Checkpoint: Um novo ciclo

Zeremos tudo feito até agora: é hora de começar um novo ciclo. Quando olhamos dados com uma lupa acabamos, claro, tendo uma visão mais precisa do que está acontecendo com o corpo e do processo de regeneração e preparação. 

Ainda não estruturei a minha planilha completa até agosto, quando deverei fazer o Caminhos de Rosa. Verdade seja dita, ainda nem arrumei a estrutura de apoio completa que preciso, apesar de já contar com a sensacional confirmação do amigo Paulo Penna lá nas terras mineiras. 

Ainda assim, comecemos dando um passo de cada vez. 

A recuperação do Cruce foi difícil. Já falei o bastante sobre isso e não quero me repetir – mas encerrar esse ciclo de ultras sequenciais lá nos Andes esgotou mente e corpo a níveis até então inéditos para mim. Agora, depois dessa semana, estou como novo. Inteiro. 

E a partir daqui começo uma nova contagem, tendo a própria semana do Cruce como marco zero apenas para agregar algum parâmetro. 

E, até agora, estamos assim: 

   
 Pelos gráficos, tudo parece perfeito e sincronizado: volume aumentando, assim como tempo na rua e altimetria acumulada. O pace, por sua vez, embora ainda lento, está se acelerando. 

Sigamos em frente. 

Já já está na hora de bolar a nova planilha. 

Um passo depois do outro

Com a rotina devidamente encaixada na semana, era hora de reinserir os longões de sábado em faixas de distância maiores.

E qual o percurso ideal para um recomeço? A USP, claro, com suas hordas de corredores emanando um incentivo inconsciente, com seus percursos verdes, com sua pequena trilhinha e uma subida deliciosa para apimentar o ritmo.

Contando o caminho até lá, a volta, a trilha perto da subida do matão, a subida em si, a descida em franca velocidade até a base e o retorno para casa via Cidade Jardim, foram pouco mais de 26km.

Foi também a primeira vez que bati uma meia desde o retorno do Cruce – e o corpo sentiu. 

Não que tenha sido nada dramático, claro. Apenas o óbvio: correr por 2h30 depois de tanto tempo se esguelando para chegar em 10 ou 11 dói. Simples.

Ainda assim, foi apenas uma dorzinha esperada, natural, longe de uma quebra. Uma sinalização de que nosso esporte requer um tipo próprio de persistência no treino, uma elevação gradativa de volume, um respeito aos limites cujos contornos aprendemos a conhecer muito, muito bem.

Estou como que emulando a principal regra das ultras: dando um passo de cada vez, seguindo sempre em frente, persistindo na rota. 

E nada melhor do que a boa e velha USP para puxar melhor esses passos.

Amanhã tem mais.

  

Na normalidade

Com a única ressalva de estar sendo difícil acordar às 5 para correr – o que tem inserido alguns finais de tarde no parque como rotina – tudo parece estar perfeitamente normal. 

Já não era sem tempo.

Agora é apertar gradativamente o treino: dia 2, afinal, tem Indomit lá em São Bento do Sapucaí!

  

A fuga da areia movediça: quando o descanso vira uma armadilha

A areia movediça, finalmente, ficou no passado.

Hoje acordei cedo como costumava fazer e saí para o parque. 

Leve. Rápido. Quase voando.

Não fossem dois malditos semáforos travados, teria feito uma média abaixo dos 5’/km – coisa forte para meus parâmetros. E mais: foi o segundo treino da semana, mantendo um volume e uma frequência perfeitos, e sem nenhum mínimo sinal de incômodo.

Curioso é analisar essa recuperação.

O Cruce não foi a prova mais dura que já fiz – apesar das montanhas dos últimos dias e da falta de camas macias nos acampamentos, os três dias conseguiram quebrar o desafio da quilometragem em pedaços mais digeríveis. Ainda assim, foi uma das provas mais marcantes: envolvia montanha de verdade, envolvia os míticos andes, envolvia uma experiência totalmente diferente de todas as que havia colecionado até então.

Quando voltei, voltei realizado. Tinha cumprido uma meta importante e, em nome dela, baixei a guarda e me dei o luxo de não ter nada mais planejado para o futuro próximo, de não ter planilha e de me dar férias. Isso deveria ser algo bom… Mas não foi.

Relaxado, o corpo meio que se desmontou. Dores começaram a subir por todos os cantos, articulações pararam de responder como deveriam e até a capacidade aeróbica titubeou. Foi como se tivesse regredido ou como se a linha de chegada em San Martin se equivalesse a uma lesão mental da qual estaria iniciando uma recuperação.

Foi uma areia movediça: se permanecesse parado, continuaria sendo engolido pelo cansaço crescente; se exagerasse e forçasse a barra em treinos teimosamente intensos, apenas pioraria.

E aí comecei a escalada para fora do poço. A primeira arma: regularidade. Fiz de tudo para sair nos dias determinados, ainda que pra fazer metade do que planejava. Aproveitei finais de semana abrindo mão das primeiras e mais difíceis horas do dia. Penei no calor e persisti na chuva.

Planejei novas provas: ter uma meta é sempre fundamental. 50K da Indomit São Paulo em abril, 140K do Caminhos de Rosa em agosto.

Depois, aos poucos, fui somando altimetria. Busquei morros mais altos até o limite do confortável. Quando estava perto da sensação de quebra, cedia.

Sempre mantendo a regularidade.

Troquei altimetria por velocidade, aumentando o pace.

Regularidade.

Fiz um ou outro regenerativo.

Leve, mas conforme o planejado.

E, assim, em uma bela quarta, acordei para o fato de que havia deixado a areia movediça para trás. 

O corpo havia desistido de seu protesto intruso, as dores haviam se transformado naqueles incômodos leves e normais a treinos de ultras, a sensação de medo ao pensar nas dificuldades dos dias anteriores trocada por ansiedade referente aos planos futuros.

Ufa!

A lição aprendida aqui? Descanso pode ser bom de vez em quando – mas quando o exagero o metamorfoseia em descaso, a volta à ativa pode ser muito mais dolorosa do que se imagina.

  

Ainda não

O despertador tocou às 5:15. 

Levantei, ainda que com algum repúdio por parte das pálpebras, me arrumei e desci. 

Ajustei o relógio.

Ignorei a garoa.

Apertei os olhos em um esforço de deixar para trás o sono.

Dei os primeiros passos.

Era pra ser algo simples, cotidiano: uma volta pela pista do Ibirapuera no piloto automático. Não funcionou: joelho direito protestou, tornozelo mostrou-se insatisfeito e toda a musculatura empacou, deixando claro que não pretendia se soltar por nada no mundo.

Não tive alternativa: desisti, dando meia volta ao chegar na 9 de Julho e transformando 11K em 5.

Placar final: motivação em 75%, disposição em 50%. 

Conclusão: ainda não estou pronto como gostaria. 

  

Checkpoint: A zona cinzenta

Há uma espécie de zona cinzenta depois que se realiza alguma grande meta. 3, no caso: Indomit, BR (ainda que como apoio) e Cruce aconteceram em um impressionantemente curto período de 3 meses. 

Nessa última semana, todas as dores e incômodos acumulados em meses de treinamento decidiram aparecer e se instalar no corpo. Sem problemas: dei a ele alguma folga, saindo apenas levemente para alguns trotes mais regenerativos. 

Nessa última semana, um sono digno de picadas da mosca de Tse-Tse dominou as manhãs; uma estranheza em testemunhar o trânsito paulistano se instalou no semblante; uma facilidade de respirar, silenciosamente, um ar meio orgulhoso, impulsionou os pulmões. 

Semanas depois do que consideramos como grandes realizações pessoais são feitas para cimentá-las no peito, para nos mostrar que a vida é feita desses momentos singulares pelos quais tanto batalhamos. São períodos sagrados que, talvez infelizmente, acabem sendo reverenciados por nós mesmos em uma silenciosa solidão. São períodos catárticos, de consolidação de mudanças de visão de mundo, em que não se deve desperdiçar um único átomo de esforço em uma direção que não seja a do autoentendimento. 

Semana que vem? Provavelmente ainda estarei na mesma zona cinzenta, aproveitando-a, cultivando-a e, sobretudo, digerindo-a. 
Enquanto isso, talvez esteja na hora de revisitar as provas de 2016 e ver em qual ou quais me encaixo. 

Daqui a pouco será hora de começar tudo de novo.