Patagônia, montanha e cachorros

A ideia parecia perfeita: pegar a rota do K15 Villa La Angostura, inserir no Strava e fazer um percurso incluindo o cume de uma montanha incrível.

Perfeita, não fosse o fato de que havia uma propriedade privada no caminho – que eu entrei sem perceber – e cães do tamanho de ursos guardando-a. Estes, eu percebi.

Mas comecemos do começo.

O percurso inteiro teria uns 21km, começando um pouco antes da largada oficial do K15. Para dar tempo de voltar cedo e aproveitar o dia com a família, saí antes do sol nascer: às 5:20, munido de uma headlamp, mochila de hidratação e poles que acabara de ganhar e estava ansioso por estrear nas trilhas.

Os primeiros quilômetros foram tranquilos, parte por uma ciclovia e parte por estradas de terra. A quantidade de bifurcações era grande, me forçando a conferir a rota no Strava a cada 5 minutos – algo compensado pela beleza da paisagem patagônica.

Aos poucos, o sol foi subindo e desvendando picos nevados florestas verdes de pinheiros. Até então, apenas latidos finos de meia dúzia de cachorros domésticos interrompiam o silêncio intenso, forte.

Um pórtico sem marcação abria caminho para o cume, a essa altura com uma trilha bem marcada. Segui.

Mais alguns passos, lá ao fundo, uma casa vermelha se estendia no fim da trilha. Olhei o Strava: precisava entrar à direita em algum lugar. Quando me voltei para buscar o caminho ouvi latidos fortes se aproximando.

Em alerta, parei e vi dois cachorros pretos grandes se aproximando em uma velocidade maior que a desejada. Sem correr para não demonstrar medo, dei alguns passos de costa e achei, como por milagre, a trilha. Subi rapidamente, usando os muito bem vindos poles como apoio.

Ouvi os latidos me seguindo e apressei o passo. Aos poucos, no entanto, eles foram ficando distantes até pararem. Estava a salvo!

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Parei para tomar ar, me localizar no Strava e pronto: segui montanha acima. Tudo calmo, em um silêncio absoluto cortado apenas pelo som de folhas pisadas, por pássaros e pela minha respiração. Devo ter seguido assim por um ou dois quilômetros – até que, em uma pedra no alto, à minha frente, um outro cachorro apareceu correndo e rosnando em minha direção.

Este, no entanto, estava no meio do único caminho possível. Novamente, parei e dei alguns passos para trás. Ele parou, me olhou.

Ficamos imóveis por alguns minutos, de frente um para o outro.

Mais alguns passos para trás.

Me ocorreu que os dois cães fecharam a trilha, um em cada ponta, comigo no meio.

Precisava improvisar.

Saí devagar, com o cuidado de não demonstrar nenhum tipo de medo e nem de atitude de enfrentamento. O cachorro ficou na rocha, parado, até que saísse da minha vista.

Neste momento segui mais rapidamente e em silêncio até metade do caminho.

Olhei no Strava: à minha esquerda havia uma espécie de atalho até a estrada de terra abaixo da montanha. Não era um atalho oficial: era puro mato.

Mas mato é melhor que cachorro.

O primeiro, aliás, já devia ter sentido meu cheiro e começava a latir na ponta inicial da trilha. Não tinha muita alternativa: com os poles, fui abrindo caminho pelo mato denso em um ritmo acelerado pela adrenalina, mas lento pelo relógio.

Tortuosos minutos se passaram até que consegui cortar caminho e chegar na estrada.

A casa ainda estava lá, na quina da visão – e, de longe, o latido do primeiro cachorro começava a se aproximar.

Hora de virar Usain Bolt: coloquei os poles debaixo do ombro e corri pelo resto de montanha com todas as minhas forças por, pelo menos, dois quilômetros. Parei apenas quando me toquei que estava saindo do pórtico e que não havia mais latido algum.

Na saída, percebi uma placa caída com os dizeres “Propriedade privada”. Deu até vontade de rir.

