Ferrugem que não passa

Saco.

Tudo ainda anda travado. Musculatura esquisita, pernas doendo, articulações reclamando mais, muito mais do que deveriam. 

Saí para 20K hoje na região de Taubaté, onde vim passar o final de semana. Consegui completar 16 – e ainda assim com o pace de um cágado sonolento!

Na falta de uma solução mais imediata, tirei fotos. Quem sabe vê-las não ajuda a convencer as pernas de que está mais que na hora de parar de reclamar?

   
 

De volta ao Ibirapuera

Não vou mentir: estava sim cansado, com a musculatura meio dolorida e os olhos pesados. Mas a vontade de voltar à ativa foi maior: saí no final da tarde e me esbaldei em 20km pela trilha que circunda o Ibirapuera.

Teve um pouco de tudo: audiobook entoando histórias de lugares distantes, pôr do sol colorindo o obelisco e o lago, casais se encontrando (sob todos os aspectos) e um caminho vazio, livre, aberto, feito de terra ocre temperada por galhos e pequenas poças denunciando a chuva dos últimos dias.

Parecia que o parque estava me esperando.

Ainda bem que apareci. Foi como se tanto eu quanto ele – o Ibirapuera – tivéssemos ficado aliviados.

  

Ainda não

O despertador tocou às 5:15. 

Levantei, ainda que com algum repúdio por parte das pálpebras, me arrumei e desci. 

Ajustei o relógio.

Ignorei a garoa.

Apertei os olhos em um esforço de deixar para trás o sono.

Dei os primeiros passos.

Era pra ser algo simples, cotidiano: uma volta pela pista do Ibirapuera no piloto automático. Não funcionou: joelho direito protestou, tornozelo mostrou-se insatisfeito e toda a musculatura empacou, deixando claro que não pretendia se soltar por nada no mundo.

Não tive alternativa: desisti, dando meia volta ao chegar na 9 de Julho e transformando 11K em 5.

Placar final: motivação em 75%, disposição em 50%. 

Conclusão: ainda não estou pronto como gostaria. 

  

Checkpoint: A zona cinzenta

Há uma espécie de zona cinzenta depois que se realiza alguma grande meta. 3, no caso: Indomit, BR (ainda que como apoio) e Cruce aconteceram em um impressionantemente curto período de 3 meses. 

Nessa última semana, todas as dores e incômodos acumulados em meses de treinamento decidiram aparecer e se instalar no corpo. Sem problemas: dei a ele alguma folga, saindo apenas levemente para alguns trotes mais regenerativos. 

Nessa última semana, um sono digno de picadas da mosca de Tse-Tse dominou as manhãs; uma estranheza em testemunhar o trânsito paulistano se instalou no semblante; uma facilidade de respirar, silenciosamente, um ar meio orgulhoso, impulsionou os pulmões. 

Semanas depois do que consideramos como grandes realizações pessoais são feitas para cimentá-las no peito, para nos mostrar que a vida é feita desses momentos singulares pelos quais tanto batalhamos. São períodos sagrados que, talvez infelizmente, acabem sendo reverenciados por nós mesmos em uma silenciosa solidão. São períodos catárticos, de consolidação de mudanças de visão de mundo, em que não se deve desperdiçar um único átomo de esforço em uma direção que não seja a do autoentendimento. 

Semana que vem? Provavelmente ainda estarei na mesma zona cinzenta, aproveitando-a, cultivando-a e, sobretudo, digerindo-a. 
Enquanto isso, talvez esteja na hora de revisitar as provas de 2016 e ver em qual ou quais me encaixo. 

Daqui a pouco será hora de começar tudo de novo. 

  
  

A lista de desejos (atualizada em 18/02/2016)

O El Cruce cortou dois itens da minha lista: a própria prova, um sonho antigo, e a realização de uma ultra por etapas. Experiências inesquecíveis – que, como praticamente todas as que cruzei da lista, mudaram toda a minha percepção de vida.

O próprio vídeo que adicionei do Cruce, aliás, foi da edição que participei.

Outra prova entrou aqui: a BR135+, que participei como apoio em janeiro passado. Não sei quando, mas um dia ainda a realizarei. E, por hora, é o momento de achar a próxima meta a ser cumprida.

A lista está assim:

 

  • Fazer a primeira ultra: Two Oceans (56K), na África do Sul (feito em MARÇO de 2013):
  • Correr Comrades (89K), também na Africa do Sul (feito em JUNHO de 2014):
  • Fazer a primeira ultra trail (Douro UltraTrail, de 80K, em Portugal, feito em SETEMBRO de 2014):
    • Organizar minha própria ultra (Ultra Estrada Real, de 88K, feita em ABRIL de 2015)
    • Fazer a Comrades no sentido inverso (up-run), ganhando a medalha back-to-back – www.comrades.com – MAIO de 2015:
    • Fazer uma prova com 100 km (Indomit Costa Esmeralda Ultra Trail, feita em 07/11/2015)

 

