Checkpoint: Semana de mudança

Literalmente, aliás. Seguir uma planilha em uma semana que inclui mudança de carro e viagem a trabalho não é exatamente uma tarefa fácil. Quando se tem uma gripe repentina para apimentar ainda mais as dificuldades, aí sim a coisa fica tensa. 

Bom… Fiz o possível. Rodei uma maratona na segunda à noite e espalhei o resto da planilha onde deu. Mas perdi uma meia. 

Contrapartida: meu pace foi muito, mas muito melhor, ficando na média abaixo dos 6/km mesmo considerando os 91K rodados com tantos semáforos e cruzamentos nos caminhos. São os pros de se mudar a rotina algumas vezes: independentemente da manutenção ou não do volume, o corpo acaba se desencaixando de seus próprios hábitos e nos entregando surpresas. 

É um pouco do que acontece em provas também – e essa semana serviu para me relembrar disso. Alguém treina o mesmo volume que pretende correr? Em ultras, pelo menos, dificilmente. Treinar, afinal, é treinar: é preparar o corpo para ter resistência e flexibilidade o suficiente para que saiamos da linha de largada e cruzemos bem a de chegada. E estar preparado não é a mesma coisa que estar “comprovado”.

Não minto que esteja um pouco preocupado com o treinamento com um todo. Sim, estou seguindo quase tudo à risca – mas, até agora, meu maior longão foi uma maratona (ainda que feita por semanas consecutivas e ainda que tenha algumas sessões de 50K pela frente). Mas tudo a seu tempo: é inegável que minha resistência tem aumentado significativamente e, às vezes, precisamos dar um jeito de largar a preocupação de lado e apenas confiar. 

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Tenho andado sumido

É, tenho. Há motivos – sempre há.

Correr, nessas últimas semanas, se transformou em uma espécie de momento religioso para mim, algo quase catártico dado o momento de vida.

Tudo está acontecendo. Toco duas empresas no cotidiano – uma agência de comunicação e uma editora online. Não tenho do que reclamar de nenhuma delas mas, como para todo empresário brasileiro, atravessar esse mar de incertezas gerado pela crise política, social e moral brasileira, tem demandado uma energia colossal. A cada instante, planos novos, projetos súbitos brotam da ansiedade de tentar deduzir se ainda teremos um país para trabalhar na semana seguinte. Incerteza é o pior dos inimigos da calma.

Some-se a isso o fato de eu estar finalizando uma obra para me mudar de apartamento no final do mês. Mais malabarismos.

Talvez soe como uma espécie de auto-tortura considerar que estou ainda beirando a fase de pico para o Caminhos de Rosa, rodando 100, 110km semanais. Mas não é.

É o oposto.

Em uma daquelas metáforas piegas de tão óbvias, pode ser que esteja mesmo é correndo dos problemas. Pode ser – mas o fato de sempre retornar a eles ao cabo de algumas horas com a cabeça mais fresca e o peito mais oxigenado não deixa de ser um bom sinal.

Essas 11 horas que passo entre ruas e trilhas são responsáveis, em verdade, pelas outras 157 horas divididas entre muito trabalho e pouquíssimo sono.

A acidez das mudanças é tamanha, no entanto, que sobra pouco espaço para uma descompressão mais suave, feita de palavras sendo marteladas aqui no blog. É desligar o relógio e pronto: sou imediatamente catapultado para dentro do celular, nova casa de todos os problemas que carecem de soluções imediatas.

Mal subo o elevador e, ainda suado, estou já imerso no trabalho.

Sim, ando sumido – e isso não está me fazendo bem. Espero que alguma normalidade volte a aparecer por essas bandas: definitivamente não é normal sentir, já em junho, aquele cansaço mental típico de dezembro.

O ano precisa correr mais rápido que nós.

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Checkpoint: Curtindo a jornada

Depois da semana de descanso, que venha a intensa. Volumetricamente, aliás, bem intensa, ao menos pelos meus parâmetros: foram quase 95km, o mais que fiz desde o Cruce.

A “fórmula”, ao menos até agora, está funcionando: como comecei fresco, novo, realmente fechei o domingo impressionantemente inteiro – mesmo considerando uma quase-maratona ontem e uma quase-meia hoje.

Pelas próximas duas semanas o ritmo será igual ao desta. Imagino que chegue ao término da última ansioso pela semana de descanso – mas só esperando para ver.

Há algo de sensacional nisso tudo: o próprio ato de testar um modelo novo de treino, registrando semana a semana seus resultados no corpo, me deixa tão empolgado quanto se estivesse correndo uma ultra.

A jornada, por vezes, pode ser mais interessante que o destino.

