Foi tenso, dolorido e muito, muito difícil. Mas quer saber? Foi também inesquecível.
ultramaratona
Nada como relembrar
Checkpoint: Missão cumprida
Pronto.
Metas do ano devidamente cumpridas, fechadas com a inesquecível Indomit Costa Esmeralda 100K – de longe a prova mais difícil que já fiz e, portanto, perfeita para fechar um ano recheado de ultras.
Agora é hora de deixar as dores cederem, respirar um pouco, descansar a mente e recomeçar. Daqui até fevereiro, quando ocorre o Cruce, não tenho ainda nem treinamento programado. Mas cada coisa a seu tempo.
Já já monto e sigo adiante.
Como lidar com a imprevisibilidade
Se tem uma palavra que define bem corrida de montanha, ela é “imprevisibilidade”. Pode-se trabalhar como quiser no preparo, montando um treinamento “perfeito”, juntando o kit ideal, calculando os tempos nos pontos de controle com a exatidão de um matemático… Mas, ainda assim, as chances de erro são grandes.
E por quê? Porque, no final das contas, sempre dependemos da caprichosa vontade de Pachamama, também conhecida como Mãe Natureza.
Me preparei para uma corrida longa, técnica e relativamente seca neste final de semana. Ela será longa e técnica – mas quis Pachamama que fosse também quase tão úmida quanto o oceano. Fazer o quê?
No começo, entrei em pânico: checava o Wearher Channel diariamente, acompanhava notícias da região, repassava o kit por horas a fio. Lama e eu, afinal, nunca nos demos muito bem.
Mas, com o tempo, acabei me ligando de uma coisa fundamental: ninguém está me forçando a nada. Me inscrevi nos 100K da Indomit Costa Esmeralda porque quis, comprei passagem e hospedagem sozinho e estou embarcando para Santa Catarina com os meus próprios pés.
E, por mais que corredores de ultra sempre persigam o desafio, a superação e coisas do gênero, no final buscamos a mesma coisa que todo mundo: diversão.
Largarei à meia noite da sexta pra o sábado para cruzar a Mata Atlântica, descobrir vistas novas, cair e levantar, me sujar feito uma criança, ficar ensopado e, espero, rir muito.
Levei um tempo para aprender essa primeira lição, mas fico feliz que a tenha aprendido a tempo: a melhor maneira de lidar com a imprevisibilidade do tempo é sempre ter em mente que, no final das contas, só viemos mesmo ao mundo para nos divertir.
Que as quase 20 horas de prova sejam inesquecivelmente divertidas.
Testando o UltraTrac mode no Garmin Fenix 2
Bateria sempre – SEMPRE – é um item importante para quem corre ultras. E sim: ultras na estrada, como Comrades, nem precisam exatamente de um relógio com GPS: é só ver a hora, as placas de tempo e seguir em frente.
O negócio começa a pegar mais mesmo em trilhas, principalmente quando provas longas nos deixam correndo em isolamento por horas a fio. Em situações assim, basta um minuto de desatenção e pronto: nos perdemos.
Onde o GPS entra nisso? Os mais preparados tem funções como o “TrackBack”, que exibe o mapa do caminho feito até o momento no visor e indica um percurso de volta. Não foram poucos os corredores “salvos” por essa funcionalidade, aliás.
E aí voltamos ao ponto principal: a bateria. Dificilmente alguém se perde nas montanhas nas primeiras horas, quando os sentidos estão aguçados e há mais corredores próximos. Nos perdemos horas adentro da prova – e é então que relógios com GPS ajudam.
Já testei o TrackBack do Garmin Fenix 2 e ele funciona perfeitamente bem. A bateria normal também segura fácil umas 14 ou 16 horas.
Mas e para provas de 18, 20 ou mais horas? Nesse caso, a única opção é usar a função de UltraTrack, que permite ajustar o tempo de atualização do posicionamento via GPS para garantir maior durabilidade de bateria.
Segundo a Garmin, a regra é: para 20 horas de vida com GPS rastreando a atividade, o intervalo de atualização deve ser de 15 segundos; para 24 horas, de 20 segundos.
Bom… Saí para testar a eficácia de intervalos de 15 segundos de atualização. O resultado: péssimo. Os 5km que rodei foram interpretados como 3 e o percurso em si parece ter sido desenhado por uma criança de 2 anos. Ok: a bateria até pode durar mais… Mas com que intuito, se isso ocorre às custas de um rastreamento mais impreciso que uma bússola na Groenlândia?
Função UltraTrack, portanto, reprovada. Para provas longas, o caminho é mesmo usar as 15 ou pouco mais horas de bateria no modo normal e torcer para não se perder daí em diante!
Os zumbis nas trilhas noturnas do Ibiraquera
Na semana passada eu troquei o longo do sábado de manhã pela sexta à noite. Foram dois motivos: desenferrujar a headlamp, que será usada na Indomit neste próximo final de semana, e livrar a manhã do sábado para outras coisas que precisava fazer.
E, assim, saí do trabalho já com tudo escuro rumo ao parque. Não dá para dizer que o Ibiraquera é um lugar selvagem, claro: trata-se de um grande parque urbano, com trilhas absolutamente domesticadas e apenas um ou outro obstáculo pelo caminho. Ainda assim, é uma experiência sensacional para quem quer variar.
Os cheiros são outros, os sons são outros e a sensação de se estar na mata é imbatível. Só que há outras curiosidades tipicamente urbanas em uma trilha assim.
A minha primeira volta foi basicamente uma repetição de trechos que costumo fazer de dia: incluiu uma área mais deserta atrás da horta e um cotovelo perto de um dos portões principais (veja no mapa abaixo).
