trail run
Pelas trilhas molhadas do Ibirapuera
A ideia nem era sair pra correr hoje, 2 de janeiro, primeiro dia em São Paulo depois dos inenarráveis visuais cariocas que presenciei.
A ideia era descansar pelo menos um dia, dando tempo para o corpo se recuperar melhor das trilhas e montanhas, das subidas, do calor de mais de 40 graus.
Mas como resistir? São Paulo amanheceu bem paulistana: nublada, com temperatura amena e uma finíssima garoa deixando o cenário mais úmido. Foi o suficiente: precisava inaugurar o ano na minha cidade.
Cansado ou não, troquei de roupa, calcei os tênis e saí para o Ibirapuera. Claro: não havia lugar melhor para começar o ano do que lá, que considero uma extensão de casa.
Cruzei as ruas absolutamente desertas de uma cidade que ainda não voltou de férias, entrei pelo portão da República do Líbano e virei à direita. Fui, claro, pela trilha enlameada, encharcada, deliciosa.
Aliás, ela estava tão molhada e carregada de poças que parecia ter havido um dilúvia nos dias em que eu estava fora. Nada melhor: um pouco de lama colore o tênis e a umidade fortalece o aroma das árvores e folhas do caminho.
Cheiros, aliás, estavam mais que marcantes na trilha. Terra molhada, flores, plantas cultivadas na zona das estufas e mesmo a grama pareciam insandecidas na tarefa de perfumar os primeiros ares do ano.
“Que seja uma metáfora para os próximos 12 meses”, torci.
Voltei com esse pensamento em mente. Terminei o loop com o tênis deliciosamente imundo, cruzei a Groenlândia esquisitamente deserta, subi o trecho rápido da 9 de Julho, virei na Brasil, subi toda a Ministro até a Paulista.
Revi a avenida símbolo da metrópole, passei pelo pequeno e bem cuidado Parque Mário Covas, desci a Bela Cintra voando em ritmo queniano.
Estava de volta.
16km de volta a casa, de loop em trilha enlameada, de inauguração de ano.
E ainda tem amanhã.
Niterói, dia 5: Orla de Itacoatiara
Na verdade, esse dia foi o 6. Ontem, dia 31, não me contive e saí para uma corrida de 10K às 2 da tarde sob um sol de mais de 40 graus. Cansei, suei até me desidratar e não cheguei a nenhum lugar bonito – mas valeu pelo simples fato de aproveitar o sol e gastar os últimos quilômetros de 2015.
Hoje, dia 1, foi diferente.
Acordei com aquele ar de ano novo, aquela vontade de iniciar um novo ciclo com toda a inspiração que certamente se fará necessária ao longo dos próximos 12 meses. Infelizmente não pude ir ao Parque da Cidade: rodar 26km sob esse calor e depois de tanta rodagem acumulada não seria “saudável”, para dizer o mínimo. Tudo bem: fica para a próxima.
Resolvi, então, juntar a inspiração para o ano novo e me despedir da belíssima Niterói em uma das mais incríveis praias que já vi: Itacoatiara.
E, assim, saí trotando leve até lá, cortando o calor que já se fazia imponente às 10 da manhã e chegando ao canto da praia carregado de energia. De lá, parei e fique alguns instantes olhando as pedras. Todas: a do Elefante, que subi nos meus primeiros dias, a do Costão, que subi há pouco, a Serra da Tiririca ao fundo e um outro morro que permaneceria um mistério.
Esse contraste de pedra, mar e verde exuberante é simplesmente fantástico. Inesquecível.
Fui de uma ponta a outra curtindo o litoral. Uma música leve embalou o pace e a mente, mudando o pensamento de retorspectiva a perspectiva a passe de mágica.
No final do dia estarei voltando para São Paulo, onde todo um novo ano me aguarda. Ainda terei um final de semana para completar esse bem vindo recesso – mas nada se comparará a esse mergulho na mata atlântica que foi essa descoberta de Niterói.
Nem imagino os desafios que 2016 colocará no caminho – mas é difícil não entrar no ano com a certeza de que todos serão devidamente vencidos depois de dias tão inspiradores, em paisagens tão exuberantes e com trilhas tão fantásticas como estas daqui.
Que venha o novo ano. De preferência com tantas belezas quanto as que encerraram os meus dias de 2015.
Niterói, dia 4: Costão e Bananal
Já acordei aceso: era dia de desbravar duas novas trilhas e paisagens por esta abençoada costa de Nikiti City.