Considerações sobre o modelo de treino para correr os 140km do Caminhos de Rosa

Essa será, provavelmente, a semana mais light que já tive em muito tempo.

Faz parte de um modelo novo de treinamento que estou testando para o Caminhos de Rosa. Verdade seja dita, estou adaptando esse modelo tanto de um outro post que li há algum tempo quanto de dicas da Zilma Rodrigues, uma das mais experientes ultramaratonistas que conheço.

A diferença do que vinha fazendo antes – de certa forma, afinal, esse modelo já fazia parte do meu ritmo cotidiano – é que agora estou realmente levando a sério.

Ele prega 3 semanas com volumes altos, praticamente estáveis e “no talo”, seguidas por uma semana de descanso. Não exagero quando falo da radicalidade da volumetria, diga-se de passagem. Por exemplo:

Essa próxima semana é de descanso. No total, terei 4 corridas a fazer: duas de 1h10 (terça e quarta) e 2 de 1h30 (sábado e domingo). É quase que metade do que fiz nesta última semana.

As próximas 3, no entanto, serão diferentes: todas terão 3 corridas de 1h10 em dias úteis mais uma de 4h no sábado e outra de 2h no domingo. Total: 9h30, provavelmente encostando na casa dos 90km rodados por 3 semanas seguidas. A semana depois disso? Uma redução para 6h40 divididas em 5 sessões leves.

E, assim, vou recuperando as energias nas semanas leves e forçando o volume nas altas.

Não há muita preocupação aqui com alta intensidade, embora eu esteja acrescentando mais velocidade nas corridas feitas em dias úteis. A ideia não é essa: uma prova de 140km sob o sol do sertão será percorrida muito mais com resistência do que com explosão. É também por isso que essas 3 semanas pesadas e seguidas servem: para acostumar o corpo a correr mais cansado, forçando um pouco mais os próprios limites.

Uma coisa digo: chegar na semana leve é também uma espécie de meta muito bem vinda. Chegar no portão de casa depois dos últimos passos do domingo foi quase como cruzar uma linha de chegada de uma prova real! Isso também entra na conta: achar motivação ao longo do caminho é sempre fundamental em uma jornada dessas.

Agora é seguir adiante. Por enquanto, estou bem contente com esse modelo, embora ainda seja cedo para falar de resultados práticos.

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Checkpoint: O pico perfeito

Tenho mais duas semanas de treinamento: na terceira embarco para San Martin de Los Andes, de onde largo no El Cruce. Estou convicto de que o problema com uma prova dessas não é a rodagem em si – 100km em 3 dias – ou mesmo a altimetria, esta sim de uma intensidade poderosa. Tampouco o grau técnico das trilhas me deixa tenso: sem querer parecer presunçoso demais, acredito que as duas provas da Indomit que fiz (Bombinhas, há um ano, e Costa Esmeralda, há alguns meses – ambas encharcadas de tanto temporal) tenham deixado o couro mais rijo em relação a isso.

A dificuldade mesmo, acredito, estará em largar por dois dias (o segundo e o terceiro) com o corpo frio e as pernas cansadas. O cronograma da prova inclui, afinal, 40K no primeiro dia, 30 no segundo e 30 no terceiro – uma divisão quase homogênea de dificuldades não fosse esse acúmulo de exaustão. E, se o ideal em treinamento é buscar simular as provas ao máximo, creio ter feito isso bem. 

Na semana do Reveillon, em Niterói, somei pouco menos de 100K em um sobe e desce de montanhas por trilhas diversas sem parar. O calor, elemento que dificilmente encontrarei nos Andes, serviu como pimenta para agregar um pouco mais de dificuldade. 

As duas semanas seguintes até foram mais leves do ponto de vista de volume, mas organizei os treinos de forma a deixá-los consecutivos, fazendo back-to-backs que simulassem a sensação de correr sobre pernas cansadas. Foi diferente e bastante intenso – mas viável. 

Na semana retrasada, 85Kms também comprimidos – desta vez em quatro saídas. Subi o que pude aqui em Sampa, somando algo como 1.000 metros de altimetria acumulada, mantendo um pace mais lento porém controlado. 

E, claro, teve a semana passada: o pico perfeito de um treinamento que, se não foi radicalmente de acordo om o traçado, também passou longe de ser desleixado. Deixei segunda, terça e quarta para descanso total. 

Na quinta, iniciei meus trabalhos de pacer na BR. Entre quinta e sábado de manhã, rodei quase os mesmos 85km da semana anterior – porém em menos dias e com muito, muito mais altimetria: 3 mil metros. Enquanto corria, a sensação que tive foi de absoluta surpresa: não podia imaginar o quão preparado estava. Não senti cansaço algum e, correndo o risco de soar arrogante, acredito que poderia até ter feito a BR inteira em formato solo. 

Os intervalos de descanso, em que outros pacers assumiam, deveriam ter servido para esfriar o corpo – algo que não chegou, de fato a acontecer. Cada largada minha era mais marcada por empolgação do que pode dor, resultado também das paisagens fenomenais da Serra da Mantiqueira. 

E, bom… se consegui fazer tão confortavelmente este último treinão, que de certa forma teve quase a mesma quilometragem que o Cruce em quase o mesmo tempo, embora em formato diferente, praticamente sem trilhas e com altimetria mais baixa, então creio estar preparado. 

Bem preparado, arriscaria dizer. 

Isso também significa que essas próximas duas semanas, a começar por hoje, devem ser mais dedicadas a um tapering leve, um descanso maior ao corpo para que ele fique mais forte. 

De toda forma, entre volume de rodagem, altimetria, tempo e sensação de segurança, devo dizer que estou absolutamente confortável. Mais: esse pico de treinamento talvez tenha sido o mais perfeito de todos até agora. 

Veremos os efeitos práticos em breve.

   
   

Back to backs no caminho do Cruce

Agora eu respiro back-to-backs. Daqui até o começo de fevereiro, meus dois objetivos de treinamento são me habituar a correr sobre pernas cansadas e me manter confortável em subidas e descidas. 

O segundo objetivo é relativamente tranquilo: os dias de trilha e morro em Niterói deram um gás perfeito que está sendo mantido tanto pelos percursos que tenho traçado em Sampa quanto pelas escadarias que inseri no meu cotidiano. 

O primeiro não chega a ser exatamente difícil: tudo, afinal, é sempre uma questão de hábito. Mas é um tipo de treinamento diferente, muito diferente do que estou habituado. 

Tomemos essa semana. Em tese, eu teria uma sessão de 15km na terça e duas de 10km na quarta e na quinta. Seria o normal, fechado por um longão no sábado e mais uns 15km no domingo. Mudei isso. 

Mantive os 15km na terça – mas juntei os outros dois dias no mesmo e, ontem, rodei 20. Cansou bem mais, obviamente – mas confesso que estou começando a me sentir mais confortável com esse acúmulo de sessões back-to-back. Dor, afinal, é sempre resultado de percepção que, por sua vez, é sempre algo relativo. 

Ainda assim, não dá para descuidar do fato de que back-to-backs são um risco à parte: treinar em pernas cansadas aumenta riscos de lesões por forçar uma quebra na biomecânica e impor uma sobrecarga anômala. Para evitar cair dessa corda bamba, inseri um dia de descanso a mais: hoje e amanhã serão dedicados à mais pura regeneração. E confesso que acordar com a certeza de que o descanso será bem vindo foi muito, muito positivo. 

Aproveitemos os days-off: sábado tem longão de novo. 

  

Checkpoint: Descobrindo a distribuição

Em tese seria uma semana light: sem intensidade, com volume reduzido e focado em recuperação. 

Mas, por conta da viagem essa semana, acabei mudando a agenda de treinos – e concluí que isso faz toda a diferença.

Fechei a semana com pouco mais de 60K – algo que deveria ser bastante regenerativo dado o meu cotidiano. Não foi.

A corrida de hoje, feita toda na escuridão da madrugada, acabou sendo interrompida pela metade dado o estado mastigado que minhas oernas estavam. O que fez isso?

Distribuição. 

De nada adianta – ao menos quando se busca recuperação – encaixar treinos sequenciais longos. 

Por outro lado, é um tipo diferente (e possivelmente bem útil) de treino de endurance.

Abri a segunda – já depois de um fim de semana intenso e sem descanso – com 10K. Matei o dia que costumo usar como intervalo de descanso. 

Passei para terça. O cansaço acumulado, no entanto, era demais para um dia só. 

Abri a quarta dolorido mas, ainda assim, fiz uma média de 15K por dia por 3 dias seguidos. No final da sexta estava exausto e com o prospecto de encarar o sábado inteiro dentro de um avião.

Veio o domingo e, apesar da empolgação de correr em um lugar novo, mal consegui fazer 7K.

Pelo menos houve um aprendizado importante aqui, embora tardio: distribuição de volume é tão importante quanto o volume em si e a intensidade.

Houve também uma decisão: preciso repetir esse modelo mais vezes, principalmente considerando que provas em estágios como a Cruce e outras estão nos planos para o futuro próximo.

Algumas das descobertas mais interessantes quando se treina solo vem dos improvisos mais inesperados.

   
 

Checkpoint: Reset total

Semana de recomeço: queda brusca no volume, diminuição na gana por velocidade e, ainda assim, articulações duras e cansaço correndo pelo corpo.

Não dá para dizer que foi uma semana fácil, motivadora – mas, assim como em dias de prova, é preciso estar sempre preparado para tudo. E, se é verdade que houve um erro de cálculo no treinamento que me fez atingir o pico cedo demais, é também verdade que há tempo para remediar.

Tenho pouco menos de um mês para a Ultra Estrada Real e quase 3 para a Comrades.

O foco total agora está em crescer o volume aos poucos, manter o pace médio próximo ao que está hoje (para evitar novos exageros) e recuperar a motivação que acabou vazando com os tempos difíceis.

Um passo de cada vez: e essa semana foi apenas o primeiro.

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Ritmo, ritmo, ritmo

1h30 de treino antes do sol raiar. Meta: manter um ritmo forte, mesclando pista e trilha do Ibirapuera e buscando ficar na casa dos 5’30” baixos (incluindo aí 30 minutos de tempo).

Essa nova fase do treino, entrando cautelosamente no pico tendo a UER e a Comrades como meta, está totalmente concentrada em um equilíbrio perfeito de velocidade com volume. Nessa semana, por exemplo, terei mais um treino como o de hoje, um de 1 hora com intervalados e, no sábado, 5 horas de rodagem em um ritmo mais calmo, porém igualmente planejado e equilibrado.

Não vou mentir: dói. Nessa mesma fase do ano passado, me peguei abrindo mão de velocidade e privilegiando a distância. Não é isso que está sendo feito no planejamento atual – e será interessante constatar as variações nos resultados.

Mas voltando ao ponto: o dia de hoje foi concluído com 17km, levando a um pace de 5’32” (incluindo as pausas em semáforos e cruzamentos). Pela análise de GAP do Strava, que desconsidera os trechos em que fico parado, o pace foi a 5’27” – dentro da meta.

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O gráfico de ritmo mostra tudo exatamente como foi: um começo de aquecimento rápido, picos de velocidade quando fui na pista (entre os km 4 e 8), diminuição leve na trilha (ainda meio enlameada pelas chuvas de ontem, entre os km 8 e 13) e uma volta com pausas maiores pelo movimento mais intenso das ruas no caminho do Ibira até a minha casa.

Pela distribuição de pace, abaixo, a maior parte do esforço ficou dividido em endurance e acima (tempo, threshold, VO2Max e anaeróbico):

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Perfeito para a fase.

Agora é equilibrar o cansaço, balancear com os ajustes na alimentação que estou fazendo e ganhar força para enfrentar bem as próximas ultras.

Em tempo: sei que os últimos posts estão absolutamente nerds, com um foco excessivo e bem “mala” em estatísticas que, embora importantes para mim, são bem medianas para corredores mais intensos. Ainda assim, o propósito inteiro desse blog é justamente registrar o que se passa na cabeça de um corredor enquanto ele corre, certo? E, nesses últimos dias, a palavra ritmo tem praticamente martelado na minha mente sem dó. Melhor dar ouvidos :-)

2015 vs. 2014: Comparando 2 anos de treinos e resultados

Fiquei encafifado com o post de ontem, quando efetivamente analisei meu pace médio e comecei a ver que uma tendência de lentidão que começou a (finalmente) ser interrompida.

Aí me lembrei que registrei cada semana também do meu treinamento para a Comrades 2014, base no mínimo interessante para um comparativo.

Ei-lo nos gráficos abaixo, que consideram a semana 1 (S1) como a primeira de novembro do ano anterior ao de análise:

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O primeiro gráfico é o de volumetria – e já deixa uma informação preciosa: nas últimas 14 semanas, apenas 2 tiveram menos rodagem que em 2014: a que incluiu a ultra de 50K e a da semana imediatamente posterior, que dediquei a recuperação.

O outro gráfico, de pace médio, reforça os efeitos disso: tirando os dois picos de lentidão nas semanas que incluíram a viagem recheada de trilhas por montanhas nos Andes e os 50K da ultra de aventura na Serra do Mar.

Uma olhar mais superficial já enxergaria uma clara relação entre rodar mais e acelerar menos. No entanto, há algo mais aí.

A rodagem realmente aumentou, mas nada que tenha sido exagerado ou mesmo fora de um natural ganho de experiência. O que aconteceu mesmo foi redução de velocidade por conta da transição para trilhas. Ou seja: na medida em que terrenos vão ficando mais técnicos e subidas, mais íngremes, realmente se cria uma espécie de zona de conforto em que se aceita melhor uma menor agilidade. Natural.

Natural, no entanto, não significa correto. Aliás, análises assim são perfeitas para se ajustar o treino.

Meu objetivo agora: voltar a paces médios sub-6′ mantendo (ou pelo menos reduzindo apenas minimamente) a volumetria.