À noite, no entanto, concluí que esses trechos são dominados por… ZUMBIS! Não achei outra maneira de descrever os seres que lá estavam: de 5 a 10 indivíduos sem camisa, andando sozinhos de um lado para o outro na mais completa escuridão. Nenhum falava ou murmurava: eles simplesmente se afastavam de mim sempre que a lanterna iluminava o local.
Não havia movimentos agressivos e nem mesmo olhares desconfiados: estavam apenas ali, como se tivessem brotado do solo, vivendo com a mesma intensidade que uma planta. Dá para imaginar?
Bom… nenhum dos zumbis tentou me comer mas, por via das dúvidas, cortei esses trechos nas últimas duas voltas.
Para quem estiver a fim de uma aventura noturna no meio da cidade, recomendo o Ibira fortemente – mas que fique aqui o alerta. Afinal, quem sabe os zumbis não fiquem com fome e queiram te devorar em alguma oportunidade qualquer??
Vai saber…
Checkpoint: Agora é esperar mais alguns dias e largar!
Última semana finalizada.
Não vou dizer que estou recuperado da Bertioga-Maresias – pelo menos não ao ponto de enfrentar 100K daqui a alguns dias. Mas estou quase.
Na semana passada fiz quase nada: 30km apenas para evitar que o corpo perdesse o mo-jo. Nessa semana, o plano era chegar a perto de 70, mas fechei em 56. Cortei um dia na rua e, hoje, ao invés de 1h30, fiz 30 minutos depois de sentir a musculatura dolorida. Para a tarde, massagem e um Flanax para diminuir a inflamação.
Ainda tenho uma semana e, com um pouco mais de descanso, tenho certeza que tudo ficará bem. Mas o lado realmente instigante da semana foi sair para correr nas trilhas do Ibiraquera com tudo escuro e sob toró!
Curti tanto que, no longo que fiz na sexta à noite, de 2h30, nem vi o tempo passar enquanto dava as 3 voltas. Para quem costuma se entediar facilmente com voltas repetidas isso realmente faz a diferença.
E o mais importante: ter me divertido rodando à noite, com chuva, de headlamp acesa e sentindo os cheiros e sons que costumam dar as caras quando o sol desaparece, foi um boost sem precedentes na motivação.
Agora é seguir o resto do plano e confiar no que foi feito!
Que venha a Indomit Costa Esmeralda 100K!
A esta altura, minha esperança de passar por um percurso seco, relativamente tranquilo e sem muitas intempéries, já se foi. Mesmo que não chova na madrugada do dia 6 para o dia 7, as tempestades das últimas semanas já se encarregaram de deixar o solo molhado o suficiente para garantir muita, muita lama.
Paciência.
Inaugurei minha primeira prova mais longa em trilhas na mesma região: foi a Indomit Bombinhas, com 42K, regada a chuva e a escorregões. Quando terminei, jurei a mim mesmo que jamais voltaria ao local.
O tempo passou, me adaptei mais às trilhas, perdi o medo. E, curiosamente, lá estarei eu para uma nova estreia: os primeiros 100K.
O que esperar? No mínimo, uma dificuldade técnica alta.
A largada será na madrugada, garantindo pelo menos umas 6 horas de escuridão. Comigo, além da óbvia mochila de hidratação, levarei uma lanterna testeira poderosa e poles para ajudar no equilíbrio e nas escaladas. Serão muitas: 3.088 metros acumulados, para ser exato. Pior: as maiores montanhas estarão justamente no começo, quando a luz inexistirá.
Não vou estimar pace algum aqui – mas ficaria muito feliz de chegar ao menos próximo do marco da maratona quando o sol começar a raiar. 4 ou 5 subidas, portanto, estarão para trás.
Ainda assim, não planejo acelerar nada: a meta é ir no ritmo que o corpo, os olhos e o equilíbrio permitirem, poupando energia física e mental para os últimos trechos.
A parte “boa” é que, por mais que seja uma prova dura, os trechos mais ásperos serão percorridos à noite, sem que os olhos possam assustar a cabeça devido à redução no campo de visão. É o ideal? Não sei – mas é o que se apresenta.
Pelo mapa, pelo menos, haverá alguns espaços longos de “calmaria técnica”: ruas, seja de asfalto ou de terra, onde a cabeça poderá descansar um pouco.
Aproveitemos também esses espaços.
Aliás, aproveitemos tudo.
Serão meus primeiros 100K e nada melhor do que começar em um lugar incrivelmente lindo, com um desafio forte e um potencial altíssimo de boas histórias para contar.
Minha expectativa de tempo? A julgar pelos tempos do ano passado, imagino que levarei algo entre 15 e 18 horas. Menos, difícil; mais, possível.
Seja como for, espero apenas uma coisa: que me divirta por cada um dos segundos que a Indomit durar!
Filme: Leve e rápido
Basta apenas dizer que é um filme da Salomon TV – com direito a lendas como Kilian Jornet, Marino Giacometti, Bruno Brunod e Fabio Meraldi exibindo o que sabem fazer de melhor: skyrunning.
Quer se inspirar? Veja o filme:
Filme: Gary Robbins dominando a Wonderland Trail
150km, com direito a 7.300 metros de ascensão, em menos de 20h53m. O que foi isso? A tentativa de Gary Robbins de bater um recorde considerado como imbatível em torno da montanha Rainier pela Wonderland Trail.
Como toda ultra, seja uma corrida ou um FKT, é absolutamente inspiracional e define muito sobre esse esporte. Vale conferir no filme feito pelo Ginger Runner:







