Checkpoint: Ir até o céu cansa

Gráficos, às vezes, são a melhor maneira de se entender os motivos por trás das dificuldades que sentimos em alguns momentos. Esses abaixo, por exemplo: o ganho altimétrico nos 50K da Indomit foram quase iguais aos 100 do Cruce – sendo que estes foram distribuídos em três dias. 

Sim: a Serra da Mantiqueira não é a Cordilheira dos Andes. Mas a quantidade de montanhas esverdeadas pelo seu caminho, quando se somam, chegam a um desafio como poucos. 

   
 Ainda estou me recuperando, com dores musculares que já já devem deixar as pernas. Mas a grande vantagem de provas belas é que, enquanto mastigam o corpo, deixam o coração impregnado com as cenas de indescritível beleza coletadas pelo caminho. Esse residual é, talvez, a melhor coisa de se correr em montanhas. 

Indomit São Paulo Ultra Trail: Relato da prova

Tenho para mim que poucos lugares no Brasil são tão maravilhosos quanto a Serra da Mantiqueira. Seu verde clorofilático, suas montanhas, a majestosa Pedra do Baú e as pequenas cidades que polvilham a paisagem, encrustrando-se entre os vales, se somam em um cenário ímpar, inesquecível.

Foi por isso que me inscrevi na Indomit São Paulo. Por isso, claro, e pelos 3 pontos que cruzar a linha de chegada me daria para a UTMB.

Cruzei a largada já encantado com a paisagem de São Bento do Sapucaí – principalmente quando começamos s subir e deixamos a névoa que encobria a manhã para baixo.

Tudo era tão bonito que difícil foi não parar para tirar fotos e simplesmente respirar a Mantiqueira.

Pelo menos até determinado ponto.

Em algum momento lá pelo km 15, comecei a ouvir muitas preocupações quanto ao tempo de corte no km40 ena prova em si. Olhei pra o relógio e para cima.

Nas outras Indomit que participei, o terreno encharcado transformou as tantas trilhas técnicas em um pesadelo. Nessa, praticamente não havia trilhas técnicas e tudo estava relativamente seco – mas as dificuldades foram outras.

O calor, por exemplo, batia facilmente os 35, 37 graus. E isso não era nada perto da altimetria insana: os 3.500 metros de subida em 50K eram crueis. Árduos, áridos, gerando cenas com direito a corredores encostados em algum paredão vomitando seus estômagos para tentar manter guardadas as almas.

Em um determinado ponto, o coração disparava incerto, remexendo as entranhas inteiras. Onde achava sombra, parava para respirar e descansar uns minutos. Mas não muito: pela primeira vez na vida me senti pressionado por um cut-off e sabia que fotos e descansos deveriam ficar para uma outra prova.

Nesses momentos de cansaço extremo uma outra dificuldade se abateu: a falta de água. A temperatura engolia as mochilas de hidratação com uma sede insana, quebrando sem dó o planejamento da organização. Pelo menos 3 ou 4 dos 10 postos estavam secos quando eu passei, forçando os corredores a seguirem em frente bebendo apenas a força de vontade. Um deles foi especialmente marcante: o do corte no km40, depois de uma interminável subida. Passando por ele, um grupo de 5 ou 6 corredores estavam sentados no meio do estradão perguntando a quem passava se eles tinham água para compartilhar.

Eu ainda tinha alguns goles e, assim, fomos dividindo a sede por uns 3 ou 4km (de mais subida sob o sol, claro).

Os meros 15 minutos de folga com que eu tinha passado no corte do km40 foram evaporados pela força do sol e da altimetria. Àquela altura, muitos corredores haviam ficado no corte ou desistido e eu já duvidava se conseguiria chegar antes das 10h de prova – principalmente depois que me deparei com um trilha estilo vala, onde correr era impossível. Fui lento, tentando recuperar um pouco o organismo remexido e aproveitando cada milímetro de sombra e descida. 

Funcionou: depois de uns 3km, estava inteiro. O tempo, no entanto, já era inimigo.

Corri o quanto pude, usei os poles para forçar velocidade nas subidas, parei o mínimo possível. 

Quando cruzei a linha de chegada já havia estourado o tempo: 10h11m31s. 

Ainda assim, alguma compaixão deve ter acometido os organizadores que me deixaram cruzar, penduraram a medalha no meu peito e me entregaram a camiseta de Finisher. Se esses 11 minutos me tirarão os 3 pontos para Mont Blanc ainda não sei – mas espero que não.

Descobrirei no futuro próximo.

O balanço da prova? Linda como poucas, dura como menos ainda, com algumas falhas da organização mas, ainda assim, altamente recomendável. Altamente.

Com ou sem pontos, mesmo com o cansaço e os miseráveis 11 minutos e 31 segundos, testemunhar esse percurso foi, por si só, algo inesquecível.

Tão inesquecível que, embora ainda com as dores do dia seguinte, já ouso dizer que são grandes as possibilidades de eu voltar no ano que vem.

(Só espero que eles aumentem esse tempo de corte para que pelo menos possamos parar em alguns pontos para aproveitar a paisagem, esse sim o ponto mais alto da prova!)