Desta vez saí um pouco mais tarde: o acesso às trilhas do Costão e do Bananal abria apenas às 8 da manhã. Sem problemas: mais tarde, mais sol, mais vista.
Cheguei em Itacoatiara às 8 em ponto e já havia uma pequena fila para subir a trilha. Aos poucos fui desviando de um e de outro, acelerando o ritmo quando dava e respirando forte aquele ar de mata atlântica. Em alguns minutos, uma clareira dava acesso a percursos diferentes.
Peguei o do Costão: queria subir logo a pedra e entender a vista panorâmica da Guanabara. A subida foi curta mas intensa e, em pouco tempo, se transformou em pedra pura.
Perfeita.
Foi uma subida semelhante à da Pedra de Atibaia, daquelas íngremes e com grip forte. Subi rapidamente, fazendo o percurso pelos trechos menos íngremes e serpenteando cactus atrás de cactus que pontilhavam a paisagem.
Olhei para trás: a Pedra do Elefante, imponente, se estendia pela paisagem disfarçando o céu de tons verdes e cinzas.
Segui subindo, subindo, subindo…
Até que me encontrei no topo. De lá, um giro panorâmico forçava a boca a abrir: dava para ver até o Pão de Açúcar, do outro lado da baía. A cena inteira era incrível, fundindo as cidades de Niterói e Rio de Janeiro em um único ecossistema feito de mar, pedra e mata. Cores, muitas cores davam vida à costa dramática daquelas partes certamente abençoada por todos os Deuses.
Fiquei um tempo ali, sentado, apenas bebendo a beleza.
Quando estava já satisfeito, levantei e desci. Foi difícil, confesso, descer de uma vez só ignorando o ímpeto de parar para fotografar as tantas cenas que se abriam. Mas fui.
Quando cheguei de volta à clareira, desci pela segunda trilha, a do Bananal. Deserto, o caminho era fechado e abafado, com um barulho de milhões de mosquitos que protestavam contra o intruso. Mas tudo: as árvores, as pedras, os zunidos e as ondas do mar, transformavam aquilo em uma espécie de paraíso.
O final da trilha dava em uma pequena enseada de pedras. À frente e no mesmo nível, o mar rugia com aquela calma feroz característica de Yemanjá; por trás, mato puro; dos lados, as montanhas.
Há momentos em que apenas devemos agradecer a honra de testemunharmos.
Mais uma vez sentei e respirei.
Aspirei.
Me inspirei.
E saí.
A volta foi percorrida naquele estado de transe pós-trilha, sentindo o sol arder as costas e a deixando a mente repassar e memorizar cada uma das paisagens.
Difícil imaginar um começo de dia melhor.
Niterói, dia 3: Trilha da Pedra do Elefante
Não havia como deixar para outro dia. O gostinho da trilha na manhã anterior e a imagem da Pedra do Elefante (foto acima) estavam ainda frescos demais. Aliás, o mero pensamento de postergar em nome do descanso planilhado gerava calafrios.
Saí novamente, então, no instante exato em que o sol colocava a sua cara para fora. O caminho até a ladeira de Itaipuaçu parecia mais curto e até a subida estava mais leve. Em um punhado de quilômetros estava lá novamente, de frente para a entrada da trilha e, desta vez, com todo o tempo do mundo.
Subi.
Primeiro mais devagar, saboreando o cheiro de terra e mato ao amanhecer. Depois, conter o pace passou a ser impossível: embalado pela umidade quente da mata atlântica carioca, pulei galhos, saltei sobre pedras e quase voei ao chegar nos trechos de single track mais lisos, gostosos.
Em minutos estava na clareira que, talvez sem querer, indicava a metade do percurso. Segui em frente, pulando mais galhos que haviam sido derrubados por uma súbita ventania que varreu os morros horas antes, e cheguei no ponto exato em que parei na manhã anterior.
Olhei em volta, meio que tentando reconhecer o terreno. Havia uma descida mais íngreme pela frente, perfeita para ser engolida aos pulos, e uma nova subida.
Mata fechada.
Calor.
Um verde deslumbrante dominava o cenário.
Em poucos metros, uma luz vinda de um céu até então oculto se esparramou por uma pedra. Diminuí o ritmo em respeito a ela e, em passos lentos, uma vista inenarrável se apresentou.
