Vídeo: Como foi o primeiro dia que me aguarda

O título do post pode parecer um paradoxo gramatical – mas ele está certo. Explico: há 3 levas de largadas no Cruce, todas fazendo o mesmo percurso: o primeiro dia, ontem, foiçara a elite/ avançados; o segundo, hoje, será para duplas; e o terceiro, sexta, será para amadores (me incluindo aí).

E, como eles estão filmando cada uma das etapas e disponibilizando praticamente em tempo real na web, deu para sentir como será o meu primeiro dia. E, aparentemente, apesar de ser o dia mais longo (com 40K), ele será relativamente tranquilo, sem trilhas técnicas e com um percurso tão “corrível” quanto maravilhoso. Será uma espécie de boas vindas, creio.

Veja abaixo:

 

 

Caiacando pelo Lago Lácar

Enquanto há horas disponíveis e não há tarefas a serem feitas… que tal um rolê de caiaque por 4 horinhas pelo Lago Lácar?

Dá para usar músculos diferentes dos que precisam descansar (embora eu tenha feito um regenerativo básico de 5K hoje), conferir as águas cristalinas do lago com direito a trutas saltando, ver as montanhas de outro ângulo e, enfim, somar uma experiência diferente dos Andes. 

Perfeito! Duvida? Veja as fotos:

   
    
    
   

Abertura do El Cruce: God save the Queen?? :-)

De repente, uma mão me puxou e me perguntou algo em um espanhol tão rápido que, meio que no susto, apenas respondi “si, claro!”.

Em 5 minutos estava em uma fila indiana segurando uma bandeira gigantesca da… Inglaterra! Aparentemente, eu e 32 outros corredores desfilaríamos logo depois da banda militar homenageando os 33 países presentes no Cruce.

Bom… nunca me achei exatamente parecido com um inglês… mas encarnei de tal maneira que até um ‘God sabe the Queen’ acabou saindo da minha boca :-)

Fiquei até procurando compatriotas para falar sobre a família real, mas acho que só tinha eu mesmo de britânico nos arredores. Ou isso ou – claro – a ‘nossa’ típica discrição impediu os demais súditos de Elisabeth de aparecerem!

Assim, seguindo tambores rufando no meio da praça e sendo parte acidental do evento, acabei absolutamente contagiado de adrenalina da abertura do Cruce 2016. Não que tenha sido tarefa difícil: o palco era ao ar livre, tendo montanhas, lago e um céu azul-turquesa como pano de fundo, com direito a um telão de led e um rock’n’roll entre as falas dos organizadores para ninguém botar defeito. 

Apresentaram a elite – e confesso que estar próximo de ídolos como Marco de Gasperi e François D’Haene foi “tieticamente” empolgante – detalharam a infra e fecharam com um vídeo daqueles feitos de pura palpitação cardíaca. 

A empolgação foi tamanha que, quando terminaram os eventos, a praça inteira de San Martin virou uma versão rock de Carnaval, com gente pulando ao som dos Stones e entoando gritos de euforia pura!

Quer jeito melhor de abrir uma prova dessas??

   
   

A retirada do kit: organização que impressiona

Confesso que a fila que dava a volta ao quarteirão não me animou muito – mas há coisas que nenhuma organização consegue impedir.

Fora isso, fiquei embasbacado com o nível da organização.

E não só pelo uso de email e Facebook como ferramentas organizacionais, a exemplo do cronograma com as etapas abaixo – mas pelo desenrolar absolutamente tranquilo de cada uma das três etapas:

  
1) Acreditação

No espaço de convenções de um hotel, retira-se uma senha de acordo com o “status” (argentino, estranheiro, estrangeiro com saldo a pagar etc.). Feito isso, deve-se aguardar por poucos minutos até que a senha apareça em um painel. Na dúvida, uma atendente com microfone também reforça os números da hora.

Chamado, recebe-se um crachá que deve ser utilizado nas demais etapas, o número da barraca (no meu caso, ficarei na 131), paga-se o montante devido e se retira o formulário da imigração chilena, que precisará ser apresentado assim que se cruzar a fronteira no primeiro dia. 

Feito isso, que não dura mais que poucos minutos, deve-se ir a um endereço vizinho para pegar o chip.

  

2) O chip e o kit

A primeiro coisa que se pede na “segunda fase” é o preenchimento do formulário de imigração chilena. E tudo é facilitado: eles tem caneta – algo raro em situações assim – e gente que sabe responder a perguntas relacionadas às burocracias alfandegárias.

O formulário fica com a organização na entrega do chip – e o crachá de controle é perfurado em um local pra dizer que a etapa está “cumprida”.

  
  

Atravessando o ginásio, retira-se a sacola – fantástica, diga-se de passagem.
Junto com ela, meias, kits de comidas, casaco polar e camiseta. Nunca recebi tanta coisa, com tanta qualidade, em uma corrida!

Material retirado, se vai a outro canto do ginásio para tirar uma foto. Essa é importante: vincula o número de peito ao Facebook, permitindo que quem quiser acompanhe o progresso durante a prova.

Pronto. Depois disso, pode-se passar a qualquer hora no ginásio para retirar um retrato.

  

3) Entrega da bolsa montada

É a última e mais óbvia parte – mas a que requer mais atenção. A bolsa deve receber todo o equipamento e roupas para os campings e ser deixada em um terceiro endereço, também perto dos outros.
Agora, portanto, é hora de fazer as malas – ainda que com bastante antecedência.

  

Primeiro giro

Mesmo completamente só aqui em San Martin – ainda não encontrei nenhum corredor brasileiro por estas bandas – e sem nada para fazer durante o dia, coloquei o despertador para as 6 da manhã.

Não foi masoquismo: queria sentir o clima nas primeiras horas e ver o sol nascer nos Andes. Excelente ideia, acrescento.

Saí para um trote leve, de 10K, nos arredores da vila. Não busquei trilhas ou nada do gênero: apenas segui a estrada morro acima, evitando que criatividades excessivas no mapa acabassem me cansando além da conta.

Sem nenhum compromisso com tempo ou agenda, quem ganhou o presente mesmo foram os meus olhos. Já havia corrido por aqui no passado, quando passei o ano novo na “vizinha” Villa la Angustura – mas paisagens assim são sempre, sempre bem vindas de volta.

Aos poucos, acabei vendo o céu sair do azul escuro para o colorido, do colorido para o claríssimo, do claríssimo para o azul turquesa. Ao fundo, as montanhas (infelizmente sem neve) se erguiam em uma demonstração de poder inquestionável. Na base, pequenas chácaras se estendiam por quilômetros, sendo cortadas apenas por eventuais casinhas de madeira que pareciam ter sido retiradas de um desenho animado.

O clima não estava quente – nem de longe. Aliás, eu arriscaria dizer que peguei uns 12 ou 13 graus ao sair do hotel, mesmo com o sol brilhando.

Há maneira melhor de começar um dia?

Não.

Ao todo, essa uma hora foi absolutamente revigorante, animadora, inspiradora. O problema é que ela só durou uma hora: ainda tinha o dia inteiro pela frente.

Pois bem: logo que cheguei de volta, me vesti de ingenuidade e fui ao centro pegar o meu kit. Eu e todos os outros 2,5 mil corredores, aparentemente.

Fila? Acho que nem o INSS tinha tanta gente esperando parada! Mudança de planos: deixei o kit para a tarde. Era hora de descobrir o que fazer amanhã, no que resolvi me inscrevendo em um passeio de 4 horas de caiaque pelos lagos amanhã cedo. Sim, deve ser cansativo – mas pelo menos será para os braços, não para as pernas.

Ainda tinha outra tarefa pendurada: o trabalho. Uma viagem como essas consome alguns dias úteis e, ao menos para mim, é impossível deixar o trabalho de lado e considerar tudo como férias (por mais bem vindas e merecidas que sejam, acrescento).

Entre trabalho, trote e posts, portanto, acabei comendo toda a manhã e parte da tarde. E é neste ponto que estou: sentado em um café, martelando o teclado no blog enquanto o projeto que acabei de montar é uploadado para o dropbox e passado adiante. A boa notícia é que, como a produtividade sempre voa com a absoluta falta de interrupções, acabei adiantando tanta coisa que o resto do dia de hoje e todo o amanhã está vazio.

Nova tarefa pela frente, portanto: preencher o tempo. Só espero que não seja com a fila da entrega do kit que, a esta altura, já deve estar menor! :-)

   
    
   
 

 

 

E assim se foi o primeiro dia antes dos primeiros dias

E assim se foi o primeiro dia antes dos primeiros dias: da mesma forma que começou, em compasso de espera. 

Cheguei em San Martin de Los Andes por volta das 13:30 absolutamente sonado. Era segunda, feriado de Carnaval, e teria ainda dois dias inteiros para descansar – desconsiderando apenas umas pequenas pausas para o onipresente trabalho, claro. 

A primeira coisa que fiz – depois de um bem vindo banho, claro – foi rodar pelo povoado. Em um par de minutos, acrescento: San Martin cabe na palma de uma mão, não tendo mais que meia dúzia de quarteirões. Ainda assim, respira ares mais forasteiros do que interioranos: embora poucas, suas avenidas são tomadas por lojas de esporte de aventura; pequenas agências pontilham a paisagem; corredores e ciclistas dividem espaço com crianças brincando soltas; e um clima de adrenalina extrema parece ter subjugado um local que certamente nascera com propósitos muito mais bucólicos. 

