Fazer um bate-volta pro Rio é sempre um exercício mental

É difícil negar que o Rio de Janeiro seja uma das cidades mais bonitas do mundo. Para quem curte qualquer tipo de esporte, então, ela praticamente exala energia por todo canto: na orla de Copacabana, Ipanema e Leblon, na Tijuca, no aterro, na Lagoa, na Barra.

Daí a dificuldade.

Quando venho a trabalho para cá, costumo ficar apenas o dia: chego de manhã cedo, a ponto apenas de ver o sol brilhar sobre o Pão de Açúcar pela janelinha do avião, passo horas em reuniões e volto no final da tarde, quando pessoas mais felizes estão começando a devorar os calçadões com seus tênis.

Treinar a mente? Só ter que fazer o corpo a obedecer a rotina e entrar no avião, conscientemente deixando para trás uma paisagem ridiculamente convidativa como a do verão carioca, já garante força de vontade suficiente para completar qualquer ultra de 100 milhas!

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Atualizações organizacionais da Ultra Estrada Real

Primeira surpresa: o número de inscritos na Ultra está realmente, REALMENTE grande. Até o momento, já somos em quase 80 corredores!

Número respeitável para qualquer ultra – principalmente quando estamos falando de uma no estilo “fat ass”, sem apoio oficial, taxa de inscrição ou prêmio. E, de cara, isso significa uma coisa: que esse evento, meio treino e meio prova, que ocorrerá na véspera da Páscoa na incrível Estrada Real, realmente está mexendo com a comunidade. Que bom!

Vamos, então, a alguns updates importantes:

1) Como comentei no começo do post, a UER está já com 76 corredores inscritos. Dado o ritmo, estimo que esse número vá ultrapassar os 100 em breve.

2) Em breve também devemos estabelecer uma data limite para inscrição por conta dos suprimentos: água, isotônico e comida precisam ser calculados com base na quantidade de participantes. Além disso, o Instituto Estrada Real nos pediu 10 dias para confeccionar certificados de participação oficiais para todos. Devo fechar essa data limite com a Zilma até, no máximo, a semana que vem.

3) Ainda estamos precisando de voluntários para os postos 3 (Camargos) e 4 (Mariana), além da chegada em Ouro Preto. Quem conhecer alguém disposto a ajudar, por favor mande email para emailnacorrida@gmail.com . Temos já os mantimentos adequados, precisando apenas de equipe mesmo. Mais informações sobre os locais clicando aqui.

4) Tenho aconselhado a todos os corredores que pretendem fazer a UER como primeira ultra a repensar a participação. Alguns estão ficando ofendidos comigo, mas explico: ultras costumam exigir bastante do corpo, principalmente quando demandam uma certa autosuficiência e incluem largadas e chegadas potencialmente às escuras. A UER, por ser independente, se assemelha mais a um treino: ela não contará com nenhum tipo de apoio como ambulâncias, staff no percurso etc. Ou seja: é importante que todos tenham em mente que estaremos essencialmente por conta própria. E, por mais que a experiência anterior em alguma ultra não garanta imunidade contra imprevistos, ela pelo menos já deixa o corpo ciente das dores que enfrentará. De toda forma, a estrada é pública e permanece aberta: quem quiser participar será mais do que bem vindo. Só é importante ter bem claro o desafio!

Por hora é isso! Bons treinos a todos e até breve com mais informações!

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2015 vs. 2014: Comparando 2 anos de treinos e resultados

Fiquei encafifado com o post de ontem, quando efetivamente analisei meu pace médio e comecei a ver que uma tendência de lentidão que começou a (finalmente) ser interrompida.

Aí me lembrei que registrei cada semana também do meu treinamento para a Comrades 2014, base no mínimo interessante para um comparativo.

Ei-lo nos gráficos abaixo, que consideram a semana 1 (S1) como a primeira de novembro do ano anterior ao de análise:

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O primeiro gráfico é o de volumetria – e já deixa uma informação preciosa: nas últimas 14 semanas, apenas 2 tiveram menos rodagem que em 2014: a que incluiu a ultra de 50K e a da semana imediatamente posterior, que dediquei a recuperação.

O outro gráfico, de pace médio, reforça os efeitos disso: tirando os dois picos de lentidão nas semanas que incluíram a viagem recheada de trilhas por montanhas nos Andes e os 50K da ultra de aventura na Serra do Mar.

Uma olhar mais superficial já enxergaria uma clara relação entre rodar mais e acelerar menos. No entanto, há algo mais aí.

A rodagem realmente aumentou, mas nada que tenha sido exagerado ou mesmo fora de um natural ganho de experiência. O que aconteceu mesmo foi redução de velocidade por conta da transição para trilhas. Ou seja: na medida em que terrenos vão ficando mais técnicos e subidas, mais íngremes, realmente se cria uma espécie de zona de conforto em que se aceita melhor uma menor agilidade. Natural.

Natural, no entanto, não significa correto. Aliás, análises assim são perfeitas para se ajustar o treino.

Meu objetivo agora: voltar a paces médios sub-6′ mantendo (ou pelo menos reduzindo apenas minimamente) a volumetria.

Checkpoint: Evolução nítida com uma pitada de medo

Fazia tempo que eu não batia 85km em uma semana de treino. Aliás, a última vez foi no meio de setembro do ano passado, na semana em que fiz a Douro Ultra Trail em Portugal.

Para completar, meus tempos estão melhores. Aliás, fazia algumas semanas que não atualizava meu gráfico de pace médio e vê-lo hoje me surpreendeu:

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Não tinha me ligado que, aos poucos, estava efetivamente me tornando mais e mais lento em um processo que vinha desde outubro, depois da Maratona de São Paulo. Foi como se um botão tivesse simplesmente sido desligado em mim: diminuí ritmo e rodagem ao mesmo tempo. Gráficos sempre permitem boas conclusões.

Enfim, estava na hora de mudar – e já faz duas semanas que decidi me sincronizar melhor com meu treino e aumentar a intensidade geral. A parte boa é que, ao menos de acordo com os dados, está funcionando:

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Se tudo está indo bem, então, de onde vem o “medo” que entrou no título do post?

Bom… a dor nas costas que havia desaparecido desde os 50K na Serra do Mar voltou. E voltou subitamente, depois de um treino quase perfeito durante a semana. Suas características são idênticas: ela some durante corridas mas incomoda em momentos que o corpo está mais frio e descansado, praticamente soletrando a palavra “hérnia”. E, nos 21K de hoje, um incômodo esquisito no joelho direito – lado oposto do da dor na coluna – apareceu.

Não costumo ter dores no joelho – o próprio conceito é meio alienígena para mim, o que me fez acender uma luz amarela. Minha conclusão imediata: o corpo está tentando compensar a dor no lado esquerdo colocando mais peso no direito, quebrando a biomecânica de maneira imperceptível durante os treinos mas nítida depois.

Preciso ficar de olho nisso – além de parar de empurrar com a barriga e efetivamente fazer exames na coluna.

Enquanto isso, aproveitar bem o dia de descanso amanhã certamente me fará bem!

Trilha urbana: Morros de Perdizes e Pompeia

Treinar subidas em São Paulo? Não é preciso buscar refúgio no Pico do Jaraguá ou nos extremos da capital paulista. Aqui mesmo, bem no centro, há um local perfeito para se brincar com a altimetria e fazer uma corrida com perfil de eletrocardiograma: os bairros de Perdizes e Pompeia.

Comecei por uma rota mais habitual: desci até a Sumaré, segui pela ciclovia até a Barra Funda, dei uma volta no Jardim das Perdizes e duas no Parque da Água Branca.

Foi lá que a brincadeira efetivamente começou.

Depois do já levemente acidentado Parque da Água Branca, virei antes do Minhocão e subi a Cardoso de Almeida. E subi. E subi.

A partir daquele ponto tomei uma decisão: como tinha ainda mais que uma hora de treino programado, sairia simplesmente caçando ladeiras.

E assim fui cruzando por Perdizes, subindo e descendo escadarias imensas entre ruas, chegando a mirantes escondidos e brincando de contar torres de TV. Entrei por becos, saí em avenidas, mergulhei em pequenas praças com um verde reluzente, descobri casarões incríveis ao lado de casinhas bucolicamente perdidas.

Saí de Perdizes e, por entre ruas sombreadas por árvores imensas, cheguei na Pompeia. Subi e desci, fui e voltei e cruzei por tantas ruas que cheguei a realmente não fazer ideia de onde estava.

Depois de um tempo percebi que a Heitor Penteado estava logo ali no alto. Subi, cruzei e, de repente, estava de novo na Sumaré, embora no sentido oposto. Corri até a Brasil, rodei mais alguns quilômetros e pronto: cheguei em casa.

Fartlek é um estilo de treino onde se brinca com velocidades intensas por curtos períodos de tempo. Não fui rápido em nenhum momento hoje: a própria planilha já continha a clara instrução para eu evitar velocidade.

Mas esse treino foi, sim, uma brincadeira como em poucos outros. Não sei que palavra existe para isso – ou mesmo se existe alguma – mas, ao invés de perseguir velocidade, acabei brincando de gangorra pelos morros de uma das regiões mais acidentadas e deliciosas desta incrível cidade.

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Comrades 2015: passagens compradas e reservas feitas!

Pronto.

Agora não tem mais volta.

Primeira parcela devidamente paga, garantindo os vôos e hospedagens na costa leste africana.

Chego em Durban no dia 28 de maio, com 2 dias para me ambientar. De lá, vou (naturalmente) correndo até Pietermaritzburg no dia 31.

Durmo no interior, recuperando as energias de peito estufado com a medalha back-to-back reluzindo.

Volto no dia 1 para Durban, onde passo a noite.

E volto para São Paulo no dia 2 pela manhã.

Cruzar a linha de chegada em qualquer ultra é sempre uma incógnita, por mais que se esteja preparado – mas a linha de largada, pelo menos, está já garantida.

Shosholoza!

Dores do crescimento?

Hoje era mais um dia de madrugar e atacar o parque. Levantei praticamente sem despertador, sentei e, mesmo ouvindo o barulho da tempestade que desabava sobre São Paulo, levantei.

Estava pronto para ir – exceto por um detalhe.

Nos primeiros passos senti algumas dores mais fortes nas coxas, panturrilhas e tornozelos. Tudo simétrico, descartando algum tipo de indicativo de lesão. Mas, ainda assim, eram dores que não podiam ser ignoradas.

Essa é a segunda semana em que efetivamente aumentei o tom dos meus treinos, buscando me fixar em zonas mais intensas para ampliar a velocidade média em provas. Preciso disso: há um momento em que ser rápido vira sinônimo de uma recuperação mais ágil e de uma viabilidade maior em participar de corridas mais longas. Quero enfrentar ainda, nem que seja no ano que vem, alguma coisa de 100K e, em algum outro momento, flertar mais seriamente com o marco de 100 milhas.

Hoje, apesar de aguentar relativamente bem os 80 ou 90km em terrenos e altimetrias variadas, ainda não consigo me enxergar dobrando essa distância.

OK, tudo é um processo: preparo é resultado de treino.

Estou treinando.

Apesar das dores, está claro para mim que os avanços nessas últimas semanas tem sido maiores do que a soma dos últimos 3 ou 4 meses.

Desisti das ruas hoje pela manhã, me dei algumas horas a mais de descanso e fui trabalhar.

Ao longo do dia, no entanto, na medida em que o corpo foi se aquecendo, as dores praticamente evaporaram.

Perfeito: no fim do dia parto para uma sessão de 5×6′ no Ibira, possivelmente somando alguma subida mais intensa para somar altimetria às pernas.

Que o corpo continue administrando bem as suas dores de crescimento.

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O barulho das primeiras horas

O plano era acordar quase tão cedo quanto ontem para ter as ruas, novamente, só para mim.

Não deu. Hoje foi daquelas manhãs em que sair da cama é tarefa praticamente impossível. Desde as 5, uma batalha entre o despertador e eu começou a se travar. No começo, foi leve, quase imperceptível; mas quando as pálpebras firmaram posição do lado dele, tudo ficou mais tenso. Desisti às 7, exausto do processo de aguardar que ele soasse para apertar o botão de snooze.

Às 7, no entanto, minha mulher levantou. Era dia dela levar a nossa filha para a escola e, como já havia um certo atraso no ar, tudo precisava ser feito às pressas.

E a pressa, claro, nunca é silenciosa. Passos apressados cruzavam o corredor, interrompidos apenas pelo som de louças se arranjando na mesa. Mais passos e vozes se encontrando no quarto ao lado. Debates breves sobre a roupa e sobre bonecas que minha filha queria levar para a escola. Leite sendo demandado; meias sendo procuradas; frases pedindo mais pressa se esbarrando em uma barreira de preguiça infantil aumentando os sons.

No quarto ao lado, em que eu ainda tentava (ingenuamente) dormir, o ar condicionado decidiu entrar em um modo esquisito de ligar e desligar a cada 5 minutos, adicionando assim barulhos rítmicos que tornavam a retomada do sono ainda mais impossível.

“Devia ter saído para correr”, pensava incessantemente. Pensar, no entanto, nunca foi sinônimo de agir.

De repente, de um minuto para outro, uma série de “tchaus” trouxe consigo o silêncio.