   
    
 

Acaba, semana!

Faltam mais 2 dias. 

Ou 1, considerando que amanhã à tarde zarpo para São Bento do Sapucaí. 

Não é a ansiedade da prova que está me comendo hoje – é o cansaço do trabalho. É esse exaustivo ritmo de Brasil em crise, com ânimos exaltados e ações em permanente estado de alerta, de expectativa e de surpresa. Trilhar a selva paulista tem sido uma tarefa muita mais técnica do que qualquer trilha da Indomit. 

Ainda assim, hoje é quinta. 

É dia em que o horizonte do descanso está mais próximo, mais visível. 

Preciso recarregar as baterias trocando cabeça por pernas lá na Serra da Mantiqueira. 

  

Tapering? Testemos uma prova sem isso

Quem acompanha o blog sabe que nunca me dei muito bem com o tapering – aquela fase final de preparo para uma prova em que se diminui drasticamente o volume de treino para recuperar a musculatura. 

Em todas as vezes que tentei seguir o “livro de receitas” o resultado foi o mesmo: dores fantasma começaram a brotar pelo corpo com uma intensidade insana, atrapalhando as largadas mais do que qualquer cansaço. Isso sem contar com gripes, ansiedade e tudo mais. Histeria pura? Pode ser – mas que diferença faz ter um diagnóstico se o resultado não mudará? 

Em todos esses ajustes finais, o melhor modelo para mim foi fazer o inverso do que costuma ser pregado: diminuir o volume cerca de um mês antes e depois voltar a subir gradativamente, como se a prova fosse o pico do treino. 

Bom… Para a Indomit, talvez por não ser a prova alfa do meu calendário, o modelo será diferente. Na semana passada cheguei num pico de 81K, o máximo desde que voltei do Cruce, e nessa semana estou mantendo um ritmo fixo, firme, para não dar sinais ao corpo de qualquer tipo de diminuição. 

A ideia é largar nos 50K como se fosse um sábado qualquer – incluindo alguma fadiga muscular que espero que passe nos próximos dias com uma diminuição leve na carga e uma folguinha quase imperceptível estrategicamente inserida na planilha. 

Vamos ver que resultado isso trará. 

   

A bênção de uma linha de largada próxima

Ansiedade, expectativa, preparação. 

Quando uma prova se aproxima, qualquer que seja ela, é difícil não ter essas três palavras como parte do cotidiano dos dias que antecedem a trilha. E são palavras desejadas, aguardadas com aquele tipo de vontade que só se entende quando a linha de largada está próxima.

Basta olhar o calendário e enxergar uma viagem e pronto: o corpo já fica ouriçado. Problemas cotidianos? Todos parecem sumir como que a passe de mágica, encobertos pela espessa neblina da expectativa. Sim: ainda há alguns dias a serem vencidos até que pegue o carro e dirija até São Bento do Sapucaí; ainda há projetos, planos, apresentações e toda aquela gama de afazeres típicos da vida na selva profissional paulistana. 

Mas… quem se importa? O que são essas pequenas tarefas quando se tem 50km pela Serra da Mantiqueira logo ali? 

Eu deveria programar mais provas no meu calendário: o efeito que elas tem nos níveis de empolgação são simplesmente únicos. 

  

Chuva, chuva, chuva

Essas últimas duas semanas deveriam ser as mais secas e quentes do sudeste ao menos no último ano. Eu nem pediria tanto: ficaria feliz apenas com a falta de chuva. 

Mas não: os Deuses, aparentemente, curtem sincronizar as suas águas com o calendário da Indomit. Comigo, pelo menos, foi assim nos 42K de Bombinhas e nos 100K da Costa Esmeralda. 

A Indomit São Bento do Sapucaí, ao que tudo indica, será tanto corrida quanto nadada. 

Cheguei até a questionar a ida – a perspectiva de escorregar e de tentar me equilibrar em rios de lama me dá uma preguiça digna de Macunaíma. 

Mas aí tem os pontos. Os tais 3 pontos que essa prova me garantirá para a OCC, em Mont Blanc, no ano que vem…

Haverá outras oportunidades para somá-los? Certamente. Provavelmente. 

Mas, em um ano complicado em que o calendário de viagens para corridas ficou invariavelmente mais escasso, melhor garantir do que esperançar. 

Águas, nos veremos no sábado.

   

Checkpoint: Fechando 80

Tá: o ideal para a véspera de uma prova não é, decididamente, se esguelar até chegar a um pico de volume maior do que os últimos dois meses de treino. 

Paciência. 

Correr, às vezes, é uma meta por si só. Há a Indomit na semana que vem? Sim, há. Mas essa semana foi complicada demais, turbulenta demais, para que eu deixasse de tomar esse incrível remédio que é passar horas simplesmente me movendo entre o chão e o céu. 

Foram pouco mais de 80K rodados nas primeiras horas da manhã, nas últimas luzes da tarde, sob o sol do meio dia e variando entre a selva cinzenta do centro, os trilhos de trens do passado, as várzeas inexistentes dos rios paulistas e as trilhas ex-trincheiras do Ibirapuera. 