  • Qualquer ultra em etapas (El Cruce Columbia, feita entre 12 e 14 de FEVEREIRO de 2016)
  • El Cruce Columbia – http://elcrucecolumbia.com/ (feito entre 12 e 14 de FEVEREIRO de 2016):
  • Qualquer prova do circuito do Ultra Trail de Mont Blanc (UTMB) – www.ultratrailmb.com – AGOSTO:
  • TransArabia (Jordânia) ou TransOmania (Oman) – www.thetransarabia.com – NOVEMBRO ou JANEIRO, respectivamente:
  • Fazer qualquer ultra do circuito de Skyrunning
  • Lavaredo Ultra Trail (Itália) – www.ultratrail.it – JUNHO
  • Correr no Grand Canyon (preferencialmente fazendo o Rim2Rim)
  • Correr no Everest – everesttrailrace.com – NOVEMBRO:
  • Qualquer prova com 100 milhas
  • Qualquer ultra em percurso com neve
  • BR135+ – JANEIRO

El Cruce: Dia 3

Escrito já do conforto do hotel em San Martin de Los Andes, depois de um bom banho, na tarde de 14/02/2016

Difícil saber por onde começar a descrever este que, com absoluta certeza, foi o dia mais incrível de toda essa jornada pelos Andes. 

Primeiro, houve o frio. Acordar às 5:30 da manhã tremendo dentro da barraca certamente não foi uma sensação agradável, algo compartilhado por todos. O frio e o vento, aliás, foram tão intensos que o horário de largada chegou a ser adiado por alguns minutos. Poucos, ainda bem. 

Quando largamos, devidamente paramentados, já encaramos 5km de uma subida muito, muito intensa. Não que ela fosse técnica: o grau de dificuldade das trilhas por essas bandas é muito mais leve do que as do Brasil. Mas foi longa, nos fazendo cortar florestas e testemunhar, quase que a cada passo, mudanças na vegetação. 

Em 5 quilômetros, no entanto, estávamos já de frente para a primeira meta: o cume do Milito, ponto mais alto de todo o Cruce com quase 2 mil metros. Lá cima estava frio, com uma ventania típica da montanha e uma vista panorâmica absolutamente inesquecível. Cansaço? Sim, claro – mas ele ficou esquecido, relegado a algum canto escuro da mente enquanto os olhos teimavam em acreditar no que estavam testemunhando. Estava ali, depois de 2 dias correndo e acampando pelos Andes, efetivamente de pé sobre um cume belíssimo! 

Pausa para foto – rápida, já que o frio mal deixava os dedos obedecerem – e era hora de descer. Não muito: um segundo cume se aproximava, menor que Milito mas, ainda assim, incrível. Diferente, aliás: todos os cumes que subimos foram diferentes em tudo, dos arredores à própria vegetação. Esse segundo, por exemplo, era praticamente formado de pedregulhos soltos e esparramados por uma vegetação queimada, quase inexistente. Mais vento, mais frio. 

Descemos. 

Cortamos uma floresta densa, sob uma neblina espessa e praticamente rodeados por flores amarelas em um cenário que mais parecia um conto de fadas. As trilhas, suaves, permitiam que se voasse montanha abaixo – ao menos por algum tempo. 

Curva aqui, curva ali e, de repente, outra subida. Cerro Colorado, nome perfeito para uma montanha praticamente toda avermelhada. A ventania lá era a mais intensa de todas mas, ao fundo, um fio de música me fez acreditar estar alucinando. Não estava: no caminho para este último cume do El Cruce, um violinista solitário tocava Bach, deixando a música encher toda aquela paisagem árida, fria e seca com a mais pura poesia. Aquela foi, provavelmente, uma das cenas mais incríveis que presenciei em toda a minha vida. 

Mas era hora de seguir: subi o Colorado adrenalinado pela música e pelo visual andino, enfrentando vento e frio, e comecei a descida. Dali para a frente, aliás, era tudo uma imensa descida. 

Começava relativamente técnica, com muitas pedras soltas derramadas pela montanha e que, aos poucos, se transformaram na areia marrom característica da região. Aí foi acelerar o passo e voar pelas trilhas sinuosas, sentindo o calor crescer a cada metro de descida. Em pouco tempo, estávamos já no Oasis, único posto de apoio do dia que ficava mais ou menos no km 23. Era hora de tirar parte das camadas de roupa que vestia, tomar uma Coca, guardar os poles e seguir. 

Exceto por uma ou outra subidinha, o caminho estava aberto e apontando para baixo, fechando a descida da montanha até San Martin de Los Andes. 

Aos poucos, aliás, a cidade foi aparecendo no canto do lago, que já dominava o lado direito da paisagem. Pequenas casas começaram a surgir, quebrando a sensação de isolamento na qual vivemos por 3 dias; grupos de locais fazendo trekking cruzavam conosco; a música da linha de chegada foi ampliando o volume; e os últimos incentivos de parabéns começaram a ser gritados pelo staff do Cruce. 

Estava ali, entrando em San Martin, com o pórtico de chegada pintado à minha frente. Acelerei. Corri como se minha vida dependesse disso – mas sem deixar nada para trás. Ao contrário: 3 dias nos Andes, sem nenhum contato real com a civilização e vivendo à mercê das vontades da natureza mudam a gente. É diferente de uma prova de um dia, em que se larga e chega sem intervalos prolongados: o El Cruce, como acabei entendendo, não é chamado assim por cruzar os Andes, mas sim por fazer quem quer que o corra mudar de percepção de vida. 

Se tem uma prova que recomendo a todos, é essa. Absolutamente inesquecível.