Fazer um bate-volta pro Rio é sempre um exercício mental

É difícil negar que o Rio de Janeiro seja uma das cidades mais bonitas do mundo. Para quem curte qualquer tipo de esporte, então, ela praticamente exala energia por todo canto: na orla de Copacabana, Ipanema e Leblon, na Tijuca, no aterro, na Lagoa, na Barra.

Daí a dificuldade.

Quando venho a trabalho para cá, costumo ficar apenas o dia: chego de manhã cedo, a ponto apenas de ver o sol brilhar sobre o Pão de Açúcar pela janelinha do avião, passo horas em reuniões e volto no final da tarde, quando pessoas mais felizes estão começando a devorar os calçadões com seus tênis.

Treinar a mente? Só ter que fazer o corpo a obedecer a rotina e entrar no avião, conscientemente deixando para trás uma paisagem ridiculamente convidativa como a do verão carioca, já garante força de vontade suficiente para completar qualquer ultra de 100 milhas!

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Checkpoint: Evolução nítida com uma pitada de medo

Fazia tempo que eu não batia 85km em uma semana de treino. Aliás, a última vez foi no meio de setembro do ano passado, na semana em que fiz a Douro Ultra Trail em Portugal.

Para completar, meus tempos estão melhores. Aliás, fazia algumas semanas que não atualizava meu gráfico de pace médio e vê-lo hoje me surpreendeu:

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Não tinha me ligado que, aos poucos, estava efetivamente me tornando mais e mais lento em um processo que vinha desde outubro, depois da Maratona de São Paulo. Foi como se um botão tivesse simplesmente sido desligado em mim: diminuí ritmo e rodagem ao mesmo tempo. Gráficos sempre permitem boas conclusões.

Enfim, estava na hora de mudar – e já faz duas semanas que decidi me sincronizar melhor com meu treino e aumentar a intensidade geral. A parte boa é que, ao menos de acordo com os dados, está funcionando:

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Se tudo está indo bem, então, de onde vem o “medo” que entrou no título do post?

Bom… a dor nas costas que havia desaparecido desde os 50K na Serra do Mar voltou. E voltou subitamente, depois de um treino quase perfeito durante a semana. Suas características são idênticas: ela some durante corridas mas incomoda em momentos que o corpo está mais frio e descansado, praticamente soletrando a palavra “hérnia”. E, nos 21K de hoje, um incômodo esquisito no joelho direito – lado oposto do da dor na coluna – apareceu.

Não costumo ter dores no joelho – o próprio conceito é meio alienígena para mim, o que me fez acender uma luz amarela. Minha conclusão imediata: o corpo está tentando compensar a dor no lado esquerdo colocando mais peso no direito, quebrando a biomecânica de maneira imperceptível durante os treinos mas nítida depois.

Preciso ficar de olho nisso – além de parar de empurrar com a barriga e efetivamente fazer exames na coluna.

Enquanto isso, aproveitar bem o dia de descanso amanhã certamente me fará bem!

Trilha urbana: Morros de Perdizes e Pompeia

Treinar subidas em São Paulo? Não é preciso buscar refúgio no Pico do Jaraguá ou nos extremos da capital paulista. Aqui mesmo, bem no centro, há um local perfeito para se brincar com a altimetria e fazer uma corrida com perfil de eletrocardiograma: os bairros de Perdizes e Pompeia.

Comecei por uma rota mais habitual: desci até a Sumaré, segui pela ciclovia até a Barra Funda, dei uma volta no Jardim das Perdizes e duas no Parque da Água Branca.

Foi lá que a brincadeira efetivamente começou.

Depois do já levemente acidentado Parque da Água Branca, virei antes do Minhocão e subi a Cardoso de Almeida. E subi. E subi.

A partir daquele ponto tomei uma decisão: como tinha ainda mais que uma hora de treino programado, sairia simplesmente caçando ladeiras.

E assim fui cruzando por Perdizes, subindo e descendo escadarias imensas entre ruas, chegando a mirantes escondidos e brincando de contar torres de TV. Entrei por becos, saí em avenidas, mergulhei em pequenas praças com um verde reluzente, descobri casarões incríveis ao lado de casinhas bucolicamente perdidas.