Estava só em casa.

Mas já era 8:30 e o despertador tocou novamente, desta vez me mandando trabalhar.

Levantei, exausto pela intensidade das batalhas e barulhos da manhã, com a cabeça latejando de dor e com muitas saudades do dia de ontem, quando madrugar para correr no parque foi algo tão simples e perfeito.

Quem sabe amanhã? O despertador, afinal, já está programado.

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O silêncio das primeiras horas

Há algo de melhor, de mais intenso, em correr antes do sol raiar.

Acordar já é algo diferente, com o despertador interrompendo a escuridão absoluta e iniciando aquela batalha entre os impulsos de levantar e de permanecer deitado. Mas é a única batalha existente nessas primeiras horas.

Uma vez de pé, o silêncio volta a reinar.

Na rua, os poucos carros que passam parecem cortar delicadamente a cena absolutamente congelada. Os primeiros passos dão a impressão de estarmos correndo em uma pintura, com tudo cuidadosamente colocado em seus lugares.

Só a respiração parece se mover, puxando consigo aqueles primeiros pensamentos do dia. Fatos do ontem, decisões do hoje e hipóteses do amanhã vão se misturando em um caldo único, espesso, guiados por batimentos cardíacos em aceleração.

Decisões imediatas de menor peso – como achar um portão de acesso ao parque aberto a essa hora – começam a fixar o dia em um presente menos complicado e mais corriqueiro, simples. Até que tudo parece corriqueiro, incluindo pensamentos sobre os pensamentos dos outros poucos corredores que desenham essas primeiras horas escuras do dia, a leve irritação de não achar água nos bebedouros secos da cidade seca, da decisão sobre fazer ou não um cotovelo no percurso e prolongar, em alguns metros, a rota do dia.

Então, depois da densidade e da leveza, vem uma espécie de nada. Puxado por doses mais generosas de endorfina, há um buraco cerebral que sempre aparece nos momentos em que o piloto automático é ligado durante uma corrida. Nunca consigo me lembrar do que passou em minha mente nesses instantes de nada – mas sempre fico com uma espécie de saudade dele no minuto em que o primeiro pensamento qualquer interrompe a paz.

Hoje, naquelas horas escuras do Ibirapuera, o nada foi tão forte que me roubou da memória trechos generosos do percurso. Para falar a verdade, ele durou até a subida da 9 de Julho, quando costumo dar um último tiro na volta para casa.

No total, 11km foram finalizados ainda no escuro, com apenas um ou outro raio de sol mais ansioso querendo aparecer.

O silêncio, no entanto, permaneceu por mais alguns instantes: todos em casa ainda dormiam quando entrei. Fiz café, preparei as roupas da escola da minha filha, tomei banho, me arrumei.

Não dá para dizer que consegui chegar no nada de novo – mas deu para respirar mais fundo, liberando a energia acumulada nas ruas. Deu para descansar do descanso ativo, por assim dizer.

E começar melhor confusão natural de um dia de trabalho na capital paulista.

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Instituto Estrada Real entregará certificados de conclusão da Ultra

Todo mundo quer uma lembrança de algum marco importante da vida. E ultras, claro, são marcos – por mais experiente que seja o corredor.

No planejamento da Ultra Estrada Real, ter alguma coisa mais tangível para os concluintes é, sem sombra de dúvidas, “o” principal assunto nos emails que tenho recebido. E, por mais que deixemos claro que se trata de uma ultra independente, de um treino entre amigos, esse desejo permanece.

Procede. Eu também compartilho dele. Essa ultra, afinal, nasceu aqui no blog quase que como acidente e passou a somar dezenas de corredores – incluindo alguns dos meus ídolos nas longas distâncias.

A questão é: como organizar coisas como medalhas que, além de caras, demandam equipe para distribui-las e toda uma mecânica de controle?

Aparentemente, uma luz no fim do túnel apareceu graças à iniciativa de um dos corredores, o João Fialho, que fez a ponte com o Instituto Estrada Real.

Na semana passada eles me contataram com uma oferta perfeita: dar a todos os concluintes um certificado de participação da Ultra com a chancela do Instituto. E, como eles tem um escritório em Ouro Preto, a “entrega” fica muito, MUITO facilitada.

Ainda temos um série de detalhes a combinar – incluindo uma data limite de entrega da planilha de inscritos, que deve ocorrer até o final de março.

Mas, de toda forma, já há uma boa notícia: aparentemente, alguma “lembrança” haverá para guardarmos :-)

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