Desliguei tudo: Strava, celular, mente. Apenas achei um lugar para sentar e passei cerca de dez minutos tentando entender aquela pintura divina com direito a um mar tão azul quanto o céu, a rochedos gigantes se erguendo orgulhosos e árvores espalhando verde por todos os cantos. Ou melhor: por quase todos os cantos, já que o morro à frente tinha uma espécie de caverna imensa cuja porta se abria apenas para os azuis da água e do ar.
Perfeição, se fosse ilustrada, seria assim.
Depois de respirar, decidi dar mais alguns passos: não estava no pico, que exigia uma escalada BEM mais técnica, e queria conferir. Entrei novamente na mata e, depois de alguns passos, um paredão imenso se ergueu em minha frente.
Parei.
Olhei.
Até havia, verdade seja dita, uma veia razoável onde eu poderia encontrar encaixes para os pés e tentar subir. Mas era demais: a altura estava além da coragem, principalmente por eu estar absolutamente só lá na Pedra. Se qualquer coisa acontecesse seria necessário aguardar que outra pessoa decidisse passad por lá para, a partir daí, pedir algum socorro.
Desisti.
Voltei do paredão e parei mais alguns instantes no mirante improvisado pela natureza para tomar ar e inspiração.
Aquelas trilhas, ao menos para mim, estavam já cumpridas.
Era hora de voltar, feliz, e desenhar o percurso do dia seguinte pelo Costão.
Niterói, dia 2: Caçando trilhas
Com a cidade devidamente desbravada, estava na hora de me embrenhar por alguma trilha mais próxima.
Seguindo indicações de amigos, o plano era ir à Trilha do Costão, no Parque Estadual da Serra da Tiririca. Descoberta do dia: o Google Maps não entende muito de trilhas ou de entradas de parques.
Infelizmente, a descoberta veio tarde. Segui pela estrada principal saindo de casa e entrei no sentido de uma serra imensa, ainda crente que estava no caminho certo. Mais tarde, descobriria que havia errado por uma entrada.
Seguro que estava na rota, segui. Subi, subi e subi até um ponto chamado de Mirante de Itaipuaçu. Não nego: o lugar era absolutamente incrível, com uma praia de areia branca esparramada aos pés da serra iluminada pelo sol que, novamente, parecia anabolizado.
Parei, tirei fotos e desci. Tudo, até a praia de Itaipuaçu. Foi lá que me toquei que algo estava errado: não havia nada perto de uma entrada para a Trilha do Costão.
Bom… com quase 8km rodados e a volta inteira por vir, decidi retornar. Subi novamente a serra e, na boca do mirante, vi uma placa indicando a entrada de uma outra trilha, a do Elefante. Já tinha lido sobre ela: era maior, mais bonita e mais dura.
Olhei para o relógio: já estava na hora de retornar. Olhei para a trilha: “puxa, como desistir de algo assim?”, me perguntei.
Fiz um acordo comigo mesmo: aproveitaria um trecho dela, sem ir até o final, apenas para sentir aquele cheiro sensacional de mato. Subi como se não houvesse amanhã: rápido, leve, tranquilo. Pelos meus cálculos, devo ter feito 60% da trilha – e, pelo menos até ali, não achei nada muito técnico.
Mas o tempo, infelizmente, costuma ter pouca misericórdia: já estava atrasado e seguir em frente certamente me traria problemas.
Voltei.
Desci a trilha feito uma bala: descidas assim, em singletracks leves dentro de uma mata fechada, são absolutamente sensacionais.
Quando cheguei de volta ao mirante, virei à esquerda e desci mais asfalto, mantendo um ritmo apertado. No total, cheguei em casa com 18km rodados em pouco mais de 2 horas, muita felicidade estampada no rosto e a certeza de que farei a Trilha do Elefante inteira nos próximos dias!
El Cruce: Mapa e altimetria da etapa 3
Como devem ser a noite e o amanhecer em um acampamento no alto das montanhas andinas, sem luzes urbanas e com aquele silêncio que apenas a natureza consegue proporcionar?
Essa é a minha principal curiosidade e ansiedade quanto ao Cruce. Não é só o desafio de cruzar a cordilheira, colocando o pé no Chile e voltando para a Argentina: é a curiosidade de sentir a vida no alto das montanhas. De estar em um dos topos do mundo, de respirar o ar puro, de sentir a altitude, de ver o planeta todo esparramado aos meus pés.
Esta terceira e última etapa terá a primeira metade quase toda pela espinha dorsal das montanhas, provavelmente permitindo cenas memoráveis. Somente depois, lá pelo km 18, é que devemos descer e tomar caminhos mais ou menos planos até a chegada em San Martin de Los Andes.
No total, serão 30km com 2.094m de subida e 2.530m de descida.
No acumulado dos 3 dias de Cruce, terei rodado 100km, subido 5.091m e descido 5.229m. Para contextualizar, isso dará pouco mais da metade do Everest (8.848m) e mais que Mont Blanc (4.810m).
E nem imagino as cenas que estarão gravadas em minha mente.
Bom… a organização do Cruce ficou de disponibilizar algumas fotos do percurso nas próximas cartas aos corredores. Assim que chegar, posto por aqui.
El Cruce: Mapa e altimetria da etapa 2
Aqui começa um novo território para mim.
Em tese – bem em tese – rodar 100km em um só dia é “mais fácil” do que quebrado em 3 dias. Não sei se acredito nisso.
Afinal, quando se está no embalo de uma ultra, a mente cessa apenas depois de enxergar a linha de chegada. Dor de verdade vem depois, na manhã seguinte, quando cada milímetro da musculatura começa a bradar contra a via crucis que acabara de ser concluída. Mas o fato é que o corpo reclama depois que se roda 100, 90, 80, 50 ou mesmo menos quilômetros. Basta que o desafio seja intenso e haverá um espaço seguro para inflamação e dor. É aí que entra o desafio de ultras em estágios.
Quando amanhecer neste segundo dia o corpo já terá acumulado 42km nas montanhas andinas com direito a 1.700 metros de subida e 1.800 de descida. E sabe o que aguarda?
28km de adrenalina pura com mais 1.264 metros de subida e 815 de descida.
Nesta etapa nos afastaremos do lago Lácar e entraremos mais a fundo nas montanhas, o que certamente será um presente para os olhos. Aliás, foi precisamente por esta etapa que escohi me inscrever na categoria “amador” (ao invés de “elite”). Apesar de ambas terem tempos relativamente folgados, queria ter a garantia de poder parar para tirar fotos em qualquer um dos pontos que julgar inesquecíveis.
Há um ponto negativo aqui: a falta de um lago gelado na chegada impedirá o corpo de descansar como deveria. Tudo bem: a esta altura, com 70km acumulados, imagino que o corpo começará a entrar naquele estado de desistência de reclamação. Conto com isso.
El Cruce: Mapa e altimetria da etapa 1
No total, a primeira etapa do Cruce terá 1.733m de desnível positivo, 1.884m de desnível negativo e 42km de distância.
Pelo mapa, abaixo, há ainda outro elemento importante: o cenário, partindo dos arredores de San Martin de Los Andes, parece deslumbrante.
A cada nova informação divulgada, a ansiedade só cresce.

Fechando o ano no Pico do Urubu
2015 foi um ano intenso para mim.
Ele abriu, já em janeiro, com 50K por puro charco na Serra do Mar.
Emendou com a Ultra Estrada Real (87K), prova que concebi aqui pelo blog e que foi ganhando adeptos de maneira espontânea, se auto-organizando e acontecendo pelo maravilhoso interior de Minas.
Teve minha segunda Comrades (87K), experiência absolutamente inesquecível. Teve mais 50K por Atibaia.
Teve os meus primeiros 100K nas malvadas trilhas da Indomit Costa Esmeralda.
E, entre uma e outra prova, teve muito trabalho, muito treino, muito foco e muitas, muitas novas amizades feitas.
Mas 2015 foi além disso: foi o ano em que realmente me entreguei às trilhas, perdendo medo de qualquer tecnicidade e aprendendo, ainda que a duras penas, a voar ladeira abaixo e correr ladeira acima.
Nada mais natural do que me despedir de 2015 nas trilhas, portanto.
E, assim, fui com um grupo de 30 trilheiros para o Pico do Urubu, aqui no interior de São Paulo. Tece de tudo: um pouco de asfalto, muita estrada de terra, singletracks gostosos, mais de mil metros de subida, uma vista deslumbrante. De certa maneira, esses 23km que percorri ora rindo com amigos, ora calado, imerso em meus próprios pensamentos, foram uma mini-versão de um ano tão intenso quanto cansativo.
Quando cheguei de volta ao carro, 3 horas depois, estava mais revigorado do que cansado. Foi como um banho de mar às vésperas do ano novo: aquela trilha me fez cortar, mentalmente, o Tempo: separou 2015 de 2016.
Ainda há dias pela frente, claro – mas nem sempre o tempo se mede pelo calendário.
Domingo foi um belo exemplo disso.



