Saí de Perdizes e, por entre ruas sombreadas por árvores imensas, cheguei na Pompeia. Subi e desci, fui e voltei e cruzei por tantas ruas que cheguei a realmente não fazer ideia de onde estava.

Depois de um tempo percebi que a Heitor Penteado estava logo ali no alto. Subi, cruzei e, de repente, estava de novo na Sumaré, embora no sentido oposto. Corri até a Brasil, rodei mais alguns quilômetros e pronto: cheguei em casa.

Fartlek é um estilo de treino onde se brinca com velocidades intensas por curtos períodos de tempo. Não fui rápido em nenhum momento hoje: a própria planilha já continha a clara instrução para eu evitar velocidade.

Mas esse treino foi, sim, uma brincadeira como em poucos outros. Não sei que palavra existe para isso – ou mesmo se existe alguma – mas, ao invés de perseguir velocidade, acabei brincando de gangorra pelos morros de uma das regiões mais acidentadas e deliciosas desta incrível cidade.

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Dores do crescimento?

Hoje era mais um dia de madrugar e atacar o parque. Levantei praticamente sem despertador, sentei e, mesmo ouvindo o barulho da tempestade que desabava sobre São Paulo, levantei.

Estava pronto para ir – exceto por um detalhe.

Nos primeiros passos senti algumas dores mais fortes nas coxas, panturrilhas e tornozelos. Tudo simétrico, descartando algum tipo de indicativo de lesão. Mas, ainda assim, eram dores que não podiam ser ignoradas.

Essa é a segunda semana em que efetivamente aumentei o tom dos meus treinos, buscando me fixar em zonas mais intensas para ampliar a velocidade média em provas. Preciso disso: há um momento em que ser rápido vira sinônimo de uma recuperação mais ágil e de uma viabilidade maior em participar de corridas mais longas. Quero enfrentar ainda, nem que seja no ano que vem, alguma coisa de 100K e, em algum outro momento, flertar mais seriamente com o marco de 100 milhas.

Hoje, apesar de aguentar relativamente bem os 80 ou 90km em terrenos e altimetrias variadas, ainda não consigo me enxergar dobrando essa distância.

OK, tudo é um processo: preparo é resultado de treino.

Estou treinando.

Apesar das dores, está claro para mim que os avanços nessas últimas semanas tem sido maiores do que a soma dos últimos 3 ou 4 meses.

Desisti das ruas hoje pela manhã, me dei algumas horas a mais de descanso e fui trabalhar.

Ao longo do dia, no entanto, na medida em que o corpo foi se aquecendo, as dores praticamente evaporaram.

Perfeito: no fim do dia parto para uma sessão de 5×6′ no Ibira, possivelmente somando alguma subida mais intensa para somar altimetria às pernas.

Que o corpo continue administrando bem as suas dores de crescimento.

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O barulho das primeiras horas

O plano era acordar quase tão cedo quanto ontem para ter as ruas, novamente, só para mim.

Não deu. Hoje foi daquelas manhãs em que sair da cama é tarefa praticamente impossível. Desde as 5, uma batalha entre o despertador e eu começou a se travar. No começo, foi leve, quase imperceptível; mas quando as pálpebras firmaram posição do lado dele, tudo ficou mais tenso. Desisti às 7, exausto do processo de aguardar que ele soasse para apertar o botão de snooze.

Às 7, no entanto, minha mulher levantou. Era dia dela levar a nossa filha para a escola e, como já havia um certo atraso no ar, tudo precisava ser feito às pressas.

E a pressa, claro, nunca é silenciosa. Passos apressados cruzavam o corredor, interrompidos apenas pelo som de louças se arranjando na mesa. Mais passos e vozes se encontrando no quarto ao lado. Debates breves sobre a roupa e sobre bonecas que minha filha queria levar para a escola. Leite sendo demandado; meias sendo procuradas; frases pedindo mais pressa se esbarrando em uma barreira de preguiça infantil aumentando os sons.

No quarto ao lado, em que eu ainda tentava (ingenuamente) dormir, o ar condicionado decidiu entrar em um modo esquisito de ligar e desligar a cada 5 minutos, adicionando assim barulhos rítmicos que tornavam a retomada do sono ainda mais impossível.

“Devia ter saído para correr”, pensava incessantemente. Pensar, no entanto, nunca foi sinônimo de agir.

De repente, de um minuto para outro, uma série de “tchaus” trouxe consigo o silêncio.

Estava só em casa.

Mas já era 8:30 e o despertador tocou novamente, desta vez me mandando trabalhar.

Levantei, exausto pela intensidade das batalhas e barulhos da manhã, com a cabeça latejando de dor e com muitas saudades do dia de ontem, quando madrugar para correr no parque foi algo tão simples e perfeito.

Quem sabe amanhã? O despertador, afinal, já está programado.

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O silêncio das primeiras horas

Há algo de melhor, de mais intenso, em correr antes do sol raiar.

Acordar já é algo diferente, com o despertador interrompendo a escuridão absoluta e iniciando aquela batalha entre os impulsos de levantar e de permanecer deitado. Mas é a única batalha existente nessas primeiras horas.

Uma vez de pé, o silêncio volta a reinar.

Na rua, os poucos carros que passam parecem cortar delicadamente a cena absolutamente congelada. Os primeiros passos dão a impressão de estarmos correndo em uma pintura, com tudo cuidadosamente colocado em seus lugares.

Só a respiração parece se mover, puxando consigo aqueles primeiros pensamentos do dia. Fatos do ontem, decisões do hoje e hipóteses do amanhã vão se misturando em um caldo único, espesso, guiados por batimentos cardíacos em aceleração.

Decisões imediatas de menor peso – como achar um portão de acesso ao parque aberto a essa hora – começam a fixar o dia em um presente menos complicado e mais corriqueiro, simples. Até que tudo parece corriqueiro, incluindo pensamentos sobre os pensamentos dos outros poucos corredores que desenham essas primeiras horas escuras do dia, a leve irritação de não achar água nos bebedouros secos da cidade seca, da decisão sobre fazer ou não um cotovelo no percurso e prolongar, em alguns metros, a rota do dia.

Então, depois da densidade e da leveza, vem uma espécie de nada. Puxado por doses mais generosas de endorfina, há um buraco cerebral que sempre aparece nos momentos em que o piloto automático é ligado durante uma corrida. Nunca consigo me lembrar do que passou em minha mente nesses instantes de nada – mas sempre fico com uma espécie de saudade dele no minuto em que o primeiro pensamento qualquer interrompe a paz.

Hoje, naquelas horas escuras do Ibirapuera, o nada foi tão forte que me roubou da memória trechos generosos do percurso. Para falar a verdade, ele durou até a subida da 9 de Julho, quando costumo dar um último tiro na volta para casa.

No total, 11km foram finalizados ainda no escuro, com apenas um ou outro raio de sol mais ansioso querendo aparecer.

O silêncio, no entanto, permaneceu por mais alguns instantes: todos em casa ainda dormiam quando entrei. Fiz café, preparei as roupas da escola da minha filha, tomei banho, me arrumei.

Não dá para dizer que consegui chegar no nada de novo – mas deu para respirar mais fundo, liberando a energia acumulada nas ruas. Deu para descansar do descanso ativo, por assim dizer.

E começar melhor confusão natural de um dia de trabalho na capital paulista.

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Fechando uma semana decisiva

Semana pós-ultra costuma ser leve, sem muita intensidade para permitir que o corpo descanse e se recupere.

Não essa.

Seguindo a resolução de trabalhar mais a velocidade, até diminui o volume (embora mais por questões de trabalho que mataram o longão de ontem) – mas aumentei o ritmo.

Durante a semana, os paces médios nas tempo runs e intervalados – mesmo incluindo os semáforos que sempre atrapalham a vida – ficaram na casa dos 5’20″/km. Hoje saí para um longão de 21Km com mochila de hidratação cheia, somando quilos extras, e mantendo a meta de ficar abaixo dos 6’/km. Funcionou.

Com isso, essa semana de descanso acabou sendo uma espécie de redescoberta de um estilo de corrida onde velocidade conta tanto quanto volume. Costumo ser reticente quanto a isso dado que gosto – e muito – das horas passadas nas trilhas. Mas horas virão naturalmente: tudo é questão de aliar distância e percurso perfeitos.

O domingo, portanto, está bem fechado.

É tempo de aplicar esses ajustes no treino às próximas semanas – afinal, o calendário do primeiro semestre está mais que repleto de metas!

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O sábado que fecha um capítulo (e abre outro)

Faz tempo que não descanso em um sábado. Normalmente não curto isso: é um dia inteiro que considero perdido não apenas sob o aspecto do treino, mas (talvez principalmente) pelo bem que ele me faz ao proporcionar horas perdido nos próprios pensamentos e por caminhos diferentes da cidade.

Mas hoje, verdade seja dita, a realidade é outra.

Hoje estou encarando esse descanso mais como uma espécie de marco de diferentes fases de treino. Quando se coloca uma quebra mais brusca, mais radical, na rotina, se informa também ao corpo que algo está prestes a mudar – e essa informação acaba sendo vital para que ele se prepare melhor.

Hoje é como aquele momento de plena calma antes de alguma tempestade, com aqueles instantes mais elétricos em que tudo está prestes a acontecer – mas nada efetivamente acontece.

Hoje é o dia que marca o fim de um capítulo e o início de um outro, mais voltado para ganho de velocidade sem perda de endurance. Há duas ultras pela frente, afinal, e ambas ainda no primeiro semestre.

Hoje é hora de dizer ao corpo e à mente que está na hora dos dois ficarem mais sérios.

Começando por amanhã.

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A nova fase de preparação

Janeiro está sendo fechado para mim com alguma dose de orgulho (por ter concluído os pantanosos 50K no sábado) e autoconhecimento (por ter esclarecido que esse tipo de corrida não é para mim).

Às vezes apenas ter algumas coisas no currículo já são o suficiente.

Agora, no entanto, começa uma nova fase. Entre abril e junho tenho duas ultras – a Estrada Real e a Comrades – ambas com suas próprias peculiaridades. A Estrada Real será majoritariamente percorrida em trilhas, entre amigos e sem nenhum tipo de organização oficial.

A Comrades é, provavelmente, a ultra mais organizada do mundo, corrida em asfalto e com multidões torcendo pelos 87km do percurso de up-run.

A semelhança entre as duas? Ambas são relativamente velozes, o que significa que todo o meu treino agora deve se focar nisso.

Costumo fazer uma semana mais light depois de provas mais duras e essa não está sendo diferente: recomecei a correr apenas na quarta e o longão tradicional de sábado foi cancelado (embora o motivo tenha sido mais profissional do que pessoal).

Mas, ainda assim, o norte para os treinos já ficaram claros: desde a quarta tenho aumentado o ritmo sensivelmente. Mesmo em intervalados, como os que fiz ontem, a parte “light” foi quase toda acima da zona de regeneração, forçando um pouco o corpo. Coloquei uma imagem da análise de pace, feita pelo Strava, abaixo.

Hoje, não tenho problemas em passar horas e mais horas nas trilhas: a mente segura bem e o organismo resiste sem problemas. Mas, claro, ser mais rápido ajuda em uma recuperação melhor. E velocidade, sendo sincero, era algo que eu estava me dedicando menos do que deveria.

De agora até as próximas provas, portanto, que venha a intensidade!

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Para quem quiser viver (ou reviver) a Comrades 2014…

Comrades está chegando.

Tenho postado alguns vídeos e conteúdos por aqui que, a cada vez que vejo, geram aquela mescla de expectativa com ansiedade e emoção. Quem participou de alguma edição dela sabe exatamente do que estou falando; quem quer participar, por sua vez, já fica com vontade de pular diretamente para o site da prova e confirmar a inscrição.

Em um dos últimos posts, o Eduardo Neves comentou colocando o link para um vídeo-cobertura que ele fez. Curiosamente, apesar de não nos conhecermos, nós dois corremos juntos durante quase todo o percurso – o que significa que ver a filmagem dele é como reviver cada passo que eu mesmo dei no caminho de Pietermaritzburg a Durban.

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