A vista também era única: dos dois lados, paredões de montanha afunilavam a vila para o Lago Lácar, formando uam espécie de praia tornada ainda mais gelada por ventos cortantes que espalhavam poeira e pinçavam os nervos. O céu, inquieto, já dedurava a geografia ao se pintar com as cores exatas da bandeira da Argentina. 

E, como não poderia deixar de ser, o cheiro de parrilla acentua a fome de qualquer um que pensar em atravessar a frente dos restaurantes. 

Tudo em San Martin era convidativo, do clima às paisagens e aos sons. Mas o cansaço, ao menos neste primeiro dia, estava extremo demais para eu aproveitá-la. Feito o reconhecimento, almocei logo antes da hora do jantar, invadi uma ou outra loja, tentei – sem sucesso – agendar alguma aventura turística de última hora para o dia seguinte, e voltei para o hotel. 

Nada mais poderia me fazer sair da cama, nem mesmo a claridade insistente do outro lado da janela.

Hoje havia terminado. 

E amanhã, ainda bem, será dia de fazer o reconhecimento como ele realmente deve ser feito: a passos rápidos, trotando povoado afora. Ainda não tenho ideia de que lado irei ou de quanto cobrirei – embora obviamente deva pegar leve por conta do Cruce. Mas uma coisa é certa: a Patagonia e os Andes parecem estar tão ansiosos quanto eu para se metamorfosear de paisagem em aventura.

  
 
 

O caminho

Quando se está só, o caminho parece empolgantemente longo.

“Parece”, aliás, é modo de dizer: cheguei em Guarulhos pouco depois da meia noite para pegar o vôo das 3 da manhã até o aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires; de lá, às 5:40, tomei um transfer até o outro aeroporto da cidade, o Aeroparque – a uma hora de distância – e esperei mais algumas horas: o vôo até San Martin de Los Andes, última perna da viagem, saía apenas às 10:50.

Estou dentro dele ao escrever este post.

Durante as 12 horas que já se passaram desde que fechei a porta de casa, uma mescla de tédio com ansiedade se costurou entre páginas de livros e revistas e papos de outros corredores sobre as suas próprias expectativas. Com o corpo preso a uma cadeira, a mente decidiu voar por todo um percurso de devaneios próprios. Instinto de sobrevivência, talvez.

***

Há poucas horas, lá no Aeroparque, cruzei com a corredora Fernanda Maciel, que voltava ao Brasil depois de quebrar um incrível recorde no Aconcágua. “Devem ser bons ventos”, pensei comigo mesmo. “Deuses da corrida não dão as caras assim se não for para inspirar experiências memoráveis.”

No mesmo minuto, sabe-se lá por quê, comecei a pensar em mim mesmo. Egoisticamente. Despudoradamente. Quase arrogantemente.

Há 8 anos eu estava deitado em uma mesa cirúrgica correndo risco de vida pelo estilo sedentário e estressado de vida que levava; hoje, estou dentro de um avião prestes a atravessar os Andes correndo. Tédio e ansiedade, às vezes, geram uma espécie de orgulho como efeito colateral. 

Fiquei assim, imerso na total falta de modéstia que inundava a minha mente, até que ouvi a chamada para o vôo.

A fila era típica de aeroportos em vésperas de grandes provas: corredores de tudo quanto é nacionalidade sorrindo tensos, mostrando dentes grunhidos e mal se contendo de ansiedade. Eu estava exatamente igual – só que por dentro, já que não conhecia ninguém com quem extravasar sem parecer um psicótico em pleno surto.

Ouvi as histórias dos outros sem pudor, no entanto – da fila do embarque até dentro do avião. As descrições do frio nos acampamentos me deixaram um pouco apreensivo; um possível exagero (ou pelo menos assim espero) no relato da tecnicidade dos percursos do Cruce sopraram alguma tensão no peito; os tons de empolgação nas vozes dos que estavam retornando para correr de novo agiam como uma injeção poderosíssima de endorfina.

Em algum ponto do papo dos outros, fome e o sono atrasado me fizeram desligar a consciência e, como por mágica, o avião se transformou em uma imagem das montanhas. 

Estava em um fim de tarde avermelhado, levemente frio, com a cordilheira se estendendo como uma moldura pelo Lago Lacar. Era um pôr do sol daqueles testemunhados na plenitude do imenso vazio, do despovoado, do nada que se deixa iluminar pelas infinitas constelações cujas existências costumamos ignorar nas grandes cidades. Era exatamente o que estava buscando: a perfeição absoluta. Senti sorrisos forçarem as bochechas algumas vezes até que, de repente, um ruído me colocou de volta no avião.