Missão cumprida. 

Endorfinas internalizadas. 

Tudo pronto agora para a próxima semana. 

   
 

Correndo pela Revolução de 32

Nunca havia me dado conta que, hoje, sou vizinho de muitos dos livros de história que lia quando morava em Salvador. Faz relativamente pouco tempo que acordei para isso, em grande parte embalado por todo um mar de livros que tenho lido sobre São Paulo. E quer forma melhor de vivenciar a história de uma cidade do que correndo-a? 

Hoje, portanto, começou na década de 30. 

Ainda estava embalado pelo clima do tenentismo, pela revolta de 24 que transformou a cidade em escombros e fez dos parques que hoje parecem tão inocentes trincheiras encharcadas de sangue. O mesmo tenentismo, 6 anos depois, havia deposto Washington Luís e impedido a posse de Júlio Prestes, colocando Getúlio Vargas no Catete. E, dois anos depois, os paulistas que sempre tiveram pavio curto, cansaram de esperar por uma constituição tão prometida quanto inexistente.

Essa sucessão de eventos foi comigo subindo a Bela Cintra até o centro, mais precisamente até a Praça do Patriarca. Aquele local era o principal centro de protestos da cidade – e foi dali que a população começou a se revoltar contra a ditadura de Vargas. Hoje, um sábado de manhã após a sexta-feira santa, ela estava vazia; há pouco mais de 80 anos, no entanto, ela abrigava a maior manifestação que a cidade já vira. Parei na Praça e olhei ao redor: os mendigos e catadores de lixo que ali habitavam e que mais pareciam soldados caídos na batalha de tão desesperançosos, ignoravam o passado da metrópole. Claro: hoje, eles estão ocupados demais batalhando pela sobrevivência, pelo presente. 

  
Mas não era no hoje que eu estava: estava em 1932. Em 23 de maio de 1932, para ser mais preciso.

De lá, rumei com os revoltosos até a esquina da Praça da República com a Barão de Itapetitinga. Hoje, um prédio meio abandonado que abriga, em seu andar térreo, uma agência bancária, parece camuflado pela curta memória histórica que o brasileiro cisma em ter. No passado, ali era a sede da Legião Revolucionária, um dos bastiões da segurança pública. No caminho até lá, os revoltosos saquearam lojas de armas e começaram a se insurgir de maneira mais perigosa, intensa. 

  
Assustados, os combatentes da Legião revidaram com tiros no que foi a primeira das grandes batalhas da cidade. Quatro das cinco primeiras vítimas foram estudantes que, com suas iniciais – MMDC – se transformaram em mártires e símbolos da Revolução que começava naquele dia. 

A partir de então – e por 90 longos dias – o estado de São Paulo estava em guerra. Da Praça da República segui para a Barão do Rio Branco desviando de balas e de porretes. Outro símbolo máximo de uma era que se foi fica por lá, igualmente esquecido: o Palácio dos Campos Elíseos, antiga sede do governo do estado, onde Pedro de Toledo foi aclamado governador pelo povo. 

  
Deu para sentir a aclamação, o fervor nas ruas, os gritos. 

De lá daquele palácio, boa parte das estratégias militares foram planejadas, calculadas, medidas. De lá, muitos destinos foram traçados.

O Palácio passou por uma reforma em sua parte externa e, de fato, está belíssimo – mas a falta de recursos, velho conhecido da nossa história, paralisou o projeto e essa jóia paulistana permanece fechada ao público. 

Muito sangue ainda foi derramado entre julho e outubro de 32, mas já começava ali a me despedir da revolução. 

Enquanto ela era esmagada pelas tropas legalistas e seu objetivo político de impor uma constituição paradoxalmente alcançado, a cidade seguia o seu ritmo de motor do país inteiro. Fui conferir o “motor” na região da Barra Funda, incluindo uma passada na Chácara do Carvalho, lar do mito Antônio Prado, que saiu de mestre de escravos a barão do café na república velha, que trouxe a indústria para São Paulo, que trouxe os trens, os bondes e a modernidade como um todo. 

De lá fui para a então “cidade cotidiana”, às margens dos trilhos da Barra Funda onde hoje novos bairros se erguem. As chaminés das fábricas, no entanto, permanecem como testemunhas perfeitas de tantas eras que passaram pelos seus tijolos. Isso inclui, claro, a chegada de todo um mar de italianos que chegou a ser maioria entre a população paulista, inclui os palcos das tantas lutas de classe, inclui a vinda, anos depois, dos imigrantes nordestinos, inclui a nova São Paulo. 

   
 Mas esses tempos são novos demais para essa corrida. Deixei a Barra Funda pela Sumaré, já me integrando ao século XXI, e voltei à Bela Cintra já tomada de prédios e asfalto para encerrar a corrida. 

No total, foram 26km rodados em pouco menos de 3 horas. 

3 horas em que praticamente desapareci do meu Tempo e mergulhei em revoltas, revoluções, lutas, trincheiras, bombardeios e gritos de ordem. 

Se correr, por si só, já é inspirador, cruzar toda uma era consegue ser mágico.