam ser as mais secas e quentes do sudeste ao menos no último ano. Eu nem pediria tanto: ficaria feliz apenas com a falta de chuva.
Mas não: os Deuses, aparentemente, curtem sincronizar as suas águas com o calendário da Indomit. Comigo, pelo menos, foi assim nos 42K de Bombinhas e nos 100K da Costa Esmeralda.
A Indomit São Bento do Sapucaí, ao que tudo indica, será tanto corrida quanto nadada.
Cheguei até a questionar a ida – a perspectiva de escorregar e de tentar me equilibrar em rios de lama me dá uma preguiça digna de Macunaíma.
Mas aí tem os pontos. Os tais 3 pontos que essa prova me garantirá para a OCC, em Mont Blanc, no ano que vem…
Haverá outras oportunidades para somá-los? Certamente. Provavelmente.
Mas, em um ano complicado em que o calendário de viagens para corridas ficou invariavelmente mais escasso, melhor garantir do que esperançar.
Águas, nos veremos no sábado.
Tá: o ideal para a véspera de uma prova não é, decididamente, se esguelar até chegar a um pico de volume maior do que os últimos dois meses de treino.
Paciência.
Correr, às vezes, é uma meta por si só. Há a Indomit na semana que vem? Sim, há. Mas essa semana foi complicada demais, turbulenta demais, para que eu deixasse de tomar esse incrível remédio que é passar horas simplesmente me movendo entre o chão e o céu.
Foram pouco mais de 80K rodados nas primeiras horas da manhã, nas últimas luzes da tarde, sob o sol do meio dia e variando entre a selva cinzenta do centro, os trilhos de trens do passado, as várzeas inexistentes dos rios paulistas e as trilhas ex-trincheiras do Ibirapuera.
Missão cumprida.
Endorfinas internalizadas.
Tudo pronto agora para a próxima semana.
Nunca havia me dado conta que, hoje, sou vizinho de muitos dos livros de história que lia quando morava em Salvador. Faz relativamente pouco tempo que acordei para isso, em grande parte embalado por todo um mar de livros que tenho lido sobre São Paulo. E quer forma melhor de vivenciar a história de uma cidade do que correndo-a?
Hoje, portanto, começou na década de 30.
Ainda estava embalado pelo clima do tenentismo, pela revolta de 24 que transformou a cidade em escombros e fez dos parques que hoje parecem tão inocentes trincheiras encharcadas de sangue. O mesmo tenentismo, 6 anos depois, havia deposto Washington Luís e impedido a posse de Júlio Prestes, colocando Getúlio Vargas no Catete. E, dois anos depois, os paulistas que sempre tiveram pavio curto, cansaram de esperar por uma constituição tão prometida quanto inexistente.
Essa sucessão de eventos foi comigo subindo a Bela Cintra até o centro, mais precisamente até a Praça do Patriarca. Aquele local era o principal centro de protestos da cidade – e foi dali que a população começou a se revoltar contra a ditadura de Vargas. Hoje, um sábado de manhã após a sexta-feira santa, ela estava vazia; há pouco mais de 80 anos, no entanto, ela abrigava a maior manifestação que a cidade já vira. Parei na Praça e olhei ao redor: os mendigos e catadores de lixo que ali habitavam e que mais pareciam soldados caídos na batalha de tão desesperançosos, ignoravam o passado da metrópole. Claro: hoje, eles estão ocupados demais batalhando pela sobrevivência, pelo presente.
Mas não era no hoje que eu estava: estava em 1932. Em 23 de maio de 1932, para ser mais preciso.
De lá, rumei com os revoltosos até a esquina da Praça da República com a Barão de Itapetitinga. Hoje, um prédio meio abandonado que abriga, em seu andar térreo, uma agência bancária, parece camuflado pela curta memória histórica que o brasileiro cisma em ter. No passado, ali era a sede da Legião Revolucionária, um dos bastiões da segurança pública. No caminho até lá, os revoltosos saquearam lojas de armas e começaram a se insurgir de maneira mais perigosa, intensa.
Assustados, os combatentes da Legião revidaram com tiros no que foi a primeira das grandes batalhas da cidade. Quatro das cinco primeiras vítimas foram estudantes que, com suas iniciais – MMDC – se transformaram em mártires e símbolos da Revolução que começava naquele dia.
A partir de então – e por 90 longos dias – o estado de São Paulo estava em guerra. Da Praça da República segui para a Barão do Rio Branco desviando de balas e de porretes. Outro símbolo máximo de uma era que se foi fica por lá, igualmente esquecido: o Palácio dos Campos Elíseos, antiga sede do governo do estado, onde Pedro de Toledo foi aclamado governador pelo povo.
Deu para sentir a aclamação, o fervor nas ruas, os gritos.
De lá daquele palácio, boa parte das estratégias militares foram planejadas, calculadas, medidas. De lá, muitos destinos foram traçados.
O Palácio passou por uma reforma em sua parte externa e, de fato, está belíssimo – mas a falta de recursos, velho conhecido da nossa história, paralisou o projeto e essa jóia paulistana permanece fechada ao público.
Muito sangue ainda foi derramado entre julho e outubro de 32, mas já começava ali a me despedir da revolução.
Enquanto ela era esmagada pelas tropas legalistas e seu objetivo político de impor uma constituição paradoxalmente alcançado, a cidade seguia o seu ritmo de motor do país inteiro. Fui conferir o “motor” na região da Barra Funda, incluindo uma passada na Chácara do Carvalho, lar do mito Antônio Prado, que saiu de mestre de escravos a barão do café na república velha, que trouxe a indústria para São Paulo, que trouxe os trens, os bondes e a modernidade como um todo.
De lá fui para a então “cidade cotidiana”, às margens dos trilhos da Barra Funda onde hoje novos bairros se erguem. As chaminés das fábricas, no entanto, permanecem como testemunhas perfeitas de tantas eras que passaram pelos seus tijolos. Isso inclui, claro, a chegada de todo um mar de italianos que chegou a ser maioria entre a população paulista, inclui os palcos das tantas lutas de classe, inclui a vinda, anos depois, dos imigrantes nordestinos, inclui a nova São Paulo.
Mas esses tempos são novos demais para essa corrida. Deixei a Barra Funda pela Sumaré, já me integrando ao século XXI, e voltei à Bela Cintra já tomada de prédios e asfalto para encerrar a corrida.
No total, foram 26km rodados em pouco menos de 3 horas.
3 horas em que praticamente desapareci do meu Tempo e mergulhei em revoltas, revoluções, lutas, trincheiras, bombardeios e gritos de ordem.
Se correr, por si só, já é inspirador, cruzar toda uma era consegue ser mágico.
Cozinhando expectativas………