Mas segui adiante, ainda com adrenalina nas veias mas mais calmo. Perdi o cume da montanha, mas pelo menos saí bem, inteiro. De quebra, estiquei o percurso até um rio perto do hotel, o Correntoso, que rendeu um bem vindo descanso e fotos incríveis.

Entre cada suspiro de alívio, quando toda a corrida se repassava pela minha mente, o único pensamento foi de agradecimento por ainda estar inteiro para poder aproveitar esse cenário tão magnífico.

Amanhão tem mais – mas, agora, com uma lição aprendida: é melhor procurar investigar melhor o percurso com os locais do que se basear em rotas de corridas postadas na Web e que aconteceram há anos!

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Fechando o ano debaixo d’água

Ontem à noite, quando fui conferir a app do Weather Channel por conta do dilúvio que castigava a cidade, confirmei a má notícia: 100% de previsão de chuva por todas as horas do dia e até, pelo menos, o Natal.

Parece que toda a água que fugiu do sudeste nos últimos meses resolveu voltar (e tirar o atraso) nas últimas semanas de dezembro. Tudo bem: nunca tive problema em correr na chuva – embora, confesso, sempre preferi fazer isso nos finais de tarde ou às noites.

Saí preparado para enfrentar poças, banhos dados por carros apressados e jatos d’água lançados das nuvens. E foi exatamente isso que aconteceu: faz tempo, aliás, que não pego um toró tão forte na cidade!

O lado bom é que há um ar maior de preguiça nas ruas cortado pelas passadas rápidas, há aquele cheiro de planta molhada e aquela visão de asfalto refletindo o céu cinza. A cara da cidade muda enquanto ela vai se lavando de 2014 e se preparando para um 2015 mais calmo (espero).

Fiquei com isso na cabeça por todo o tempo, meio que torcendo para que hoje, último dia oficial do ano para mim, acabe logo. Para que só tenha meia dúzia de coisas para fazer em home office, para que possa já entrar no avião, para que possa respirar mais fundo sem pensar tanto em reuniões e apresentações.

Tudo bem que a rua hoje mais parecia um aquário: mas terminar o ano debaixo de chuva, lavando corpo e alma, realmente foi perfeito!

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Oi verão

Depois de algum tempo, consegui energias para uma corrida ontem pela manhã.

Nem precisou ser tão cedo, inclusive: com as primeiras horas ficando mais leves no trabalho, esticar um pouco no parque ficou mais viável. Bela decisão.

O céu estava azul brilhante, nítido e sem nenhuma única mancha branca. O sol, quente, forte, queimando a pele e declarando a incontestabilidade de sua estação.

Cheguei no Ibirapuera no meio de uma sessão de tempo run e me esvaindo em suor. Pela frente, bikes e corredores formavam aquela multidão de indivíduos imersos em suas próprias solidões. Uma solidão feliz, aliás, a julgar pela luminosidade dos rostos. O verão faz isso.

Adoro o verão. Nasci em Salvador, terra do sol, e o calor úmido da Bahia fez parte da minha vida por 18 anos. A gente fica mais íntimo do sol, entende melhor seus humores e fica viciado na luz que emana de seus raios.

Por mais que eu ame São Paulo, não nego que sinto uma baita falta do sol e do calor o ano todo. O cinza do céu, a camada fina de poluição que apaga um pouco a saturação das cores, o frio que volta e meia desce sobre essa parte do país… tudo isso tem um efeito esquisito na mente.

Mas ontem não. Ontem foi dia de calor, de sol, de luz, de suor, de cores, de verão.

E isso porque estamos apenas no começo da estação!

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Trilha Urbana: Pelo Horto

O incrível de cidades grandes como São Paulo é que elas nunca param de surpreender.

Hoje, meu plano era ir ao Parque da Cantareira e fazer 3 horas de trilhas por lá, desbravando matas e absorvendo vistas. Não deu: assim que saí do carro fui informado de que, por conta da garoa que insistia em cair, o parque não abriria hoje.

Plano B: Horto Florestal.

Não conhecia o Horto mas sabia que ficava a cerca de 500 metros da Cantareira. Fui até lá e entrei.

Primeira impressão: o lugar é lindo. Verde, cheio de sons vindo do céu e de dentro da mata e extremamente bem cuidado. A segunda impressão veio quando olhei o mapinha do local: cada volta tinha menos de 3km! Para completar as 3 horas seria necessário dar tantas voltas que, provavelmente, acabaria tonto!

E essa é a parte que a cidade surpreende. Decidi ignorar o traçado e sair guiado apenas pelos pés. No começo, até segui o percurso demarcado – mas por menos de 5 minutos. Avistei algumas entradas escondidas: entrei.

Descobri trilhas escondidas – algumas, confesso, parte do vizinho Parque da Cantareira desvendadas por fendas em trechos das grades o separa do Horto. Fui assim mesmo, embora com mais cautela.

O único problema é que nenhuma das pequenas trilhas tinha qualquer tipo de demarcação – algo meio complicado para quem tem un senso de localização tão ruim quanto o meu.

Mas, ainda assim, elas eram pequenas e fáceis de encarar.

Na saída, decidi sair do Horto e dar voltas por fora, pela região. Ideia ótima para somar quilômetros e que acabou sendo repetida mais uma vez, mas que deixou saudade da mata. Cheguei até a esticar um pouco pela Estrada de Santa Inês, rumo ao Velhão, mas desisti depois que o acostamento desapareceu e o perigo aumentou. Não estava lá para isso.

Resumo: correr no Horto foi como descobrir uma mini selva dentro de São Paulo – e aproveitá-la ao extremo.

Amei o lugar – mas, na semana que vem, espero que o tempo colabore para que eu possa descobrir a Cantareira!

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As luzes do Ibirapuera

Fazia algum tempo que eu não corria à noite: a última vez já deve fazer pelo menos um mês, antes das luzes de Natal se instalarem no Ibirapuera.

Ontem, no entanto, foi dia de intervalados – e a manhã atribulada acabou empurrando a planilha para depois das 20:00.

Para falar a verdade, eu nem me lembrava que o Ibira estava iluminado: o sol do verão, às vezes, nos faz esquecer que a noite sequer existe. Mas foi só eu me aproximar do parque e, de repente, músicas começaram a ecoar pelos céus, animando um show de águas nas fontes para uma plateia que persistia presente, teimosa, ignorando a garoa fina que caía. E isso tudo com milhares de luzes pintando as árvores ao fundo.

Na mesma hora eu desliguei o podcast e fiquei ali, absorvendo o clima a cada passo. Normalmente eu gosto do silêncio que acompanha corridas nas horas extremas do dia, seja no começo da manhã ou noite adentro – mas o barulho bem orquestrado de ontem foi muito, muito bem vindo.

O ano – ainda bem – está acabando.

Ele está levando consigo, sem dó, cada gota de energia que eu havia reservado para 2014: mas a cena de ontem ajudou a me dar pelo menos mais algum impulso para chegar inteiro ao dia 31.

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Update da Ultra Estrada Real

Estamos já oficialmente no final do ano – momento perfeito para planejar o calendário de corridas do ano que vem.

E, nesse espírito, a Ultra Estrada Real – uma corrida não oficial e autosuficiente – já está com quase 30 corredores “inscritos”, dispostos a percorrer os 88km que separam Santa Bárbara de Ouro Preto, em Minas Gerais.

Nunca é demais repetir: essa não é uma prova oficial, o que significa que não conta com postos de apoio, staff médico, medalha ou qualquer outra “regalia”. É apenas um encontro entre apaixonados por ultras que estão buscando desafios um pouco diferentes dos tradicionais. Isso está postado aqui no blog, na área específica que fala sobre a corrida, e também espalhado por posts diversos – e não é por outro motivo, claro, que a participação é inteiramente gratuita. Todos nós cuidaremos dos nossos próprios gastos, afinal.

Mas parte da aventura inclui conhecermos uns aos outros – tarefa que será desempenhada aos poucos, ao longo do tempo. Por hora, vale dar uma olhada na origem desse grupo que está se formando e no tempo de conclusão que cada um está prevendo para si:

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Primeira observação: há uma concentração grande de corredores com tempos entre 9 e 12 horas. Faz sentido: considerando que o terreno não é exatamente tenso como Chamonix, são os que já tem alguma experiência nas pernas.

O que me preocupa um pouco é o grupo de corredores que pretende passar mais de 18 horas no percurso. Honestamente, eu os desaconselharia a fazer a corrida e recomendaria uma mais oficial, com infraestrutura à disposição. 18 horas de prova significa largar e sair em plena escuridão, algo especialmente complicado para trilhas sem postos de abastecimento.

Mas, claro, a estrada real é livre e todos podem percorrê-la desde que tenham vontade – e é essa palavra a que mais importa em uma ultra como essa!

O Tempo

Levou algum tempo para que eu percebesse o motivo real de passar tanto tempo correndo nas ruas e trilhas.

A grande maioria dos corredores que conheço deu os seus primeiros passos por saúde, originalmente amaldiçoando cada instante em que o despertador gritava pela manhã. Mas saúde, por mais importante que seja, é insuficiente para manter alguém nas ruas – principalmente quando as longas distâncias vão ficando cada vez mais longas.

Quando me inscrevi em minha primeira prova de 5K, um passado inteiro de más notícias e sobrepeso pareceu ter ficado para trás, como se eu tivesse me transformado em um outro ser que, até então, existia apenas no imaginário.

Mas aí os 5K viraram 10; os 10, 16; os 16; 21; os 21, 42; e os 42 se perderam em distâncias maiores por terrenos que nem sabia possíveis.

As distâncias foram me dando tempo livre, tempo para mim mesmo e para a minha própria solidão. Foram me ensinando calma, perseverança e mostrando aos olhos paisagens que não imaginava que existissem fora da TV.

E assim, de repente, comecei a me entender melhor.

Saúde? Não dá para dizer, honestamente, que correr 16 horas sem parar pelas montanhas, sentindo náuseas e dores em músculos que sequer se conhece, seja algo saudável. Ao menos não para o corpo.

Mas depois de 3 anos e 10 mil quilômetros rodados, depois de ter perdido meio fígado em uma cirurgia mais longa que a minha mais longa ultra, depois de virar pai e de enfrentar tantos desafios na vida pessoal e profissional… bem… tudo pareceu mais claro.

E, hoje, tudo se traduz em uma só palavra: Tempo.

Afinal, é ele que mais aproveitamos ao nos enfurnarmos em nossa própria mente por horas a fio durante corridas; é ele que parece se ampliar a cada nova experiência que temos, a cada nova paisagem nas trilhas ou cidades; é com ele que aprendemos a lidar melhor com cada nova dificuldade imposta ao corpo, seja por lesão ou puro cansaço, e à mente.

Não temos, afinal, como prolongar os nossos relógios e fazer dias virarem meses para que vivamos indefinidamente; mas temos, com certeza, como aprender a extrair de cada minuto toda a intensidade que ele pode carregar.

E correr, no mínimo, nos vicia isso.

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Parque Estadual da Cantareira?

Na busca pela aventura do próximo sábado, me deparei com fotos do Parque Estadual da Cantareira.

A 10km da Sé, aproximadamente, o que faz dela perfeita para um longão de 3 horas. Ainda não sei se vou correndo de casa ou se vou de carro até lá e aproveito mais tempo no verde – tudo depende da segurança do percurso.

Mas, pelo que li, há trilhas incríveis, vistas deslumbrantes, cachoeiras, mata atlântica preservadíssima e tudo o que se pode desejar em um treino mais aventureiro. Aliás, os elogios na rede são tantos que fiquei pensando como a Cantareira nunca sequer cruzou a minha mente!

Bom… agora é planejar um pouco mais. E torcer para me esbarrar em cenas como as das fotos abaixo:

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