Era o plano hoje.
Era.
Há dias em que a batalha contra o despertador já amanhece perdida e que o melhor que tenhamos a fazer é virar para o outro lado e continuar dormindo.
140km não são exatamente 100 milhas, eu sei. Mas o fato de serem sob o causticante calor do sertão já o deixa próximo o suficiente para que eu baseie meu treinamente como se estivesse fazendo esta que é a mais clássica das distâncias de ultras.
Ainda estou relativamente longe da meta, lá na segunda quinzena de agosto – mas estruturar uma base assim por conta própria requer, no mínimo, bastante pesquisa. E ela começou pela lembrança do Paulo Penna sobre um post que fiz aqui no blog lááááááá em julho de 2014, com uma planilha de treinos para provas de 100 milhas.
A planilha inteira tem 25 semanas (incluindo a da prova) – ou 6 meses. Perfeito: é exatamente o tempo que tenho.
Como o primeiro mês inteiro é menos que o que já faço – de 30 a 44 milhas, ou 50 a 73km – dá para tomar o meu tempo, por assim dizer, e planejar melhor um cronograma mais personalizado.
Por hora, deixemos aqui a planilha base, ainda em milhas.
A partir dela começo a traduzir quilometragem, destrinchar os diferentes tipos de treino e assim por diante.
Uma coisa já dá para garantir: meses intensos aparecerão pela frente!
Zeremos tudo feito até agora: é hora de começar um novo ciclo. Quando olhamos dados com uma lupa acabamos, claro, tendo uma visão mais precisa do que está acontecendo com o corpo e do processo de regeneração e preparação.
Ainda não estruturei a minha planilha completa até agosto, quando deverei fazer o Caminhos de Rosa. Verdade seja dita, ainda nem arrumei a estrutura de apoio completa que preciso, apesar de já contar com a sensacional confirmação do amigo Paulo Penna lá nas terras mineiras.
Ainda assim, comecemos dando um passo de cada vez.
A recuperação do Cruce foi difícil. Já falei o bastante sobre isso e não quero me repetir – mas encerrar esse ciclo de ultras sequenciais lá nos Andes esgotou mente e corpo a níveis até então inéditos para mim. Agora, depois dessa semana, estou como novo. Inteiro.
E a partir daqui começo uma nova contagem, tendo a própria semana do Cruce como marco zero apenas para agregar algum parâmetro.
E, até agora, estamos assim:
Pelos gráficos, tudo parece perfeito e sincronizado: volume aumentando, assim como tempo na rua e altimetria acumulada. O pace, por sua vez, embora ainda lento, está se acelerando.
Sigamos em frente.
Já já está na hora de bolar a nova planilha.
Com a rotina devidamente encaixada na semana, era hora de reinserir os longões de sábado em faixas de distância maiores.
E qual o percurso ideal para um recomeço? A USP, claro, com suas hordas de corredores emanando um incentivo inconsciente, com seus percursos verdes, com sua pequena trilhinha e uma subida deliciosa para apimentar o ritmo.
Contando o caminho até lá, a volta, a trilha perto da subida do matão, a subida em si, a descida em franca velocidade até a base e o retorno para casa via Cidade Jardim, foram pouco mais de 26km.
Foi também a primeira vez que bati uma meia desde o retorno do Cruce – e o corpo sentiu.
Não que tenha sido nada dramático, claro. Apenas o óbvio: correr por 2h30 depois de tanto tempo se esguelando para chegar em 10 ou 11 dói. Simples.
Ainda assim, foi apenas uma dorzinha esperada, natural, longe de uma quebra. Uma sinalização de que nosso esporte requer um tipo próprio de persistência no treino, uma elevação gradativa de volume, um respeito aos limites cujos contornos aprendemos a conhecer muito, muito bem.
Estou como que emulando a principal regra das ultras: dando um passo de cada vez, seguindo sempre em frente, persistindo na rota.
E nada melhor do que a boa e velha USP para puxar melhor esses passos.
Amanhã tem mais.
A areia movediça, finalmente, ficou no passado.
Hoje acordei cedo como costumava fazer e saí para o parque.
Leve. Rápido. Quase voando.
Não fossem dois malditos semáforos travados, teria feito uma média abaixo dos 5’/km – coisa forte para meus parâmetros. E mais: foi o segundo treino da semana, mantendo um volume e uma frequência perfeitos, e sem nenhum mínimo sinal de incômodo.
Curioso é analisar essa recuperação.
O Cruce não foi a prova mais dura que já fiz – apesar das montanhas dos últimos dias e da falta de camas macias nos acampamentos, os três dias conseguiram quebrar o desafio da quilometragem em pedaços mais digeríveis. Ainda assim, foi uma das provas mais marcantes: envolvia montanha de verdade, envolvia os míticos andes, envolvia uma experiência totalmente diferente de todas as que havia colecionado até então.
Quando voltei, voltei realizado. Tinha cumprido uma meta importante e, em nome dela, baixei a guarda e me dei o luxo de não ter nada mais planejado para o futuro próximo, de não ter planilha e de me dar férias. Isso deveria ser algo bom… Mas não foi.
Relaxado, o corpo meio que se desmontou. Dores começaram a subir por todos os cantos, articulações pararam de responder como deveriam e até a capacidade aeróbica titubeou. Foi como se tivesse regredido ou como se a linha de chegada em San Martin se equivalesse a uma lesão mental da qual estaria iniciando uma recuperação.
Foi uma areia movediça: se permanecesse parado, continuaria sendo engolido pelo cansaço crescente; se exagerasse e forçasse a barra em treinos teimosamente intensos, apenas pioraria.
E aí comecei a escalada para fora do poço. A primeira arma: regularidade. Fiz de tudo para sair nos dias determinados, ainda que pra fazer metade do que planejava. Aproveitei finais de semana abrindo mão das primeiras e mais difíceis horas do dia. Penei no calor e persisti na chuva.
Planejei novas provas: ter uma meta é sempre fundamental. 50K da Indomit São Paulo em abril, 140K do Caminhos de Rosa em agosto.
Depois, aos poucos, fui somando altimetria. Busquei morros mais altos até o limite do confortável. Quando estava perto da sensação de quebra, cedia.
Sempre mantendo a regularidade.
Troquei altimetria por velocidade, aumentando o pace.
Regularidade.
Fiz um ou outro regenerativo.
Leve, mas conforme o planejado.
E, assim, em uma bela quarta, acordei para o fato de que havia deixado a areia movediça para trás.
O corpo havia desistido de seu protesto intruso, as dores haviam se transformado naqueles incômodos leves e normais a treinos de ultras, a sensação de medo ao pensar nas dificuldades dos dias anteriores trocada por ansiedade referente aos planos futuros.
Ufa!
A lição aprendida aqui? Descanso pode ser bom de vez em quando – mas quando o exagero o metamorfoseia em descaso, a volta à ativa pode ser muito mais dolorosa do que se imagina.
Fiz outra tentativa hoje. Estava sol, um calor senegalês, o percurso à frente tinha estradas de terra, morros e vistas, e podia rodar o suficiente para, quem sabe, soltar mais o corpo.
Essas últimas duas semanas foram como correr na areia movediça. Se exagerasse na dose, acabaria afundando em dores generalizadas pelo corpo; se cedesse e descansasse todos os dias, a sensação de estar enferrujado apenas pioraria. Precisava achar algum tipo de equilíbrio, se situação limítrofe entre me manter ativo mas não atropelado, respirando rápido mas não esbaforido, suado mas não encharcado.
Hoje foi mais ou menos isso. Não digo que estou perfeito – mágicas são mais raras do que deveriam. Mas rodei os 10K sorvendo vistas, sol e calor, com AC/ DC puxando a endorfina e aquele cheiro de mato que sempre, sempre ajuda.
Terminei inteiro – muito melhor do que ontem e do que nos últimos dias. Terminei também fechando mais de 50K na semana, apenas levemente a mais que na semana passada e, portanto, somando volume como maneira de me salvar da areia movediça.
Ainda estou nela, aparentemente: seria ingenuidade partir pra um treino completo, como se nada tivesse acontecido. Mas estou – também aparentemente – muito mais a solto do que estava, já enxergando dias melhores no horizonte.
Saco.
Tudo ainda anda travado. Musculatura esquisita, pernas doendo, articulações reclamando mais, muito mais do que deveriam.
Saí para 20K hoje na região de Taubaté, onde vim passar o final de semana. Consegui completar 16 – e ainda assim com o pace de um cágado sonolento!
Na falta de uma solução mais imediata, tirei fotos. Quem sabe vê-las não ajuda a convencer as pernas de que está mais que na hora de parar de reclamar?
Não vou mentir: estava sim cansado, com a musculatura meio dolorida e os olhos pesados. Mas a vontade de voltar à ativa foi maior: saí no final da tarde e me esbaldei em 20km pela trilha que circunda o Ibirapuera.
Teve um pouco de tudo: audiobook entoando histórias de lugares distantes, pôr do sol colorindo o obelisco e o lago, casais se encontrando (sob todos os aspectos) e um caminho vazio, livre, aberto, feito de terra ocre temperada por galhos e pequenas poças denunciando a chuva dos últimos dias.
Parecia que o parque estava me esperando.
Ainda bem que apareci. Foi como se tanto eu quanto ele – o Ibirapuera – tivéssemos ficado aliviados.