***

Acordei com um daqueles avisos inúteis sobre tempo de vôo que os comandantes costumam fazer logo que se começa a dormir. 

Respirei e me situei. Na poltrona de trás, o papo entre os corredores sobre o percurso havia misteriosamente se metamorfoseado em previsões catastróficas sobre a crise brasileira. Pela frente, ainda restava mais de uma hora.

Tentei visitar de novo o auto-orgulho para passar o tempo, mas parece que ele havia adormecido também em algum lugar. Pensei em devorar mais um capítulo do meu livro: a falta de vontade foi soberana. Pior: também não tinha mais filme no IPhone ou matéria virgem na revista de bordo.

Não tinha mais nenhuma alternativa. Agora era só fazer o que se deve fazer durante uma espera: esperar.

Esperar e, talvez, aproveitar esse treino de endurance imposto pelo tédio, emulando toda uma ultra mental repleta de associações livres até que a linha de chegada – o Aeroporto de Chapelco, em San Martin de los Andes – apareça no horizonte.

Que apareça logo.

    

El Cruce: checklist de equipamentos

Com o Cruce chegando perto, já era hora de resolver a questão dos equipamentos. Pois bem: munido nas informações (meio confusas) do site e de dicas de alguns amigos, saí às compras ontem e está tudo quaaaaaase pronto. 

Além da mochila de hidratação (a mesma Quechua RaidTrail 10L de sempre), os seguintes itens estão devidamente preparados: 

  

Itens fornecidos pela organização:

  • Camiseta de prova
  • Número de competidor e chip
  • Camiseta manga longa (ou remera)
  • Polar (jaqueta)
  • Mochila resistente à água para os acampamentos

Itens obrigatórios:

  • Mochila de hidratação (não está na foto, mas está conferida)
  • Manta térmica (na foto, número 5)
  • Casaco impermeável (4)
  • Gorro (7)
  • Bivac ou vivisac (3)

Itens recomendados:

  • Isolante térmico (1)
  • Saco de dormir (alugarei junto à organização)
  • Poles (2)
  • Headlamps (6)
  • Luvas para trilhas (8)
  • Toalha
  • Kit com talheres
  • Kit para bolhas (também não está na foto, mas está já preparado)

O que falta, então? Apenas 3 itens: 

  1. kit com talheres
  2. Pilhas AAA para a headlamp

Resolvo ainda esta semana. 

(A propósito, participar dessa prova dá muito mais trabalho do que de qualquer outra que já fiz antes!!!)

Motivação excessiva versus autocontrole pre-prova

Um dos momentos mais curiosos depois de alguma prova grande é a distância colossal que se interpõe entre a motivação e o corpo. 

Voltei da BR com sede de ruas, trilhas e provas. Já no dia seguinte mandei email ao organizador perguntando sobre a inscrição do próximo ano; na sequência, passei mais de uma hora vasculhando a Web em busca de provas de 100K a 100 milhas; e, na segunda, saí para rodar (exagerados) 16K no centro de São Paulo. 

Por outro lado, embora eu realmente não esteja nem de longe tão cansado quanto imaginaria depois de ter rodado 84K, não dá para negar uma certa fadiga nas pernas. Ponto de atenção: dado que o Cruce é em menos de 3 semanas, é ele que deve entrar em foco. 

Pois bem: a planilha, ao menos no restante desta semana, foi parar no lixo. Estou me coordenando pelo puro “feeling”: se acordo dolorido um dia, cancelo a saída; se a dor esmaece no outro, mas o sono é intenso demais pela manhã – outro sinal de cansaço – tento me programar para uma corrida noturna; e assim por diante. 

Até agora, por exemplo, o único treino que fiz foi na própria segunda, feriado em São Paulo. Claro: ainda há o final de semana onde, somando sábado e domingo, devo rodar algo como 45K. Mas, em linhas gerais, o plano é manter a semana ativa e não exagerada, cair o volume na semana que vem (mas aumentando a intensidade) e, na próxima, voltar a subir de leve como se fosse um “esquenta” para o Cruce. 

Domingo será o dia de fazer um “assessment”, de rodar uma espécie de check-up mental. A meta: estar fisicamente preparado, com fadiga apenas marginal e sem nenhuma daquelas dores-fantasma que costumam aparecer em fases de tapering, motivo pelo qual evito, a todo custo, cair de maneira intensa demais o volume. 
De qualquer forma, o nome do treino agora definitivamente mudou. Agora, ele se chama “autocontrole”.